Entre o Aço e a Sombra
2 O Leão na Gaiola de Ouro
O Palácio de Lâfrer não era apenas uma construção de pedra e argamassa; era uma declaração de poder e opulência. Erguer-se majestoso contra o céu azul, suas torres douradas e as muralhas brancas pareciam reluzir sob o sol poente. Mas para Marcus Sinclair, que passara os últimos cinco anos em tendas de acampamento e campos de batalha lamacentos, aquela grandiosidade era quase ofensiva.
Sua chegada foi um espetáculo. Guardas Reais em uniformes impecáveis formavam uma linha de honra. Nobres, vestidos com sedas e veludos que custariam o soldo de um ano de um soldado, se aglomeravam nas sacadas, ansiosos para ver o "Leão de Lâfrer", o general que havia garantido sua segurança.
Marcus desmontou de seu cavalo preto, "Sombra", e entregou as rédeas a um cavalariço que parecia tremer diante de sua presença. Ele ainda vestia sua armadura de batalha preta e dourada, a mesma da capa do livro, embora tivesse sido minimamente limpa durante a viagem. A poeira da estrada e algumas manchas persistentes de batalha ainda a decoravam, um contraste brutal com o brilho ao seu redor.
Um camareiro real, esguio e com um sorriso excessivamente polido, aproximou-se com uma reverência exagerada.
— General Sinclair! É uma honra imensurável recebê-lo. O Rei Dhorwack e a Rainha Elowen aguardam sua presença com grande entusiasmo. Se me permitir, irei conduzi-lo aos seus aposentos para que possa se refrescar antes do banquete.
Marcus apenas assentiu, um som gutural de concordância. Ele seguiu o camareiro pelos corredores labirínticos do palácio. O chão de mármore polido ecoava o bater pesado de suas botas blindadas. Lustres de cristal maciço pendiam do teto, e tapeçarias ricas narravam a história da dinastia Lâfrer. A cada passo, Marcus sentia-se mais deslocado. Ele era um homem da guerra, e ali, tudo cheirava a perfume e conspiração.
Em seus aposentos, uma suíte tão vasta que poderia abrigar uma companhia inteira de seus homens, uma banheira de cobre já fumegava com água quente e óleos aromáticos. Ele despiu-se da armadura, peça por peça, sentindo o peso do aço finalmente deixar seus ombros cansados. A água quente foi um alívio temporário, mas sua mente permanecia alerta, vigilante.
Após o banho, um criado ofereceu-lhe trajes civis de nobreza, mas Marcus recusou com um olhar que fez o homem empalidecer. Ele vestiu uma túnica preta simples de linho e calças escuras, mas manteve sua espalheira de aço gravada e o cinturão com sua espada. Se ele estava ali como convidado de honra, seria nos seus próprios termos.
Quando o camareiro retornou para conduzi-lo ao Salão de Banquetes, o barulho da festa já podia ser ouvido a corredores de distância. O som de risadas fingidas, música de alaúde e o tilintar de taças de cristal irritava seus ouvidos acostumados ao silêncio tenso das noites de acampamento.
As portas duplas do salão foram abertas e o arauto anunciou:
— Sua Excelência, General Marcus Sinclair, o Leão de Lâfrer e Comandante das Forças Reais!
O salão, vasto e ricamente decorado com as cores do reino — carmesim e ouro —, silenciou por um breve momento. Centenas de pares de olhos se voltaram para ele. Marcus não parou para reconhecer a adulação. Ele caminhou com passadas firmes e diretas em direção à mesa principal, que estava elevada em um estrado no final do salão.
Lá, o Rei Dhorwack Lâfrer, um homem de barba grisalha e olhos perspicazes, e a Rainha Elowen Styles Lâfrer, cuja beleza serena escondia uma inteligência afiada, estavam sentados em tronos ricamente talhados.
— Marcus! — O Rei Dhorwack levantou-se, abrindo os braços em um gesto de boas-vindas sinceras. Sua voz ressoou pelo salão. — Meu amigo, meu general. A batalha foi vencida, e agora é hora de celebrar. Venha, seu lugar é ao nosso lado.
