Entre dois mundos - Hogwarts

2 Segredo entre as páginas


Notas iniciais
Boa leitura!

O Grande Salão fervilhava com conversas e risadas enquanto os alunos da Sonserina se reuniam na mesa adornada com verde e prata. O brilho das tochas iluminava suavemente o ambiente, refletindo nos cálices dourados e nos arcos do teto encantado, que mostrava o mesmo céu cinzento e ameaçador do lado de fora.


Anne entrou ao lado de Daphne Greengrass, que caminhava com a elegância de alguém acostumada a ser o centro das atenções. Seu perfume suave de lavanda contrastava com o ar úmido e frio que ainda impregnava o castelo.


– Anne, tente sorrir — comentou Daphne, lançando-lhe um olhar de canto. — Se continuar com essa cara, as pessoas vão achar que você está planejando um motim contra Hogwarts.


Anne suspirou, puxando o cachecol ao redor do pescoço. – Com um clima desses, sorrir parece trabalho demais.


Daphne riu baixo. – Drama, como sempre.


Quando se aproximaram da mesa, Pansy Parkinson estava inclinada sobre seu prato, sussurrando algo para Millicent Bulstrode, que soltava risadas abafadas. Pansy, com sua postura altiva e olhos críticos, parecia pronta para encontrar algo – ou alguém – para alfinetar.


Teodore Nott chegou logo depois, jogando-se casualmente ao lado de Anne. Seu cabelo castanho estava bagunçado de maneira quase charmosa, e ele carregava uma maçã que mordiscava despreocupadamente.


– Bom dia, minhas serpentes favoritas — disse ele, com um sorriso preguiçoso. — Ficaram com saudades de mim?


Daphne revirou os olhos, enquanto pegava uma fatia de pão. – Teo, ninguém sente saudade de um mala como você. Aliás, nos vimos ontem.


Ele riu, sem se abalar. – Mas ontem foi ontem. Agora, me contem: como foram as férias?


Daphne deu de ombros, ajeitando os cabelos loiros. – Dois bailes entediantes e muitos parentes me dizendo como devo planejar meu futuro. Nada que eu já não esperasse.


– E você, Anne? – perguntou Teodore, inclinando-se ligeiramente para ouvi-la melhor.

Anne cortou um pedaço de muffin antes de responder. – Nada de emocionante. Passei o tempo lendo, tentando ignorar o mundo ao meu redor... Aquele silêncio seria ótimo agora.


Pansy, que ouvia a conversa de relance, inclinou-se para lançar um olhar sarcástico. – Oh, Anne, sua vida é tão empolgante quanto assistir a tinta secar.


Anne levantou os olhos lentamente para Pansy, um sorriso falso surgindo em seus lábios. – Obrigada, Parkinson. Sua opinião é, como sempre, incrivelmente desnecessária.


Daphne sufocou uma risada enquanto Teodore mudava o assunto.


– E os N.O.M.s? Alguma surpresa?


Anne deu de ombros. – Nada mal. Ótimo em Poções e Defesa Contra as Artes das Trevas. Herbologia, no entanto... Um desastre completo.


Daphne suspirou, erguendo a xícara de chá com um ar dramático. – Herbologia deveria ser opcional para qualquer pessoa com bom senso. Quem quer sujar as mãos com terra?


Teodore sorriu. – Eu também não me saí muito bem em Herbologia. Mas Poções e Feitiços foram decentes. História da Magia... vamos apenas dizer que Binns é melhor como sonífero.


Anne riu baixo, concordando.


Pouco depois, os pergaminhos com os horários do ano começaram a ser distribuídos. Anne abriu o seu e franziu o cenho ao analisar as matérias.


– Defesa Contra as Artes das Trevas com Snape na primeira aula — comentou Teodore, inclinando-se para espiar o pergaminho dela. Parece que ele finalmente conseguiu o que queria.


– Transfiguração à tarde — continuou Daphne, olhando o próprio horário. — Slughorn amanhã pela manhã... meus pais sempre falam dele. Parece que ele tem uma queda por alunos talentosos.


– Ou influentes — disse Teodore, com um sorriso divertido.


Anne deu um sorriso discreto. – Se ele gostar de você, talvez. Caso contrário, boa sorte.


Os três conversaram por mais alguns minutos, discutindo as exigências do ano e as expectativas para as aulas avançadas, antes de seguirem para a primeira aula.


(...)


A sala de aula estava escura, com cortinas pesadas que bloqueavam qualquer resquício de luz natural. As velas acesas lançavam sombras que se moviam de forma inquietante pelas paredes, onde quadros grotescos mostravam feitiços que haviam saído terrivelmente errado.


