Entre dois mundos - Hogwarts
3 Pesadelo
Anne se viu em um salão vasto, construído inteiramente de pedras frias que pareciam absorver qualquer calor. Tapeçarias verde-esmeralda adornavam as paredes, com bordados que brilhavam levemente sob a luz de centenas de velas flutuantes. No fundo do salão, um enorme brasão dominava a parede.
Era um coração humano, cravado por inúmeras adagas prateadas, cada uma com detalhes minuciosos que cintilavam. O coração parecia pulsar levemente, quase como se ainda estivesse vivo, e o som baixo de algo gotejando ecoava pelo ambiente.
No centro do salão, havia uma longa mesa repleta de comida exuberante: frutas reluzentes, carnes suculentas e taças de ouro cheias de vinho rubro. O contraste entre a abundância da mesa e a frieza do salão era inquietante, e Anne sentiu uma onda de desconforto subir por sua espinha.
Na ponta da mesa, uma mulher estava sentada. Seu longo cabelo brilhava como seda à luz das velas, caindo sobre os ombros com uma elegância que parecia intencional. O rosto dela era uma mistura perturbadora de familiaridade e mistério – traços que Anne reconhecia vagamente, como se os tivesse visto em um espelho antigo ou em um sonho esquecido.
Os olhos da mulher estavam fixos em Anne, mas a expressão era indecifrável: havia um ar de autoridade absoluta, misturado com algo mais sombrio, quase predatório.
Anne tentou se mover, mas seus pés pareciam presos ao chão. O ar ao seu redor era denso, carregado de algo que ela não conseguia identificar. Uma sensação de pânico começou a crescer em seu peito, mas ela não conseguia desviar o olhar da mulher.
De repente, as velas começaram a apagar uma a uma, deixando o salão mergulhado em uma escuridão crescente. O único som era o leve crepitar das últimas chamas sobreviventes. Quando restaram apenas as velas ao redor da mulher, ela finalmente se moveu.
– Você... – começou, sua voz distorcida, ecoando pelo salão como se viesse de todas as direções. Ela levantou um dedo pálido e apontou diretamente para Anne. – ...é o começo e o fim desta linhagem.
Os olhos da mulher começaram a verter um líquido vermelho espesso, que corria por seu rosto como lágrimas. Era sangue, e o contraste com sua pele pálida era macabro. Anne sentiu uma onda de náusea ao observar o líquido pingar na mesa, manchando a comida exuberante.
O salão parecia tremer ao som da voz da mulher. Anne tentou recuar, mas algo invisível a prendeu no lugar. De repente, uma força poderosa começou a arrastá-la pelo chão. Suas costas raspavam contra a pedra fria, e ela tentou gritar, mas nenhum som saiu de sua garganta.
A garota acordou com um salto, seu coração martelando no peito. Por um instante, acreditou que estava em casa. A esperança se desfez ao reconhecer as cortinas verdes e prata do dormitório da Sonserina.
– Anne! Acorde, Anne!– a voz de Daphne soou urgente ao seu lado.
Anne virou-se e viu sua amiga, os olhos azuis arregalados de preocupação.
– Você está bem?– perguntou Daphne, sentando-se ao lado dela e empurrando os cabelos bagunçados da amiga para trás. – Estava se contorcendo na cama. Fiquei preocupada!
Anne percebeu que seu rosto estava molhado, mas não sabia se era suor ou lágrimas. – Estou... estou bem. Foi só um pesadelo — murmurou, tentando convencer mais a si mesma do que a Daphne.
O quarto estava vazio, indicando que as outras meninas já haviam descido para o café da manhã. Daphne franziu o cenho, claramente desconfiada, mas não insistiu.
– Você não acordava de jeito nenhum. Vamos acabar nos atrasando para a aula. Vista-se logo, vou descer para pegar algo do café da manhã para você.
Anne observou a loira sair e soltou um longo suspiro. O que foi aquilo?
(...)
A porta rangeu quando Anne a empurrou, tentando entrar discretamente. Mas, como sempre, sua tentativa de passar despercebida foi em vão. Todos os olhares se voltaram para ela, e o som abafado de vozes e caldeirões borbulhando cessou.
– Ah, atrasada, senhorita...? – a voz de Slughorn ecoou, gentil, mas curiosa. Seus olhos brilhavam por trás dos óculos enquanto ele a encarava.
– Relish, senhor. Anne Relish — respondeu ela, a voz quase falhando enquanto sentia o rosto esquentar.
