Anne encarava as chamas crepitantes da lareira à sua frente, os reflexos dançando em seus olhos enquanto sua mente vagava por um emaranhado de pensamentos. Ao seu lado, Daphne falava animadamente sobre a pequena "reunião" que o professor Slughorn organizaria em breve, mas as palavras dela pareciam um murmúrio distante. Anne estava ocupada demais tentando resolver problemas que nem sabia como formular, muito menos solucionar.


- Não é mesmo, Anne? — a voz de Daphne a trouxe de volta, cortando seu devaneio.


- Hã? Ah, claro! Sim... — respondeu Anne rapidamente, sem fazer ideia do que havia concordado.


Daphne estreitou os olhos, claramente irritada. — Você nem estava prestando atenção! Eu poderia ter dito que usaria um chapéu de gnomo para o jantar, e você teria concordado!


- Anne está no mundo da lua, como os trouxas dizem — provocou Nott, com aquele tom de desdém que parecia vir naturalmente a ele.


Anne suspirou e deu um pequeno sorriso culpado, colocando a mão no ombro de Daphne. — Desculpe, Daph. Estava distraída. Sobre o que você estava falando?


Daphne bufou dramaticamente, mas não conseguiu esconder um sorriso. — Estava falando que precisamos comprar vestidos novos em Hogsmeade neste fim de semana. Você sabe, temos que representar bem a nossa casa, e não posso fazer isso com as roupas da última estação.


Nott revirou os olhos, jogando-se no sofá como se estivesse exausto só de ouvir. — Você já tem tantos vestidos, Greengrass. Vai abrir uma loja de moda bruxa agora?


- E se eu abrir, você será meu primeiro cliente, Nott- retrucou Daphne com um sorriso vitorioso.


- Claro, vou encomendar um robe dourado. Combina com a minha personalidade — ele respondeu, sem perder o ritmo, arrancando uma risada de Anne.


Eles continuaram discutindo o que fariam em Hogsmeade, mencionando doces da Dedosdemel, a última novidade na Zonko's e a possibilidade de espiar algum aluno da Grifinória fazendo algo embaraçoso.


Anne, no entanto, estava apenas parcialmente envolvida na conversa, sua mente ainda inquieta. Depois de um momento de silêncio, ela soltou a pergunta que estava martelando em sua cabeça.


- Pessoal... O que vocês fariam se pudessem prever o futuro?


Daphne franziu a testa, inclinando-se ligeiramente para a frente. — Com certeza, eu usaria isso para acertar todas as respostas das provas. Não que eu precise de ajuda, mas seria conveniente.


Nott riu, espreguiçando-se preguiçosamente. — Eu apostaria em todos os jogos de quadribol da temporada, obviamente. Ficar rico sem esforço é o que qualquer pessoa sensata faria. Por que a pergunta de repente, Relish?


Anne hesitou, olhando para os dois. Ela buscava as palavras certas, mas sabia que o que estava prestes a dizer seria recebido com ceticismo.


- E se eu dissesse que posso prever o futuro?


Daphne arqueou uma sobrancelha, avaliando-a com a calma de quem já estava acostumada às excentricidades de Anne. — Eu diria que quero provas.


Nott, por outro lado, soltou uma risada curta. — Eu diria que isso é ridículo. Se fosse verdade, você teria continuado na aula de Adivinhação em vez de sair dizendo que era ''uma perda de tempo"


Anne revirou os olhos. — Não estou falando de chás ou bolas de cristal, Nott. É diferente. Eu... sei o que vai acontecer, com certeza.


Daphne recostou-se no sofá, cruzando as pernas e estudando Anne como se ela fosse um enigma a ser decifrado. — Bem, então prove. O que vai acontecer amanhã, Relish?


Anne respirou fundo, inclinando-se levemente para a frente. — Posso dizer o que vai acontecer na seletiva de quadribol da Grifinória amanhã. Querem detalhes?


Daphne estreitou os olhos, claramente intrigada. Nott deu de ombros, mas Anne notou o brilho curioso em seu olhar.


- Estamos ouvindo — disse Daphne, o tom casual, mas com uma pontada de expectativa.


Anne sentia o peso das palavras que estava prestes a dizer. Falar sobre o que sabia do futuro sempre parecia perigoso, mas esse ano, em especial, era um terreno ainda mais arriscado. Não era apenas a morte de Dumbledore que a preocupava, mas tudo que se seguiria: o caos, a dor e a incerteza. "O Enigma do Príncipe" sempre fora seu livro favorito, marcando o amadurecimento sombrio da saga. Mas vivê-lo era uma experiência completamente diferente. Não eram apenas palavras em uma página — eram vidas, eram escolhas.


E se ela pudesse mudar a história? Fazer com que Dumbledore sobrevivesse, evitar a invasão dos Comensais da Morte? Talvez pudesse proteger mais do que seus próprios amigos... mas a ideia de alterar eventos tão importantes fazia seu estômago revirar.


