Entre o Amor e as Correntes
23 Capítulo 23
O movimento no laboratório está intenso. Técnicos passam apressados com relatórios, evidências, copos de café. Na entrada principal, o som da porta automática anuncia a chegada de um visitante.
A porta automática se abre e Taylor Wynard entra — terno impecável, olhar seguro, o mesmo sorriso discreto de anos atrás. Ele carrega uma pasta e observa ao redor com curiosidade.
RECEPCIONISTA: Boa noite! Pode se identificar, por favor?
TAYLOR: Claro. Taylor Wynard, Laboratório Criminal de São Francisco. Vim colaborar na investigação de Ronald Basderic.
A recepcionista confirma o cadastro e aciona o interfone.
Poucos segundos depois, Catherine Willows aparece, sorridente, mas já pressentindo o desconforto que a chegada traria.
TW: Boa noite!!! Sou Taylor Wynard! Fui enviado pelo laboratório de São Francisco para auxiliar no caso Basderic.
CATHERINE: (estendendo a mão) Prazer em conhece-lo Taylor Wynard. Sou Catherine Willows e seja bem-vindo a Las Vegas. Gil Grissom, nosso supervisor, está te esperando na sala de reuniões.
TAYLOR: (sorrindo de leve) Obrigado, Catherine. É bom ver um rosto amigável.
Eles caminham juntos pelo corredor. Taylor observa o ambiente e então para abruptamente ao ver uma silhueta familiar ali no corredor. Sara Sidle está de costas, conferindo um relatório com Nick e Greg.
A respiração de Taylor prende por um instante.
TW: Sara!!!
Sara se vira. O choque é mútuo.
SARA: (séria, após alguns segundos) Taylor?
TAYLOR: (sorri de leve) Oi. Ainda tão concentrada quanto antes.
O clima se torna pesado, quase palpável. Nick e Greg se entreolham, desconfortáveis. Catherine percebe e tenta aliviar.
CATHERINE: (quebrando o gelo) Bom, acho que todos se conhecem agora. Taylor vai trabalhar conosco nesse caso do Basderic.
SARA: (forçando um sorriso) Que ironia do destino, não é?
TAYLOR: (olhando-a com intensidade) O destino sempre foi bom em pregar peças pra gente.
Antes que a tensão aumente, Grissom entra na sala. Seu olhar pousa em Taylor — um misto de reconhecimento e cautela.
GRISSOM: (frio, profissional) Wynard. Seja bem-vindo.
TAYLOR: (cumprimenta com um aperto de mão firme) Grissom. Faz tempo?!
GRISSOM: (olha rapidamente para Sara, depois volta a Taylor) Tempo suficiente. Espero que possamos manter o foco no caso.
TAYLOR: (contido, mas firme) Claro. Estou aqui pra isso.
GRISSOM: (olha para a equipe) Atenção de todos. Essa reunião é pra alinharmos as evidências sobre o caso Basderic. Quero foco e nada de distrações pessoais.
O recado é sutil, mas Sara o entende. Taylor também.
Enquanto Grissom explica o andamento da investigação, Taylor mantém o olhar discretamente em Sara, que evita retribuir. Catherine, atenta, percebe o desconforto da amiga e o ciúme contido de Grissom.
Quando a reunião termina, todos começam a sair. Sara recolhe seus papéis, tentando passar despercebida, mas Taylor se aproxima.
TAYLOR: (em tom baixo) Você parece bem, Sara. Está… diferente.
SARA: (curta) As pessoas mudam, Taylor.
TAYLOR: (sorrindo) Algumas mais do que outras.
Grissom aparece de repente ao lado dela, num timing quase cirúrgico.
GRISSOM: (olhando fixamente para Taylor) Wynard, a autópsia do caso estará disponível no final da tarde. Vamos precisar da sua análise de solo.
TAYLOR: (finge naturalidade) Claro. Sem problema.
Sara agradece silenciosamente pela “intervenção” de Grissom. Porém enquanto o ex se afasta, ela sente um arrepio, a sensação de que o passado voltou para mexer em feridas ainda sensíveis.
CATHERINE: (baixinho, enquanto passa por Sara) Acho que Las Vegas vai ferver com esse trio de gênios no mesmo laboratório.
SARA: (suspira, irônica) E quem vai apagar o incêndio, Cath?
CATHERINE: (sorrindo) Você, claro. Como sempre.
