Entre o Amor e a Razão
6 Capítulo 5
— Pensei que você havia esquecido. O que está acontecendo com o senhor, Darcy Williamson? Como pôde deixar Julieta Bittencourt esperando por tanto tempo? – As reclamações de Susana atordoavam os pensamentos de Darcy; como uma música irritante tocando repetidamente e incomodando os ouvidos. Julieta observava o surto daquela mulher com indiferença. Questionava-se mentalmente se havia caído em algum circo ao invés da sala onde deveriam estar seus futuros sócios: duas pessoas profissionais e centradas, ela imaginava. Camilo estava ao seu lado. O rapaz parecia entediado e impaciente com a cena patética protagonizada por Susana.
— Vocês poderiam, por gentileza, deixar para resolver as desavenças em outra ocasião? Penso que neste momento temos coisas mais importantes a tratar. – Julieta levantou-se, encarando Darcy e Susana.
— Desculpe-me pelo atraso Julieta. A chuva deixou a estrada péssima. Enfrentei alguns problemas para chegar até aqui. – Ele não queria, mas precisou mentir. Precisou omitir que esteve durante alguns minutos na Casa de Chá de Agatha, reorganizando os pensamentos antes de começar a pensar no trabalho.
— Tudo bem Darcy, o que eu quero é resolver o quanto antes a questão da compra das terras e voltar o mais rápido possível para São Paulo. Camilo ficará por mais alguns dias, caso seja necessário algum representante meu por aqui. – Julieta, embora gostasse dos ares do interior preferia morar na capital. De lá ela administrava parte de seus negócios com maior comodidade.
— Ótimo. Podemos começar hoje mesmo as negociações. Camilo, você pode nos acompanhar?
— Claro Darcy! Estou bastante entusiasmado. Quero aprender e ajudar o máximo possível. – Respondeu Camilo, trocando um aperto de mão com Darcy.
— Quero visitar os produtores mais influentes desta região. Eles serão meus principais concorrentes, preciso avaliar como andam os grandes negócios por aqui. – Disse Julieta.
— Não são muitos. O mais conhecido deles é Felisberto Benedito. Podemos tentar conversar com ele hoje mesmo, se a senhora quiser. – Susana sugeriu, empolgada.
— Perfeito. Darcy, Camilo, alguma objeção? – Ela encarou os dois rapazes.
— Nenhuma. – Ambos responderam.
•••
Era a segunda vez que Darcy Williamson pisava naquela propriedade. Na primeira vez tinha ido por divertimento; naquela ocasião iria a negócios. Jane Benedito abriu a porta logo que escutou a primeira batida. A moça estava na sala, bordando um lenço. Julieta, Darcy, Susana e Camilo encaravam-na esperando alguma reação por parte dela. A menina de cabelos dourados gentilmente os convidou a entrar. As senhoras foram as primeiras a adentrar a propriedade. Examinando-a com curiosidade. Por último passaram Darcy e Camilo. Após as devidas e apressadas apresentações, Susana disse:
— Senhorita Jane, gostaríamos de conversar com seu pai, Sr. Felisberto, ele se encontra em casa? – Perguntou-lhe. Sua voz era altiva.
— Não senhorita Susana. Infelizmente meu pai saiu bem cedo, se não me engano está na cidade vizinha a negócios. Mas Elisabeta está no escritório. Ela pode responder por ele, caso queiram. – Jane sugeriu, delicadamente. Susana e Julieta se entreolharam. Camilo mantinha o olhar direcionado à Jane, estava abismado com a beleza da moça. Darcy sentiu o coração aquecer ao escutar o nome de Elisabeta novamente.
— A senhorita sabe informar quando seu pai retorna? – Julieta perguntou, ignorando a informação anterior.
— Perdão por desapontá-los, mas não tenho essa informação. Reitero que Elisabeta pode informá-los melhor do que eu. É o braço direito de meu pai nos negócios. – Jane de fato era alheia a tudo relacionado aos negócios da família. Ela sabia que sempre que o pai viajava, os dias de afastamento eram completamente oscilantes; às vezes retornava em dois dias, outras vezes em duas semanas. Seu retorno dependia de inúmeras questões.
— Agradeço profundamente se a senhorita nos acompanhar até sua irmã. – Disse Julieta apresentando em sua face um sorriso contido.
— Claro, acompanhem-me por aqui. – Respondeu Jane, educadamente.
Elisabeta estava debruçada sobre muitos papéis. Ao ouvir batidas na porta levantou-se, se surpreendendo com tantas pessoas à sua frente. Os olhos de Elisabeta percorreram um por um, parando, curiosamente, em Darcy. O rosto mais “familiar” de todos os quatro.
