Entre o Amor e as Correntes
17 Capitulo 17
O cheiro de café fresco se espalhava pela cozinha quando Sara entrou, ainda de moletom, os cabelos presos de qualquer jeito. Catherine, já impecável como sempre, mexia distraidamente o açúcar na caneca, mas seus olhos acompanharam cada movimento da amiga.
— Bom dia, dorminhoca. — disse com um meio sorriso. — Ou devo dizer… futura mamãe?
Sara revirou os olhos, mas o sorriso contido denunciava que a brincadeira a tocara.
— Ainda não confirmamos nada, lembra? Pode ser só... — ela gesticulou vagamente — ansiedade, hormônios, calor de Vegas à distância.
Catherine arqueou uma sobrancelha.
— "Calor de Vegas à distância"? Sara, você analisaria melhor uma evidência de solo do que essa desculpa.
Sara suspirou, se sentando.
— Eu só... preciso pensar. — murmurou. — Saber o que quero fazer antes de contar pra ele.
— E o que você quer? — perguntou Catherine, mais suave agora.
Sara olhou pela janela. O sol começava a surgir, iluminando as folhas que o vento movia levemente.
— Quero confiar nele de novo — disse, quase num sussurro. — Mas toda vez que fecho os olhos, vejo aquelas fotos. Mesmo sabendo que podem ter sido manipuladas, ainda doem.
Catherine assentiu, compreensiva.
— É normal. O coração demora mais pra analisar provas do que o cérebro.
— Só que agora… não é só o meu coração em jogo. — Sara pousou a mão sobre o abdômen, num gesto quase inconsciente. — Eu preciso ter certeza de que ele vai estar lá, não só pra mim, mas pra esse bebê.
Catherine colocou uma mão sobre a dela.
— E ele vai estar, Sara. Eu conheço o Grissom há anos. Quando ele ama, é até o fim — o problema é que ele demora pra perceber que pode perder o que ama.
Sara respirou fundo e, pela primeira vez, deixou um sorriso pequeno escapar.
— Espero que você esteja certa, Cath.
Heather Kessler estava diante do espelho, ajustando o colar de couro que usaria no novo “jogo” que planejava para a noite, quando Hank apareceu encostado na porta, com aquele sorriso despreocupado que ela já conhecia bem demais.
— Tá planejando mais uma sessão de poder e manipulação? — perguntou, fingindo leveza.
Heather olhou de relance para ele, os lábios curvando-se num sorriso afiado.
— Sempre. É o que eu faço de melhor.
Hank fingiu interesse enquanto se aproximava, observando os detalhes.
— E se o seu novo joguinho envolvesse uma grávida?
Heather parou, lentamente virando-se para ele.
— Grávida? — a palavra soou quase como uma ofensa.
— É, só um “se”… hipotético. Digamos que a tal Sara Sidle estivesse esperando um filho do seu querido Grissom. — ele disfarçou a sondagem com um riso leve. — O que você faria?
Heather inclinou a cabeça, estudando-o.
— Eu destruiria os dois. — disse com uma calma assustadora. — Grissom não suportaria perder tudo por causa de uma distração emocional, e Sara… ela quebraria. Grávida, vulnerável, abandonada… seria um golpe perfeito.
Hank engoliu seco, mantendo o sorriso.
— Claro… só estava curioso. — murmurou, disfarçando o desconforto.
Heather riu, passando a mão pelo ombro dele ao sair do quarto.
— Não me subestime, Hank. Quando eu quero algo, ninguém me impede.
Assim que ela desapareceu pelo corredor, o sorriso dele se desfez.
O olhar endureceu.
Ele sentou-se no sofá, passando a mão pelos cabelos.
— Você é um monstro, Heather. — murmurou, olhando para o celular.
Abriu a pasta secreta onde guardava as fotos originais da noite na casa de Grissom — imagens de câmeras de segurança que mostravam o momento em que ele a dopava e a cena sendo armada.
— Tá na hora de mudar o jogo. — disse, decidido. — Grissom precisa saber da verdade sobre o que ocorreu e também dar um jeito dele descobrir sobre o bebê.
O tribunal estava cheio — advogados apressados, jornalistas cochichando, o tilintar dos saltos ecoando pelo corredor revestido de mármore. Grissom, estava impecável com seu terno escuro e expressão contida, ajustou os óculos enquanto revisava mentalmente os detalhes do caso.
Greg o acompanhava, equilibrando uma pasta e um café.
— Cara, eu juro que se esse réu for absolvido, vou reconsiderar minha fé na humanidade. — murmurou Greg, passando os olhos pelas anotações.
— A evidência fala por si, Greg. — respondeu Grissom, impassível. — Só espero que o júri saiba ouvir a ciência antes da retórica.
