Grissom ajustava os óculos, concentrado em analisar relatórios, mas o ar carregado na sala denunciava que algo estava por acontecer. Catherine se aproximou, passos decididos, expressão séria.

Catherine (seca, direta): — Gil, precisamos conversar. Agora.

Ele suspirou, fechando a pasta.

— O que foi, Cath?

Ela cruzou os braços, fitando-o.

— Você deu liberdade demais à Heather. Isso não é um “detalhe do passado”, Gil. Ela está mexendo com você e, pior… Sara recebeu as fotos.

O sangue de Grissom gelou. Ele respirou fundo, tentando controlar a raiva.

— O quê?

Catherine: — Não finja surpresa. Ela recebeu. E você sabe que a dominatrix não perde tempo. Ela não vai deixar nada passar despercebido. Se continuar dando espaço, você vai perder a confiança dela… e não só isso, pode perder Sara de vez.

Grissom fechou os olhos por um instante, a mente correndo por todos os cenários possíveis.

— Eu sei… sei exatamente o que fiz de errado. E vou corrigir. Ela não vai mais manipular nada em minha vida, Catherine. Prometo que vou dar um basta.

Catherine (mais calma, mas firme): — Então faça, Gil. Não há mais tempo para hesitar. Sara já está tentando segurar a situação sozinha, e eu garanto que ela não vai tolerar mais nenhuma interferência da Heather.

Ele olhou para ela, decidido, a expressão finalmente endurecida.

— Está decidido. Heather não terá mais nenhum controle. E Sara vai saber que eu… estou completamente com ela.

Catherine assentiu, satisfeita com a determinação dele.

— Então vamos garantir que tudo saia conforme planejado. A Heather vai perceber que mexer com vocês dois é um erro que não vai se repetir.

Sara ajustou o cinto, o avião já em altitude de cruzeiro. Fora da janela, as nuvens deslizavam preguiçosamente, mas dentro dela, tempestades se formavam. A viagem para o Alabama tinha sido necessária, mas agora o pensamento corria acelerado: o que a esperava em Las Vegas?

Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo. O voo silencioso parecia amplificar cada lembrança recente: o ciúme de Grissom, a ousadia de Hank, a manipulação de Heather, e o mais importante, o que sentia em relação ao homem que amava.

— Preciso ter confiança nele… — murmurou para si mesma. — Ou então vou criar este bebê sozinha.

Sara abriu a bolsa e acariciou a borda do teste de gravidez guardado ali, lembrando-se do pequeno segredo que ainda não revelara. Era algo que a deixava vulnerável, mas também fortalecida. Ela precisava escolher o momento certo, a hora exata para colocar tudo na mesa.

O pensamento de Grissom surgiu, tão presente quanto o aroma do café que havia tomado antes de embarcar. Ele tinha tomado decisões importantes, enfrentado Heather, mas até que ponto ele realmente entendia o quanto ela precisava ser prioridade na vida dele?

Sara espiou pela janela, observando a cidade lá embaixo se aproximar lentamente. Um pequeno sorriso curvou seus lábios.

— Quando eu pousar… tudo vai mudar. Eu vou exigir meu espaço, meu direito de estar com ele de verdade… e ele vai entender que não há Heather ou Hank que interfiram no que construímos.

Enquanto as nuvens continuavam seu fluxo silencioso, Sara se manteve firme, preparando-se mentalmente para o reencontro, para o confronto, e, principalmente, para colocar o amor dela e de Grissom acima de qualquer manipulação externa.

O voo ainda tinha algumas horas, mas dentro dela, o tempo parecia ter parado. Cada pensamento, cada plano, cada suspiro era uma promessa silenciosa: não permitir que ninguém quebrasse o que ela e Grissom haviam finalmente conquistado.

As portas automáticas se abriram, e o ar quente do deserto a recebeu como um tapa. Sara ajeitou a mala, o olhar firme, postura ereta — o mesmo controle que usava ao examinar uma cena de crime agora servia de escudo para proteger o coração.

Grissom estava lá, esperando-a. Camisa azul clara, mangas dobradas, semblante cansado. Quando a viu, o alívio misturado à culpa o atravessou de forma visível.

— Sara... — disse com um sorriso hesitante.

Ela apenas assentiu, sem parar de andar.

— Oi.

O som seco da palavra soou como um veredito.

Ele caminhou ao lado dela, tentando acompanhar o passo decidido.

— Eu queria ter te ligado antes, mas...

— Mas estava ocupado — ela o interrompeu, olhando à frente, sem encará-lo. — Com Heather?

O golpe o atingiu em cheio.

— Não. Sara, não é nada do que parece.