— Sr. Williamson. Srta. Adonato... A que devo a honra? – Perguntou, convidando-os a entrar.
— Viemos conversar com seu pai, senhorita Elisabeta. Mas ficamos cientes através da sua irmã de que ele não se encontra no momento. A senhorita poderia nos informar, por gentileza, quando o Sr. Felisberto estará de volta? – Perguntou Darcy, com a voz educada e gentil.
— Talvez no final da semana. Esse é um tipo de pergunta cuja resposta é bastante incerta. – Ela sorriu para ele, com os olhos bem abertos. O sorriso deixou leves marcas de expressão em sua testa.
— Bom, já temos a informação que precisávamos. – Ela olhou para seus sócios por uns instantes. – Obrigada senhorita Benedito. – Disse Julieta, antes de se retirar apressadamente. Susana e Camilo acompanharam-na. Elisabeta olhou para as duas mulheres, fazendo uma careta engraçada. Darcy permaneceu no mesmo lugar, fitando-a. Ele parecia desconcertado.
— Perdão pela indelicadeza de minhas sócias. Mulheres de negócios e suas personalidades fortes... já dá para imaginar... – Darcy estava se sentindo desconfortável com o modo que Julieta se dirigiu à Elisabeta. Após finalizar seu comentário ele piscou o olho para a moça à sua frente. Mantendo um sorriso de lado.
— Tudo bem. Espero que, mesmo com esse humor ácido, elas consigam o que pretendem. – Disse ela. Darcy não conseguiu evitar sorrir com aquele comentário. Ele permaneceu parado, encarando-a por mais alguns segundos. Poderia ter seguido seus sócios, poderia ter saído assim que obteve a informação que precisava, mas simplesmente não conseguia mover-se daquele lugar. Queria permanecer ali, com ela, escutando-a, prestando atenção nas palavras engraçadas e contagiantes que ela emitia quando se sentia irritada. “Descoberta número quatro: Elisabeta possuía um maravilhoso senso de humor.”
— Então, Sr. Darcy, vai ficar ai parado? – Perguntou ela, recostada na porta do escritório.
“Por que ela perguntou aquilo?” Não havia nenhum tipo de malícia nas palavras de Elisabeta, mas instantaneamente a mente de Darcy imaginou a mão dele envolta da cintura dela, os dois se olhando, os rostos a poucos centímetros um do outro, sentindo a respiração acelerada de ambos se misturarem...
— Então... – Ele parecia buscar as palavras no mais íntimo de seu consciente, após parar de imaginar cenas inapropriadas. – Meus sócios, ou melhor, minhas sócias foram um tanto indelicadas com a senhorita. Eu me sinto no dever de retratá-las.
— Não precisa se preocupar com isso, Sr. Darcy. Nessa vida já lidei com pessoas bem piores do que elas. Se você tivesse conhecido o Mr. Thompson... – Ela sorriu mantendo-se cabisbaixa. Elisabeta começou a organizar uma pilha de papéis que estava a ponto de desmoronar a qualquer momento.
— Julieta tem anseios bastante ousados. – Darcy passou a caminhar pela sala, colocando as mãos para trás enquanto falava. – Acho que é por essa razão que ela preferiu falar diretamente com seu pai.
— Hum. O senhor pretende aguçar minha curiosidade? – Elisabeta o encarou, erguendo as sobrancelhas e voltando a se concentrar na organização dos papéis.
— Ao contrário, minha vontade é dividir algo com a senhorita. Pelo que pude perceber a senhorita é graduada em ciências econômicas, provavelmente tem algum ponto de vista importante sobre nossas ideias.
— Bom Sr. Darcy, se eu puder ajudá-lo em alguma coisa ficarei bastante satisfeita. Afinal de contas sua sócia, ao que parece, não depositou confiança alguma em mim. Me senti um pouco inferiorizada, inclusive.
Darcy sorriu para Elisabeta. Provavelmente estaria dando o seu sorriso mais bobo, mais bobo e genuíno.
— Se ela soubesse a capacidade que a senhorita possui, certamente teria puxado essa cadeira e passado horas ouvindo-a. – Ele parou por um instante, aproximou-se da mesa e começou a ajuda-la a organizar os papéis.
Elisabeta ficou em silêncio. Apenas olhou para ele e balançou a cabeça, sorrindo. Sorrir é uma das maneiras mais genuínas de se demonstrar inúmeros sentimentos. E um deles é a timidez. Aos poucos Elisabeta sentia-se tímida perante alguns comentários de Darcy. Perante alguns olhares mais intensos e desconcertantes. Ele conseguia deixá-la envergonhada com muito pouco e aquilo não era normal para alguém como Elisabeta Benedito.
