Entre moscas e sangue
1 Acordando
Acabei de acordar, não sei onde estou. Minhas mãos estão sujas de sangue, assim como minha camisa. Procuro algum ferimento, mas não consigo achar em nenhuma parte do meu corpo. Me levanto, e, agora consigo perceber que estou no quintal da minha casa. Um rastro de sangue se segue de mim à porta de minha casa. Meu coração está acelerado e meu suor agora se mistura com o sangue em minha camisa causando um forte odor que não consigo descrever perfeitamente.
Ao me aproximar da porta que liga o quintal à cozinha vejo um facão encharcado de sangue e do que parecem ser vísceras. Instantaneamente fico paralisado de medo, mas um pequeno resquício de coragem, sendo mais provavelmente insanidade, me faz decidir pegar o facão e por que não adentrar em minha casa? Dentro de casa o fedor é ainda pior que o em minha camisa. É como se tivessem gatos mortos no meu telhado. Há moscas por todos os lados... Subitamente tenho alguns flashs na minha cabeça "maninho, por favor, MANINHO!"... NÃO! Onde está minha irmãzinha? Será eu que eu fui capaz de fugir e deixá-la? Mas...mas fugir do que? Não, eu nunca faria isso! Eu simplesmente devo ter sido apagado antes de poder ajudá-la! Sim, é isso! Tenho certeza! Mas ainda assim preciso achá-la, ela é a única pessoa decente da nossa família.Continuo andando na casa empunhando o facão. O silêncio só é quebrado pelo zumbido das moscas que fazem com que o chão outrora rubro do sangue que cobre todas as partes dessa casa, agora negro, com um denso tapete de moscas. O que me intriga é que mesmo com todo esse sangue e moscas não vejo nenhuma fonte para esse sangue, nenhuma animal morto, nem, nem...Não, minha irmã conseguiu fugir, é uma garota esperta! Mas, fugir de que? Esforço-me para me lembrar de algo, mas ainda assim a única coisa que me lembro é de pedidos de ajuda da minha querida irmã. "William?" — Uma voz grave ecoa em meus ouvidos. – O que foi isso? Quem está ai?. – William? Gostou da decoração?. – Apareça covarde! Cadê minha irmã? Juro que se você tiver tocado em um fio de cabelo dela... – O quê?.– Eu juro... — Meu corpo está em alerta máximo, meus músculos estão tensionados e meu coração está a mil. Estou pronto pra correr ou lutar com todas as minhas forças, mas ainda assim, não consigo mover um músculo. O barulho das moscas volta a ser o único no local, porém não estou calmo. Quem será esse homem, e o que ele fez com minha família? Quer dizer, por mais que pareça mesquinho, não ligo para meus pais. As coisas que eles me obrigavam a fazer... mas minha irmã é tudo para mim!– William... tudo irá ficar bem agora... eu sou seu amigo! — A maldita voz voltou. – William você sabe que tudo foi feito para seu bem, né?!. – Cadê minha irmã seu merda?.– Vai ficar tudo bem agora amigão. – Amigão? Quem é você? O que você quer dizer com: vai ficar tudo bem? O que aconteceu aqui?. – Olha o porão, você vai entender tudo. — Minhas veias estão petrificadas e meu coração igualmente parado. O porão. O que há no porão? Parece que a resposta para várias perguntas virão se eu for lá, mas ainda assim, a ideia de entrar lá... – O que há no porão? — As únicas respostas são os zumbidos das minhas companheiras voadoras e que eu infelizmente não compreendo. Decido então, mesmo que hesitante, ir ao porão. As manchas de sangue se arrastam da sala até o que parece ser o porão, no fim do corredor. Uma mancha enorme de sangue está no chão, próximo à porta do porão, como se a fonte do sangue tivesse ficado parada ali, por algum tempo. Eu abro a porta e me esforço para ter o máximo de delicadeza que consigo. O barulho das dobradiças enferrujadas daquela velha porta abafa o zumbido dos insetos voadores, dando-me um alívio momentâneo. Desço as velhas escadas de madeira, que rangem a cada passo, dando a impressão que podem quebrar caso eu pise um pouco mais forte. Ao tirar o foco dos degraus, vejo na parede de frente pra escada duas manchas de sangue enormes, como se tivessem jogado uma bexiga de festa cheia de sangue na parede. No chão, próximo à parede, pedaços de carne bem parecidos aos do facão, se estendem. Ao vasculhar o porão, vejo algo escrito com sangue e meio que contornado com um grupo muito organizado de moscas, estava localizado embaixo da porta... algo que me paralisa, algo que, mesmo sem saber o motivo, me assusta mais do que tudo que já passei nessa casa: "SÓTÃO".Não sei o que aconteceu, mas estou de volta, não sei o porquê do meu susto ao ver aquela palavra, mas aparentemente foi suficiente para me fazer apagar novamente. Estou de pé em frente a escada para o sótão, mal acordei e já estou suando mais do que nunca, minha respiração está ofegante e minhas pernas tremulas. Não estou mais segurando o facão, em vez disso estou segurando uma chave velha. Decido acabar de vez com esse mistério e entro no sótão sem mais hesitar. O cheiro no sótão é forte, mais de uma maneira diferente, é quase como se fosse um açougue, um cheiro de sangue fresco. O chão está com sangue como em qualquer parte da casa. Há um baú quase do tamanho de uma televisão de tubo de 29 polegadas. Tem uma fechadura bem velha e grande que me lembra da chave que estou segurando. Descido abrir, a situação não pode ficar pior. Provavelmente têm um corpo lá dentro e, provavelmente eu sei de quem é! Ouço um sussurro, mas já ouvi tantas vozes que descido ignorar. A fechadura dá um pouco de trabalho, mas abre. Ao levantar a tampa do baú... Sirenes, não sei se de uma ambulância ou se da polícia, mas, eu não chamei ninguém... Do baú levanta-se minha irmã, trajando um vestido branco, e, diferente do resto da casa, sem nenhum pingo de sangue. Ao olhar para suas pequenas mãos eu não posso acreditar no que vejo: a cabeça de nossos pais, equilibradas pelo cabelo — uma em cada mão.
Novamente eu acordo, já está virando recorrente esse tipo de apagão, mas agora noto um grande desconforto em minha cabeça. Olho em volta e aparentemente estou em um quarto branco. Não consigo mover meus braços. Perto de mim tem uma mulher com um jaleco branco, ela está acompanhada de dois homens fortes que vestem fardas policiais. – O que estou fazendo aqui? Cadê minha irmã? — Eles olham para mim com um olhar estranho, como se eu tivesse falado algo insano. A mulher toca meu braço imobilizado e fala:- Willian, você nunca teve uma irmã!
Notas finais
Se gostou da história me motive a continuar, dando sugestões, críticas, fazendo perguntas ou compartilhando a história.
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