Entre o Amor e as Correntes
1 Capitulo 01
Em uma cidade esquecida do Velho Oeste, o caubói conhecido como “Ladrão de Tumbas” entrou no salão como uma sombra que carrega o peso da morte. Entre fumaça de charutos e copos de uísque mal servidos, seus olhos se fixaram em Lady Heather — a mulher que dominava homens com um simples olhar.
O encontro dos dois não foi de cortesia, mas de confronto. Palavras afiadas como lâminas cortaram o ar, cada frase uma disputa de poder. Heather, confiante, acreditava controlar a situação, mas a presença ameaçadora do forasteiro revelava outra história.
Ele não buscava prazer, mas respostas. E cada vez que exigia que ela “dissesse”, o salão inteiro parecia prender a respiração.
Quando o silêncio se impôs, Heather já não tinha mais o domínio absoluto. O Ladrão de Tumbas havia provado que, no Velho Oeste, até a mais poderosa das mulheres podia encontrar alguém disposto a enfrentá-la de igual para igual.
Algum tempo depois, o salão estava cercado por fitas amarelas e luzes vermelhas piscando. A perita Catherine Willows e o detetive Jim Brass chegaram ao local. No chão, estendida, mas consciente, estava Heather Kessler, já sendo atendida pelos paramédicos.
Catherine a observou em silêncio, registrando cada detalhe. Heather era uma dominatrix conhecida por seu autocontrole inabalável. Para Catherine, uma coisa era clara: Heather jamais se colocaria na posição de submissa. Aquilo não fazia sentido, a não ser que algo tivesse saído terrivelmente errado durante a sessão.
Perto da entrada, o vigia noturno, Vernon Porter, aguardava com expressão nervosa. Brass se aproximou, prancheta em mãos.
— Foi você quem a encontrou?
Vernon assentiu, passando a mão na testa suada.
— Sim, senhor. Eu tinha trancado o portão, como sempre faço. Mas quando voltei para rondar, estava destrancado. Achei estranho e entrei para verificar. Foi aí que vi... — ele desviou o olhar em direção a Heather — ...vi ela caída no chão. Não toquei em nada, só chamei a polícia.
As palavras ficaram no ar, pesadas. Catherine e Brass trocaram um olhar rápido: a cena escondia mais do que parecia à primeira vista.
Catherine, alheia ao segredo que unia os dois colegas de equipe, seguia em direção ao salão. Grissom e Sara estavam juntos há dois anos, mas só Brass conhecia essa verdade — e a carregava em silêncio.
Ao chegar à porta, Catherine encontrou Brass. A expressão dele denunciava preocupação, um peso diferente do habitual nas cenas de crime.
— Tudo bem, Jim? — ela perguntou, estudando o rosto dele.
Brass apenas assentiu, desviando o olhar como se buscasse se esconder atrás da própria neutralidade.
— Chamei a Sara para nos ajudar. Ela estava livre, pedi para vir direto para cá. Diz Catherine.
— Vou aproveitar e avisar o Grissom… sobre a “amiga” dele. — A palavra saiu carregada de ironia, como se já previsse a reação que viria.
Jim novamente só a olhou e não falou nada, porém já imaginava como seria ter Sara num caso com Lady Heather envolvida.
Poucos minutos depois, Sara chegou ao local. O som das sirenes já havia diminuído, mas a cena ainda pulsava com o ritmo contido da investigação. Assim que desceu do carro, seus olhos encontraram os de Brass. Ele lhe devolveu um aceno discreto, acompanhado de uma expressão de cumplicidade que só eles dois entendiam.
Sara ajeitou as luvas enquanto se aproximava da entrada do salão. Catherine, de prancheta em mãos, a interceptou antes que entrasse.
— A vítima é uma dominatrix conhecida, Lady Heather — disse em tom profissional, sem perceber o impacto que o nome tinha sobre a colega. — Vernon Porter, o vigia noturno, foi quem a encontrou. Ela foi estrangulada com uma corda.
Catherine suspirou, franzindo a testa.
— É um caso bizarro. Não consigo entender o que deu errado.
A dominatrix já havia sido levada ao hospital, mas o nome deixado para trás continuava a reverberar. Lady Heather. O som ecoava na mente de Sara como um sussurro incômodo. Ainda não a reconhecia de imediato, mas algo naquele nome a fez estremecer. O arrepio na espinha foi instintivo, reforçado pela expressão grave de Brass e pelo silêncio pesado que ele mantinha.
Respirando fundo, Sara atravessou a porta do salão. O ambiente exalava o cheiro forte de álcool e fumaça antiga, misturado agora ao toque metálico do crime. As mesas estavam reviradas, cadeiras tombadas, copos quebrados espalhados pelo chão.
Ela deixou o olhar correr pelo cenário, treinado para absorver cada detalhe: marcas no chão, possíveis pegadas, fibras, qualquer indício que pudesse dar forma àquela história fragmentada. Mas, por mais que tentasse manter a mente no trabalho, o mesmo pensamento insistia em voltar.