Ela parou. O movimento brusco fez com que as pessoas ao redor desviem. Os olhos dela finalmente encontraram os dele — e ali estava tudo: a mágoa, o amor, a desconfiança.

— Eu vi as fotos, Grissom.

Ele engoliu seco, tentando manter o controle.

— Eu fui drogado. Aquilo foi uma armadilha. Catherine, Warrick... todos confirmaram.

— E mesmo assim, você a deixou entrar na sua vida de novo — respondeu fria. — Você abriu a porta, Grissom. E ela entrou.

Um silêncio pesado caiu entre eles. O som dos aviões ao fundo parecia distante demais.

Grissom deu um passo à frente, a voz baixa, quase suplicante:

— Eu nunca te trairia, Sara. Nunca. Você sabe disso.

Ela respirou fundo, tentando conter as lágrimas que ardiam.

— Eu quero acreditar nisso. Mas cada vez que confio em você, algo acontece e tudo desmorona.

Pegou a mala e começou a andar novamente.

— Agora eu preciso de tempo.

Ele ficou parado, observando-a se afastar. A imagem dela se misturava à multidão, mas o peso do que havia entre eles permanecia — denso, inquebrável, porém frágil.

Heather observava da janela do carro, um sorriso venenoso nos lábios enquanto via Grissom sozinho no meio do estacionamento.

— E assim começa a queda do grande Gil Grissom... — murmurou.

Hank, no banco do carona, complementou:

— E ela vai fazê-lo pagar caro.

Heather cruzou as pernas, satisfeita.

— Ótimo. Que sinta o mesmo veneno que ele me fez engolir.

Catherine estava no sofá, revisando algumas anotações do caso, quando ouviu batidas na porta. Estranhou — ninguém costumava aparecer ali sem avisar.

Ao abrir, viu Sara parada, com uma mala nas mãos, os olhos cansados e uma expressão que misturava exaustão e contenção.

— Oi… — disse a morena, a voz baixa.

Catherine piscou, surpresa.

— Sara? Achei que você ainda estivesse no Alabama.

— Voltei hoje. — Ela respirou fundo. — Eu… preciso de um favor. Posso ficar aqui por uns dias?

A loira franziu o cenho, imediatamente preocupada.

— Claro que pode. Mas o que aconteceu?

Sara desviou o olhar, entrando devagar.

— Não quero voltar pra casa agora.

Catherine entendeu sem precisar de muitas palavras. Fechou a porta atrás dela.

— Você e o Grissom brigaram, não é?

Sara soltou uma risada curta e amarga.

— “Brigar” é pouco. — Largou a mala no canto e passou as mãos no rosto. — Eu não consigo nem olhar pra ele sem pensar naquelas fotos.

Catherine se aproximou, falando com cautela.

— Eu te entendo, mas você sabe que aquilo foi armado. O Warrick encontrou vestígios de sedativo nos copos e nas amostras de sangue dos dois.

— Eu sei. — Sara respondeu rápido. — Mas o problema não é o que aconteceu naquela noite, Catherine. É o que permitiu que acontecesse. Ele abriu a porta pra ela. Ele deu espaço.

Catherine suspirou, se sentando ao lado dela.

— Eu também disse isso pra ele. E, acredite, ele está se culpando mais do que qualquer um de nós poderia.

Sara ficou em silêncio por alguns segundos, olhando fixamente para o chão.

— Eu só… — respirou fundo — preciso de um tempo pra lembrar por que ainda confio nele.

Catherine assentiu, com empatia.

— Tudo bem. Fica aqui o tempo que precisar. O quarto de hóspedes está pronto, e tem vinho na cozinha — caso você queira esquecer o mundo por algumas horas.

Sara deu um meio sorriso cansado.

— Obrigada, Cath. Mas… acho que já tive vinho demais envolvido em confusões ultimamente.

As duas riram, baixinho — o tipo de riso que vem pra aliviar o peso da dor.

Catherine pousou uma mão no ombro dela.

— Vai dar tudo certo, Sara. E, por mais que doa agora, você e o Grissom ainda têm algo forte demais pra se perder assim.

Sara assentiu, mas não respondeu. Sabia que no fundo queria acreditar nisso — mas também sabia que confiança quebrada não se remenda da noite pro dia.

Enquanto subia para o quarto, Catherine a observou em silêncio, preocupada. No olhar da amiga havia um cansaço que nem o amor parecia ser capaz de curar.

Na casa de Grissom...

A casa estava mergulhada em um silêncio incômodo — o tipo de silêncio que grita.