Anne se sentou ao lado de Teodore, enquanto Daphne escolheu um lugar mais à frente com Astrid Selwyn. Astrid era alta e esguia, com cabelos negros que caíam em linhas perfeitas e olhos azul-claros que pareciam capazes de ler qualquer um em segundos. Ela raramente falava, mas quando o fazia, suas palavras eram calculadas e afiadas.


Snape entrou na sala em um movimento fluido, sua capa negra ondulando atrás de si. Ele fechou a porta com um estalo e varreu a sala com um olhar que parecia perfurar a alma de cada aluno.


– Não peguem seus livros — começou ele, sua voz cortante. — Hoje quero toda a sua atenção.


Enquanto ele caminhava pela sala, suas palavras ecoavam como um feitiço hipnotizante.


– As Artes das Trevas são imprevisíveis, indestrutíveis e eternas. Combatê-las exige habilidade, mas, acima de tudo, exige respeito pelo inimigo.


Anne trocou um olhar com Teodore, que parecia entediado. – Daphne diria que ele está dramatizando — murmurou, arrancando um sorriso abafado de Anne.


(...)


À noite, Anne decidiu pular o jantar e foi direto para a biblioteca. O espaço estava mergulhado em um silêncio quase sagrado, interrompido apenas pelo som ocasional de páginas sendo viradas ou passos suaves ecoando entre as estantes.


Ela começou sua busca com determinação, passando os olhos pelas lombadas dos livros empoeirados, mas logo percebeu que o conteúdo disponível era frustrantemente vago.


O primeiro volume que pegou, "Encantamentos para Viagens no Tempo", era uma compilação detalhada de feitiços teóricos, mas muitos dos ingredientes necessários eram praticamente impossíveis de encontrar.


– Sangue de unicórnio, uma varinha feita de madeira extinta, um espelho enfeitiçado... — Anne leu em voz baixa, fechando o livro com um suspiro pesado. – Útil como sempre.


Ela tentou outro, "A Magia da Transfiguração em Mundos Paralelos", mas as páginas estavam repletas de teorias filosóficas que mais confundiam do que ajudavam.


– Mundos alternativos existem em estados de sonho? — murmurou para si mesma, revirando os olhos. – Talvez eu devesse tentar dormir mais.


Depois de horas, Anne já estava com a cabeça apoiada na mão, o rosto cansado refletindo sua frustração. Os livros seguintes não foram melhores: "Portais Perdidos e Suas Histórias" e "Segredos das Runas do Tempo" pareciam promissores à primeira vista, mas logo se revelaram mais como contos do que guias.


Quando já estava prestes a desistir, puxou um livro aleatório com uma capa de couro desbotada. Ao abri-lo, algo caiu de dentro – uma folha de pergaminho antiga, amarelada e delicada ao toque.


Anne pegou o pedaço de papel com cuidado, o coração acelerando ao notar a caligrafia elegante e a tinta ligeiramente desbotada.


"Família Relish" lia-se no topo em letras sublinhadas.


Ela passou os olhos pelo texto, sentindo cada palavra cravar mais fundo em sua mente:


"A família Relish é uma das mais enigmáticas do mundo bruxo, conhecida por seus segredos sobre viagens entre realidades e a origem de sua vasta riqueza no século XII. Porém, informações concretas sobre esta linhagem foram cuidadosamente suprimidas ao longo dos séculos. Restam apenas rumores, preservados de forma clandestina, indicando que seus descendentes possuem habilidades únicas que os tornam... exceções às regras do mundo mágico. Não há indícios de herdeiros nesta linhagem; os poucos que sobraram desapareceram há muito tempo."


Logo abaixo, havia uma ilustração meticulosamente detalhada de uma mulher que tinha cabelos encaracolados, sua feição era desafiadora. Anne sentiu o coração apertar.


– Ela se parece comigo?! – murmurou, os olhos arregalados enquanto observava o desenho.


Ela olhou ao redor, como se esperasse que alguém surgisse para confirmar ou negar suas suspeitas. Mas a biblioteca estava vazia, e o silêncio parecia mais sufocante do que nunca.


Guardando a folha no bolso, Anne fechou o livro e saiu da biblioteca às pressas, suas botas ecoando contra o chão de pedra. Anne saiu da biblioteca e foi para o pátio. O ar frio bateu em seu rosto, mas ela mal notava. Quando virou uma esquina, esbarrou em alguém.


Draco Malfoy estava parado à sua frente, com um sorriso presunçoso nos lábios.