As peritas não percebem Taylor em um ponto estratégico do corredor, observando as duas de longe — e uma mensagem chegando em seu celular:
HEATHER: “Lembre-se do plano, Taylor. Faça ela confiar em você de novo.”Ele apaga a mensagem e encara Sara até ela sumir no corredor.
Um meio sorriso se forma em seus lábios.
O jogo começou.
Nos domínios da Dominatrix o silencio imperava. Heather está sentada na ponta da mesa, vestida com seda preta, expressão séria e calculista.
A porta se abre e Ronald Basderic entra. O olhar frio, inquieto, predador e ansioso ao mesmo tempo.
HEATHER:
Você demorou.
BASDERIC:
Tinha… observações a fazer. (ele sorri de canto) Wynard se apresentou ao laboratório hoje.
HEATHER: Ótimo. Já estava na hora da peça final entrar em ação. E?
BASDERIC:
E o clima ficou… tenso.
Sara congelou.
Grissom ficou rígido como uma barra de ferro.
Wynard, bem… aquele sorriso dele continua irritante.
Heather sorri, satisfeita.
HEATHER:
Então os efeitos colaterais começaram. Perfeito.
Basderic joga uma pasta sobre a mesa. Heather abre: fotos de Taylor e Sara em São Francisco, registros antigos de casos deles juntos, relatórios, e um dossiê com detalhes íntimos do passado da perita.
HEATHER:
(tocando as fotos com a ponta dos dedos)
Interessante… você fez seu dever de casa.
BASDERIC:
Eu preciso que o Wynard se envolva emocionalmente.
Nada destrói Sara Sidle mais rápido do que um fantasma afetivo do passado. E se eu conheço o tipo… ele ainda sente algo por ela.
Heather recosta na cadeira, satisfeita, o olhar brilhando com malícia.
HEATHER:
O ex-namorado que nunca superou a mulher brilhante que o deixou. Clássico.
E Grissom? Como reagiu?
BASDERIC: Com ciúmes.
(dá um sorriso cruel)
Um homem racional não sabe lidar com emoções primitivas.
Heather se levanta e começa a andar em volta da mesa, analisando mentalmente cada movimento.
HEATHER:
Excelente. Se Grissom perde o equilíbrio, ele erra.
Se Sara tenta protegê-lo, ela se expõe.
E se Wynard tropeçar nos próprios sentimentos…
(ela para, encarando Basderic com um sorriso afiado)
… o caos está garantido.
Basderic aproxima o rosto, tenso, quase obsessivo.
BASDERIC:
Eu quero vê-la desmoronar, Heather.
Do mesmo jeito que ela me expôs anos atrás.
Eu quero ver a moralista quebrada.
Humilhada.
Desacreditada.
HEATHER: E você verá, mas siga meu ritmo. Eu conheço o laboratório, eu conheço Grissom, eu conheço Sara. E agora… conheço você.
BASDERIC: Wynard vai ser útil?
HEATHER:
Se ele ainda tiver uma fagulha por ela — e eu aposto que tem — vamos usar isso.
Se não tiver…
(ela dá de ombros)
Nós provocamos.
BASDERIC: Ele já recebeu algumas mensagens enigmáticas. Amanhã, Wynard vai ouvir uma história muito… conveniente.
Heather ergue o olhar, felina.
HEATHER:
Amanhã começa a queda de Sara Sidle.
Basderic sorri, satisfeito.
Heather, porém, observa o vidro da janela, o reflexo de sua própria imagem — e por trás da calma absoluta, seus olhos ardem de ódio.
HEATHER: Sidle acha que venceu.
Que tem Grissom, mas tudo isso é frágil.
Tudo isso pode ruir.
E eu?
(ela dá um sorriso lento, perigoso)
Eu adoro quebrar coisas perfeitas.
Em outro ponto...
O quarto é simples, organizado, com malas ainda abertas e anotações sobre o caso em cima da mesa.
Taylor está sentado na cama, camisa semiaberta, visivelmente cansado da viagem e da recepção intensa no laboratório.
Ele esfrega o rosto, respira fundo e olha para o celular, pensativo.
TAYLOR (pensamento):
Sara… ainda tão diferente. Ainda tão ela.
O celular vibra.
Uma mensagem de um número desconhecido.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Você precisa saber a verdade sobre Sara. Não confie em tudo que ela diz.”Taylor franze o cenho, desconfiado.
TAYLOR: — Ah, não… agora não.Ele digita:
TAYLOR: Quem é você?Outra mensagem chega imediatamente — como se a pessoa do outro lado estivesse esperando.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Alguém que quer te poupar de ser usado de novo.”Taylor aperta o celular, irritado.
