Entre o Aço e a Sombra

19 O Retorno às Brumas e o Último Adeus




​O sol de Espanha, sempre tão vibrante e impiedoso, parecia sufocar Claire Mackenzie. Cada corredor do Palácio Real, cada azulejo pintado e cada brisa que trazia o perfume de laranjeiras lembrava-a de uma vida que ela não podia ter. A proximidade de Marcus, o silêncio compartilhado em banquetes e a visão de sua felicidade doméstica eram torturas que a etiqueta não conseguia mais mascarar.

​Ela procurou a Rainha Elowen em seus aposentos privados. A Rainha, que a conhecia desde que era uma jovem impetuosa, percebeu o brilho de determinação — e de exaustão — em seus olhos.

​— Majestade — começou Claire, curvando-se com uma rigidez que demonstrava seu cansaço emocional. — Dediquei anos ao seu serviço e a este reino. Mas sinto que minha alma não pertence mais a estas terras quentes. Peço sua permissão e sua bênção para retornar ao meu povoado, na Inglaterra. Preciso das brumas, do frio e do isolamento que só as terras de minha família podem me dar.

​Elowen suspirou, deixando de lado o bordado. Ela sabia que pedir para Claire ficar era condená-la a uma morte lenta em vida.

​— A Espanha sentirá falta do seu fogo, Claire. Mas eu compreendo. O coração que não encontra paz aqui deve buscá-la onde as raízes são profundas. Você tem minha permissão. Partirá após um banquete de despedida digno da mulher que foi o braço direito da coroa.

​O banquete de despedida foi organizado com uma elegância melancólica. O Rei Dhorwack e a Rainha Elowen presidiram a mesa, mas o foco de todos os olhares era Claire, vestida em um traje de viagem de veludo cinza, austero e belo. Marcus Sinclair estava presente, sentado ao lado de Elena. Ele parecia mais pálido, a mandíbula tão travada que parecia prestes a quebrar. Ele não havia sido avisado previamente; a notícia da partida de Claire o atingiu como um golpe de misericórdia.

​Durante todo o jantar, os diálogos foram protocolares, mas carregados de subtexto.

​— Lady Claire — disse o Rei, levantando sua taça. — Sua partida deixa um vazio em nossa corte. Quem agora terá a audácia de desafiar nossos generais e conselheiros com tanta inteligência?

​Claire olhou diretamente para Marcus antes de responder.

— O reino está em paz, Majestade. Generais não precisam mais ser desafiados quando já encontraram a ordem que buscavam. Minha voz não é mais necessária onde o silêncio se tornou a língua oficial.

​Marcus sentiu cada palavra como uma lâmina. Ele se levantou, pedindo licença para um brinde pessoal, sua voz saindo mais rouca do que o habitual.

​— À Lady Claire Mackenzie — começou Marcus, a mão tremendo levemente ao segurar a taça. — Que as terras do Norte sejam mais gentis com ela do que as terras do Sul. Que ela encontre a paz que... — ele hesitou, os olhos fixos nos dela — ...que alguns de nós nunca conseguiremos alcançar, por mais que tentemos.

​O salão mergulhou em um silêncio pesado. Elena olhou para o marido com uma expressão de dúvida, sentindo, talvez pela primeira vez, a profundidade do abismo que o separava dela.

​Após o banquete, nos jardins agora envoltos pela noite, Marcus encontrou Claire uma última vez antes de sua carruagem ser preparada. A chuva começava a cair, fina e fria, antecipando o clima inglês que a esperava.

​— Você está fugindo, Claire? — Marcus perguntou, parando a poucos metros dela.

​— Estou sobrevivendo, Marcus — ela rebateu, sem se virar. — Não posso mais olhar para você e ver o que perdi. Não posso mais sorrir para sua esposa e fingir que não sinto inveja da paz que ela te dá, enquanto eu sou o incêndio que você decidiu apagar.

​— Eu nunca apaguei o incêndio! — Ele deu um passo à frente, a voz embargada. — Ele queima aqui dentro todos os dias! Se você for para a Inglaterra, o que sobrará de mim neste palácio?

​Claire finalmente se virou, as lágrimas misturando-se à chuva em seu rosto.

— Sobrará o General. O herói. O pai. O homem que honra sua palavra. Vá para sua mansão, Marcus. Use as cortinas azul-marinho que eu escolhi e lembre-se de que, em algum lugar nas brumas do Norte, existe uma mulher que te ama demais para continuar vendo você ser feliz com a escolha errada.

​Sem dar tempo para uma resposta, Claire caminhou em direção à carruagem que ostentava o brasão real de despedida. Ela subiu os degraus e, antes de fechar a porta, olhou para o palácio de Lâfrer uma última vez.

​A carruagem partiu, o som das rodas no cascalho ecoando como um soluço. Marcus Sinclair ficou parado na chuva, observando as luzes da carruagem desaparecerem na estrada, percebendo que a maior derrota de sua vida não aconteceu em um campo de batalha, mas ali, no silêncio de uma partida que ele não teve coragem de impedir.