Entre o Amor e a Razão
3 Capítulo 2
Darcy precisou de um pouco de astúcia para convencer o reverendo Carlos de que não estava ouvindo conversas alheias. Após a saída de Elisabeta o rapaz, segundos depois, adentrou a sala perguntando de forma direta se a escola voltaria a funcionar normalmente. O padre encarou Darcy de maneira intimidadora. Ao notar a ansiedade beirar os olhos do jovem, decidiu amenizar sua curiosidade. A resposta cautelosa e positiva fez Darcy sentir-se imediatamente aliviado. Dar aquela notícia à irmã seria um prazer indescritível para ele. Porém, a alegria dele durou apenas alguns míseros instantes. O padre lhe pediu, veemente que ele mantivesse a notícia em segredo, até mesmo da jovem Charlotte. Elisabeta precisava de mais um dia, pelo menos, para resolver pontualmente aquela situação. Ademais, a notícia seria publicada no periódico do Vale, e todos os moradores ficariam igualmente cientes da novidade. Darcy aceitou e compreendeu o pedido do Padre. Quando chegou a casa, já no escurecer da noite, exibia um sorriso radiante de ponta a ponta. Charlotte não entendia precisamente qual a razão, mas, em contrapartida, a menina exibia uma cara de enfado.
— Susana esteve aqui mais cedo e deixou um recado. – a garota não demonstrava nenhum interesse em suas próprias palavras. Estava jogada no sofá, lendo um romance. Sem tirar os olhos do livro, prosseguiu – Pediu que você entrasse em contato com ela o quanto antes, parece que o assunto é sobre negócios. – Darcy sentiu uma pitada de ironia naquela última palavra, mas sabia perfeitamente que a irmã detestava sua sócia, e aquela era apenas mais uma costumeira demonstração. Durante um dos jantares de negócios oferecido por Susana em sua residência; Charlotte, num momento oportuno, colocou sal em excesso no prato da mulher. Em outra ocasião parecida ela soltou um ratinho pela sala de jantar, causando a maior confusão; deixando Susana apavorada e Darcy constrangido com a cena. Apesar da mulher nunca ter descoberto a autora daquelas travessuras, Darcy sabia perfeitamente quem era.
— Sério? Amanhã falo com ela. E sim, o assunto é estritamente sobre negócios, Charlotte. – Disse ele, antes de ir para seu quarto. A garota deu de ombros, voltando a se concentrar na leitura.
Depois que se mudou de São Paulo para recomeçar a vida no Vale, junto com sua irmã, Darcy ergueu a cabeça e visitou alguns produtores daquela cidade durante diversos dias seguidos. Precisava fazer alguma aliança na pequena cidade, com o intuito de investir, com fé, o pouco que restara de sua herança. Susana Adonato, uma viúva produtora mediana de café, fora a primeira a dar uma resposta. Ao se inteirar da chegada do rapaz à cidade, a mulher o procurou em seu singelo escritório, mostrando total interesse pelas ideias promissoras dele. A princípio, pensou que Darcy ainda ostentava a riqueza dos Williamson, mas, embora desapontada, continuou interessada em manter a sociedade com ele, e com o seu par de olhos verdes. Embora fosse bastante inteligente para os negócios, Darcy Williamson não foi capaz de impedir que seu pai perdesse grande parte da fortuna da família em jogos e apostas absurdas, levando-os quase a total falência. Na época em que Lorde Williamson estava completamente submerso no vício do jogo e na bebida, Darcy ainda era muito jovem e inexperiente; estava estudando fora, completamente alheio às coisas que aconteciam no Brasil. Ao retornar do exterior e descobrir os fatos, o rapaz quase se aprofundou em uma terrível depressão. O poço em que estava prestes a mergulhar era demasiado profundo. O que o salvou fora a responsabilidade que tomou para si; a missão de cuidar da sua irmã, independente das circunstâncias. Charlotte, embora nunca tivesse demonstrado futilidade, sentia-se completamente ultrajada com o infortúnio da falência. Mas, aos poucos, foi adaptando-se à nova vida mais simples e não tão confortável.
