Enquanto trabalhava, Sara sentiu um par de olhos na porta. Não precisou se virar: Heather, com um sorriso malicioso, sussurrou o nome dele.

— Grissom.

O coração de Sara apertou ao perceber a preocupação estampada no rosto dele, tão intensa que quase se podia tocá-la. Ao mesmo tempo, a alegria genuína de Heather ao vê-lo fez a bile subir na garganta de Sara.

Ela respirou fundo, ignorando a dominatrix, e dirigiu-se a Grissom sem desviar o olhar do pescoço de Heather, enquanto capturava cada detalhe para a perícia.

— Alguns se importam mais com as vítimas do que com o trabalho — disse, a voz suave, mas carregada de uma pontada de veneno.

Em um gesto rápido, disparou uma foto do pescoço de Heather, registrando evidências enquanto cada palavra e cada olhar entre eles carregava tensão suficiente para cortar o ar do quarto.

Grissom apenas inclinou a cabeça, sem entender o recado. Sara disparou outra foto e continuou, sua fala agora se tornando uma metralhadora de ironia. "Parece que nem todos os agressores deixam evidências.

Heather, alheia à troca silenciosa de farpas, sorriu para Grissom.

— É bom ver você, Gil.

— Eu também, Heather — respondeu ele, a voz rouca de preocupação, carregada de cuidado genuíno.

Sara sentiu o sangue ferver. Cada palavra deles era uma faísca que acendia o fogo da raiva e do ciúme dentro dela. Sem perder a compostura, disparou mais fotos, as mãos movendo-se com frieza quase robótica enquanto seus pensamentos queimavam. Cada clique registrava evidências, mas também cada tensão, cada gesto e cada olhar que tornava a cena ainda mais difícil de suportar.

O silêncio entre eles se tornava quase palpável, uma corda esticada prestes a arrebentar, enquanto o trabalho de perícia e o turbilhão de emoções de Sara se entrelaçavam de maneira inescapável.

Sara terminou de fotografar e, mantendo a cordialidade gelada que sempre a caracterizava, dirigiu-se a Heather:

— Obrigada pela sua colaboração, Sra. Kessler. Entraremos em contato se precisarmos de algo mais.

Deu um aceno sutil, sem esperar resposta. Em vez disso, se virou e caminhou em direção à porta, cada passo carregado de determinação. Ao passar por Grissom, não lhe dirigiu palavra nem um único olhar, deixando que o silêncio entre eles falasse mais alto do que qualquer frase poderia.

O clima no quarto ficou denso, quase palpável, como se cada gesto contido carregasse anos de emoções reprimidas e perguntas não ditas.

Heather observou a cena, um sorriso perspicaz nos lábios.

— Parece que você tem mais de um enigma para resolver, Gil.

Grissom suspirou, fechando os olhos por um instante. Ele sabia exatamente do que ela falava, e a última coisa que queria era discutir seu relacionamento com a mulher que acabara de sair. Ao abrir os olhos, a expressão séria cortou qualquer possibilidade de conversa sobre o assunto.

— Você tem alguma ideia de quem fez isso com você? — perguntou de forma abrupta, mudando completamente de foco.

Heather balançou a cabeça, mantendo o sorriso enigmático.

— Não. Mas… e vocês dois? Ela estava com raiva. O que aconteceu?

— Heather, não vamos falar sobre isso — disse Grissom, a voz baixa, firme, carregando autoridade e preocupação ao mesmo tempo. — Você está bem? Como se sente?

O clima ficou carregado de silêncio, mas diferente do tenso desconforto com Sara. Ali, a tensão era uma mistura de cuidado genuíno e mistério, enquanto Grissom se concentrava em Heather, mantendo o profissionalismo mesmo com o turbilhão de emoções recém-despertado.

A conversa entre Grissom e Heather foi interrompida por uma memória dolorosa.

— Da última vez que nos vimos — começou ela, a voz fraca — eu estava tentando matar o homem que assassinou minha filha.

De repente, os olhos de Heather perderam o foco, seu corpo ficou rígido e começou a tremer. Entrava em choque, sem aviso.

Grissom reagiu num instante, a urgência substituindo sua calma habitual. Agarrou o braço de uma enfermeira que passava pelo quarto.

— Ela é diabética! Ela não contou a vocês, mas é diabética!

A enfermeira, surpresa, correu imediatamente para ajudá-la, ajustando rapidamente os equipamentos e preparando a medicação adequada.

Grissom permaneceu ao lado da cama, cada músculo tenso, observando enquanto Heather era estabilizada.

Catherine e Brass continuam o trabalho no parque temático enquanto Sara estava no laboratório já periciando o que fora recolhido.

Grissom entrou na sala e percebeu imediatamente que o humor de Sara não estava dos melhores. Mas, naquele momento, sua mente estava totalmente voltada para a situação de Heather.

