​O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira e pela respiração pesada de Claire. Marcus permanecia sentado na beira da cama, observando a mulher que, em poucos dias, havia causado mais estragos em sua paciência do que anos de cerco militar.

​Claire piscou devagar, a névoa da febre parecendo se dissipar por um breve instante ao sentir o toque frio do pano em sua testa. Ela tentou se sentar, mas uma onda de tontura a fez recair sobre os travesseiros.

​— Fique parada, Mackenzie — ordenou Marcus, a voz baixa, mas mantendo aquele tom de comando que não admitia réplicas. — Você mal consegue manter os olhos abertos.

​— O General... dando ordens até para os doentes — ela sussurrou, um esboço de sorriso irônico surgindo em seus lábios pálidos. — Veio conferir se eu já tinha... batido as botas? Assim a mansão seria toda sua... sem cortinas.

​Marcus soltou um suspiro curto, deixando o pano de lado e encarando-a com uma seriedade que a fez calar.

​— Eu não queria que você saísse naquela chuva. Eu disse coisas... que um oficial não deveria dizer a uma dama. Mesmo a uma dama tão insuportável quanto você.

​Claire desviou o olhar para a janela, onde a lua começava a aparecer entre as nuvens. O fogo da raiva de dois dias atrás havia sido substituído por um cansaço profundo.

​— Você me chamou de boneca arrogante, Sinclair. De parasita.

​— E você me chamou de animal sem alma — rebateu ele, mas sem veneno na voz. — Acho que estamos quites no departamento de ofensas, não acha?

​Houve uma pausa longa. Claire sentiu o calor da mão de Marcus, que ainda segurava a dela por reflexo. Era uma mão áspera, cheia de calos e cicatrizes, mas estranhamente protetora.

​— Eu não odeio você, Marcus — ela disse, a voz tão baixa que ele precisou se inclinar para ouvir. — Eu só... eu detesto como você olha para este mundo como se nada nele tivesse valor se não puder ser usado em uma batalha. A vida é mais do que sobrevivência.

​Marcus olhou para as mãos unidas. Pela primeira vez, o General Sinclair baixou a guarda.

​— Talvez. Eu passei tanto tempo garantindo que o mundo continuasse existindo que esqueci como viver nele.

​Claire apertou levemente os dedos dele.

​— Vamos fazer um acordo. Uma trégua de verdade. Sem gritos, sem cavalos na chuva e... sem ofensas sobre meu estoque de fitas.

​Marcus soltou um meio sorriso, algo raro que iluminou suas feições endurecidas.

​— E sem piadas sobre meu cavalo jantar na sala de estar?

​— Não prometo milagres, General — ela brincou, fechando os olhos exausta. — Mas vou tentar.

​— Durma, Claire. Eu estarei aqui se a febre voltar.

​Ela não discutiu. A exaustão a venceu, e pela primeira vez naquela noite, seu sono foi tranquilo. Marcus não saiu do lado dela. Ele ficou ali, guardando o sono da única pessoa que teve a coragem de enfrentá-lo e, de alguma forma, vencer.