Uma das coisas mais complicadas para uma pessoa que não tem o hábito de mentir é, obviamente, ter de inventar uma mentira de última hora. Elisabeta passava por esse conflito pessoal. Após ter dado um ponto final àquela conversa desagradável que havia tido com Darcy, a moça teve de manter um jogo de cintura para conseguir convencer John a acreditar que entre ela e o rapaz não havia acontecido nada de aborrecedor naquela sala. Entretanto, ao deixar o escritório e encará-lo, John pôde perceber que ela estava com os olhos vermelhos, como se tivesse chorado durante horas. Na realidade, ela não havia derramado uma lágrima sequer; Elisabeta simplesmente sentia seu coração magoado e queria manter a máxima distância possível do homem que acabara de deixar a propriedade.

Alguns minutos após a saída de Darcy, John pediu a Elisabeta que ela o acompanhasse até o escritório novamente, pois precisava falar a sós com ela.

— O que Darcy Williamson fez para te deixar desse jeito, Elisabeta? Em todos esses anos de convivência, nunca a vi tão abatida, muito menos por conta de uma reunião de negócios. – John encarava Elisabeta com desconfiança, pois pressentia que ela estava lhe ocultando algo importante.

— Nada, John, ele não me fez nada. Apenas me senti indisposta. Passei o dia inteiro trabalhando, estou exausta. Apesar de tudo eu ainda sou humana. Está bem? – Elisabeta pôs as mãos na cabeça. Não imaginava a bola de neve que aquilo se transformaria.

— Mas e ele? Por que ele saiu daquele jeito?

— Jeito? De que jeito?

— Com cara de cachorro arrependido.

— Nossa John! – Elisabeta riu nervosa. – Você faz ideia do absurdo que está falando? O que é isso afinal, uma cena de ciúmes?

— Elisa, por favor, eu não sou bobo. Por que você está acobertando ele? Ele deu em cima de você, foi isso?

— Eu não posso continuar aqui ouvindo seus absurdos Morland. Não tenho paciência nem estômago para crises incabíveis de ciúme a uma hora dessas. – Elisabeta estava prestes a sair quando John a puxou pelo braço, com delicadeza.

— Me desculpe Elisa. Me desculpe por ter me excedido. É que qualquer pessoa que visse a maneira como vocês dois deixaram esta sala, a forma como se olharam... Qualquer um poderia sentir curiosidade e questionar.

— Você está questionando à toa John. Sr. Darcy e eu conversamos sobre negócios e minha dor de cabeça aumentou. Foi apenas isso.

— Está bem, meu amor. É óbvio que eu acredito em você. Apenas fiquei preocupado. Muito preocupado com a sua reação. Mas vamos esquecer isso, não é? – Ele perguntou, depositando um beijo na testa de Elisabeta.

— Sim, vamos! – Elisabeta sorriu com dificuldade. Pois seus olhos transbordavam angustia.

— Mas saiba que, se você voltar comigo para a Europa, sua vida jamais será conturbada dessa maneira. Adeus negócios estressantes, adeus à obrigação de ter que aturar pessoas indesejáveis. – Ele retomou um assunto que ambos haviam decidido há bastante tempo. Desde que começaram a namorar, Elisabeta deixou claro à Morland que estava na Inglaterra por tempo determinado, apenas até o ano em que terminaria seus estudos. Mas que voltaria para sua terra natal assim que os concluísse. Morar naquele país estava fora de cogitação para ela. No entanto, o rapaz tinha a esperança de que, com o tempo, ela mudasse de opinião.

— John. – Elisabeta se desvencilhou de um abraço e passou a encará-lo, seriamente. – Nós já conversamos sobre isso. Há seis anos.

— Eu sei... Mas e nós, como ficamos? O tempo ao seu lado é tão precioso, Elisabeta, mas ele está se esgotando. – John estava de frente para a namorada, dando uma espécie de ultimato a ela.

— Será que podemos falar sobre isso outra hora? – O olhar pesado de Elisabeta suplicava aquilo. A única coisa que ela precisava fazer naquele momento era subir até seu quarto, tomar um banho e dormir, dormir como se não houvesse amanhã. E foi exatamente o que ela fez. Embora a tarefa não fosse tão fácil quanto ela esperara, pois Darcy Williamson seguia invadindo seus sonhos, tornando-os agridoce.