TAYLOR: Usado? Do que está falando?A resposta vem com uma foto anexada. Sara e Grissom na entrada do laboratório, conversando muito perto. A mão dele na cintura dela — um registro tirado no momento exato em que se afastavam do beijo na sala do supervisor.
Taylor trava.
O maxilar dele se contrai.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Ela não contou, né? Ela é uma mulher casada. E você aí achando que tinha importância.”Taylor aperta os olhos, respira fundo.
A expressão dele mistura dor antiga e incredulidade.
TAYLOR: O que você quer com isso?NÚMERO DESCONHECIDO: “Abrir seus olhos. Sara sempre usou as pessoas emocionalmente. Ela vai te manipular de novo.”Taylor se levanta da cama, começa a andar pelo quarto, tenso.
TAYLOR: Sara não é assim.NÚMERO DESCONHECIDO: “Então por que ela não te avisou que era casada? Por que você descobriu pelos outros? Você acha que ela vai te tratar melhor agora?”Taylor fecha a mão em punho, sente o peito apertar — mágoas antigas reabertas com precisão cirúrgica. Ele veio trazendo na bagagem intenções de reconquistar seu grande amor.
O celular treme na mão de Taylor.
Ele pensa em bloquear… mas não bloqueia.
A dor vira frustração.
TAYLOR: O que você quer que eu faça?A resposta vem instantânea — e venenosa.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Nada. Só observe. Você vai ver por si mesmo quem ela realmente é.”A conversa termina.
Taylor fica parado no meio do quarto, tenso, ferido e agora… contaminado por dúvida.
O celular vibra mais uma vez.
Uma última mensagem.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Amanhã questione ela sobre o relacionamento com o supervisor.”Plantão seguinte
Movimentação intensa nos corredores do turno da noite. Técnicos indo e vindo, luzes frias refletindo no piso.
Taylor Wynard, café na mão, passa pelo corredor em direção ao laboratório de impressões.
Mas ele reduz o passo quando vê — pela porta de vidro semiaberta — Sara e Grissom dentro do escritório do supervisor.
Eles não percebem que alguém os observa. A última conversa com o “número desconhecido” ainda está queimando no pensamento de Taylor.
Já no escritório do supervisor...
Sara joga um relatório em cima da mesa, irritada.
SS: Você sabia que ele viria. Podia ter me avisado antes.
GG: (sereno, mas preocupado)
— Não pensei que te afetaria desse jeito, Sara.
Ela cruza os braços, frustrada.
SS: Afeta porque ele mexe com coisas que eu já deixei pra trás. E porque tudo isso… (gesto entre os dois) ainda é segredo.
As pessoas vão interpretar do jeito errado.
Grissom se aproxima um passo — não tocando, mas perto o suficiente para indicar intimidade.
A voz dele baixa.
GG: Nós vamos contar quando você estiver pronta.
Não preciso que o laboratório saiba, preciso que você se sinta segura.
O olhar de Sara suaviza um pouco.
Ela suspira, cansada.
SS: É só… complicado. Com Wynard aqui, com Heather… com tudo.
Grissom encosta uma das mãos na mesa, perto da dela, sem tocar.
Fala mais baixo ainda.
GG: Eu estou com você.
O resto a gente administra juntos.
Enquanto isso Taylor continua sua observação.
De onde está, pela porta entreaberta, parece que:
eles estão muito próximos,muito íntimos,discutindo como casal.A mão dele parece tocar a dela (mesmo que não toque).
O tom suave parece algo que não é profissional.
Taylor sente o estômago revirar.
A mandíbula dele endurece.
Aquela voz venenosa da mensagem ecoa:
“Ela está com ele. Você nunca significou nada.”
Ele observa mais.
Sara, irritada, passa a mão no cabelo. Grissom a segue com o olhar — preocupado, quase protetor.
Taylor fecha a expressão, a interpretação feita:
Ela confiou nele, não em mim.
Escondeu de mim.
E agora age como se nada tivesse acontecido.
O celular vibra de novo.
Ele olha discretamente.
NÚMERO DESCONHECIDO: “Eu avisei. Eles estão juntos. Você só está vendo o que ela esconde.”Taylor guarda o telefone com força, sem responder.
Ele dá um passo para trás, respirando fundo, engolindo a mistura de mágoa, ciúme e sensação de ridículo.
Já no escritório...
Sara se recosta na mesa, exausta.