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— F e s t a ! Isso, obviamente, merece uma festa minha filha! Já posso imaginar toda a sociedade do Vale com os olhos admirados, direcionados especialmente para você, a heroína e protetora dos mais indefesos e oprimidos. – As palavras de Dona Ofélia direcionaram, para ela, todos os olhares daqueles que estavam sentados à mesa do café. – Você não faria uma desfeita dessas, não é mesmo? São duas comemorações em uma só! Seu regresso ao Vale e a volta às aulas.
Elisabeta não se deu ao trabalho de respondê-la. Estava dito e decidido. Com Dona Ofélia era sempre assim. Tudo, absolutamente tudo era motivo para uma festa. Quando uma ideia, por mais mirabolante que fosse, pairava em sua cabeça, nem mesmo um batalhão era capaz de retirá-la dali. Elisabeta sabia que tinha muito dessa característica da mãe nela mesma. E, por isso, muitas vezes acatava sem objeções os desejos dela.
Felisberto inicialmente revirou os olhos e achou o palpite da esposa um tanto exagerado. Mas acabou aceitando sem interferências, queria evitar brigas conjugais a todo custo. Lídia, que estava sentada ao lado de Elisabeta, mostrou profundo contentamento com a ideia. Seria a ocasião ideal para inaugurar seu novo vestido. Cecília animou-se bastante. Poderia usar a festa como justificativa para convidar um rapaz que invadia constantemente seus pensamentos, Rômulo Tibúrcio. Jane, com sua personalidade serena não costumava se sentir muito à vontade em festas badaladas, mas Mariana a fez mudar de ideia quando supôs que, naquela ocasião, ela poderia talvez conhecer alguém interessante. O coração romântico e entusiasmado da moça de azul acelerou-se repentinamente. Elisabeta pediu licença à família e, puxando John que acabara de tomar um gole de café, direcionou-se apressadamente até o centro da cidade, precisava lançar a nota no jornal o quanto antes. Dona Ofélia juntou-se com as filhas para começar a preparar a lista de convidados para a festa, bem como pensar num buffet ideal para tratar de todos os detalhes.
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A mulher entrou na sala devagar, sem fazer o mínimo barulho. O salto tocava cautelosamente o piso amadeirado, mas sem levantar suspeitas de que havia mais de uma pessoa ali. Sorrateiramente, ela colocou os braços ao redor do pescoço de Darcy, que estava concentrado avaliando uma papelada. Ao sentir aquelas mãos quentes tocando pretensiosamente a curva do seu pescoço, descendo até a parte superior de seu peito, ele se virou bruscamente, afastando-a.
— Susana, pare com isso! – Darcy segurou com firmeza a mão da mulher, que lhe lançou uma careta fingindo prazerosamente sentir dor – Quantas vezes será preciso repetir que eu não aceito que você confunda as coisas? – Acrescentou, levantando-se da poltrona e largando abruptamente a mão de Susana.
— Eu adoro quando você fica assim, todo bravinho, Darcy! É tão charmoso... – A mulher exibia um decote escandalosamente provocador. Parecia que, de propósito, usava o vestido mais colado do seu guarda-roupa sempre que ia se reunir com ele. – Vamos, deixe de ser tão careta. Eu sou livre, você também, que há de mal em explorarmos e ampliarmos nossos negócios? – Ela questionou, tentando novamente colocar as mãos sobre Darcy. O sorriso que ela exibia era meio diabólico e, ao mesmo tempo, sedutor.
— Eu já disse que não tenho a mínima intenção de levar nossa amizade e sociedade para esse rumo. Sinto-me absolutamente violado com as suas investidas absurdas, Susana. Até Charlotte anda soltando indiretas e me deixando completamente desorientado. – Exclamou, afastando-se ainda mais dela.
— Charlotte? Acho uma gracinha... Mas não se faça de santo, Darcy Williamson. Quem deveria se sentir violada aqui sou eu. Acaso esqueceu-se daquela noite, que você se rendeu aos meus encantos, cobriu-me de beijos, de carícias quentes e apaixonadas e, na melhor parte da festinha, saiu e me deixou a ver navios?
— Você praticamente me embebedou naquela noite Susana. Aliás, que espécie de bebida foi aquela que você me ofereceu? Certamente estava alterada. No dia seguinte minha cabeça queria explodir.
