A semana parecia escapar por entre os dedos de Anne. Entre aulas desafiadoras e tarefas intermináveis, ela mal teve tempo de visitar a biblioteca novamente – algo que a deixava inquieta. Os sonhos perturbadores continuavam assombrando suas noites, cada vez mais vívidos e carregados de simbolismo. Anne começava a se perguntar se o que vivenciava em Hogwarts era real ou apenas um produto de sua imaginação, algo criado por sua mente como um refúgio.


Naquele dia, o clima parecia espelhar sua confusão interna. A chuva caía torrencialmente sobre o castelo, e o céu cinzento se estendia como um manto opressivo. O vento soprava com força, fazendo as árvores do terreno de Hogwarts dobrarem-se sob sua fúria. As pedras molhadas do pátio refletiam o relâmpago ocasional, lançando flashes rápidos de luz nas janelas.


Por causa do mau tempo, as aulas de Aparatação, originalmente marcadas para o pátio, foram transferidas para o Salão Principal. Anne e Teodore Nott caminhavam rapidamente pelos corredores, ambos com as capas encharcadas.


– Se eles acham que vamos aprender a desaparecer magicamente num lugar lotado de adolescentes incompetentes, estão delirando. — resmungou Teodore, ajeitando o capuz e lançando um olhar entediado para a frente.


Anne suspirou, um sorriso cansado surgindo em seus lábios. – Ah, Teo, sua fé nas pessoas é sempre inspiradora.


Quando chegaram ao Salão Principal, a cena era inesperada. As mesas compridas das Casas haviam desaparecido, deixando o salão vasto, vazio e um tanto intimidador. O chão de pedra reluzente refletia as tochas acesas nas paredes, e os diretores das Casas estavam posicionados em pontos estratégicos, observando os alunos enquanto eles se aglomeravam.


Anne avistou Daphne mais à frente, conversando com Luna Lovegood. Era curioso como Daphne, tão alinhada ao orgulho da Sonserina, mantinha uma amizade com Luna, que sempre parecia flutuar em seu próprio mundo.


Luna tinha um ar etéreo, quase surreal. Seus cabelos loiros, desgrenhados, caíam em ondas suaves sobre os ombros, e os olhos grandes e prateados observavam tudo com uma curiosidade calma. Ela usava brincos de rabanete e um colar feito de tampinhas de garrafa, itens que pareciam destoar completamente da elegância de Daphne, mas, de algum modo, a combinação funcionava.


– Vocês chegaram cedo — disse Daphne, enquanto Anne se aproximava.


– Parece que não temos escolha — respondeu Anne, lançando um olhar para o salão.


Antes que pudessem continuar, um homem pálido e magro apareceu no centro do salão. Wilkie Twycross, o instrutor enviado pelo Ministério, tinha uma aparência quase fantasmal. Sua pele era tão translúcida que as veias em suas mãos eram visíveis, e seus cabelos ralos pareciam flutuar ao menor movimento.


– Bom dia — começou ele, com uma voz anasalada que ecoou pelo espaço. – Meu nome é Wilkie Twycross, e serei o instrutor ministerial de Aparatação pelas próximas doze semanas. Meu objetivo é prepará-los para o teste de Aparatação dentro deste período.


Antes que ele pudesse continuar, a voz afiada da professora McGonagall interrompeu.


– Malfoy, sossegue e preste atenção!


Todos os olhares se voltaram para Draco Malfoy, que discutia em voz baixa com Crabbe. Ele corou, visivelmente irritado, e cruzou os braços, afastando-se.


Twycross prosseguiu como se nada tivesse acontecido. – Como vocês sabem, normalmente é impossível aparatar ou desaparatar em Hogwarts. Contudo, o diretor suspendeu temporariamente esse encantamento no Salão Principal, para que possamos praticar com segurança. Aproveitem esta oportunidade, mas lembrem-se: aparatar exige as três D's – Destino, Determinação e Deliberação.


Com as instruções dadas, os alunos foram posicionados no salão, cada um com pelo menos um metro e meio de distância dos demais. Anne respirou fundo, sentindo um nó no estômago.


– Destino, Determinação e Deliberação — repetiu Twycross, andando entre os alunos como uma figura fantasmagórica. – Mantenham o foco absoluto em seu objetivo.


Anne fechou os olhos, tentando seguir as instruções. Destino. Determinação. Deliberação. As palavras ecoavam em sua mente, mas, por mais que se concentrasse, não sentiu nada além da mesma tensão habitual.


Quando abriu os olhos, Daphne estava ao lado, com os braços cruzados e uma expressão de irritação.