SS: Eu preciso voltar pro caso.
E você…
(não termina a frase)
— Só tenta não criar atrito com ele, ok?
Grissom inspira como quem tenta conter algo mais profundo.
GG: Vou tentar. Por você.
Eles trocam um olhar silencioso — cúmplice.
Taylor vira as costas antes de ver o olhar.
Caminha rápido pelo corredor, fingindo foco, mas claramente abalado.
Ele sussurra, quase inaudível: Claro… por ela. Sempre foi por ela.
E segue em direção à sala de análises, levando consigo a semente plantada pela manipulação — agora regada pelo que viu.
Com o passar das horas...
Grissom sai do escritório com uma pilha de relatórios nas mãos.
Taylor passa pelo corredor, vindo na direção contrária.
Quando se cruzam, Grissom inclina a cabeça num gesto cordial.
GG: Wynard. Como está se ajustando?
Taylor nem tenta disfarçar o olhar duro.
TW: (seco) Como dá pra ser, considerando certas… situações internas daqui.
Grissom pisca, surpreso com a hostilidade aberta, mas mantém o tom calmo, profissional.
GG: Se algo estiver interferindo no trabalho, você pode trazer até mim.
Taylor sorri — um sorriso frio, mal disfarçado de ironia.
TW: Ah, supervisor… Pode deixar. Eu sempre trago as coisas certas na hora certa.
Ele passa direto, deixando Grissom parado, confuso com o comportamento.
Antes que possa processar mais, Ecklie aparece no corredor.
CE: Grissom, reunião. Agora.
Grissom respira fundo, ainda desconfortável com o encontro estranho, mas segue.
Antes de ir até o supervisor, Ecklei havia pedido Sara para ir em uma cena levando consigo Taylor.
O sol forte de Las Vegas ilumina a área isolada onde estão uma viatura e dois kits de coleta.
Sara e Taylor caminham lado a lado em silêncio — pesado, incômodo.
Sara tenta puxar o clima para algo profissional.
SS: A vítima foi arrastada até aquela curva. Vou fotografar enquanto você...
TW: Quanto tempo?
Sara franze a testa.
SS: Quanto tempo o quê?
Taylor vira de uma vez.
Os olhos estão cheios de ressentimento e agitação.
TW: Quanto tempo você está casada com ele?
Sara fecha o kit devagar.
Não estava preparada para aquilo — não ali.
SS: (suspira) Há alguns meses que moramos juntos, mas oficialmente casados tem pouco tempo.
Taylor ri sem humor.
TW: Claro que estão.
Por isso aquela cumplicidade toda no laboratório.
Por isso os olhares.
Por isso você mentiu.
SS: Eu não menti pra você. Eu só… não tenho que te contar nada da minha vida pessoal. A gente não faz mais parte da vida um do outro, Taylor.
Ele respira fundo, mas não há controle.
Só raiva crescendo.
TW: Mas deveria ter contado. Eu merecia saber!
Sara dá um passo para trás, firme.
SS: Não, você não merecia. O nosso relacionamento acabou há anos. E eu segui em frente.
As palavras agridem mais do que deveria.
Ele perde o eixo.
A voz dele treme.
TW: Seguiu… com ele. Com o cara que apareceu e te levou de mim!
Sara recua, chateada.
SS: Taylor, isso não é hora. Nem lugar.
Vamos focar no trabalho e ...
TW: POR QUE VOCÊ SE CASOU COM ELE?
SS: Isso não te diz respeito.
Taylor não aguenta.
Explode.
TW: Isso diz respeito a mim porque VOCÊ...
Ele avança de repente, descontrolado, e ACERTA UM TAPA no rosto de Sara.
O impacto ecoa.
Sara gira o rosto, mas se mantém de pé, instintivamente levando a mão à barriga.
SS: (baixa, mortal) Não se atreva…
Ela dá um passo para frente, pronta para reagir — dura, incisiva — quando...
O grito vem antes do golpe.
WB: NÃO SE BATE EM UMA MULHER, PRINCIPALMENTE GRÁVIDA!
Warrick acerta UM SOCÃO direto no maxilar de Taylor, que cai no chão com força, atordoado.
Sara segura o braço de Warrick antes que ele avance de novo.
SS: Warrick!
Tá tudo bem… tá tudo bem…
Taylor toca o rosto, atônito — não pelo soco.
Mas pelas palavras.
Mulher grávida.
TW: (engasgado, chocadíssimo)
— Grá…vida…?
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