Entre o Aço e a Sombra
18 O Banquete das Sombras e o Eco do que Não Foi
O tempo é o mais implacável dos generais. Ele não perdoa hesitações e não retrocede após uma derrota. Cinco anos se passaram desde aquele beijo proibido sob a neve, e o Reino de Lâfrer florescia em uma paz que, para Claire e Marcus, parecia um deserto infinito.
A mansão "Valle de Prata" era agora um monumento à sofisticação. As cortinas azul-marinho — as mesmas que um dia foram motivo de gritos e deboches — molduravam as janelas de um lar onde o riso era baixo e a cortesia era a regra. Elena, agora a Duquesa Sinclair, provara ser uma esposa impecável, uma anfitriã doce e uma mãe dedicada aos dois filhos pequenos do casal. Mas Marcus, embora cumprisse seu papel com honra e proteção, carregava nos olhos uma névoa que nenhuma lareira conseguia aquecer.
No Palácio Real, Claire Mackenzie não era mais a jovem dama de companhia impulsiva. Ela se tornara a conselheira principal da Rainha Elowen, uma mulher de elegância gélida e uma língua que, embora ainda afiada, agora era usada apenas para a política, nunca mais para o flerte. Ela recusara três pedidos de casamento, preferindo a solidão de seus aposentos à mentira de um altar sem amor.
O banquete de celebração da colheita reuniu todos no grande salão. A Rainha Elowen observava a mesa com um olhar vigilante. Ela nunca esquecera o flagra no jardim, e sua proteção sobre Claire era como uma muralha de espinhos.
O destino, porém, pregou sua última peça. Devido a uma reordenação de última hora na etiqueta, Claire foi posicionada exatamente em frente a Marcus.
O tilintar dos talheres de prata parecia o barulho de espadas batendo em sua cabeça. Marcus olhou para cima e seus olhos encontraram os de Claire. Não havia mais a fúria de outrora, apenas uma saudade gasta, moldada por anos de silêncio.
— O vinho está excelente este ano, não acha, General? — Claire quebrou o silêncio, sua voz soando como seda esticada ao limite. — Soube que sua vinha em Valle de Prata produziu uma safra excepcional.
Marcus segurou a taça com tanta força que os nós dos dedos empalideceram.
— A terra é generosa quando é bem cuidada, Lady Claire. Mas há frutos que amadurecem apenas para serem admirados de longe, nunca colhidos.
O Rei Dhorwack, percebendo a tensão elétrica que ainda vibrava entre os dois, tentou intervir com uma risada nervosa.
— Marcus sempre foi um filósofo de guerra! Elena, minha querida, como estão os pequenos herdeiros?
Elena sorriu, tocando o braço de Marcus com carinho.
— Estão ótimos, Majestade. O pequeno Arthur já tenta segurar a espada de treino do pai. Marcus é tão paciente com eles... embora às vezes eu sinta que ele está em outro lugar, em algum campo de batalha que eu não conheço.
Claire sentiu uma pontada de culpa e agonia. Ela olhou para Elena — uma mulher que não tinha culpa de nada, que era a personificação da bondade — e depois para Marcus.
Mais tarde, quando o banquete deu lugar à música, Marcus encontrou Claire em uma varanda isolada, longe dos olhos da Rainha. A neve começava a cair, repetindo o cenário de cinco anos atrás.
— Por que você ainda usa esse perfume de jasmim? — Marcus perguntou, a voz rouca, sem olhar para ela. — Ele me persegue em cada corredor desta casa. Cada vez que fecho os olhos para dormir ao lado de uma mulher que me dá tudo, menos o que eu realmente sou.
— E o que você é, Marcus? — Claire perguntou, virando-se para ele, as lágrimas brilhando sob a luz da lua. — Você é o herói. O pai de família. O homem que escolheu a paz. Eu sou apenas a lembrança do caos que você decidiu enterrar.
— O caos é a única coisa que me faz sentir vivo! — Marcus deu um passo à frente, mas parou a uma distância segura, como se houvesse uma linha de fogo entre eles. — Eu olho para você do outro lado da mesa e sinto que estou morrendo em silêncio. Cada baile é um martírio. Cada banquete é um funeral do que poderíamos ter sido.
— Nós fomos covardes, Marcus. Eu com meu orgulho e você com sua honra — Claire sussurrou, aproximando a mão do rosto dele, mas parando no ar, sem tocá-lo. — Agora, somos apenas dois atores em uma peça que nunca termina. Eu te amo em cada respiração que dou neste palácio, e isso é a minha sentença de prisão.
— Eu trocaria cada medalha no meu peito por uma única discussão com você naquela mansão vazia — Marcus confessou, fechando os olhos, respirando o cheiro dela uma última vez. — Mas eu tenho filhos agora. Tenho uma esposa que não merece a minha traição, nem mesmo em pensamento.
— Eu sei — disse Claire, abaixando a mão. — Por isso, continuaremos assim. Nos amando em silêncio, através de mesas de jantar e saudações formais. Até que o tempo nos leve e nossas cinzas, quem sabe, possam finalmente se misturar sem o peso de uma coroa ou de uma aliança.
Eles ficaram ali por um longo minuto, dois generais de uma guerra perdida, observando a neve cobrir o reino. Quando a Rainha Elowen apareceu na porta da varanda, seus olhos encontraram os de Claire. Não houve esporro desta vez. Apenas uma tristeza infinita. Elowen percebeu que a punição que a vida dera aos dois — o convívio diário na distância do dever — era muito pior do que qualquer masmorra que ela pudesse criar.
Marcus fez uma reverência curta e voltou para o salão, para sua esposa e para sua paz. Claire permaneceu na neve, o coração gelado, sendo a dama de companhia de uma rainha e a viúva de um amor que nunca teve o direito de viver.
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