— Todas as impressões digitais no balcão do bar são de Heather — informou Sara, a voz seca, quase cortante. — Não testei o batom no copo de shot. Sinceramente, seria perda de tempo; ela é a única pessoa que bebeu. É a cor preferida dela?

Grissom a olhou, a preocupação estampada no rosto, um soco no estômago de Sara.

— Isso explicaria a hipoglicemia e o choque que ela teve. Heather é diabética. Ela escondeu isso dos médicos.

O coração de Sara se apertou. Ele sabia algo tão íntimo sobre Heather, enquanto ela, sua namorada, estava por fora de tudo. A frustração transbordou em sua voz, mais cortante do que pretendia:

— Eu encontrei evidências que indicam que ela pode ter sido abusada sexualmente, mas, para minha surpresa, ela recusou o kit de estupro.

Grissom apenas a encarou, processando a informação, consciente do peso das palavras e da complexidade da situação.

Sara continuou, a frustração se misturando com a raiva contida:

— Não havia ferimentos de defesa, Gil. Nada. E houve três tentativas distintas de estrangulamento no pescoço dela. O que você acha disso?

Grissom fechou os olhos por um instante, a dor refletida claramente em sua expressão.

— Por que ela não reagiu? — sussurrou, mais para si mesmo do que para Sara.

Ele continuou, a voz baixa, carregada de preocupação:

— Sara, eu não entendo o que aconteceu. Heather é uma mulher muito forte, destemida… ela se defenderia facilmente. Mas no hospital encontrei uma Heather que nunca tinha visto. Indefesa, sofrida… nem sombra da fortaleza que ela é.

As palavras dele foram a gota d’água. Enquanto Grissom se preocupava com a integridade física de Heather, Sara, consumida pelo ciúme, sentia-se invisível. Para ele, a dor da vítima era palpável e urgente; para ela, a dor que queimava era por ele se importar tanto com outra mulher.

O silêncio que se seguiu era pesado, carregado de sentimentos não ditos, enquanto cada um lidava com a situação de forma diferente — uma mistura de profissionalismo, emoção e tensão que tornava o ar quase irrespirável.

Grissom saiu da sala, mas não antes de deixar a última frase que fez o sangue de Sara ferver:

— Sara, peço que respeitem a Heather. Ela não é assim… creio que algo está acontecendo, só que não sei o que é.

Sara permaneceu parada por alguns segundos, absorvendo cada palavra. A mistura de preocupação de Grissom com Heather, a confiança que ele depositava na dominatrix e a ausência de qualquer olhar para ela mesma eram como facas invisíveis cortando seu orgulho e seu coração.

Respirou fundo, tentando retomar o controle da própria raiva. Mas era impossível ignorar o aperto no peito. A frustração transformou-se em uma determinação silenciosa: se Grissom não podia enxergar como ela se sentia, ao menos ela sabia exatamente o que precisava fazer — manter a cabeça fria e o trabalho impecável, mesmo que por dentro estivesse em chamas.

Enquanto Sara continuava seu trabalho no laboratório, Catherine e Brass voltavam à cena do crime. Entraram conversando, e Catherine, curiosa como sempre, perguntou a Brass se ele sabia do caso de Heather com Grissom.

— Sei mais do que você imagina — respondeu o capitão, com aquele ar de “não é da sua conta, mas vou contar um pouquinho”. — Grissom tem uma mulher na vida dele…

Antes que ele pudesse se alongar em detalhes, uma surpresa interrompeu qualquer fofoca policial.

Eles chegaram à cidade fantasma de Old West, e um arrepio percorreu a espinha de Catherine ao notar que o portão da frente estava destrancado novamente. Sério? Quem deixaria a porta aberta duas vezes? Alguém estava pedindo problemas.

Descendo a rua principal, as botas de ambos ecoando pelo silêncio, Brass parou abruptamente.

Lá estava Vernon Porter, o vigia noturno. Caído de bruços, o sangue formando uma poça no chão de terra. Um tiro nas costas.

Catherine engoliu em seco, tentando encontrar alguma piada interna que aliviasse o choque, mas nada veio. O mistério estava servido, e definitivamente ninguém sairia ileso de Old West hoje.

Enquanto Catherine se abaixava para examinar o corpo, notou a arma nas mãos de Vernon. Não havia sido disparada. Seus olhos se moveram para Brass, que segurava o telefone de Vernon com firmeza. A expressão dele se tornou sombria.

— Ele ligou para Heather — disse Brass, a voz carregada de urgência. — Há pouco tempo.

O impacto da conexão foi quase físico: a primeira vítima, Lady Heather, e o vigia assassinado, Vernon Porter, estavam ligados de alguma forma. Precisavam encontrar Heather. E rápido.