Grissom estava sentado no sofá, o laptop aberto sobre a mesa de centro. O cursor piscava na tela, diante de um e-mail inacabado:

“Sara, eu sei que palavras não apagam imagens. Mas…”

Ele suspirou e apagou tudo. Já tinha tentado escrever aquela mensagem cinco vezes. Nenhuma parecia certa. Nenhuma parecia suficiente.

Os olhos dele passearam pela sala — o casaco dela ainda pendurado no cabide, o livro deixado virado sobre a mesa, a caneca com o logotipo do laboratório. Pequenas presenças que tornavam a ausência dela ainda maior.

Pegou o celular. Hesitou por alguns segundos antes de discar o número.

Catherine atendeu rápido.

— Willows.

— Cath… é o Grissom.

O tom dela mudou.

— Oi, Gil. Tá tudo bem?

Ele passou a mão pelo rosto.

— Não. Quer dizer… eu não sei. A Sara ainda não voltou pra casa desde que chegou de viagem. Ela não atende minhas mensagens, e… — parou, engolindo seco — eu estou começando a ficar preocupado.

Catherine respirou fundo do outro lado da linha, pensando no que dizer.

— Talvez ela só precise de um tempo, Gil.

— Eu sei, mas… — ele se levantou, andando em círculos pela sala — ela não é de desaparecer assim. Nem quando está brava comigo.

A loira hesitou, medindo as palavras.

— Você sabe o quanto tudo isso a abalou. As fotos, a sensação de traição… vai levar um tempo pra ela entender o que realmente aconteceu.

Grissom se encostou no balcão da cozinha, olhando o vazio.

— Eu devia ter previsto isso. Devia ter mantido distância da Heather desde o começo.

— É, devia — Catherine respondeu sem rodeios, mas com empatia. — Mas agora o que você pode fazer é dar espaço. Forçar contato só vai piorar.

Ele assentiu, embora ela não pudesse vê-lo.

— Eu só… não quero que ela ache que desisti.

Catherine olhou discretamente para a escada de sua casa, onde o som leve dos passos de Sara denunciava que ela estava por perto. A morena havia parado no meio do corredor, ouvindo a conversa em silêncio.

Com um tom mais suave, Catherine respondeu:

— Ela sabe, Gil. Mesmo que não diga agora… ela sabe.

— Espero que sim — murmurou ele, a voz embargada. — Boa noite, Cath.

— Boa noite, Grissom.

Ela desligou devagar, ficando por alguns segundos com o telefone na mão.

No alto da escada, Sara ainda estava parada, o olhar distante. Não tinha ouvido toda a conversa, mas bastou uma frase para lhe apertar o peito: “Ela sabe.”

Sabia mesmo?

Ela respirou fundo e voltou para o quarto, enquanto, do outro lado da cidade, Grissom permanecia imóvel, preso entre arrependimento e esperança.

O céu de Las Vegas tingia-se de tons alaranjados quando Sara caminhava pelo parque, os fones no ouvido e as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. Precisava de ar. Precisava pensar.

Os últimos dias tinham sido um vendaval — e, entre o silêncio de Grissom e o peso das fotos, a cabeça dela fervia.

Parou perto de um lago artificial, observando o reflexo do sol na água. Foi quando ouviu uma voz atrás dela:

— Quem diria... a famosa CSI Sara Sidle sozinha, sem o namorado genial por perto.

Hank.

Sara se virou devagar, o semblante frio.

— Você devia escolher melhor os lugares onde aparece, Hank. Aqui não é o hospital.

Ele deu um sorriso debochado, cruzando os braços.

— Só vim aproveitar o entardecer. Coincidência te encontrar.

— Coincidência? — ela deu um passo à frente. — Não existe coincidência quando Heather Kessler está envolvida.

O tom dela era firme, cortante.

Hank arqueou uma sobrancelha, fingindo desinteresse.

— Não sei do que você tá falando.

— Claro que sabe — rebateu Sara, a voz ganhando força. — Eu vi as fotos, vi o cenário. E posso reconhecer um trabalho malfeito de longe. Você e Heather montaram tudo. O problema é que se esqueceram de um detalhe: eu conheço o homem que vocês tentaram destruir.

O sorriso de Hank vacilou por um instante, mas logo ele se recompôs.

— Você parece bem convicta pra alguém que fugiu de casa.

— Eu não fugi — disse ela, firme. — Eu me afastei pra não fazer uma besteira. Mas não pense que isso significa que acredito no teatro de vocês.

Ele se aproximou mais, invadindo o espaço dela.

— E o Grissom acredita em quem? — provocou. — Porque, de onde eu vejo, você parece bem abalada.

Sara sentiu o sangue ferver.

— Você não tem o direito de falar dele. Nem de mim.