Eles se acomodaram na bancada das testemunhas, aguardando o chamado. Quando a porta lateral se abriu e Heather Kessler entrou, o ar pareceu mudar de densidade.
O salto dela ressoou no piso com ritmo calculado, o sorriso confiante cruzando o rosto como uma cicatriz. Usava um tailleur escuro, elegante e provocante na medida certa, e o olhar — aquele olhar — foi direto em direção ao entomologista.
Grissom travou o maxilar, os dedos instintivamente apertando a caneta que segurava.
Greg, percebendo a tensão, murmurou ao lado:
— Ah, não… não me diga que essa é a testemunha da defesa.
Heather parou diante do advogado do empresário, trocando algumas palavras com ele antes de lançar um olhar lateral — quase inocente — para Grissom.
— Que coincidência, Gil. — disse, a voz suave, mas carregada de ironia. — Sempre nos reencontramos nos lugares mais… intensos.
Ele respirou fundo, a frieza voltando ao tom:
— A diferença entre nós é que eu estou sempre no lado da verdade.
Heather deu um meio sorriso.
— E eu, pela justiça. — respondeu, inclinando a cabeça. — Às vezes elas não são a mesma coisa, você sabe disso.
Greg quase engasgou com o café.
— Ela acabou de citar Nietzsche num tribunal? — murmurou, incrédulo.
Heather ignorou, deslizando o olhar para ele.
— Ah, e o jovem Sanders… sempre tão fiel ao mestre. — provocou. — Deve ser difícil admirar alguém que ainda não aprendeu a escolher melhor suas companhias.
Grissom se manteve em silêncio, mas seus olhos endureceram.
— Cuidado com o que diz aqui, Heather. Isso é uma corte, não seu palco.
Ela se aproximou um passo, como se desafiasse o limite invisível entre eles.
— Ah, mas todo tribunal é um palco, Gil. A diferença é quem controla o roteiro.
Antes que pudesse dizer mais, o juiz entrou. Todos se levantaram, e Heather assumiu sua posição como testemunha de defesa.
Greg inclinou-se para Grissom, sussurrando:
— Isso vai ser um circo.
Grissom manteve o olhar fixo na mulher que, mais uma vez, tentava transformar a verdade em espetáculo.
Enquanto ela respondia às perguntas com aquela calma encantadora, Grissom analisava cada gesto — os olhos que desviavam em momentos-chave, a respiração que acelerava em perguntas sobre o réu, a forma como ela parecia… atuar.
Ele percebeu o que ela estava fazendo: controlando a narrativa. E entendeu, com um arrepio, que ela não estava ali só para defender um empresário — estava ali para provocá-lo, para testar seus limites.
Quando o juiz o chamou ao banco das testemunhas, Heather passou por ele, sussurrando ao seu ouvido:
— Você ainda não aprendeu, Gil… toda verdade precisa de um toque de fantasia.
Grissom respondeu sem olhar para ela:
— E toda mentira, um bom motivo para ser desmascarada.
Ela sorriu, fria.
— Boa sorte com isso.
Ele a observou se afastar e, por um instante, soube — Heather estava tramando algo de novo.
A porta se fechou atrás de Heather, abafando o burburinho do tribunal. Ela caminhou com passos elegantes até uma pequena sala reservada, onde o advogado de defesa, Robert Klein, a esperava.
Ele se levantou imediatamente, com um sorriso contido.
— Magnífico, Heather. Seu depoimento foi… impecável. A forma como controlou o ritmo, as pausas — parecia até que ensaiamos por semanas.
Heather pousou a bolsa sobre a mesa e tirou um espelho compacto, retocando o batom com calma.
— Querido, eu não ensaio, eu improviso. A diferença é que eu sempre sei quem está assistindo.
Robert cruzou os braços, um pouco intrigado.
— Está se referindo a Grissom, certo?
Ela sorriu pelo reflexo do espelho.
— Ele é o público mais interessante que já tive. — respondeu, com um tom quase lascivo. — Cada vez que me vê, tenta disfarçar, mas eu vejo… tudo. O medo, a raiva, a dúvida. E agora, a culpa.
— Culpa? — o advogado arqueou a sobrancelha. — Por quê?
Heather fechou o espelho com um estalo suave.
— Porque ele não sabe o que é verdade ou mentira sobre aquela noite. — sussurrou. — E isso o destrói mais do que qualquer sentença judicial poderia.
Robert soltou um breve riso.
— Você é perigosa.
— Sou necessária. — corrigiu Heather, dando um passo à frente. — Esse homem que você defende, Robert, é apenas uma ferramenta. Um pretexto. Meu verdadeiro interesse está em Grissom. Quero ver até onde ele aguenta antes de… quebrar.
