​O silêncio que se seguiu à declaração de Claire Mackenzie não foi apenas um silêncio; foi uma ausência total de som, como se o próprio tempo tivesse parado no Salão de Banquetes. O tinido dos talheres cessou, as risadas morreram nas gargantas dos nobres e até a música de fundo pareceu diminuir de volume.

​Centenas de olhos estavam fixos na mesa principal. A audácia de Claire era inaudita. Desafiar e insultar o herói do reino, o General implacável, em sua própria festa de boas-vindas? Era uma loucura.

​Marcus Sinclair permaneceu imóvel. A única indicação de sua fúria era a tensão em sua mandíbula, que parecia feita de granito, e o escurecimento perigoso de seus olhos. Lentamente, ele pousou o talher sobre o prato de ouro, o som ecoando como um tiro no silêncio.

​— Mal cuidado? — A voz de Marcus saiu baixa, como o rosnado de um predador prestes a saltar. — Senhorita Mackenzie, se não me engano... enquanto eu e meus homens garantíamos que o seu mundo de seda e perfumes permanecesse intacto, não tínhamos o luxo de alfaiates e lavanderias em cada acampamento. Minha armadura está suja com o sangue de inimigos que, se tivessem chegado aqui, não teriam se importado com a "elegância" do seu pescoço antes de cortá-lo.

​Um suspiro coletivo percorreu o salão. O Conde Valerius empalideceu drasticamente.

​Claire, no entanto, não recuou um milímetro. Pelo contrário, ela se inclinou para a frente, seus olhos verdes brilhando com uma fúria desafiadora. Sua mão direita, que antes descansava casualmente sobre a mesa, fechou-se ao redor de uma coxa de frango assado que estava em seu prato.

​— Seus sacrifícios são louváveis, General — disse ela, com uma doçura venenosa. — Mas isso não lhe dá o direito de trazer sua falta de modos e grosseria para a mesa do Rei. Se a guerra o transformou em um animal que só entende de violência, talvez o seu lugar não seja aqui, mas sim em uma gaiola, onde não possa ofender a sociedade que defende com sua... "estratégia e sangue".

​A tensão no ar era quase palpável. A mão de Claire apertou ainda mais a coxa de frango. Seus olhos não desgrudavam dos de Marcus. Era evidente que, ao menor movimento agressivo dele, aquela coxa de frango voaria diretamente em seu rosto.

​A Rainha Elowen, percebendo o perigo iminente, decidiu intervir. Ela conhecia Claire Mackenzie como a palma de sua mão. Sabia que a língua afiada da dama era sua principal defesa, mas também sabia que, se provocada o suficiente, Claire não hesitaria em usar qualquer coisa como arma, incluindo o jantar. A rainha já vira Claire taticamente lançar um bolinho em um duque atrevido meses atrás. Ela não permitiria que a celebração nacional terminasse em um escândalo culinário.

​— Claire! — A voz da Rainha Elowen foi cortante e autoritária, embora mantivesse um tom de calma glacial. — Isso já foi longe demais. O General Sinclair é nosso convidado de honra e merece o devido respeito. Peço desculpas pela falta de modos dele, se o ofenderam, mas você deve conter sua língua.

​Claire virou a cabeça para a rainha, a expressão ainda furiosa, mas a autoridade de Elowen era inquestionável. Relutantemente, a dama afrouxou o aperto na coxa de frango e a soltou de volta no prato.

​— Como desejar, Majestade — respondeu Claire, a contragosto, embora o olhar que lançou a Marcus ainda fosse puro fogo.

​A Rainha Elowen, em seguida, voltou sua atenção para o general.

​— E General Sinclair — continuou ela, com um tom ligeiramente mais suave, mas ainda firme. — Agradecemos sinceramente seus serviços ao reino e sua dedicação. No entanto, lembre-se de que a guerra acabou. No Palácio de Lâfrer, esperamos que as batalhas sejam travadas com palavras, não com insultos diretos. Agradeceria se pudesse moderar seu temperamento.

​Marcus olhou para a rainha, sustentando o olhar dela por um momento antes de assentir.

​— Majestade — disse ele, com uma reverência tensa.

​Enquanto isso, o Rei Dhorwack Lâfrer, sentado em seu trono, travava uma batalha interna. Ele olhava de Marcus para Claire e depois para sua esposa. Seus olhos brilhavam com um divertimento mal disfarçado. A tensão cômica da situação, a audácia da dama e a fúria do general... tudo isso lhe causava uma vontade quase incontrolável de rir. No entanto, ele sabia que a dignidade da coroa dependia de sua compostura. Ele limpou a garganta, cobrindo a boca com a mão para esconder o sorriso que ameaçava escapar.

​— Sim, sim — disse o rei, a voz levemente trêmula. — Vamos focar no banquete. A vitória foi conquistada, a paz está aqui. Vamos celebrar com alegria e... harmonia, na medida do possível.

​A intervenção da Rainha Elowen restaurou uma aparência de ordem, mas a paz na mesa principal era frágil. A música recomeçou, o falatório dos nobres voltou, mas com um tom mais sussurrado e cheio de fofocas sobre o "incidente".

​Marcus Sinclair voltou a comer, com movimentos mecânicos e furiosos. Claire Mackenzie manteve-se em silêncio, sua postura rígida e desafiadora. O Palácio de Lâfrer podia ser uma gaiola de ouro, mas o Leão estava irritado, e a Dama de Companhia estava armada com uma língua de aço e uma coxa de frango. A guerra, no final das contas, talvez não tivesse realmente acabado. Ela apenas mudara de cenário.