Aquele nome.
Por que soava tão familiar? E por que o silêncio de Brass parecia esconder mais do que simples preocupação profissional?
O coração de Sara acelerou levemente. Algo lhe dizia que, mais cedo ou mais tarde, descobrir a resposta não seria apenas parte da investigação… mas também um teste para si mesma.
No salão, Sara colocou cuidadosamente uma garrafa quebrada de uísque em um saco de evidências. O detalhe não lhe escapou: um parque temático familiar provavelmente não serviria álcool. Havia algo fora de lugar ali.
Sem tirar os olhos da cena, perguntou:
— Como é Heather?
A questão soou profissional, mas a resposta abriu uma fresta que Sara não tinha previsto. Catherine suspirou e, com o tom de quem conhecia bem o assunto, começou:
— O sadomasoquismo é como um esporte de gente rica, sabe? Tipo hóquei. Cheio de equipamentos caros.
Sara desviou o olhar para ela, intrigada.
— Quanto você acha que uma noite como essa custaria? — tentou manter a neutralidade.
Catherine deu um sorriso amargo, quase divertido.
— Uns cinco anos atrás, Heather me disse que ganhava vinte mil por semana. E isso foi antes de virar a “LadyHeather.com” e ficar famosa na internet.
As sobrancelhas de Sara se ergueram de surpresa. Vinte mil. O número em si já era impactante, mas havia algo mais por trás. Catherine conhecia Heather há anos. Brass também. E, claro… Grissom. Então por que ela, entre todos, era a única que nunca tinha ouvido falar da mulher?
A curiosidade, quase mórbida, venceu a cautela.
— Como ela é? — insistiu, já arrependida no instante em que as palavras deixaram sua boca.
Catherine não hesitou.
— Bonita, inteligente, intensa… e bastante charmosa. — Fez uma pausa, antes de acrescentar a frase que atingiu Sara como um soco. — Ela foi a única mulher que eu vi realmente mexer com Grissom.
O rosto de Sara se contraiu de imediato, sua expressão mudando como se tivesse sido pega de surpresa em plena cena de crime. Passou a agir no automático, recolhendo evidências com gestos mecânicos, mas cada palavra de Catherine martelava em sua mente.
A loira continuou: "Heather é aquela que sempre o deixa de pernas bambas, derruba suas defesas e o vence no xadrez mental. Sabe, Gil é muito discreto e tenho certeza de que não me contaria, mas sei que ele já dormiu com ela e mais de uma vez. Ele também parecia gostar daquela antropóloga forense, a Teri Miller, lembra?"
"Ah, lembro," Sara respondeu, sua voz quase gaguejando. "Como assim ele gostava dela?"
O ar de inocência de Catherine fez Sara questionar tudo. Como ela nunca tinha percebido? Teri Miller tinha trabalhado com ele algumas vezes e Sara nunca havia reparado em nada. A ficha caiu. Sara tinha ouvido sobre isso, mas não tinha levado a sério. Sabia que seu namorado não era puritano, mas ouvir sobre seus antigos casos amorosos não era confortável. Sara, encontra um copo de shot no chão com batom na borda. É a deixa para poder encerrar o monólogo sobre o romance entre Lady Heather e Grissom.
A ruiva, por sua vez, parecia satisfeita. Para ela, Grissom era um enigma fascinante: reservado, emocionalmente inacessível, quase um mistério ambulante. E, diante da reação silenciosa de Sara, Catherine percebeu que acabara de encontrar mais uma peça desse quebra-cabeça.
Sara se afastou alguns passos, tentando disfarçar a reação que Catherine havia despertado. Respirou fundo, recolhendo evidências e anotando detalhes do salão como se estivesse completamente concentrada na investigação. Cada movimento era calculado, mecânico — mas a mente fervilhava, girando em torno da imagem de Heather e da frase de Catherine sobre Grissom.
Brass, que a observava discretamente, percebeu imediatamente que algo a havia atingido. Ele não comentou nada, apenas manteve os olhos atentos, registrando cada gesto. Sabia que Sara tentava esconder o que sentia, mas conhecia bem os sinais: o leve tremor nas mãos, o olhar que demorava mais do que o normal em determinados detalhes, o silêncio forçado entre uma frase e outra.
Em voz baixa, enquanto se aproximava para revisar uma pista no chão, ele murmurou quase para si mesmo, mas audível o suficiente para que Sara o ouvisse:
— Esse caso vai mexer com todo mundo… mais do que você imagina.
Sara ergueu os olhos rapidamente, fazendo um esforço para manter a expressão neutra. Mas, por dentro, sabia que Brass tinha razão.
Brass olhou para Catherine e Sara, com aquela cara de “sou sério porque já vi de tudo na vida” que ele sempre carregava.
— Vou interrogar Heather no hospital — anunciou, dando uma pausa dramática, como se fosse o narrador de um filme policial. — Preciso descobrir o que realmente aconteceu.