Catherine pegou o telefone imediatamente e ligou para Sara.

— Sara, preciso que encontre Heather! Precisamos falar com ela.

Do outro lado da linha, a voz de Sara estava tensa, carregada de preocupação:

— Não vai ser fácil, Cath. Vim ao hospital atrás dela e descobri que ela já foi embora, contra a vontade dos médicos. Pode até ser mais fácil se ela tiver ido para casa… mas nada me diz que é o caso.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Cada segundo contava, e o relógio corria mais rápido do que qualquer investigação poderia acompanhar.

Grissom parou o carro em frente à imponente mansão de Heather. Antes que pudesse tocar a campainha, a porta da frente se abriu, revelando Heather, seu rosto uma mistura de surpresa e cautela.

— Gil, o que você está fazendo aqui? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.

Ele entrou sem pedir licença, mantendo o olhar sério.

— Vim conversar com você, Heather. E não pretendo sair daqui até ter as respostas de que preciso.

Ela sorriu, um brilho de desafio nos olhos.

— Sério? Não tem nada mais importante para fazer, Supervisor?

— Nada, nada — respondeu ele, firme. — Pelas próximas horas, sou completamente seu. Que tal colocarmos o papo em dia?

As horas passaram rapidamente, como se o tempo tivesse diminuído para eles. No entanto, do lado de fora, os peritos criminais trabalhavam contra o relógio, tentando obter um mandado para entrar na casa da dominatrix, conscientes de que a situação podia se complicar a qualquer instante.

Enquanto Grissom e Heather conversavam no interior da mansão, cada palavra carregava camadas de tensão, sedução e segredos velados. Os olhos dele, normalmente tão medidos e calmos, traíam uma mistura de curiosidade, preocupação e… algo que Sara não veria com facilidade. Heather, por sua vez, mantinha seu ar de controle absoluto, mas cada gesto sutil revelava que, apesar da confiança exterior, também estava testando os limites do investigador.

O contraste entre os dois mundos era gritante: dentro da mansão, conversas íntimas e segredos partilhados; do lado de fora, o peso da lei e da urgência criminal. Cada segundo que passava tornava a situação mais tensa, deixando claro que, enquanto Grissom tentava extrair respostas, qualquer deslize poderia custar caro — para todos.

A noite parecia ter um peso extra quando Catherine, Sara e Brass se aproximaram da imponente mansão de Heather. A luz que escapava das janelas criava uma sensação de calma que contrastava com a tempestade crescendo dentro de seus corações. Brass, impaciente como sempre, tocou a campainha com força.

A porta se abriu e Heather surgiu, envolta em um roupão de seda, mantendo a serenidade imperturbável de sempre.

— Detetive — cumprimentou, a voz suave. — Sara, Catherine.

Ela esboçou um pequeno sorriso, e o estômago de Sara revirou instantaneamente. Um sorriso que sabia como despertar emoções complicadas e lembranças desconfortáveis, mesmo no meio de uma investigação.

"Em que posso ajuda-los". falou Heather

— Vernon Porter foi encontrado morto esta noite — disse Brass, firme, sem rodeios.

— E encontramos no celular dele diversas ligações direcionadas para você, Kessler — continuou Catherine, mantendo o olhar fixo na dominatrix.

— Onde estava esta noite, Sra. Kessler? — Brass perguntou, a voz carregada de autoridade.

— Sabemos que você não estava no hospital — acrescentou Catherine, com a voz calma, mas incisiva.

Heather permaneceu em silêncio por um instante, o olhar calculista, medindo cada palavra antes de responder. O ar no cômodo ficou denso, carregado de tensão, como se cada segundo pudesse revelar ou esconder um segredo perigoso.

— Em casa — respondeu Heather, com a mesma tranquilidade desconcertante.

Sara, até então calada, não conseguiu se conter.

— E você tem como provar isso? — A voz estava mais afiada do que o normal, e o olhar que lançou para a dominatrix transbordava desconfiança.

O rosto de Heather se iluminou com um sorriso sutil, quase desafiador.

— Na verdade, sim. — Ela se virou, e naquele instante, parecia que o mundo deles desabava.

— Eles querem saber se posso provar onde passei a noite? — perguntou a ruiva, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa, como se testasse os limites da situação e a paciência de todos ali.

O silêncio que se seguiu pesava no ar, cheio de tensão: cada um processava a informação à sua maneira, enquanto o jogo de poder, confiança e desconfiança se tornava ainda mais evidente.

E assim, os três permaneceram ali, paralisados, observando o movimento da Dominatrix. O mistério estava lançado — e, por mais incrível que fosse, o responsável por provar o álibi estava ali, na sala, observando tudo, sem que eles soubessem exatamente quem era.