Entre o Amor e as Correntes
15 Capítulo 15
O relógio digital marcava 2h13 quando o som de uma nova notificação rompeu o silêncio do quarto.
Sara, debruçada sobre o laptop, ainda revisava os últimos relatórios do curso. O cansaço era evidente, mas o brilho azul da tela a mantinha desperta.
Ela pegou o celular, distraída, esperando mais uma mensagem de Grissom — talvez outro vídeo, outra observação gentil.
Mas o remetente era desconhecido.
O assunto: “Ainda confia nele?”
A testa dela se franziu.
Com um toque, abriu o e-mail.
E o mundo parou.
A primeira imagem surgiu fria, granulada — o quarto de Grissom.
Na cama, ele e Heather.
Sem roupas.
Os corpos próximos.
Uma garrafa de vinho vazia ao lado.
Sara sentiu o ar sumir dos pulmões. Por um instante, a reação foi puramente física — o estômago revirando, o coração acelerado, os dedos tremendo.
Não havia legenda, nem mensagem adicional. Apenas as imagens, uma sequência calculada para ferir.
Ela clicou, hesitante, passando para a próxima.
A luz da tela refletia em seus olhos marejados.
— Não... — sussurrou, a voz falhando. — Não pode ser.
A mente racional — a CSI treinada — tentava processar.
Ângulos de câmera, iluminação, posição dos corpos.
Algo ali… não fazia sentido.
Mas o coração não queria lógica.
Ela se levantou, andando em círculos, tentando controlar a respiração.
As mãos pressionaram as têmporas, como se pudesse esmagar o turbilhão de pensamentos.
— Droga, Gil... — murmurou, a voz embargada. — Me diz que não.
A raiva veio depois.
Fria. Silenciosa.
Pegou o celular, abriu a caixa de entrada. Nenhuma mensagem dele. Nenhum aviso.
O último e-mail que trocara com Grissom era de horas antes, um texto leve, quase brincalhão:
“Você ia rir se visse o Ecklie tentando discursar. Quase dormi de olhos abertos.”Ela releu aquilo com os olhos marejados, o contraste entre o humor e a suposta traição a dilacerando.
A investigadora dentro dela insistia: analise, observe, questione.
A mulher apaixonada, porém, só conseguia ver a imagem — o homem que amava, deitado ao lado de outra.
Ela voltou a se sentar, o rosto nas mãos.
O som da chuva lá fora batia na janela, pontuando o silêncio pesado.
Depois de alguns segundos, levantou o olhar para o notebook ainda aberto.
Digitou uma mensagem curta:
“Recebi algo hoje. Espero, por tudo que vivemos, que não seja o que parece.”Olhou o texto por longos segundos.
Mas antes de enviar, hesitou.
Se ele negasse, ela acreditaria?
E se fosse verdade… aguentaria ouvir da boca dele?
No fim, apagou tudo.
Fechou o notebook, desligou o celular e deitou-se na cama, virando-se para o lado vazio.
Os olhos ardiam, mas as lágrimas não vinham mais.
— Sempre tem que ser difícil, não é, Gil? — murmurou com um humor triste. — A gente nunca sabe amar no modo simples.
E, no escuro, sozinha, Sara Sidle ficou imóvel, enquanto o som da chuva se confundia com a respiração pesada de quem tenta não chorar.
Dois dias se passam...
O relógio marcava 08:45 quando Sara entrou na sala de análise, o crachá pendendo frouxo, a expressão exausta.
O curso de aperfeiçoamento estava quase no fim, mas ela mal conseguia se concentrar nas aulas. Desde as fotos, dormia pouco, comia menos e alternava entre a dor da desconfiança e o impulso de se convencer de que tudo era uma armadilha.
Ainda assim, como boa CSI, fingia normalidade.
Ou pelo menos tentava.
— Sara, tudo bem? — perguntou Dra. Ellison, a supervisora do curso, percebendo o rosto pálido da colega.
— É só cansaço — respondeu rápido, abrindo a tela do microscópio. — Viagem, fuso, estresse... essas coisas.
Mas, na verdade, o mal-estar vinha crescendo há dias.
Primeiro, tonturas leves.
Depois, enjoo ao sentir cheiro de café.
E agora, o estômago revirava até com o perfume da colega.
Ela se afastou do microscópio, apoiando-se na bancada.
A visão ficou turva por um instante.
— Ok... respira, Sidle, respira — murmurou para si mesma.
Pegou uma garrafa d’água, tentando disfarçar, mas a professora percebeu.
