Entre o Amor e a Razão
2 Capítulo 1
Os raios de sol batiam violentamente sobre o rosto pálido e delicado de Elisabeta. Os seis anos vivendo na Inglaterra fizeram com que sua pele se tornasse bastante sensível àquela região quente dos trópicos. Ao descer da carruagem, estacionada em frente à mansão Benedito, a moça olhou para o ambiente e, em seguida, encarou o namorado por alguns instantes. John Morland parecia extremamente encantado com o clima e a agradável paisagem daquele local. Apesar de ser uma propriedade convencional, com uma arquitetura antiga parecida com as construções inglesas, havia algo de colorido nas paredes que a transformava em uma casa bastante singular.
— Papai é um homem visionário. De acordo com suas últimas cartas, onde ele costumava me descrever todas as mudanças que ocorriam no Vale e também em nossa casa, a faixada foi pintada pela última vez há uns dois anos. Se não me engano, essas cores estão bastante em alta neste verão. Você percebeu John, que no trajeto até aqui há outras quatro propriedades com esses mesmos tons em suas paredes? — O rapaz franzino, de estatura média, cabelos castanho-claros e lisos direcionou seu olhar para ela, formulando uma resposta.
— Sim, my dear! De fato este tom amarelado está presente em muitas residências da cidade. O sr. meu sogro parece ser um homem inspirador, não é mesmo? A cada hora que passa me sinto cada vez mais ansioso por conhecê-lo. – Elisa encarou o namorado, sorrindo gentilmente. Ele então segurou a mão dela, quando ambos caminharam em direção à porta principal.
Elisabeta trajava um belíssimo vestido vermelho. Os cabelos estavam presos em um coque baixo, que permitia que algumas mechas se soltassem e rolassem sobre seu rosto e ela tivesse repetidas vezes que recolocá-las por trás das orelhas. Ofélia abriu a porta de supetão; presenciando um breve beijo entre o casal. Pondo uma das mãos na cintura e fingindo uma tosse seca, a senhora de cabelos grisalhos e muito bem penteados, fitou, arqueando uma das sobrancelhas, os recém-chegados. Elisabeta e John mantinham-se de mãos dadas, quando a mãe da moça começou a monologar.
— Elisabeta Benedito, isso são modos de aparecer, após anos, em frente à sua mãe? Vejo que os romances europeus estão bastante avançados. Vocês dois passaram horas viajando, horas estudando juntos e, ainda assim, a primeira coisa que fazem ao chegar nesta porta é trocar salivas? Definitivamente estes não são modos decentes de uma dama bem instruída...
— Mamãe! – Elisabeta sentiu-se obrigada a interrompê-la. Visivelmente constrangida— John e eu estamos juntos há anos, quase seis; que há de mal trocarmos um beijinho? – Ela sorriu de maneira travessa. Ofélia sentia saudades daquele sorriso inconfundível.
— Eu prefiro não ficar a par dos detalhes do relacionamento de vocês. Agora, vem cá sua moderninha, dá um abraço nessa mãe que é só saudade. – Ofélia puxou a filha pelo braço, o que a fez soltar, instantaneamente, a mão de John.
Após cessarem o momento de afeto, Ofélia começou a analisar o rapaz que estava à sua frente. John curvou-se a ela, em uma breve reverência. Apesar de gostar da maneira educada de se portar do inglês, para Ofélia ele parecia ser inseguro, tímido, deslocado, estranho — talvez.
— É um prazer incomensurável conhecê-la, madame. – Disse John, com um forte sotaque britânico. Em seguida, o rapaz segurou a mão de Ofélia, elevando-a a centímetros de seus lábios.
— É um prazer também, meu jovem! Vamos, entrem! Vamos tomar o nosso chá da tarde antes que esfrie. – Disse ela, soltando a mão do rapaz e os empurrando, literalmente, pela casa adentro.
Na sala de visitas, as quatro irmãs os aguardavam com ansiedade. Lídia, ao avistar Elisabeta correu institivamente até ela. O abraço da irmã quase a derrubou.
— Ai, minha irmãzinha do meu coraçãozinho, que saudade! – a menina cor-de-rosa de cabelos encaracolados nutria uma afeição surreal e genuína por Elisabeta, apesar da diferença de idade entre ambas.
— Lidiazinha, meu amorzinho, meu docinho de morango, eu também estou só saudade. Mas assim você me sufoca! – Elisa desprendeu-se dela, tocando-lhe o rosto com carinho. – Trouxe um vestido lindo para você, está na minha bagagem. Corra! Vá vê-lo! Tenho certeza que irá reconhecê-lo de imediato, é a sua cara. – Lídia abruptamente fez uma breve saudação a John e saiu em disparado. Amava presentes.