Sara ergueu a mão, interrompendo-o com um meio sorriso.
— Depois eu te alcanço lá, Jim. — A voz estava calma, mas cheia de determinação.
Catherine cruzou os braços, olhando para a dupla com aquele ar de “esses dois sempre se metem em situações estranhas, e eu adoro observar”.
— Entendido — disse Brass, balançando a cabeça, meio sério, meio rindo por dentro. — Mas não demore, hein. Não gosto de ficar sozinho.
Deu um sorrisinho e saiu.
Sara lançou um último olhar para o salão, absorvendo cada detalhe como se fosse uma obra de arte macabra. Por dentro, a mente dela girava em torno de Heather, Grissom e da curiosidade que teimava em não sossegar. Mas, por enquanto, era hora de trabalhar: evidências, marcas, vestígios — cada pequeno detalhe poderia ser a chave do que realmente tinha acontecido naquela noite.
No quarto do hospital, uma tensão quase palpável pairava no ar. Brass tentava arrancar alguma informação de Heather, que permanecia calma e impenetrável, como se nada à sua volta tivesse importância.
— Eu estava apenas verificando o local para uma festa à moda do Velho Oeste que estou planejando — explicou Heather, com a voz serena e um leve sorriso nos lábios, ignorando a frustração crescente de Brass. — Tinha a permissão do proprietário, Jack Oakley. O que aconteceu foi um incidente, nada mais.
Ela se manteve firme, protegendo o agressor e até mesmo suas próprias roupas. Cada tentativa de fazer com que colaborasse esbarrava na parede de resistência que Heather levantava, mantendo a investigação à distância e, de quebra, deixando Brass com uma mistura de raiva e exasperação que quase era divertida.
Sara entrou no quarto do hospital com passos firmes, mas sem perder o ar de quem observa cada detalhe. Brass a cumprimentou com um aceno discreto, o suficiente para que ela entendesse que ele estava lidando com Heather e, ao mesmo tempo, tentando não explodir de frustração.
— Oi, Sara — disse Brass, com um sorriso meio torto, que tentava disfarçar a irritação. — Tente não enlouquecer com ela.
Sara ergueu uma sobrancelha, fechando a porta atrás de si:
— Muito obrigada pelo aviso, Jim. Mas se tem alguém que consegue se manter calma com Heather Kessler, sou eu.
Heather ergueu os olhos, claramente divertida com a entrada da nova perita.
— Ah, a famosa Sara Sidle. Finalmente vão me examinar de verdade? — disse, em tom de brincadeira, mas com aquele ar de quem controla a situação.
Sara soltou um sorriso curto, jogando a frustração de Brass para o lado.
— Só vou analisar os detalhes do incidente. Nada de drama, prometo.
Enquanto se aproximava da cama, Sara já começou a observar cada sinal, cada marca, cada vestígio. Por dentro, sua mente ainda girava em torno de Heather e, inevitavelmente, de Grissom. Mas por enquanto, era hora de trabalhar: perícia primeiro, sentimentos depois.
Brass soltou um suspiro e recostou-se na parede, assistindo Sara entrar no ritmo do trabalho que ele sabia ser implacável. Heather, por outro lado, parecia mais interessada em jogar com a presença dela do que em colaborar. E Sara, mantendo a calma, decidiu que um pouco de charme seria a melhor arma naquele jogo silencioso.
LH: Já ouvi falar sobre você, mas não a conhecia pessoalmente. É realmente necessário fazer isso?
SS: Sim! Vai nos ajudar bastante no caso, e creio que você não queira, de jeito nenhum, nos atrapalhar. Você parece ser uma mulher muito sensata.
LH: Agradeço sua atenção e compreensão, mas nem todos os seus colegas compartilham da mesma opinião…
SS: Vejo que você e Brass não se entenderam muito bem, né?
LH: As pessoas me julgam pelo meu trabalho. É difícil encontrar respeito; sempre me julgam sem realmente compreender o que faço. Mas tem uma pessoa que adoro… principalmente porque ele, desde que nos conhecemos, sempre me respeitou pelo que sou, nunca me julgou.
SS: Eu entendo. Também sofro com certos julgamentos, principalmente pela ala masculina. Bom, vou fazer meu trabalho rapidamente para que você possa descansar depois.
Sara ajustou luvas e máscara, examinando cada detalhe, avaliando pequenas marcas no corpo de Heather. Anotava, fotografava, analisava fibras e vestígios, cada movimento meticuloso.
Enquanto trabalhava, uma sensação estranha percorreu sua espinha: a impressão de estar sendo observada. Ela não precisou se virar para saber que havia alguém parado na porta.
O ar parecia mais pesado, e o silêncio do corredor contrastava com o som constante do equipamento de perícia. Por um instante, Sara manteve-se imóvel, respirando lentamente, consciente de que qualquer movimento poderia revelar demais — ou de menos.
Ela continuou concentrada em seu trabalho, mas a sensação persistia. Um par de olhos a estudava do outro lado da porta, silencioso e atento.
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