•••

Apesar de conhecer Darcy há pouco tempo, Elisabeta havia estabelecido em sua cabeça uma visão bastante simpática sobre ele. Ela não se considerava uma mulher dada à fazer julgamentos nem primeiras impressões a respeito de ninguém. Achava isso um péssimo hábito que deveria ser abolido. Mas, devido ao modo educado que ele apresentara na festa e, logo em seguida, na segunda vez que se encontraram casualmente na escola, Elisabeta viu em Darcy a possibilidade dele se tornar um bom amigo e até mesmo um sócio da família no futuro. Mas depois do episódio passado ela desconsiderou por completo a ideia.

Nos momentos em que refletia toda a situação, Elisabeta concluíra que a proximidade dela com Charlotte também passava a ser um peso de consciência. Só de imaginar que ela poderia encontrar Darcy novamente na escola, com a desculpa de que estaria apenas prezando pela segurança da irmã fazia seu peito vibrar. Não vibrar de felicidade, mas de agonia. Não entendia como, nem o porquê, mas Darcy estava fazendo seus sentimentos virarem às avessas.

Ela não sabia definir exatamente qual era o nível de raiva que estava sentindo dele. Darcy a havia julgado precipitadamente. Mas isso seria motivo suficiente para nutrir e absolver tanto ressentimento assim? Durante toda a vida Elisabeta já havia batido de frente com muitas pessoas, em diversas situações diferentes. Já havia enfrentado produtores arrogantes, professores autoritários, colegas machistas, mas isso nunca tinha surtido um efeito tão significativo nela. A ponto de fazê-la temer determinadas situações; demorar horas para pegar no sono à noite; inventar maneiras de despistá-lo ou evitá-lo.

O ressentimento dela para com Darcy Williamson era mais intenso e perturbador que qualquer outro que já tenha nutrido em seu interior. Era algo que havia ficado em aberto. Ele definitivamente não a conhecia para julgá-la uma mulher de caráter egoísta ou manipulador. E ela não lhe deu a chance dele se explicar efetivamente. Aquele emaranhado de dúvidas estava deixando Elisabeta bastante angustiada. Pelo bem da sua saúde mental, ela resolveu parar de pensar em Darcy definitivamente. Também decidiu não se aproximar do Williamson nunca mais em sua vida. Mas o problema é que para manter distância, ambas as pessoas envolvidas têm de estar em comum acordo. E Darcy não pretendia seguir à risca as regras daquele acordo.

•••


Eram 6h30 da manhã quando Darcy avistou Elisabeta atravessando a rua apressadamente, indo em direção à escola. A moça estava de cabelos soltos e os primeiros raios de sol faziam um contraste perfeito quando entravam em contato com aqueles fios castanho-claros. Aumentando sua caminhada, o rapaz a seguiu cautelosamente de modo que ela não percebesse sua presença. Não queria assustá-la, tampouco perder a oportunidade de se desculpar com ela novamente. Em suas mãos Elisabeta carregava livros. Uns cinco exemplares. Darcy pensou em oferecer sua ajuda para carregá-los.


— Srta. Benedito. — Ao ouvir e reconhecer a voz de Darcy, Elisabeta não olhou para trás, simplesmente aumentou o ritmo da caminhada. – Eu só quero conversar com a senhorita, amigavelmente... – O rapaz insistiu. Ao perceber que ela havia parado no meio da rua, ele fez o mesmo.

— Amigavelmente? – Perguntou ela, virando-se na direção dele. – Desde quando amigos desconfiam cegamente de amigos? – A expressão da moça era de indiferença e desdém.

— Eu jamais desconfiaria da senhorita. Aquelas palavras saíram no calor do momento. Se a senhorita permitir eu posso me explicar. Eu só preciso de um pouco do seu tempo.

— O senhor não precisa me explicar nada, Sr. Darcy. Tudo ficou muito claro naquele dia: O senhor acha que sou uma egoísta. Não é isso?

Darcy ousou dar alguns passos a diante. Em contrapartida, Elisabeta permanecia parada no mesmo lugar, encarando-o sem demonstrar trégua alguma. Darcy resolveu oferecer a ela sua ajuda para carregar os livros. Porém Elisabeta recusou de imediato.