— Não se preocupe, esse é o jeito normal dela. – Disse Cecília, se aproximando do casal e estendendo a mão a John. – Minha irmã, que bom revê-la. Você está tão linda.
Cecília e Elisabeta abraçaram-se. Logo em seguida, Mariana e Jane se aproximaram delas, fazendo parte daquele abraço, tornando-o ainda mais caloroso.
— Elisabeta, eu não sei como consegui sobreviver esses seis anos sem você minha irmã. As nossas confidências por meio de cartas, apesar de reconfortantes, nunca preencheram a minha saudade. – Disse Jane, com os olhos marejados.
— Eu fiquei muito, mas muito chateada ao constatar que você enviou mais correspondências à Jane do que a mim, Elisabeta. Mas mesmo assim eu lhe perdoo. Sei que não aguentaria os meus relatos sobre corridas e competições. – Disse Mariana, sorrindo.
— Meu amor por todas vocês é igual ao amor de mãe, sem medidas, minhas irmãs. – Elisabeta derramou-se em lágrimas.
[...]
A batida na porta firme de madeira fez com que Felisberto despertasse de seu costumeiro cochilo da tarde. Ao entrar no escritório, Elisabeta vendou os olhos do pai com as duas mãos. Ao tocar-lhe delicadamente, o senhor a reconheceu de súbito e começou a declamar.
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo. [...]”
— Não mais... Minha Elisabeta! – O abraço que ele deu na filha falou mais do que duzentas palavras. Era um abraço de saudade, de urgência. Era um abraço de 2.190 dias.
— Finalmente estou de volta, papai! Arregaçando as mangas do vestido, para ajudá-lo no que for preciso.
Felisberto fitou a filha. A emoção em seus olhos era indescritível, o orgulho também.
— Nossos negócios estão indo muito bem, minha filha. Com certeza você só vem a somar. Afinal de contas, não é qualquer produtor que possui uma filha economista, bilíngue, inteligentíssima.
— Ora papai, não me bajule tanto. Considero-me esforçada, focada em meus ideais, apenas isso. – Elisabeta sorriu cabisbaixa.
— Como você está minha filha? Temos tanto a conversar... – Felisberto tocava, delicadamente, o rosto fino de Elisabeta.
— Estou bem, meu pai! Sofri um pouquinho nesses últimos anos, principalmente para finalizar minha pesquisa do curso, mas graças a Deus e ao apoio de todos vocês, deu tudo certo. E por aqui, como andam as coisas? – Perguntou ela, puxando uma cadeira e ficando de frente para o pai.
— Que bom minha filha. Você nunca decepciona minha querida... Mas, como nem tudo são flores, muita gente está enfrentando problemas por aqui, Elisabeta. Xavier, Moura e Constâncio, outros três produtores bastante influentes da nossa cidade decidiram parar de investir nas obras do reverendo Carlos. Nenhum dos três pretende doar nenhum conto de réis para a caridade. Muitas famílias estão desesperadas. Os filhos sem acesso à educação, à saúde.
— Papai isso é um absurdo. Houve um tratado para que esses mesmos produtores investisse parte de sua renda a essas obras. Foi um acordo feito entre eles e as famílias que trabalham para eles. As crianças precisam de acesso à educação. Como haverá real progresso em nossa região sem ela?
— Simplesmente não há minha filha. Infelizmente nem todo mundo tem o mesmo pensamento empático que você, e eu. Acham que é bobagem investir em educação, em livros para toda essa gente. Quanto a isso, eu realmente não sei mais o que fazer Elisabeta. Já me reuni com eles diversas vezes, mas sempre sou ocultado, censurado, ridicularizado perante os outros. – Felisberto pôs as mãos na cabeça, relembrando o vexame que passara na última reunião.
— Esse é um tipo de notícia que me indigna por completo, papai. Eu não consigo ficar de braços cruzados perante isso. E a escola, está completamente fechada? – Perguntou Elisabeta, segurando firmemente uma xícara de café.
— As aulas se encerraram há três semanas e meio. Não quis comentar em detalhes sobre isso na última carta que trocamos. Imaginei que você ficaria bastante desapontada. – Felisberto olhou para Elisabeta. Seus óculos estavam posicionados na metade de seu nariz. – A senhorita Marta, coitada, continuou dando aulas até os últimos dias. Mas sem o pagamento devido, como poderia se sustentar? Ela veio conversar comigo, visivelmente abalada.
— Eu entendo perfeitamente o lado dela. Lecionar era a única maneira de ela retirar seu sustento. Bom papai, diante disso, eu não vejo outra alternativa...
— O que você tem em mente, minha querida? Não me diga que voc...
— Sim papai darei aula às crianças até resolvermos essa situação. – Disse Elisabeta, triunfante e com bastante otimismo no olhar.