— Quer sentar um pouco? Está branca.
Sara forçou um sorriso.
— Estou bem. Só preciso de açúcar… ou de férias.
A supervisora assentiu, ainda preocupada, e saiu da sala. Assim que ficou sozinha, Sara se sentou, passando a mão na testa suada.
O pensamento veio como um raio:
Não pode ser.
Ela fechou os olhos, lembrando-se de uma das muitas noites que teve com o namorado.
O toque, o olhar de Grissom, as promessas silenciosas entre um beijo e outro.
Aquela noite antes da viagem.
Sem proteção.
Sem arrependimento.
Abriu os olhos, o coração disparado.
Não... impossível. Eu estava sob muito estresse, meu ciclo deve ter mudado. É só isso.
Mas o corpo não mentia.
Nem a mente que, treinada para observar padrões, já juntava todas as evidências.
Levantou-se e foi até o banheiro.
Trancou a porta e se olhou no espelho.
O reflexo mostrava uma mulher forte, mas agora assustada.
Toque leve no abdômen.
— Sério, destino? Agora? — sussurrou com aquele humor irônico que usava para não desabar. — Você tem um timing péssimo.
O celular vibrou na bolsa.
Mensagem de Catherine:
“Temos novidades sobre as fotos. Heather e Hank estão na mira. Mas precisamos de tempo. Fica calma, tá? Confia na gente.”Sara soltou um riso nervoso.
— Calma? Ah, Cath… se você soubesse.
Sentou-se no chão frio, encostando-se na parede.
O corpo ainda trêmulo, a mente girando em mil direções.
Entre a dor da suposta traição, o medo de estar grávida e a lembrança do homem que amava, uma única frase escapou, quase em sussurro:
— Gil… o que é que a gente fez?
Sara decide tirar a duvida e parte para uma farmácia.
O letreiro piscava em néon vermelho: “Open 24 Hours”.
Sara estacionou o carro alugado na vaga mais distante da entrada, o coração batendo forte. A chuva fina começava a cair, o que combinava perfeitamente com o caos dentro dela.
Entrou com as mãos no bolso, tentando parecer uma cliente qualquer. Um atendente jovem, de fones de ouvido, levantou o olhar e sorriu.
— Boa noite! Posso ajudar?
Ela devolveu o sorriso, rápido e nervoso.
— Não, obrigada. Só… preciso de algumas coisas.
Seguiu pelos corredores iluminados demais para o que pretendia fazer. Parou na prateleira dos testes de gravidez e encarou as embalagens. Tantas opções, nomes diferentes, promessas de “resultado em um minuto”.
Ela pegou três.
Porque, como boa CSI, confiava em redundância e evidências múltiplas.
Enquanto se dirigia ao caixa, pegou também uma garrafa de água, um pacote de balas de hortelã e um analgésico — um disfarce para o que realmente importava.
O atendente passou tudo no caixa, despreocupado.
— A senhora quer nota fiscal?
Sara respirou fundo.
— Não, obrigada.
Saiu rapidamente, o saco de papel nas mãos tremendo levemente. Entrou no carro, deixou as compras no banco do passageiro e ficou parada por alguns segundos, observando as gotas de chuva escorrerem pelo vidro.
— Ok, Sidle. Não é um crime. É só ciência. — murmurou para si mesma, em voz baixa. — Um teste, três resultados, variável controlada.
Mesmo assim, o nervosismo era palpável.
Voltou para o hotel e subiu direto para o quarto. O corredor estava silencioso, o carpete abafando seus passos. Assim que trancou a porta, abriu a sacola com mãos trêmulas. Colocou os três testes sobre a pia, um ao lado do outro, meticulosamente alinhados.
Respirou fundo, lendo as instruções como se fosse um protocolo de perícia.
Cronômetro no celular. Copo de água. E coragem.
Minutos depois, os três estavam virados, aguardando o tempo indicado.
Sara apoiou-se na pia, olhando o espelho.
— Se der negativo… ótimo. Continuo tocando a vida. Se der positivo… — ela riu nervosa — …bom, pelo menos o bebê vai ter um QI de 160.
Tentou brincar, mas a voz falhou no final.
O cronômetro apitou.
Três minutos.
Com um suspiro, ela virou o primeiro teste.
Dois traços.
O segundo.
Dois traços.
O terceiro.
Também positivo.
O ar pareceu sumir.
Sara se encostou na parede fria, deixando-se deslizar até o chão. Os olhos marejaram, mas ela não chorou. Ficou ali, em silêncio, absorvendo o peso daquela revelação.