— O egoísta fui eu por não tê-la escutado. A senhorita estava coberta de razão. – Darcy começou a falar, quebrando o silêncio que havia se instalado ali. – Talvez se eu tivesse escutado seus conselhos teria evitado um vexame enorme com minha equipe.

— Disso eu não tenho a menor dúvida. – Ela abriu um sorriso convencido. – Deixe-me adivinhar... Seu Conrado colocou o senhor e seus demais sócios para correrem da propriedade dele sob a ameaça de uma espingarda? – Elisabeta riu, imaginando a situação desastrosa.

Darcy a encarou com os olhos arregalados.

— Foi exatamente isso que aconteceu. Como a senhori...

— Como eu sei? – Elisabeta tomou para si a pergunta. – Digamos que papai e eu já passamos por uma situação parecida tempos atrás.

— Mesmo? – Os dois riram. Pareciam se divertirem da situação vivenciada. – Eu não imaginava que esses produtores fossem tão bravos. Julieta prometeu não colocar os pés nunca mais no Vale do Café após o ocorrido.

— É... como eu disse naquele dia, se querem continuar com a ideia absurda, o melhor é vocês arriscarem outra estratégia mais eficiente para conseguir as terras. – Ela sorriu em tom irônico. – Passar bem, senhor Darcy.

— Espere senhorita. Por favor. – Ele se aproximou mais ainda dela, posicionando-se ao seu lado. – Será que eu poderia acompanhá-la até a escola? Tenho um recado por parte de Charlotte.

— Bom, a rua é pública. Não posso impedir o senhor de seguir o mesmo trajeto que eu. Só não garanto lhe dirigir a palavra até lá.

—Está bem. Eu só preciso que a senhorita me escute, só isso.


Elisabeta o encarou, com os olhos semicerrados. Depois balançou a cabeça, mantendo nos lábios um sorriso tímido. Darcy era um enigma para ela. Ela sentia uma pitada de raiva dele, entretanto, não conseguia compactuar com a promessa que havia feito de manter distância. De alguma forma a companhia dele lhe parecia agradável.

— Com todo respeito, o namorado da senhorita não se ofereceu para acompanhá-la hoje? – Segundos depois de fechar a boca Darcy sentiu arrependimento por ter perguntado aquilo. Parecia inconveniência de sua parte.

— John regressou ontem à Inglaterra. O plano era passar apenas uma quinzena conosco. Meu namorado é muito requisitado em Londres. – Ela quis parecer ríspida, mas suas palavras atingiram Darcy de forma positiva. – E eu não preciso da companhia de cavalheiro algum para me dirigir até a escola. Sei me virar sozinha.

— Será que já vamos começar outra briga? Eu me recuso terminantemente. – Darcy levantou as duas mãos, mantendo-as abertas e sorriu, fitando-a serenamente.

— Parece ser impossível permanecermos mais de dois minutos sem brigarmos. – Elisabeta disse, lhe retribuindo um sorriso.

— Mas isso pode ser diferente. Se quisermos... Eu garanto fazer o possível e o impossível para não ser um estorvo para a senhorita. Dou-lhe minha palavra de honra.

— Você não é um estorvo, senhor Darcy. – Ela o encarou. Seu olhar era mais sereno do que a minutos antes. – Pois bem, se conseguir manter esse acordo, pensarei na possibilidade de tolerá-lo por mais de dois minutos.

— Combinado, então. – Darcy estendeu a mão para Elisabeta. Ela, no entanto, hesitou em correspondê-lo, mas se deixou levar por aquele olhar cheio de expectativa e beleza.

— Bom Sr. Darcy, antes deste acordo lembro-me que o senhor tinha um recado de Charlotte para mim. – Aquele aperto de mão havia se estendido tempo suficiente para Elisabeta começar a sentir um calafrio percorrer seu corpo.

— Claro! Esse foi um dos motivos que me trouxe até aqui! Charlotte me pediu para lhe avisar que não poderá vir ajudá-la hoje, senhorita. Ontem à tarde ela saiu a cavalo para passar o tempo; passou a tarde inteira cavalgando e foi surpreendida com aquela forte chuva de fim de tarde. Resultado: acordou hoje com um resfriado daqueles.

— Ah, que pena. Por gentileza sr. Darcy, diga à ela que mando meus mais sinceros desejos de melhoras.

— Mando sim, pode deixar! – Darcy sorriu para Elisabeta, em agradecimento.

