Entre o Aço e a Sombra
4 Café de faíscas
O sol da manhã entrava pelas altas janelas da sala de desjejum, iluminando as pratarias e o banquete de frutas frescas, pães artesanais e geléias. A Rainha Elowen e suas damas já estavam acomodadas, conversando em tons baixos, quando o som pesado de botas ecoou no mármore.
Marcus Sinclair entrou no recinto. Ele havia trocado a armadura por uma túnica de montaria escura, mas a expressão de "poucos amigos" continuava a mesma. O maxilar travado indicava que ele ainda preferia estar gritando ordens em um campo de batalha a ter que escolher entre um croissant ou uma fatia de melão.
Assim que a sombra dele cruzou o batente da porta, Claire Mackenzie, que levava uma xícara de porcelana finíssima aos lábios, parou o movimento. Ela revirou os olhos com tanta vontade que por um segundo pareceu conferir o próprio cérebro, soltando um suspiro audível.
Ao notar o olhar de advertência da Rainha, Claire empertigou a postura e colocou no rosto o seu melhor sorriso de "etiqueta de fachada".
— Ah, vejam só... o sol mal nasceu e o nosso grande herói já honra o palácio com sua aura... vibrante — disse Claire, a voz doce como mel envenenado. — Bom dia, General. Espero que os lençóis de seda não tenham sido macios demais para sua pele acostumada com a lama. Deve ser um trauma terrível acordar sem o som de trombetas e gritos de guerra.
Marcus parou ao lado da mesa, os olhos fixos nela. A irritação subiu pelo seu pescoço como uma chama.
— Dormi perfeitamente, senhorita Mackenzie. O silêncio do palácio só é quebrado por ruídos desnecessários, mas já estou me acostumando a ignorá-los — rebateu ele, sentando-se com uma rigidez que ameaçava quebrar a cadeira.
— Que bom! — Claire exclamou, fingindo entusiasmo enquanto passava manteiga em um pedaço de pão com uma precisão cirúrgica. — É um alívio saber que sua sensibilidade não foi ferida pelo conforto. Estávamos justamente comentando como o senhor parece... integrado. Quase não se nota que prefere a companhia de cavalos à de seres humanos civilizados. É um esforço de atuação magnífico, de verdade.
Ela o olhou de cima a baixo, detendo-se na túnica dele.
— E que escolha de traje interessante para um café da manhã real. Tão... funcional. Imagino que esteja pronto para invadir as cozinhas caso o café demore a ser servido, não é?
O General apertou o cabo da faca de mesa com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O Rei Dhorwack, escondido atrás de um jornal da corte, soltou um "hum-hum" que soou suspeitamente como uma risada abafada.
— Minha função aqui é descansar, senhorita. Mas se a sua língua continuar tão afiada, posso acabar achando que ainda estou em território inimigo — rosnou Marcus.
Claire soltou uma risadinha cristalina, levando a mão ao peito em um gesto de falsa modéstia.
— Oh, General, não seja tão dramático. Território inimigo? Eu sou apenas uma dama preocupada com o bem-estar do nosso hóspede mais... rústico. Aceita uma uva? Dizem que ajuda a acalmar os nervos de quem vive constantemente à beira de um ataque de fúria.
A Rainha Elowen apenas massageou as têmporas, percebendo que o dia seria muito longo.
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