A jornada de volta foi um pesadelo de lama e frio. Claire cavalgou como se as fúrias a perseguissem, chegando aos portões do palácio ensopada, pálida e tremendo violentamente. Marcus surgiu logo atrás, seu cavalo bufando exaustão, mas ela sequer olhou para ele ao ser amparada pelas criadas.

​Dois dias se passaram. O silêncio nos corredores do palácio parecia mais pesado para o General Sinclair do que o barulho de qualquer campo de batalha. No terceiro dia, durante o jantar real, a cadeira à esquerda da Rainha Elowen permanecia vazia.

​Marcus tentou manter a postura, cortando sua carne com uma precisão quase mecânica, mas seus olhos não paravam de desviar para o lugar vago. O Rei Dhorwack observava o amigo de soslaio, notando a inquietação por trás da fachada de ferro.

​— Majestade — Marcus finalmente quebrou o silêncio, sua voz soando mais rouca que o normal. — A senhorita Mackenzie... ela decidiu prolongar seu retiro nos aposentos para evitar minha presença, ou finalmente aprendeu o valor do silêncio?

​A Rainha Elowen pousou sua taça de cristal com uma lentidão deliberada. Seu olhar para Marcus não era de diversão, mas de uma preocupação severa.

​— Receio que não seja nenhuma das duas coisas, General — respondeu a Rainha, a voz baixa. — Claire está em um estado delicado. A chuva e o frio daquela noite cobraram um preço alto. Ela está de cama com uma febre altíssima desde que chegou. O médico real teme que a inflamação nos pulmões se agrave se a temperatura dela não baixar logo.

​O talher de Marcus bateu contra o prato de porcelana com um estalo seco que ecoou pelo salão. Ele sentiu um nó frio se apertar em seu estômago — uma sensação que nem a pior emboscada inimiga jamais lhe causara.

​— Febre? — ele repetiu, a palavra parecendo amarga em sua boca.

​— Muita febre — confirmou Elowen, suspirando. — Ela delira às vezes, chamando por ninguém em específico, mas recusa-se a comer ou aceitar o caldo de ervas. Sua teimosia é tamanha que ela luta contra o próprio tratamento, mesmo estando fraca.

​O Rei Dhorwack limpou a garganta, olhando seriamente para Marcus.

​— Ela é uma mulher forte, mas aquela cavalgada noturna foi uma loucura, Marcus. Uma loucura movida por um orgulho ferido.

​Marcus não respondeu. Ele se levantou abruptamente, esquecendo-se por um momento da etiqueta real.

​— Com licença, Majestades. Perdi o apetite.

​Ele saiu do salão com passos largos, mas não foi em direção aos seus aposentos. Seus pés o guiaram, quase por instinto, para a ala das damas de companhia. Ele parou diante da porta de Claire, onde uma pequena luz de vela escapava por baixo da madeira.

Marcus esperou nas sombras do corredor, encostado na parede de pedra, com os braços cruzados e a expressão obscurecida pela penumbra. Ele viu o médico real sair do quarto, balançando a cabeça negativamente para uma das criadas e sussurrando algo sobre "teimosia que consome o corpo".

​Assim que o corredor ficou deserto, o General Sinclair empurrou a porta pesada. O som foi quase imperceptível, mas o calor que emanava do quarto o atingiu imediatamente. O ar estava pesado com o cheiro de ervas medicinais, cânfora e o calor febril.

​Ele caminhou até a beira da cama. Claire, a mulher que dois dias atrás parecia uma força da natureza imparável, agora parecia pequena sob as cobertas de seda branca. Seu rosto, geralmente vívido e rosado de indignação, estava pálido, exceto pelas manchas vermelhas de febre nas maçãs do rosto. Seus cabelos ruivos, sempre impecavelmente presos, estavam espalhados pelo travesseiro como fios de cobre emaranhados.

​Marcus sentou-se na beira da cama, e o colchão cedeu sob seu peso. Ele estendeu a mão, hesitando por um segundo, antes de encostar as costas dos dedos na testa dela. Ela estava queimando.

​— Sinclair... — Claire murmurou, os olhos fechados, a voz mal passando de um sussurro rouco. — Saia... vá para sua guerra... homem de pedra...

​Ela estava delirando, mas mesmo no inconsciente, a língua dela continuava afiada contra ele. Marcus sentiu uma pontada estranha no peito, algo que não sentia há anos: culpa pura e crua.

​— A guerra acabou, Mackenzie — ele murmurou, sua voz descendo a um tom suave que nenhum de seus soldados jamais reconheceria. — E você é a única pessoa que sobrou para lutar comigo. Não ouse morrer e me deixar ganhando discussões sozinho. Seria um tédio insuportável.

​Ele pegou um pano de linho que descansava em uma bacia de água fria ao lado da cama, torceu-o e, com uma delicadeza surpreendente para mãos que só conheciam o cabo de uma espada, começou a limpar o suor da testa dela.

​Claire soltou um suspiro trêmulo e, por um breve momento, parou de se debater. Ela abriu os olhos minimamente, as pupilas dilatadas pela febre focando no rosto duro de Marcus acima dela.

​— Você... — ela sussurrou, tentando puxar a mão, mas sem forças. — Veio ver... se a boneca de porcelana... quebrou?

​Marcus não desviou o olhar. Ele segurou a mão pequena e quente dela entre as suas, ignorando o sarcasmo moribundo.

​— Vim garantir que ela seja colada novamente — respondeu ele, sério. — Porque eu ainda não terminei de odiar suas cortinas azuis.