— Acho que chegamos... – Disse ela, encarando a faixada da instituição. Ambos pararam em frente ao portão da escola. Darcy observava fixamente Elisabeta enquanto ela tentava por pura teimosia equilibrar a pilha de livros nos braços e, ao mesmo tempo, colocar algumas mechas rebeldes do seu cabelo por trás da orelha. Aquela havia sido a primeira vez que Darcy a viu de cabelos soltos. Elisabeta parecia mais à vontade em sua presença. Mas ao mesmo tempo ainda parecia um pouco ressentida com ele. Ou estaria apenas triste com a volta de John à Inglaterra? Aquelas dúvidas ficariam restritas apenas à imaginação de Darcy, pois em hipótese alguma cogitaria questioná-la. Darcy deixou a escola pontualmente às sete. Havia passado meia hora ao lado de Elisabeta. Observando cada movimento dela; ouvindo atentamente cada palavra; sentindo mais uma vez o perfume inconfundível dela. Em contrapartida, Elisabeta sentiu dificuldade para dar início à aula. A presença de Darcy parecia uma constante naquele ambiente, embora ele já tivesse se retirado há bastante tempo. Havia uma conexão entre ambos, algo que estava além do entendimento deles. Por mais que Elisabeta tentasse fugir, algo em seu interior a traíra quando o assunto era Darcy Williamson. A imagem daquele rapaz volta e meia surgia em sua cabeça, desorientando e confundindo seus pensamentos.

•••

— Charlotte você não é mais criança e eu não tenho todo o tempo do mundo. Vamos, por favor, tome os remédios que o médico recomendou. – Darcy estava de pé ao lado da cama, com as mãos no bolso fitando severamente a irmã.

— Eu já estou me sentindo bem, Darcy. Não sei por que esse médico quis me empurrar tantos remédios. – A menina estava com a voz rouca, sentindo dificuldade para falar. A garganta parecia estar ainda bastante inflamada.

Darcy começou a andar pelo quarto, passando as mãos pelos cabelos, demonstrando impaciência. O rapaz parecia cansado. Havia passado a tarde inteira no escritório, trabalhando intensamente.

— Eu não sei lidar com a sua teimosia Charlotte. Sinceramente não sei. – Charlotte olhou para Darcy como quem não estava dando a mínima para ele. O que o deixava ainda mais irritado.

— Você se preocupa demais meu irmão, calma! É apenas um resfriado. Mais um dos tantos que eu já tive na vida.

— Você sabe que não me preocupar é humanamente impossível, não é? Lembre-se que somos só eu e você. Apesar das suas teimosias constantes, você é a pessoa mais importante da minha vida. Não se esqueça disso! – Darcy sentou-se ao lado da irmã, segurando suas mãos. Charlotte aninhou-se sobre o peito dele, fitando-o.

— Hum. Será mesmo que sou a única? Eu tenho as minhas dúvidas senhor Darcy Williamson... E só não sinto ciúmes porque a dama em questão me agrada muito. – Charlotte lhe lançou um sorriso travesso.

— Ah, é mesmo? E eu posso saber de quem se trata a minha pretendente? Susana certamente não há de ser. – Darcy puxou a ponta do nariz da irmã, e ela revirou os olhos ao ouvir o nome da sócia dele.

Charlotte estava se preparando para responder a pergunta do irmão quando foi interrompida por um barulho de buzina vindo do lado de fora da casa. Ela olhou para Darcy, curiosa. Ele então pediu licença para averiguar quem havia chegado.

Ao abrir a porta o rapaz teve uma agradável surpresa: Lá estava Elisabeta Benedito despedindo-se de seu motorista. O carro partiu e ela então caminhou em passos lentos até Darcy, exibindo um sorriso enigmático. “Como era possível ela estar cada vez mais linda?” Darcy se perguntava mentalmente.

— Senhorita Elisabeta. – Disse ele, cumprimentando-a.

— Olá Sr. Darcy, como vai? Perdão por aparecer assim de surpresa e a essa hora. – Elisabeta olhou para cima e se deu conta que o céu já estava completamente escuro. – Passei a tarde inteira preocupada com Charlotte. Como está sua irmã?

— Ela está melhor. Mas anda fazendo birra para não tomar a medicação. Acredita? – Disse ele, sorrindo. Elisabeta passou alguns segundos com o olhar atado àquele sorriso.

