Entre o Aço e a Sombra
9 O Gelo e a Brasa
O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira e pela respiração pesada de Claire. Marcus permanecia sentado na beira da cama, observando a mulher que, em poucos dias, havia causado mais estragos em sua paciência do que anos de cerco militar.
Claire piscou devagar, a névoa da febre parecendo se dissipar por um breve instante ao sentir o toque frio do pano em sua testa. Ela tentou se sentar, mas uma onda de tontura a fez recair sobre os travesseiros.
— Fique parada, Mackenzie — ordenou Marcus, a voz baixa, mas mantendo aquele tom de comando que não admitia réplicas. — Você mal consegue manter os olhos abertos.
— O General... dando ordens até para os doentes — ela sussurrou, um esboço de sorriso irônico surgindo em seus lábios pálidos. — Veio conferir se eu já tinha... batido as botas? Assim a mansão seria toda sua... sem cortinas.
Marcus soltou um suspiro curto, deixando o pano de lado e encarando-a com uma seriedade que a fez calar.
— Eu não queria que você saísse naquela chuva. Eu disse coisas... que um oficial não deveria dizer a uma dama. Mesmo a uma dama tão insuportável quanto você.
Claire desviou o olhar para a janela, onde a lua começava a aparecer entre as nuvens. O fogo da raiva de dois dias atrás havia sido substituído por um cansaço profundo.
— Você me chamou de boneca arrogante, Sinclair. De parasita.
— E você me chamou de animal sem alma — rebateu ele, mas sem veneno na voz. — Acho que estamos quites no departamento de ofensas, não acha?
Houve uma pausa longa. Claire sentiu o calor da mão de Marcus, que ainda segurava a dela por reflexo. Era uma mão áspera, cheia de calos e cicatrizes, mas estranhamente protetora.
— Eu não odeio você, Marcus — ela disse, a voz tão baixa que ele precisou se inclinar para ouvir. — Eu só... eu detesto como você olha para este mundo como se nada nele tivesse valor se não puder ser usado em uma batalha. A vida é mais do que sobrevivência.
Marcus olhou para as mãos unidas. Pela primeira vez, o General Sinclair baixou a guarda.
— Talvez. Eu passei tanto tempo garantindo que o mundo continuasse existindo que esqueci como viver nele.
Claire apertou levemente os dedos dele.
— Vamos fazer um acordo. Uma trégua de verdade. Sem gritos, sem cavalos na chuva e... sem ofensas sobre meu estoque de fitas.
Marcus soltou um meio sorriso, algo raro que iluminou suas feições endurecidas.
— E sem piadas sobre meu cavalo jantar na sala de estar?
— Não prometo milagres, General — ela brincou, fechando os olhos exausta. — Mas vou tentar.
— Durma, Claire. Eu estarei aqui se a febre voltar.
Ela não discutiu. A exaustão a venceu, e pela primeira vez naquela noite, seu sono foi tranquilo. Marcus não saiu do lado dela. Ele ficou ali, guardando o sono da única pessoa que teve a coragem de enfrentá-lo e, de alguma forma, vencer.
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