— Isso é um disparate Darcy! Desde quando eu preciso de artimanhas como essa para seduzir alguém? Você sabe muito bem que eu posso ser extremamente convincente quando eu quero. – Ela aproximou-se novamente de Darcy, roçando levemente os lábios dele nos seus.
— Não ouse tentar me beijar novamente, Susana. Eu não lhe dei essa intimidade. E, se sua proposta é seguirmos com esses joguinhos imbecis e sem cabimento, prefiro encerrar aqui mesmo nossa sociedade. – Disse ele, ajeitando a camisa que a mulher acabara de tentar desabotoar.
— Está bem, está bem! Não é para tanto. – Disse ela, recompondo-se. – Bem Darcy, eu prometo tentar me controlar. Apesar de você ser completamente irresistível. – Proferiu a última palavra com a voz rouca, passando o dedo indicador por cima dos lábios. Darcy fez uma cara de repugnância. – Não tenho a mínima pretensão de desfazer nossa sociedade. Ao contrário, trago boas-novas: Julieta Bittencourt, a Rainha do Café, finalmente nos enviou um último telegrama, informando que dentro de duas semanas estará aqui no Vale para iniciarmos as negociações das compras das terras. Trará consigo seu herdeiro, um jovem chamado Camilo. Dizem que acabou de se formar e precisa ganhar experiência profissional também.
— Ótimo! Tenho certeza que essa nova parceria será um benefício enorme para todos nós. – Respondeu ele, com um sorriso desconfiado, relutando para não sair correndo daquela sala. A presença de Susana o sufocava.
— Isso merece um brinde, você não acha? – Susana dirigiu-se até uma sacola que havia deixado sobre uma cadeira logo após entrar na sala. Abriu-a retirando uma garrafa de champanhe e duas taças. – Ao nosso futuro promissor, Darcy Williamson. – Disse ela, erguendo sua taça e oferecendo a segunda ao rapaz. Darcy pegou a taça e retribuiu o brinde, mantendo o olhar semicerrado e cauteloso.
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— Estou bastante ansioso para conhecer as festas brasileiras pessoalmente. O que vocês costumam dançar por aqui? – John estava sentado no sofá da mansão dos Benedito; Elisabeta estava a seu lado, pousando a cabeça em seu ombro e brincando delicadamente com as mãos do rapaz. Ambos haviam acabado de retornar da redação do jornal. A notícia sobre a reabertura da escola e a nota na coluna social sobre a festa na mansão Benedito seriam publicadas na edição do dia seguinte.
— Bem, somos um povo muito alegre. Gostamos bastante de festejar e dançar muito. E dançamos de tudo um pouco: as modalidades clássicas como a valsa, os estilos mais modernos e agitados também. Num geral adoramos remexer o esqueleto. – Respondeu Elisabeta alegremente, depositando, em seguida, um beijo no namorado. Enquanto ambos permaneciam ali, relaxados e conversando sobre diversos assuntos; Ofélia e as quatro filhas estavam pelo centro da cidade, encaminhando os preparativos para a festa que se aproximava.
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Atendendo ao pedido de Elisabeta, Padre Carlos encarregou-se de elaborar uma segunda lista com todas as pessoas que estavam envolvidas direta e indiretamente com as obras da igreja; um dos convites foi enviado à casa dos Williamson, destinado especialmente para a irmã de Darcy. Era humanamente impossível medir o grau de entusiasmo de Charlotte; não só por ter sido convidada para a festa na mansão dos Benedito, mas por saber que em breve voltaria às suas atividades. A menina sentia-se saudosa da convivência com as crianças que frequentavam a escola. Com relação à festa, Darcy sentia-se desconfortável com a ideia de sair de casa àquela hora da noite, encarar a alta sociedade e fingir ser amigo de pessoas que ele havia visto uma ou duas vezes na vida. Não era muito dado à etiqueta; eventos do gênero lhe pareciam um tédio. Para finalizar a lista de desgostos, iria acompanhando de Susana Adonato, a mesma que não perdia uma oportunidade de passar vexame tentando seduzi-lo a todo custo.
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