– Ridículo — murmurou ela. – Quem acha que podemos aprender isso de imediato deveria ser estrunchado.


Teodore, ao lado, parecia estar se divertindo mais do que praticando. – Relaxem, serpentes. O importante é parecerem elegantes enquanto falham.


O silêncio foi interrompido por um grito de Susana Bones, da Lufa-Lufa. Ela estava parcialmente aparatada, com uma perna ainda parada a um metro de distância de onde o restante do corpo estava.


– Estrunchamento — disse Twycross, com um tom profissional. – Exatamente o que estamos tentando evitar. Professora Sprout, por favor.


A aula seguiu com mais tentativas frustradas, mas nenhum aluno conseguiu aparatar completamente. Quando Twycross finalmente os dispensou, o grupo estava exausto.


(...)


Após o jantar, Anne encontrou seus amigos reunidos na Sala Comunal da Sonserina. O espaço, iluminado por um brilho esverdeado vindo do lago Negro, parecia mais acolhedor do que de costume, um contraste com o clima tempestuoso que dominava Hogwarts. As poltronas de couro escuro estavam dispostas ao redor da lareira, que crepitava suavemente, enquanto alguns alunos conversavam em voz baixa ou estudavam em mesas próximas.


Astoria Greengrass, a irmã mais nova de Daphne, estava sentada em uma das poltronas próximas. Apesar de ser apenas alguns anos mais nova, Astoria exalava um ar de delicadeza que contrastava com a confiança afiada de Daphne. Seus cabelos loiros estavam presos em um penteado simples, mas bem arrumado, e seus olhos azul-claros observavam tudo com curiosidade atenta, quase como se ela absorvesse cada detalhe do ambiente.


– Se você tivesse visto, Tori — começou Daphne, rindo de forma quase exagerada, enquanto ajeitava o cabelo. — Foi um desastre total. Ninguém saiu do lugar, exceto Susan Bones... mas não de um jeito que alguém gostaria de repetir.


Astoria mordeu o lábio, o semblante preocupado. – Eu sempre achei que Aparatação fosse algo emocionante, mas agora estou começando a achar que é aterrorizante.


Teodore, sentado de forma relaxada em uma poltrona próxima, lançou um olhar divertido para a jovem. – Você tem sorte de ainda não precisar passar por isso. Deixe o sofrimento para nós, os veteranos.


Daphne revirou os olhos dramaticamente. – Sofrimento? Nott, você mal tentou. Passou mais tempo fazendo piadas do que tentando aparatar.


O grupo continuou conversando por um tempo, compartilhando histórias do dia e soltando comentários ácidos sobre o instrutor de Aparatação, até que, um a um, começaram a se retirar para os dormitórios. Daphne se levantou com um bocejo elegante.


– Estou exausta. Este tempo horrível me deixa ainda mais sonolenta. E amanhã temos Feitiços, então não vou arriscar perder o café da manhã. — Ela olhou para Anne. – Você vem, querida?


Anne balançou a cabeça. – Ainda não. Preciso de um momento para mim.


– Não vá dormir muito tarde, Relish — disse Teodore, com um tom meio brincalhão, mas carregado de um leve cuidado.


Anne observou os amigos subirem as escadas, deixando-a sozinha na sala comunal. O ambiente parecia mais silencioso do que nunca.


Sentada em uma das poltronas mais afastadas, Anne passou os dedos pelo relicário pendurado em seu pescoço. O pequeno objeto era um dos poucos pertences de sua mãe que ela ainda possuía. Era feito de prata, agora desgastado pelo tempo, mas ainda brilhava sob a luz tênue.


Ela abriu o compartimento com cuidado, revelando a foto de sua mãe. O sorriso caloroso da mulher parecia contradizer a tristeza que Anne sentia sempre que olhava para a imagem. A saudade era esmagadora. Sua mãe desaparecera quando ela ainda era criança, deixando para trás um vazio que nunca fora preenchido.


Anne suspirou, deslizando o polegar pela borda da foto. A textura parecia diferente naquela noite, como se algo estivesse fora do lugar. Curiosa, ela empurrou levemente, e a foto se soltou do compartimento, caindo em seu colo.


Por um momento, Anne ficou confusa. Não tinha ideia de que a foto estava encaixada ali de forma tão solta. Mas quando olhou para o fundo do relicário, viu algo que nunca notara antes: uma única palavra gravada em letras douradas.


"HIRAETH"


- Hiraeth — ela sussurrou, o som da palavra preenchendo o silêncio da sala.