Slughorn sorriu, amigável. – Relish, é claro. Bem, senhorita Relish, espero que seu atraso não seja um hábito. Pode se sentar.
Anne assentiu rapidamente e caminhou para o fundo da sala, onde havia um lugar vago ao lado de Draco Malfoy. Ele estava mais pálido do que o normal, com olheiras profundas que denunciavam noites mal dormidas. Seus dedos batiam levemente na mesa, um movimento quase imperceptível, mas que traía sua inquietação.
Anne não conseguiu evitar encará-lo por alguns instantes, suas suspeitas sobre o que ele estava enfrentando crescendo em sua mente. A missão dada a ele por Voldemort já havia começado.
– O que você está olhando, Relish? – murmurou Draco, sem erguer os olhos do caldeirão à sua frente. Sua voz carregava um tom cortante, mas baixo o suficiente para não chamar a atenção do restante da turma.
Anne piscou, puxada de volta de seus pensamentos. Ela hesitou, sabendo que precisava disfarçar sua inquietação.
– Nada — respondeu finalmente, com o mesmo tom sussurrado. – Você só parece... um pouco doente.
Draco finalmente a encarou, com as sobrancelhas arqueadas e uma expressão de desdém que parecia quase automática.
– E isso, obviamente, é da sua conta, não é? – rebateu ele, em um tom que quase soava teatral, antes de voltar sua atenção para o professor à sua frente.
Anne revirou os olhos, tentando conter a irritação que sempre vinha com suas trocas de farpas.
– Você é tão irritante — sussurrou ela, a voz tingida de exasperação, enquanto organizava seus materiais na mesa.
Draco deu um leve sorriso, mas não ergueu os olhos do caldeirão.
– E você é insuportavelmente curiosa — retrucou ele, como se fosse uma conclusão óbvia.
Anne se permitiu um pequeno sorriso, mas desviou o olhar rapidamente, concentrando-se de volta na aula.
A voz de Slughorn enchia a sala enquanto ele caminhava entre os alunos, apontando para os diferentes caldeirões que tinha colocado na frente da sala. Anne tentou se concentrar, mas sua mente continuava vagando.
– Esta — disse Slughorn, apontando para um caldeirão fumegante — É a Amortentia. A poção do amor mais poderosa. Cada pessoa sente algo diferente, dependendo do que mais a atrai.
Anne inclinou-se ligeiramente para sentir o aroma. Para ela, o cheiro era uma mistura de lavanda, chuva fresca e algo que não conseguia identificar – um perfume leve que parecia estranhamente familiar.
O próximo caldeirão chamou sua atenção pela cor dourada e pelo brilho líquido.
– E esta, meus caros, é a Felix Felicis, a sorte líquida. Quem preparar a melhor poção hoje levará este pequeno frasco como prêmio.
Anne começou a trabalhar, seguindo as instruções com cuidado, mas não conseguiu evitar sentir-se insegura. Talvez ganhar isso pudesse ajudá-la a encontrar um caminho de volta para casa.
Draco, ao lado dela, parecia determinado. Suas mãos estavam firmes enquanto preparava os ingredientes, mas seu olhar era pesado, como se estivesse lidando com algo além da aula.
Quando Slughorn anunciou que Harry Potter havia vencido, o rosto de Draco escureceu. Ele saiu da sala sem dizer uma palavra, e Anne apenas observou, sentindo-se incomodada com o que sabia estar por vir para ele.
Daphne se aproximou, estendendo-lhe um muffin.
– Aqui. É de blueberry. Você precisa comer algo — disse ela, sua expressão transparecia um misto de preocupação e pragmatismo.
Teodore logo se juntou a elas, recostando-se preguiçosamente contra a parede.
– Então, o que acham da primeira aula com Slughorn? – perguntou ele, mordendo um pedaço de maçã.
Anne deu de ombros. – Interessante. Mas não acho que eu vá ganhar alguma coisa por aqui tão cedo.
– Ele é mais... acessível do que Snape, pelo menos — comentou Daphne.
Teodore riu. – A barra não está tão alta assim, Greengrass.
Anne riu levemente, mas o peso do pesadelo e o desconforto da aula ainda pairavam sobre ela.
Enquanto eles caminhavam pelos corredores, Anne parou abruptamente.
– Vão na frente. Preciso falar com o professor Snape
Daphne arqueou uma sobrancelha. – Está aprontando alguma coisa, Relish?
Anne deu um sorriso forçado. – Nada demais. Só preciso resolver uma questão.