– Relish, você sempre parece à beira de um colapso. Vai explodir alguém dessa vez?


Anne recuou, os olhos focando no rosto pálido e na expressão arrogante de Draco. – Talvez você devesse olhar por onde anda, Malfoy.


Ele se inclinou para pegar um volume caído, entregando-o a ela com uma expressão que parecia oscilar entre desdém e curiosidade.


– Sabe, Relish, você deveria ser mais cuidadosa.


Anne o encarou, sem paciência para suas provocações. – E você deveria tentar não ser tão insuportável. Deve ser cansativo.


Draco riu baixo, o som seco e carregado de sarcasmo. – Talvez seja, mas eu me divirto. E você... parece exausta demais para se divertir com qualquer coisa.


Ele se afastou antes que Anne pudesse responder, deixando-a sozinha com seus pensamentos em turbilhão.


(...)


Quando voltou ao salão comunal da Sonserina, o ambiente estava envolto em um silêncio quase acolhedor. A luz da lareira lançava sombras dançantes pelas paredes de pedra, e o ar tinha o calor convidativo do fogo. Alguns alunos conversavam em sussurros próximos à janela, enquanto outros estavam mergulhados em livros ou cochilando em poltronas de couro desgastadas. Era uma atmosfera tranquilizadora, mas para Anne, parecia não ser suficiente para acalmar os pensamentos que a consumiam.


Teodore estava reclinado em uma das poltronas próximas à lareira, girando a varinha entre os dedos. Quando viu Anne entrar, arqueou uma sobrancelha, observando-a como se tentasse decifrar algo. Então, com seu típico tom despreocupado, lançou:


– Achei que tinha sido engolida por um daqueles quadros soturnos do Snape. Onde esteve?


Anne deixou escapar um riso fraco enquanto se sentava no braço do sofá ao lado dele, sentindo o calor do fogo próximo, mas ainda incapaz de se aquecer completamente.




– Na biblioteca. Estava sem fome — respondeu, encostando-se ao sofá como se quisesse desaparecer por um instante.


Teodore estreitou os olhos, inclinando-se ligeiramente para a frente enquanto pegava um quadrado de chocolate que descansava ao lado. Ele estendeu o doce para ela, sem pressa.


– Você e seus livros — comentou, antes de dar uma mordida no seu próprio pedaço. – Mas... você parece mais do que cansada. Aconteceu alguma coisa?


Anne aceitou o chocolate, mordendo um pequeno pedaço. O gosto doce derreteu em sua língua, mas não dissipou a inquietação que fervilhava dentro dela. Seus olhos se fixaram na lareira, onde as chamas pareciam hipnotizá-la, e sua voz saiu quase como um sussurro:


– Minha mente, sabe... Está uma bagunça hoje.


Teodore, percebendo o tom mais sério, inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. O habitual sarcasmo deu lugar a uma preocupação genuína que reluziu brevemente em seu olhar.


– Quer falar sobre o que está devorando sua cabeça agora?


Anne balançou a cabeça, lenta e deliberadamente, desviando o olhar.


– Não agora. Preciso organizar tudo aqui — respondeu, tocando a própria têmpora com a ponta dos dedos.


Teodore observou-a por mais um momento antes de dar de ombros, mas sua tentativa de aliviar o clima não foi perdida.


– Certo. Mas só para constar, se precisar de ajuda para espantar esses pensamentos, eu cobro barato. Chocolate é um ótimo pagamento.


Anne deixou escapar um sorriso leve, apreciando a leveza que ele trazia, mesmo sem entender completamente o que estava acontecendo com ela.


– Vou lembrar disso — respondeu, com um toque de humor em sua voz.


Após um tempo, ela se levantou, sentindo o peso do dia em cada passo que dava em direção ao dormitório. Quando finalmente chegou, o ambiente estava escuro e silencioso. As cortinas das camas balançavam suavemente com a corrente de ar, e a luz fraca da lua atravessava o vidro embaçado, iluminando a água calma do lago Negro.


Ela se jogou na cama, o corpo afundando no colchão macio. Com o olhar fixo no teto e os dedos tocando automaticamente o relicário que usava no pescoço, Anne respirou fundo. A sensação fria do metal era um contraste com a inquietação que pulsava dentro dela.


"Eu pertenço à minha realidade. Estou em casa agora. Esta é a minha realidade" murmurou para si mesma, como se as palavras pudessem ancorá-la.


Repetiu o mantra até que, sem perceber, o cansaço venceu. Seus olhos se fecharam, e a mente, exausta, finalmente se permitiu descansar, ainda que os sonhos prometessem ser tão inquietos quanto o dia.