— Você é, definitivamente, o meu maior orgulho. – Felisberto levantou a mão, fazendo um high five para comemorar a decisão da filha. Sempre que estavam juntos, Felisberto e Elisabeta pareciam dois jovens amigos. Compreendiam-se no olhar, nas ideias, posicionamentos e até mesmo nas brincadeiras.
•••
Charlotte estava sentada nos degraus externos da singela propriedade. Olhava compulsivamente para o livro, como alguém que tenta fazer algum objeto se mover com a força do pensamento. As palavras simplesmente a hipnotizava. No lugar de manter a ansiedade, ela preferia mil vezes que os livros a devorassem. Apenas a fantasia daquelas páginas a tiravam da dura realidade que enfrentava. Darcy observava a cena de longe. Há muito tempo não via a irmã tão desanimada. Em passos lentos resolveu, então, aproximar-se dela, tinha que tirar daqueles lábios ao menos um sorriso no dia.
— Não sei se é o dia que está mais iluminado ou se são esses cabelos que estão cada vez mais brilhantes e macios. – Disse ele, sentando-se ao lado da irmã.
— Darcy, para, por favor! Definitivamente a poesia não é o seu forte meu irmão. – Ela o encarou, ainda séria. Pousando a mão sobre o rosto dele.
— Bem que você poderia me ajudar nesse quesito. É uma leitora assídua. De que se trata este? – Respondeu ele, tomando para si o livro que ela segurava, começando a folheá-lo.
— Não estou com cabeça, nem ânimo. – Ela olhou para o pequeno lago que agraciava a casa e jogou uma pedra, fazendo um leve barulho e espantando um ganso. – Se não tivéssemos pagando pelos erros do nosso estimado Sr. Williamson, certamente a escola estaria aberta, agora mesmo.
— Charlotte, por favor, não vamos começar com essa história. – Darcy lhe pediu, veemente. – Você sabe que esse assunto me incomoda além da conta.
— Está certo. Pois a mim também! Vou entrar um pouco. Você está com fome? Posso preparar algo...
— Não, estou ótimo. – Disse ele, apertando carinhosamente a bochecha da irmã. Coisa que ela detestava. – Charlotte, eu preciso dar uma saída. Pelo amor de Deus e por tudo que é mais sagrado, evite pegar o cavalo e sair sozinha. Daqui a pouco escurece e é muito perigoso uma moça indefesa como você andando a solta por ai. – Darcy era escandalosamente preocupado quando o assunto era Charlotte. Depois que o pai, último parente próximo deles faleceu, a garota era sua única companhia e família.
— Tirando o indefesa eu concordo e aceito o seu pedido. – Ela sorriu para o irmão, antes de entrar na casa. Darcy lhe retribuiu o sorriso. Em seguida, montou em Valente, seu cavalo, partindo rumo à cidade.
•••
A paróquia estava praticamente vazia naquela tarde. Reverendo Carlos encontrava-se em sua pequena sala, quando Elisabeta pediu licença para entrar.
— Pois não, filha, em que posso ajudá-la? – O padre se levantou, cumprimentando a moça.
— Boa tarde, Padre. Sou Elisabeta, filha mais velha de Felisberto Benedito, lembra-se de mim?
— Claro! Faz muito tempo que não a vejo, mas lembro-me perfeitamente da senhorita.
— Padre, cheguei hoje de viagem e fiquei sabendo que as aulas na escola municipal foram canceladas. Sei também quais foram os motivos e venho aqui não com questionamentos, mas com uma possível solução. – Disse ela, em um fôlego só. O padre a encarava, surpreso e confuso.
— Uma solução? A que se refere? – Perguntou-lhe, atentamente.
— Pretendo me encarregar de dar aula às crianças enquanto não resolvemos definitivamente essa complicada situação com a antiga professora. O que o senhor acha? – Perguntou, lhe estendendo a mão.
No mesmo momento, Darcy passava próximo dali, ouvindo, acidentalmente, o final daquela conversa. Num súbito estado de curiosidade aguçada, o rapaz aproximou-se ainda mais da porta, no intuito de não perder uma só palavra. “Não sou de fazer essas coisas, pelo contrário, costumo abominá-las, mas será que eu ouvi direito?” – questionou-se mentalmente.
— O que eu posso dizê-la, filha? Sim, sim, será maravilhoso! Que Deus lhe pague Elisabeta, não é a toa que seu sobrenome é esse, pois: Benedito seja! – Foi inevitável para Elisabeta não dar uma risada ao ouvir as palavras do padre, que, no ápice de sua alegria, soaram estranhamente divertidas.
Após alguns minutos a mais na sala, a moça despediu-se do Padre. Ao ver a maçaneta da porta girar e a porta ranger levemente, Darcy institivamente escondeu-se em algumas cortinas o mais rápido que pôde antes de presenciar Elisabeta deixar a sala radiantemente feliz... E linda. Não viu precisamente sua face, mas intuía.
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