— Grissom… — sussurrou. — A gente vai ser pais.
O riso nervoso escapou entre as lágrimas que agora insistiam em cair.
O choque, o medo e uma pontinha de alegria se misturaram em uma sensação impossível de definir.
Ela limpou o rosto, ainda trêmula, e olhou novamente os três testes alinhados.
— Três provas. Mesmo resultado. Evidência confirmada.
Pausa.
Sorriso leve, melancólico.
— Parabéns, doutora Sidle. Caso encerrado.
Em Las Vegas...
O relógio da sala marcava quase meia-noite.
Grissom estava sentado na poltrona, o apartamento mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela luz amarelada do abajur. A xícara de chá à sua frente já esfriara há muito tempo, mas ele não parecia se importar.
Os olhos vagavam pelo nada, presos em pensamentos que se acumulavam desde o maldito jantar no cassino.
Dois dias.
Dois longos dias sem ouvir a voz dela de verdade.
Sara havia respondido a uma ou outra mensagem, sempre com frases curtas, secas, diretas. Nenhum “amor”, nenhum “saudades”.
E aquilo doía mais do que ele imaginava que poderia doer.
Pegou o celular, rolou a tela até a última conversa.
A última mensagem que ela mandou ainda estava ali:
“Só preciso de um tempo pra pensar, Gil.”Ele suspirou e encostou o aparelho no peito, como se pudesse sentir algo além do vazio.
— Tempo… — murmurou. — Mas quanto tempo é o suficiente pra apagar o que ela viu?
Levantou-se e começou a andar pelo apartamento, o olhar percorrendo cada canto como se buscasse respostas nas paredes.
Tudo parecia limpo, organizado — graças a Catherine, que havia ajudado a arrumar a bagunça deixada depois da investigação. Mas, pra ele, ainda havia ali o cheiro da confusão, da vergonha, do medo de tê-la perdido.
Parou diante da mesa, onde uma das garrafas de vinho ainda estava vazia, deixada de lado como uma lembrança amarga.
Aquela cena montada por Heather o perseguia nos sonhos.
As imagens, o cheiro, o gosto metálico do desespero.
E, pior de tudo, o olhar de Sara — surpreso, magoado, desconfiado — que ele não conseguia apagar da memória.
Ele se sentou de novo, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Você não merece isso, Sara. — murmurou. — E eu não mereço te perder por causa de uma mentira.
Por um instante, pensou em ligar.
Em ouvir a voz dela, nem que fosse para discutir, gritar, qualquer coisa que quebrasse o silêncio que o estava consumindo.
Mas desistiu.
Sabia que ela precisava de espaço.
O que ele não sabia era que, naquele exato momento, Sara também estava em silêncio — não por raiva, mas por estar diante de uma nova e avassaladora verdade.
Grissom respirou fundo, olhou para a janela e deixou escapar, num sussurro:
— Onde quer que esteja, meu amor… espero que saiba que eu nunca quis te magoar.
E o som da chuva lá fora respondeu com um eco suave, solitário, como se o universo compartilhasse da sua culpa.
Comunicação Alabama X Las Vegas
(Conversa via Skype entre Catherine e Sara)
A conexão de vídeo demorou alguns segundos para estabilizar. A imagem de Catherine surgiu no canto da tela, o rosto iluminado pelo brilho frio do monitor. Do outro lado, Sara apareceu no quarto de hotel — o cabelo preso de qualquer jeito, olheiras marcando o rosto, um copo de café esquecido ao lado.
CW: Ei, menina prodígio. Conseguiu dormir um pouco?
SS: (suspira) O suficiente pra sonhar com o laboratório… então acho que não.
Catherine sorriu de leve, tentando quebrar o gelo.
CW: Aqui também não tá fácil. Ecklie resolveu antecipar os relatórios e o Grissom… bom, o Grissom anda mais calado que o normal.
Sara desviou o olhar, o tom de voz saindo contido:
SS: É, eu imagino.
Catherine percebeu o desvio, a hesitação. Cruzou os braços e inclinou a cabeça, no modo “mãe” que usava sempre que via algo fora do lugar.
CW: Sara… aconteceu alguma coisa?
A morena demorou para responder. Passou a mão no rosto, respirou fundo.
SS: (baixa) Recebi algo.
CW: Algo?
SS: (olhando direto pra tela) Fotos, Cath. Fotos dele… com ela.
O silêncio foi imediato. Catherine ficou imóvel, o maxilar travado.