— Talvez eu possa dar uma ajudinha. Enfrentei muito esse problema de birra adolescente com minhas quatro irmãs mais novas. – Elisabeta lhe lançou uma piscadela antes de ambos entrarem na casa.

Charlotte abriu um sorriso largo quando Elisabeta e Darcy passaram pela porta do quarto. Elisabeta se aproximou da cama para cumprimentá-la e aproveitou para lhe entregar uma caixa de bombons, alegando que adoçaria aqueles tediosos dias de repouso. Charlotte agradeceu imensamente pela preocupação e gentileza de sua mais nova amiga. Ao constatar que a garota estava bem de saúde, Elisabeta sentiu-se aliviada. Darcy resolveu sair por um momento do quarto, deixando as moças conversarem à vontade e se dirigiu até a sala de estar.

— Então, eu fiquei sabendo que a senhorita está se recusando a tomar seus remédios. Isso procede? – Ao ouvir as palavras de Elisabeta, Charlotte revirou os olhos.

— Elisa eu estou bem. Não sinto necessidade de me entupir de tantos remédios assim. É apenas um resfriado bobo. Amanhã estarei novinha em folha.

— Mas se o médico os receitou é sinal que você ainda precisa se cuidar Charlie.

— Eu acho que a senhorita e o meu irmão são a dupla perfeita no quesito cuidado exagerado. Ah Elisabeta, por falar nele, no meu irmão, acho que a senhorita deveria conversar com ele. – Ao ouvi-la a moça arregalou os olhos, assustada. – Darcy anda um tanto desorientado com relação aos negócios. – Negócios. Elisabeta sentiu-se aliviada ao constatar o teor daquele pedido.

— Bem, Charlotte, eu já tentei uma vez aconselhá-lo e a ideia não foi muito boa. Acabamos discutindo feio.

— Mesmo? Então é por isso. É por isso que ele anda abalado. – Disse ela, pondo a mão no queixo, pensativa.

— Abalado? Como assim? – Elisabeta arqueou uma das sobrancelhas, demonstrando preocupação.

— Sim, Elisa. Já faz umas duas semanas que meu irmão Darcy não parece ser o mesmo de antes. Ele anda triste, não ri das minhas piadas como ria antigamente. Anda desmotivado e quase nunca conversa abertamente comigo. Eu estou preocupada com ele. Muito. A senhorita é economista, certo? Acho que poderia ajudá-lo de alguma forma.

Elisabeta permaneceu em silêncio por alguns instantes, enquanto Charlotte a observava. Após sair de seus pensamentos, a moça se levantou, andando lentamente pelo quarto.

— Às vezes eu tenho a impressão de que seu irmão e eu somos como água e óleo Charlotte. Nós dois nos magoamos muito facilmente. Não conseguimos manter uma conversa sem que nenhuma das partes se sinta ofendida ou até mesmo julgada equivocadamente.

— Eu posso dar minha humilde opinião? – Perguntou ela, levantando o dedo indicador.

— Deve. – Elisabeta respondeu, diretamente.

— Eu acho que vocês dois são sim opostos. Muito opostos, talvez. Mas isso não deve ser um impedimento. Nos romances que leio os opostos sempre se atraem de alguma forma. E o final da história quando não trágico é sempre emocionante e feliz.

— Charlotte! Estamos falando de negócios, não de romances. – Elisabeta a repreendeu, sentindo o rosto ruborizar.

— Tem toda razão, senhorita. Desculpe-me. Só quis fazer uma analogia. – Charlotte sorriu. – Mas, por favor, pense com carinho no que lhe disse. Darcy precisa muito de você Elisabeta.


Elisabeta apenas olhou para ela, em silêncio. De alguma forma se sentiu comovida com aquelas palavras. Não sabia identificar quando, nem como, mas aquela família "de dois" já lhe importava muito. Bem mais do que ela esperava. Um bom tempo depois, quando Elisabeta chegou à sala de estar Darcy estava sentado no sofá folheando um dos livros da irmã. Ele levantou o olhar e passou a observá-la cautelosamente. Elisabeta parecia metade ansiosa, metade nervosa. Parecia querer lhe dizer algo, mas não sabia como iniciar. Ele então se levantou e aproximou-se dela.

