Entre o Céu e o Mar.
2 Conhecendo Ismália.
Notas iniciais
–Emma?- Chamou Ruby. — EMMA!- dessa vez a morena gritou, despertando a amiga de um sono profundo, porém conturbado. — Olha só, é problema seu se você vai levantar ou não, só queria dizer que você está atrasada para a aula de Regina.
Regina?
Regina. Literatura. História. Professora. O cérebro de Emma logo reagiu a aquelas palavras e despertou. Ah, Regina... Regina que a lembrava da endiabrada Capitu. Que a fazia ter os mais fortes e estranhos desejos. Regina que também era a professora de literatura e história mais odiada do colégio.
Levantou-se bruscamente e tomou um banho rápido, sem se preocupar em lavar os cabelos, afinal, não poderia perder nenhum minuto longe de sua Capitu.
–SQ-
Regina correu os olhos pela sala. Pela primeira vez desde que Emma chegara na escola ela não via a menina sentada assistindo, atenciosamente, à sua aula. Ficou, obviamente, preocupada. Será que Emma havia adoecido? Ou pior, teria Emma tentado suicídio, coisa que era comum por ali? Não. Não. Não. Afastou aqueles pensamentos da cabeça pois sabia que aquela garota não tentaria algo daquele tipo.
Um pigarreio no fundo da sala a fez voltar à realidade. Ela estava ali para dar aula, e não para fantasiar sobre uma adolescente de 17 anos que mal tinha aprecio e tinha feito ela perder a cabeça.
–Perdoem-me pela distração, não ocorrerá novamente. — Desculpou-se a professora. — Onde eu estava mesmo?
– Simbolismo*, professora. — gritou alguém do fundo da sala.
– Pois bem, agora que já expliquei o que foi o simbolismo, vou falar para vocês um pouco do meu poeta simbolista favorito, Alphonsus de Guimaraens** — Ela se abaixou para pegar um livro dentro da pasta largada no chão e pediu para que as alunas abrissem o livro na página 90, que continha o poema "Ismália", um dos mais famosos daquela escola literária.
Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar
Ela lia e entendia o sentido daquelas palavras. Ela sabia o que o autor queria dizer com aquilo e esperava que suas alunas soubessem o mesmo.
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
Regina lembrou, então, de todas as vezes que tinha se perdido em devaneios, sonhos, desejando ter duas coisas distintas ao mesmo tempo.
E num desvario seu
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar
Ouviu então uma voz juntar-se a sua e logo reconheceu o timbre doce e jovial de Emma. Sorriu, sabendo que a loira conhecia de cor o poema, e então deixou que ela completasse.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao
Seu corpo desceu ao mar.
Finalmente, Regina tirou os olhos do livro em que lia o poema e olhou para as adolescentes presentes naquela turma, todas encantadas pela beleza daquele poema. Olhou para uma em especial que sorria de canto, reconhecendo um pouco de si mesma naquelas palavras de Alphonsus.
– Gostaria de saber o que vocês entenderam sobre essa poesia. — A morena esperou alguma aluna se manifestar sobre o que foi lido. — Ninguém? Bem, então vou escolher a senhorita Ruby, que resolveu aparecer na minha aula por algum milagre divino.
A turma riu. Ruby não. Apenas ela e Deus sabiam o quanto Regina poderia ser odiável.
–SQ-
–Sua amiga me odeia. — Regina falou, mordendo uma suculenta maçã vermelha.
–Eu poderia dizer que é impressão sua, mas não é. — Emma riu. — Ela te odeia mesmo.
Regina não pode deixar de notar o quão linda Emma era quando sorria. Aqueles cachos loiros presos num coque frouxo no topo de sua cabeça, fazendo contraste com sua pele clara como o sol e combinando com seus olhos verdes a deixavam parecida com um anjo. Uma Ismália, que queria o céu e o mar ao mesmo tempo e que apenas não sabia que era impossível ter os dois.
A professora já havia percebido que, nesses dois meses de aula que Emma havia frequentado na Sine Timore High, a aluna mantinha uma certa paixonite por ela. Uma paixonite completamente correspondida, mas que Regina nunca iria deixar transparecer, até porque relacionamentos entre alunos e professores eram terminantemente proibidos.
– Eu não sei o que eu fiz para ela, honestamente. — Regina agora se levantava da mesa e se dirigia para o jardim, onde ela e Emma gostavam de andar depois que almoçavam.
Emma riu novamente e correu para alcançar a professora, que já estava vários passos a frente dela. Colocou suas mãos no ombro da morena e fez uma pequena massagem no local, esperando que o gesto passasse despercebido.
Não passou.
– Eu vou conversar com ela, dizer que você não morde, tá certo?
– Eu é que não quero. Se ela quer me odiar, ela que odeie. — Regina falou com desdém. — Querida, lembre-se que eu já sou formada e não devo nada a ninguém. Ela que deve.
– Eita Capitu impossível. — Emma disse e se arrependeu no mesmo momento, ninguém sabia que ela havia apelidado a professora assim.
– Capitu?- Regina ergueu as sobrancelhas perfeitamente delineadas.
– É porque você me lembra dela. — a loira disse sem graça.
– Eu pareço uma cigana dissimulada para você, senhorita Swan? — a professora agora se divertia com o desconcerto da aluna. — Pois você me lembra de Ismália.
– Ismália? Eu não sou maluca não, se você quer saber. — Emma se defendeu, indignada com a comparação.
Eu sou maluca sim, pensou ela. Maluca por você.
– Ismália sim, e ponto final. Fica ai toda sonhadora, daqui a pouco vai estar se jogando de torres para tentar alcançar a lua refletida no mar. — As duas estavam já sentadas em um dos vários banquinhos espalhados pelo jardim. Regina descansava de leve sua mão esquerda na coxa direita de Emma e, por sua vez, Emma descansava sua cabeça no ombro de Regina.
Quem visse diria que elas eram namoradas.
– Se você ficar me chamando de Ismália, eu vou te chamar de Capitu. — Emma desafiou.
– Antes cigana dissimulada e obliqua do que suicida. — Regina respondeu prontamente e as duas riram. Ficaram apreciando a presença uma da outra por um tempo e depois cada uma seguiu o seu caminho.
– SQ -
Emma chegou sorridente em seu quarto. Depois da conversa com Regina, ela havia aproveitado para tomar um banho relaxante na piscina do colégio.
– Tem um bilhete para você, senhorita Ismália. — Ruby riu e a entregou um envelope.
Como será que ela sabia do apelido, indagou Emma. Então percebeu escrito no fundo, com uma letra totalmente floreada, "Para Ismália". Abriu o bilhete e começou a ler.
"Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...
Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos."
O bilhete continha apenas aquele trecho, e no final a assinatura "Capitu". Emma logo compreendeu que se tratava de uma brincadeira de Regina com o seu sobrenome. Uma brincadeira de muito bom gosto, afinal, aquele poema era lindo. Leu-o mais uma vez e o guardou, com todo carinho, debaixo de seu travesseiro. Ela seria o cisne branco de Regina.
"Celeste... É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste...
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?"
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