•••
— Não dará certo, sr. Darcy! – Elisabeta e Darcy já haviam arrumado toda a mesa. Ela estava impecável. Após alguns minutos conversando e trabalhando, ele lhe explicou parte da ideia discutida durante semanas e que estava prestes a ser posta em prática por ele e por seus sócios. – Pode parecer piegas o que vou lhe dizer, mas os pequenos produtores da nossa região jamais irão abrir mão tão facilmente de suas terras. O pequeno chão é a única fonte de renda deles.
Elisabeta não tinha a intenção de desapontá-lo, mas também não achava justo que o rapaz se iludisse daquela forma.
— Eu não vejo por essa perspectiva negativa. Não sou eu quem irá negociar diretamente com essas pessoas, e sim a Rainha do Café. A senhorita deve conhecer bem a influência de Julieta Bittencourt. – Darcy mantinha uma ponta de esperança no olhar, que fazia com que Elisabeta titubeasse em alguns momentos.
— Eu entendo o fato de o senhor ser engajado nesta ideia. E eu admiro muito essa sua virtude. Mas meu pai já tentou, anos atrás, essa mesma estratégia e nunca conseguiu nada com isso. Os produtores daqui são irredutíveis. Dona Julieta é sim muito influente. Mas a influência não é tudo no mundo dos negócios.
— Espere, senhorita. – Ele exclamou e, em seguida, permaneceu em silêncio por alguns minutos, parecia querer organizar as ideias. – Eu não sei por que estou te falando tudo isso. Tecnicamente o seu pai e a Julieta são concorrentes diretos e se meus sócios desistirem da ideia é conveniente par...
— Darcy, pare! – Elisabeta o interrompeu e, em seguida, permaneceu em silêncio por alguns segundos. – Como o senhor pode pensar algo assim de mim? De veras me julga tão egoísta?
— Não, Elisabeta eu estou me referindo aos negócios, pelo amor de Deus não leve para o lado pessoal, eu jamais a julgaria. Jamais. –Darcy segurou as mãos dela, num ato nervoso.
— Pois saiba, Sr. Darcy, que eu jamais agiria de má fé com alguém dessa forma. Nem se esse alguém fosse o concorrente mais poderoso do mundo. – Elisabeta continuou falando sem ouvir o que Darcy dizia.
O olhar de Elisabeta expressava um desgosto fora do comum. Após ouvir as palavras de Darcy, foi impossível para ela manter um contato visual com ele novamente. O objeto mais simples que ornava aquela sala parecia ser mais interessante e digno de se observar, do que ele.
— Me desculpe Elisabeta. Eu fui um idiota, um perfeito idiota, jamais imaginei que minhas palavras poderiam feri-la dessa maneira. – Darcy emitiu tais palavras com dificuldade. Institivamente ele se aproximou dela, colando suas mãos naquele pequeno rosto. Em contrapartida, Elisabeta mantinha os olhos semicerrados. Eles expressavam decepção. Eles queriam derramar lágrimas que ela insistia em freá-las. Darcy olhava fixamente para ela, sentindo a respiração acelerando na medida em que a respiração dela também parecia descompassar. Desde que se conheceram, aquela havia sido a primeira vez que ambos estiveram tão próximos um do outro. Darcy demonstrava arrependimento genuíno em seu olhar. Queria naquele instante ter o poder de voltar no tempo. Voltar no tempo e dizer o quanto aquela mulher à sua frente era incrivelmente maravilhosa. O quanto sua postura o admirava. O quanto os seus conselhos o estavam ajudando. O quanto ele sentia-se agradecido por ela lhe dar ouvidos quando muitos viravam as costas. E o quão impensadas haviam sido aquelas palavras. Elisabeta fitou-o por uma fração de segundos, em seguida retirou as mãos dele do seu rosto.
— Nunca mais volte a me dirigir a palavra. – Sua voz saiu firme e decidida. Darcy sentiu seu corpo paralisar naquele momento. Antes que Elisabeta abrisse a porta para sair, John apareceu na soleira, de súbito. Elisabeta suspirou e o abraçou, afundando o rosto no peito dele. O rapaz parecia confuso. Desde que Darcy resolveu permanecer no escritório, conversando em particular com Elisabeta, ele sentiu certo incomodo, mas não quis contestar. Elisabeta segurou firme a mão dele e ambos se retiraram. Darcy saiu em seguida. Ao passar pela sala de visitas, seu olhar cruzou novamente com o de Elisabeta. A moça desviou-se dele imediatamente. Em seguida, ela apoiou a cabeça no ombro do namorado. John continuou sem entender nada do que estava acontecendo. Pela expressão de Elisabeta não era nada agradável. Darcy deixou a mansão de cabeça baixa. Há muito tempo não se sentia tão perdido como naquele dia.
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