Marcus subiu o estrado e curvou-se em uma reverência respeitosa, mas não servil.
— Majestade. Rainha Elowen. É uma honra. — Sua voz era rouca, como sempre.
A Rainha Elowen sorriu suavemente.
— O reino lhe deve uma dívida impagável, General Sinclair. Esperamos que sua estadia aqui lhe traga o descanso que tanto merece.
O rei indicou a cadeira vazia à sua direita imediata. Marcus sentou-se, o rangido de seu cinturão de couro e a espalheira de aço sendo os únicos sons em meio ao silêncio reverente da mesa principal.
A mesa não estava ocupada apenas pelo casal real. Do outro lado do rei, sentavam-se dois oficiais de alto escalão, o Duque Alistair e o Conde Valerius, homens que Marcus conhecia da guerra, mas que raramente viam a linha de frente. E do lado da rainha...
Do lado da Rainha Elowen, sentavam-se quatro de suas damas de companhia. Elas eram jovens e belas, vestindo vestidos que pareciam feitos de luz e cor. E no centro delas, sentada com a postura de uma monarca, estava a mulher que chamou a atenção de Marcus, e não de uma forma positiva.
Ela vestia um vestido de seda verde esmeralda profundo, que realçava seus olhos da mesma cor e o fogo de seus cabelos ruivos, que estavam presos em um penteado elaborado com pequenas presilhas de diamantes. Ela não parecia uma dama de companhia; parecia uma deusa da guerra exilada em um jardim de flores. E ela o estava encarando.
Não era um olhar de admiração, como o dos outros. Era um olhar de avaliação crítica, quase de desprezo. Uma das sobrancelhas dela estava levemente arqueada, e seus lábios finos estavam curvados em um sorriso que não chegava aos olhos.
O banquete começou. Travessas de ouro e prata carregavam carnes raras, frutas exóticas e doces elaborados. O vinho fluía livremente. O rei Dhorwack tentava incluir Marcus na conversa, perguntando detalhes de batalhas específicas.
— E como foi que você contornou as defesas de Forte Negro, Marcus? Dizem que foi uma manobra genial — perguntou o rei, os olhos brilhando.
Marcus, cortando um pedaço de javali assado com precisão militar, respondeu sem olhar para o rei:
— Manobra não, Majestade. Foi disciplina e a disposição de meus homens de morrer por uma causa. Não houve "genialidade", apenas estratégia e sangue.
Um silêncio constrangedor caiu sobre a mesa. Os nobres não estavam acostumados a uma resposta tão direta e desprovida de floreios. O Conde Valerius tossiu nervosamente.
Foi então que uma voz, clara e afiada como uma lâmina de gelo, quebrou o silêncio.
— Que descrição... rústica, General. Pela sua fama, eu esperava que a vitória tivesse sido conquistada com um pouco mais de, digamos, elegância. Mas suponho que, para um homem que passa mais tempo com cavalos do que com pessoas, "estratégia e sangue" seja o máximo de requinte que consegue articular.
Marcus parou o garfo no meio do caminho. Lentamente, ele virou a cabeça e fixou seus olhos escuros e gélidos na mulher de vestido verde. Claire Mackenzie não recuou. Seus olhos verdes desafiaram os dele com uma arrogância indisfarçável.
O Rei Dhorwack pareceu segurar um sorriso, curioso. A Rainha Elowen apenas observava, com uma expressão indecifrável. As outras damas seguraram o fôlego.
Marcus apoiou os cotovelos na mesa, sua postura tornando-se predatória.
— E a senhorita seria...? — perguntou ele, sua voz baixando para um rosnado perigoso.
— Claire Mackenzie, Dama de Companhia de Sua Majestade, a Rainha — respondeu ela, esticando o pescoço, o queixo erguido. — E você, pelo que entendi, é o general irritadiço que todos estão celebrando. Embora eu não veja nada além de má educação e um uniforme mal cuidado.
As primeiras faíscas haviam sido lançadas. E, a julgar pelo olhar no rosto de Marcus, o Palácio de Lâfrer estava prestes a pegar fogo.
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