— Relaxa, Sidle. — Hank ergueu as mãos em falsa rendição. — Só queria saber até onde vai o seu joguinho de santinha traída.

O estômago de Sara revirou. A raiva misturou-se a um enjoo repentino. Ela levou a mão à boca, cambaleando um passo para trás.

— Merda...

Hank franziu o cenho, o olhar mudando rapidamente de provocação para curiosidade.

— Ei, tá tudo bem?

Ela respirou fundo, tentando se recompor.

— Só um mal-estar. Nada que te diga respeito.

Mas ele a observou atentamente, analisando cada gesto — o modo como ela segurava o abdômen, o tom pálido, o olhar confuso.

Um sorriso lento surgiu em seu rosto.

— Espera aí... esse enjoo todo... não me diga que você tá...

— Cala a boca, Hank — cortou Sara, tensa.

Ele deu um riso baixo, venenoso.

— Então é isso. Parabéns. Vai dar uma ótima manchete quando Heather souber que o “grande Grissom” vai ser papai.

Sara o encarou com fúria.

— Se você ou ela abrirem a boca sobre isso, eu juro que não vai sobrar carreira, nem liberdade pra nenhum dos dois.

Ela se afastou, firme, mesmo com o corpo fraco. Hank ficou parado, observando-a sumir entre as árvores, enquanto o sorriso voltava — mais cínico do que antes.

— Interessante... — murmurou. — Isso muda tudo.

O som da chave na porta chamou a atenção de Catherine, que saiu da cozinha ainda com uma taça de vinho na mão.

Quando viu Sara entrar, o rosto dela suavizou — mas a amiga estava pálida, exausta, e com aquele olhar de quem carregava o peso de algo maior que a raiva ou o ciúme.

— Ei, tá tudo bem? — perguntou a loira, deixando o copo na bancada e se aproximando.

Sara forçou um sorriso.

— Só… fui dar uma volta. Precisava respirar um pouco.

— Pelo jeito, o ar não te fez tão bem assim. — Catherine estreitou os olhos, avaliando o rosto da morena. — Você tá branca como um fantasma.

— É só cansaço. Talvez algo que comi... — tentou desconversar, mas a mão pousou instintivamente sobre o abdômen.

Catherine notou.

O gesto foi rápido, mas revelador.

— Sara… — ela disse num tom mais baixo, cauteloso. — Há quanto tempo você anda se sentindo assim?

A morena desviou o olhar, sentando-se no sofá.

— Uns dias. Nada demais.

Catherine cruzou os braços.

— Nada demais? Você, uma CSI, me dizendo isso? — suspirou e se sentou ao lado dela. — Eu te conheço, Sidle. Quando começa a disfarçar demais, é porque tem algo acontecendo.

Sara permaneceu em silêncio.

Catherine pousou a mão sobre a dela.

— Você tá grávida, não tá?

O ar pareceu parar por um instante.

Sara não respondeu — apenas respirou fundo, com os olhos marejando.

O silêncio foi resposta suficiente.

Catherine sorriu de leve, um sorriso compreensivo, cheio de ternura.

— Então é verdade…

— Ainda não fiz o exame no laboratório — disse Sara, a voz trêmula. — Mas eu… fiz o de farmácia.

— Grissom sabe?

Sara balançou a cabeça.

— Não. E não quero que ele saiba agora.

Catherine assentiu devagar.

— Tudo bem, imaginei que não soubesse. O segredo fica comigo, mas Sara… — tocou o braço da amiga — não tente enfrentar isso sozinha. Nem você , nem o bebê merecem ficar longe do homem maravilhoso que é Grissom.

Sara apenas assentiu, enxugando discretamente as lágrimas.

Hank olhava fixamente para o teto, o cigarro aceso entre os dedos. O som da TV passava despercebido — sua cabeça ainda girava com a lembrança da cena no parque.

Grávida.

Sara Sidle estava grávida.

Ele soltou um riso curto, nervoso.

— Isso vai complicar tudo…

Pegou o celular e olhou o contato de Heather Kessler, piscando na tela. Pensou em ligar — em contar que o plano deles tinha acabado de ganhar um novo elemento, algo que poderia destruir Grissom de vez.

Mas a ideia de Heather sabendo da gravidez o fez gelar.

Ela seria capaz de tudo — absolutamente tudo — se soubesse.

Desligou o celular, jogando-o longe no sofá.

— Não. — murmurou. — Isso é uma bomba que eu não vou entregar pra ela.

Ficou ali, em silêncio, o olhar fixo na janela escura.

Pela primeira vez, Hank começou a temer a mulher com quem havia se aliado — e, mais ainda, o que ela poderia fazer se descobrisse o que Sara carregava.