Teodore lançou-lhe um olhar curioso, mas não questionou.
Anne os observou se afastar antes de se virar na direção oposta.
(...)
Anne hesitou em frente à porta do novo escritório de Snape, respirando fundo, Anne ergueu a mão e bateu na porta, ouvindo um leve arrastar de cadeiras e o som abafado de pergaminhos sendo movimentados.
Desde que assumira o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, o ambiente ao redor parecia ter adquirido uma aura menos carregada do que as masmorras de Poções, mas ainda assim havia algo inegavelmente intimidador. As paredes eram forradas de prateleiras contendo livros encadernados em couro escuro e frascos de poções que reluziam fracamente à luz das velas.
– Entre — veio a voz cortante de Snape, seca e sem qualquer traço de paciência.
– Relish — disse ele, inclinando minimamente a cabeça em reconhecimento. — Presumo que tenha um motivo válido para interromper meu trabalho.
Anne sentiu um leve nó na garganta, mas manteve a postura. – Sim, professor. Gostaria de pedir uma autorização especial.
A sobrancelha de Snape ergueu-se levemente, um gesto que misturava ceticismo e irritação.
– Uma autorização especial? — Ele apoiou o queixo em uma das mãos, os dedos longos tamborilando lentamente contra a bochecha. — Espero que não seja outra tentativa desesperada de evitar suas responsabilidades.
Anne respirou fundo, lutando para manter o tom firme. – Não, senhor. É algo importante. Quero aprimorar minhas habilidades em Poções. Sei que o senhor não ensina mais a matéria, mas... Aprendi muito sob sua orientação e acredito que o senhor é a pessoa certa para me conceder essa permissão.
Por um breve instante, o rosto de Snape pareceu relaxar, mas a carranca habitual logo retornou. Ele cruzou os braços e inclinou-se para a frente, como se estudasse cada palavra que saía da boca de Anne.
– Continue — disse ele, com um gesto para que ela explicasse.
Anne ajustou a postura, tentando parecer confiante. – Tenho planos de me tornar Medibruxa. As poções avançadas são cruciais para essa formação, mas sinto que o material básico não é suficiente. Preciso de algo mais aprofundado, e acredito que a Seção Restrita da biblioteca pode conter os recursos necessários.
Snape inclinou-se levemente para trás, cruzando os braços. Seus olhos nunca deixaram os de Anne, analisando cada palavra dita.
– E quais áreas específicas de estudo acredita que necessitam desse... Aprofundamento? – perguntou, seu tom ligeiramente desafiador.
Anne respirou fundo, tentando soar convincente. – Poções complexas para cura, antídotos raros, talvez algumas fórmulas experimentais de regeneração mágica.
Snape permaneceu em silêncio por alguns instantes que pareceram uma eternidade. Então, ele se inclinou para frente, unindo as pontas dos dedos.
– Ambição e determinação são qualidades perigosas quando mal direcionadas — Começou ele, a voz carregada de uma mistura de desdém e respeito contido. — O acesso à Seção Restrita não é concedido levianamente. Os livros ali guardados não são para curiosos despreparados.
Anne prendeu a respiração, esperando pelo restante da sentença.
– Se acredita que esses estudos são essenciais, concederei sua solicitação, mas com uma condição.
– Qualquer coisa, professor — Respondeu Anne imediatamente, inclinando levemente a cabeça.
Snape ergueu uma sobrancelha, parecendo levemente satisfeito com a resposta, mas seu tom permaneceu firme. – Quero relatórios detalhados sobre o que está estudando e como planeja aplicar esse conhecimento. Não serei responsável por experimentos imprudentes que possam surgir da sua curiosidade.
Anne assentiu rapidamente. – Entendido, professor. Obrigada pela confiança.
Snape pegou um pergaminho em branco e escreveu uma nota rápida, sua caligrafia firme e precisa preenchendo o espaço.
– Não desperdice minha confiança, Relish — disse ele, com um olhar que parecia atravessá-la.
Anne pegou o pergaminho com cuidado, segurando-o com ambas as mãos.
– Agradeço, professor. Não vou decepcioná-lo — disse ela, com sinceridade.
Snape não respondeu. Ele já havia voltado sua atenção para os pergaminhos em sua mesa, como se o assunto estivesse encerrado.
"Ele deve estar em um bom dia" pensou, enquanto caminhava pelos corredores de pedra, com o pergaminho firmemente preso em suas mãos.
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