O advogado ficou em silêncio por um momento, avaliando-a.
— Você sabe que isso soa… pessoal demais.
Ela se inclinou, aproximando o rosto do dele.
— É pessoal. Ele ousou me subestimar. — os olhos dela ardiam com um brilho frio. — Agora eu quero que ele sinta o que é perder o controle, o que é ser julgado… sem defesa.
Robert recuou um passo.
— E se ele descobrir que tudo isso — o depoimento, a ligação com o réu — é parte do seu jogo?
Heather riu, seca e contida.
— Ele vai descobrir. É esse o ponto. — disse, recolhendo sua bolsa. — Mas quando isso acontecer, será tarde demais.
Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, voltou-se para o advogado:
— Ah, e Robert… mantenha seu cliente quieto. O único espetáculo que importa aqui é o meu.
A porta se fechou atrás dela, e por um instante, o advogado ficou parado, olhando para o vazio — dividido entre fascínio e medo.
Lá fora, Heather caminhava pelo corredor do tribunal com um leve sorriso.
Ela já imaginava o que viria a seguir: Grissom tentando entender o motivo da presença dela naquele caso, enquanto ela observava de longe… cada reação dele.
O corredor estava silencioso, exceto pelo eco distante das vozes no plenário.
Grissom caminhava ao lado de Greg Sanders, ambos ainda processando o que tinham visto.
Greg quebrou o silêncio primeiro:
— Eu não acredito nisso… Heather Kessler, a testemunha de defesa? Sério?
Grissom não respondeu de imediato, apenas ajustou os óculos e olhou para a sala onde ela havia estado minutos antes.
— Nada em Heather é coincidência, Greg. Ela apareceu aqui por um motivo.
Greg cruzou os braços, frustrado.
— Motivo? Ela está atuando, chefe. Como sempre. É o mesmo tom, o mesmo olhar — só que agora com uma plateia. Ela sabe exatamente como manipular quem está ouvindo.
Grissom desviou o olhar para o chão, pensativo.
— Heather sempre soube usar o ambiente a favor dela. Até uma sala de tribunal vira palco quando ela entra.
Nesse momento, Harry Coleman, o promotor do caso, se aproximou apressado, com uma expressão tensa.
— Grissom, Sanders — disse, em tom grave. — Precisamos conversar.
Greg deu um passo à frente.
— Deixa eu adivinhar: o depoimento dela confundiu os jurados?
Harry soltou um suspiro pesado.
— Confundiu e muito. Metade deles agora acha que o Dennis pode ser inocente. Ela distorceu cada detalhe da cena do crime e ainda insinuou que as provas podiam ter sido mal interpretadas.
Grissom ergueu uma sobrancelha.
— E você acha que alguém acreditou nisso?
— Não só acredito — respondeu o promotor — como tenho certeza. Ela tem esse poder. Controla o tom, o ritmo, o olhar… É quase hipnótico.
Greg balançou a cabeça.
— Ela devia estar em Hollywood, não num tribunal.
Harry o ignorou e virou-se para Grissom.
— Precisamos reverter isso antes da próxima sessão. Há mais alguém da sua equipe que trabalhou nesse caso?
Grissom pensou por um instante, cruzando os braços.
— Sim… Quando Greg precisou se ausentar, outro perito assumiu parte da coleta no deserto.
Os olhos do promotor brilharam.
— Isso é perfeito! — exclamou. — Uma nova testemunha pericial, alguém que o júri ainda não ouviu. Posso usar isso como nosso elemento surpresa.
Greg olhou curioso.
— E quem seria?
Grissom apenas ajustou os óculos, sem responder.
Harry, porém, já estava animado demais para esperar.
— Não importa agora. Só preciso que ele — ou ela — esteja disponível amanhã. Vou avisar o juiz que temos uma testemunha técnica adicional.
Ele se afastou rapidamente, falando com o assistente enquanto descia o corredor.
Greg olhou para o supervisor.
— Chefe… quem é o perito?
Grissom ficou em silêncio por alguns segundos, observando o promotor desaparecer no fim do corredor.
— Alguém que talvez mude tudo. — respondeu, em tom enigmático. — Se o promotor quer um elemento surpresa… ele vai ter.
Greg tentou decifrar o olhar do chefe, mas só viu mistério.
A tensão aumentava, e no ar, ficava a pergunta sem resposta:
Quem seria a nova testemunha?
O som dos monitores cardíacos e o burburinho discreto da ala de atendimento misturavam-se ao cheiro característico de antisséptico. Hank Pettigrew caminhava pelo corredor, fingindo folhear um prontuário enquanto esperava para falar com um médico sobre um antigo colega de plantão.