CW: (devagar) Heather.
Sara assentiu, o olhar amargo.
SS: Elas chegaram dois dias atrás. De um número que eu não conheço. Mostravam ele e ela… na cama. Garrafa de vinho, taças, a cena perfeita.
CW: (balançando a cabeça, firme) Isso é armação. Eu vi o apartamento, Sara. E nada ali fazia sentido. Tinha cheiro de encenação desde o primeiro segundo.
SS: (rindo sem humor) Claro que tinha. Heather sempre foi boa em manipular. Mas sabe o que mais me irrita, Cath? É que ela só conseguiu isso porque ele deixou.
CW: (arqueia a sobrancelha) Como assim, deixou?
SS: (com raiva contida) Ele sempre deu liberdade a ela. Sempre achou que podia controlá-la, entender as intenções dela. Mas a Heather… ela não entende limites, entende brechas. E ele deu várias.
Catherine ficou em silêncio, absorvendo o desabafo.
SS: (com voz trêmula) Ele devia saber que ela não ia parar. Não depois de tudo.
CW: (calma, mas firme) Eu entendo, Sara. Mas você sabe tão bem quanto eu que o Grissom nunca procurou isso. Ela invadiu o espaço dele — como sempre.
Sara respirou fundo, os olhos marejando.
SS: (sussurra) Mesmo assim… dói, Cath. Dói ver e imaginar.
CW: (com suavidade) Eu sei. Mas me escuta — a Heather quer exatamente isso. Que você se afaste, que duvide dele. E se você fizer isso, ela vence.
Sara olhou pra tela por alguns segundos, o rosto refletindo um turbilhão.
SS: (baixo) Eu não sei se consigo.
CW: Consegue sim. Você sempre conseguiu. E se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos é que o amor de vocês é teimoso. Ele sobrevive até às loucuras de Las Vegas.
Sara deu um sorriso pequeno, quase involuntário.
SS: Teimoso… é uma boa palavra.
CW: (sorri também) Pois usa isso agora. E deixa o resto comigo — eu vou descobrir quem mandou essas fotos e como.
Sara assentiu devagar, enxugando uma lágrima que insistia em cair.
SS: Obrigada, Cath.
CW: Só faz uma coisa… não apaga o número que te enviou as fotos. Pode ser a pista que precisamos.
Sara olhou novamente para a tela, e por um instante, o olhar dela se suavizou.
SS: (baixo) Ele devia ter me ouvido, Cath. Eu avisei que Heather era perigosa.
CW: (suspiro pesado) Pois agora ele vai ter que ouvir — de mim.
A chamada caiu, deixando o quarto em silêncio.
Sara ficou encarando o reflexo dela na tela preta, o coração dividido entre raiva e saudade.
Sobre a mesinha, o teste de gravidez repousava ao lado de um envelope com o selo do laboratório do Alabama — o mesmo que confirmava o que ela já sabia no fundo da alma.
Sara ficou olhando para o pequeno bastão branco por longos minutos, o coração acelerado, a mente uma confusão entre alegria, medo e raiva contida.
Ela passou a mão pelo ventre ainda discreto, um gesto instintivo, quase protetor.
— Pois é, pequeno… parece que somos só nós dois por enquanto.
No espelho, o reflexo mostrava uma mulher forte, mas cansada. Forte o bastante para enfrentar uma vida inteira de perdas, mas frágil o suficiente para sentir o peso de mais uma decepção.
Ela se sentou na beira da cama, abrindo o notebook. O cursor piscava na tela, em um e-mail começado e apagado mil vezes.
“Gil, eu preciso te contar uma coisa importante…”Parou. Respirou fundo.
Fechou o laptop.
SS (pensando, em voz baixa): Não agora. Não enquanto eu ainda não sei se posso confiar em você.
Ela levantou-se, indo até a janela. Lá fora, o amanhecer tingia o céu de tons dourados, e por um instante ela sorriu — um sorriso pequeno, triste, mas real.
SS: (sussurra) Quando eu voltar pra Vegas… se você me provar que é o homem que eu amo, o homem que eu posso confiar, então eu conto. Mas se não…
Ela pousou a mão no ventre, firme, decidida.
SS: … então criarei esse bebê sozinha.
O silêncio da manhã envolveu o quarto. O som distante de um trem ecoou ao longe, enquanto Sara se deitava de lado, abraçando o travesseiro como se buscasse um pouco de paz — não só pra ela, mas pro pequeno segredo que carregava.
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