— Então, mais tranquila com relação ao estado de saúde de Charlotte? – Ele perguntou. Elisabeta encarou Darcy, mordendo o lábio inferior. Ele estava com os cabelos desalinhados. Alguns fios desciam desajeitadamente por sua testa. Aquele dia parecia ter sido intenso demais para pensar em manter a aparência impecável. E aquele visual -mais a vontade— deixava o rapaz ainda mais bonito. Darcy era, sem dúvidas, um homem tentadoramente bonito. E a cada dia Elisabeta podia constatar o fato com mais clareza.

— Ela me parece bem melhor. E eu fiquei muito feliz e aliviada. – Elisabeta estava recostada em uma das paredes do cômodo e mantinha o olhar fixo nos olhos dele. – Mas... e o senhor, Darcy? – As últimas palavras dela saíram pausadamente.

— Eu? – Ele se aproximou ainda mais, permanecendo a poucos centímetros dela. Não havia nenhum obstáculo entre eles, o que fez com que ambos pudessem sentir o calor e o acelerar da respiração um do outro. – Talvez eu não saiba explicar exatamente. – Concluiu ele, com a voz entrecortada.

— É mesmo? E por que não? – A voz dela parecia fraca, insegura. Darcy pôde perceber os braços de Elisabeta se curvarem quando ele os tocou. – O senhor parece ser tão seguro de si. – Disse ela, olhando fixamente nos olhos dele e, vez por outra, fitando fixamente os lábios dele.

— Eu acho que é impossível manter a segurança quando se sente o que eu estou sentindo. – Darcy mantinha uma expressão calma no olhar, embora em seu interior ele sentisse que estava prestes a perder o controle da situação.

— E o que o senhor sente? Me fala. Se é que eu devo saber. – A voz de Elisabeta saiu rouca. Os rostos de ambos estavam perigosamente próximos um do outro. Elisabeta direcionou seu olhar para as mãos dele, que permaneciam sobre os braços dela.

— Eu sinto que não posso mais fingir, Elisabeta. Não posso fingir estar tranquilo quando, na realidade, estou ansioso. Ansioso por dizer o quanto a senhorita tem mexido com os meus sentimentos, com os meus pensamentos. Com a minha vida, até. Porque a partir do momento que eu a conheci, eu pude visualizar uma vida inteira ao seu lado. E eu ouso dizer, Elisabeta Benedito, que eu estou completamente apaixonado pela senhorita. – Os olhos de Elisabeta estavam arregalados. Sua face demonstrava surpresa e nervosismo. Darcy mantinha as mãos sobre os braços dela, de forma firme e ao mesmo tempo delicada. Ele esperava com urgência uma resposta por parte dela. E aquela espera parecia uma eternidade, pois Elisabeta permaneceu em silêncio; apenas olhando intensamente nos olhos dele. Ela parecia dependente dele para permanecer de pé. Por um momento sentiu suas pernas fraquejarem e uma corrente elétrica invadir seu corpo com aquele toque. Os olhos de Elisabeta mostravam-se perdidos diante dos olhos de Darcy. Ele então passou a acariciar o rosto dela, delicadamente. Ao sentir o toque de seus dedos, Elisabeta segurou a mão dele e, involuntariamente, fechou os olhos, entreabriu levemente a boca e inclinou o rosto; naquele momento ela já não possuía domínio algum de suas próprias ações.

Sua mente indicava que ali havia apenas ela e ele. Completamente rendidos e entregues ao que sentiam naquele momento; rendidos às palavras antes reprimidas e agora escancaradas. Darcy roçou levemente seu nariz ao dela e sorriu feito criança ao perceber que ela estava de acordo com o que ele estava prestes a fazer; então ele aprofundou uma das mãos dentro dos cabelos dela, puxando-a para mais perto enquanto a outra mão descia e se acomodava em sua cintura. Ao senti-lo tão próximo de si, pressionando o seu forte corpo contra o corpo franzino dela, Elisabeta envolveu uma de suas mãos em torno do pescoço de Darcy, acariciando os cabelos dele, puxando-o para mais perto. Não havia para onde fugir, não havia como escapar. Em poucos segundos Darcy tomou para si os lábios de Elisabeta em um beijo profundamente apaixonado. E ela não relutou quando o beijo foi aprofundado e as línguas de ambos se encontraram, proporcionando uma intensa explosão de sensações.