Ele se encostou discretamente no balcão da enfermagem, onde duas enfermeiras conversavam apressadas, entre ligações e anotações.
— Consulta pré-natal, depois de amanhã às 9h — disse uma delas, digitando no computador. — Nome da paciente: Sara Sidle.
Hank congelou. O nome ecoou em sua mente com a força de um soco.
Virou levemente o rosto, tentando disfarçar o interesse, enquanto um meio sorriso se formava.
— Sara Sidle... — murmurou baixinho, fingindo ler o prontuário em mãos.
A enfermeira continuou, sem notar o olhar atento dele.
— Obstetra: doutor Levinson. Preciso confirmar com o laboratório porque ela vai precisar fazer um exame antes da consulta.
Hank deu um passo para trás, escondendo o brilho malicioso nos olhos.
Dentro de sua cabeça, as peças começavam a se encaixar.
Então está confirmado… Sara está grávida.Caminhou até o bebedouro no fim do corredor e se apoiou nele, rindo baixo para si mesmo.
— Uhumm… pode ser uma oportunidade perfeita — murmurou. — Se Grissom descobrir do jeito certo… ou isso pode acabar de vez com os planos de Heather.
Ele olhou pela janela, o reflexo do pôr do sol tingindo seu rosto com um tom alaranjado.
O olhar dele se endureceu.
— Mas antes, preciso garantir que Heather não saiba disso. — disse entre dentes. — Ela não entenderia o valor desse segredo… ainda não.
Com passos calmos, Hank deixou o hospital, já arquitetando os próximos movimentos.
O jogo havia mudado — e agora, ele tinha em mãos a carta mais poderosa da mesa e poderia virar o jogo para o lado certo.
O aroma de café recém-passado se misturava ao som distante dos monitores e dos passos no corredor. Sara mexia distraidamente o açúcar na caneca, sentada à mesa com Catherine, que a observava com aquele olhar de quem percebe mais do que a colega quer dizer.
Catherine:
— Então, vai me contar o motivo desse olhar distante ou eu preciso arrancar com pinça?
Sara (suspira, apoiando o queixo na mão):
— Marquei uma consulta, Cath. Obstetra. Depois de amanhã, pela manhã.
Catherine arqueou as sobrancelhas, surpresa por um instante, antes de disfarçar com um sorriso suave.
Catherine:
— Obstetra? Então…
Sara:
— Sim... Ainda não tenho certeza. Não quero levantar hipóteses. Só… quero ter certeza, entende?
Antes que Catherine pudesse responder, a porta se abriu abruptamente. Greg, Nick e Warrick entraram, rindo de algo, até que perceberam o clima mais calmo da sala. O tom leve desapareceu quando Greg falou:
Greg:
— Vocês não vão acreditar no que eu vi hoje no tribunal.
Catherine (erguendo uma sobrancelha):
— Tribunal? O que você estava fazendo lá, Greg Sanders?
Greg (ofegante, empolgado):
— Fui acompanhar o Grissom. Ele foi testemunhar no caso Dennis Vintage — o empresário que matou a esposa, lembra? Pois adivinha quem apareceu como testemunha de defesa?
Sara (franzindo o cenho):
— Não tenho ideia…
Greg:
— Heather Kessler.
O silêncio caiu como uma bomba. Catherine e Sara se entreolharam, incrédulas. Warrick deu um assobio baixo, e Nick apenas balançou a cabeça, sem acreditar.
Nick:
— Tá brincando. A Heather? A dominatrix Heather?
Greg:
— A própria. Entrou na sala como se estivesse num desfile. E o pior: o depoimento dela bagunçou a cabeça dos jurados. O promotor quase teve um infarto.
Warrick:
— O que ela disse?
Greg:
— Que conhecia o acusado, que ele era “mal compreendido”, que as práticas dele eram apenas… “alternativas”. Usou até o nome de um ex-parceiro forense pra reforçar o argumento.
Catherine:
— Me diz que esse “ex-parceiro forense” não era o Grissom.
Greg:
— Claro que era.
Sara recostou-se na cadeira, levando a mão à testa, tentando processar o que acabara de ouvir.
Sara:
— Ela tá tentando provocá-lo. Se Heather está envolvida nesse caso, isso não é coincidência.
Catherine:
— Não… é um jogo. E ela sabe exatamente as peças que está movendo.
O grupo ficou em silêncio por alguns segundos, o som do ar-condicionado preenchendo o espaço. Sara olhou para a janela, pensativa — o peso da notícia e da sua própria incerteza pessoal se misturavam num nó no estômago.
Sara (pensando):
Heather no tribunal, Grissom no meio… e eu aqui, sem saber se devo contar ou esconder o que pode mudar nossas vidas.
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