Ela respirou fundo, buscando a coragem para falar, enquanto seus olhos vagavam pelos rostos curiosos de Daphne e Teodore.


- Amanhã, na seletiva de quadribol da Grifinória, Harry vai passar boa parte da manhã lidando com uma multidão de candidatos desajeitados. Vai ser um completo caos, começou Anne, tentando soar casual. — Mas, entre os poucos que realmente se destacam, Gina Weasley vai marcar dezessete gols e garantir um lugar como artilheira. Katie Bell vai voltar ao time, e uma novata, Demelza Robins, vai surpreender todo mundo com sua agilidade.


Anne deu um leve sorriso, mas continuou, sua voz mais firme. — O maior drama vai ser na disputa pelo posto de goleiro. Córmaco McLaggen vai defender quatro lançamentos, mas vai errar o último de forma tão ridícula que vai virar piada. Já Rony Weasley, apesar de parecer nervoso a ponto de desmaiar, vai defender cinco penalidades e ganhar a posição. Ah, e McLaggen vai sair furioso, acusando Gina de favorecer o irmão, mas Harry vai ignorá-lo.


Teodore soltou uma risada curta, inclinando-se na poltrona. — O irmão da Wesley? O cara parece que vai tropeçar em si mesmo a qualquer momento. Você tem certeza disso?


- Tenho. Não subestime os Weasleys, Nott. — Anne assentiu, cruzando os braços.


- Grifinória é sempre um espetáculo à parte, cheio de dramas e histeria. Pelo menos vai ser divertido de assistir. — Daphne revirou os olhos, jogando o cabelo para trás.


Anne tentou esboçar um sorriso, mas sua mente estava em outro lugar. Era claro que seus amigos viam aquilo como entretenimento, mas ela sabia que o campo de quadribol não era nada comparado com o que estava por vir. E se ela pudesse fazer mais do que prever? E se pudesse agir?



(...)



O dia parecia mais ensolarado do que nos últimos tempos. O céu azul brilhava acima do castelo, mas o ar gélido deixava claro que o inverno estava se aproximando rapidamente. As árvores ao redor de Hogwarts estavam quase desfolhadas, seus galhos retorcidos projetando sombras longas sobre o gramado.


O Salão Principal estava cheio de alunos aproveitando o café da manhã. O burburinho das conversas enchia o ambiente, enquanto risadas ocasionais se destacavam aqui e ali. Na mesa da Sonserina, o ar era ligeiramente mais contido, mas ainda assim vivo. Pansy Parkinson cochichava com Millicent Bulstrode, suas risadas abafadas ecoando enquanto olhavam de soslaio para a mesa da Grifinória. Mais afastados, Daphne Greengrass passava geleia com precisão cirúrgica em um pão torrado, ignorando os cochichos animados ao redor.


Teodore Nott estava casualmente apoiado em uma das mãos, mordiscando um sanduíche, observando Daphne e Anne como se estivesse esperando por algo interessante para quebrar o tédio.


– Se quisermos chegar a tempo de ver a seletiva da Grifinória, é melhor nos apressarmos — disse Theo, interrompendo o silêncio, com a boca ainda cheia.


Daphne levantou os olhos, ajeitando o cabelo com um movimento automático, como se estivesse acostumada a fazer isso sem pensar. – Você realmente se importa com isso, Nott? Desde quando ver Grifinórios desajeitados é o seu passatempo?


Theo deu de ombros, um sorriso de canto surgindo. – Eu diria que não é. Mas, se Gina Weasley realmente marcar dezessete gols, como nossa vidente Relish previu, quero estar lá para confirmar. Pode ser o tipo de entretenimento que salva minha manhã.


Anne, até então distraída, ergueu a cabeça com um leve sorriso. – Vocês vão me agradecer depois. E quem sabe, Daphne, você pode até aprender alguma coisa sobre quadribol.


Daphne revirou os olhos, mas não conseguiu esconder um brilho curioso. – Muito bem, Relish. Vamos antes que tenhamos que ouvir ''eu avisei'' pelo resto da semana.


O trio deixou o Salão Principal, enfrentando o vento gélido que cortava o pátio. O som das folhas secas estalando sob os pés misturava-se ao murmúrio de outros alunos que também seguiam para o campo de quadribol.


Quando finalmente chegaram, o campo se abriu diante deles, vasto e imponente, com as balizas douradas brilhando sob o sol da manhã. As arquibancadas estavam quase lotadas, principalmente por Grifinórios, mas também havia grupos de outras casas misturados. O frio fazia os espectadores se aconchegarem em seus casacos, mas isso não diminuía a animação.


– Sempre achei que o campo de quadribol era impressionante — comentou Anne, observando as balizas que pareciam quase tocar o céu.


– E eu sempre achei que Grifinórios têm mania de grandeza — murmurou Theo, lançando um olhar para o grupo reunido perto do centro do campo. – Se Potter nos vir aqui, vai pensar que estamos tramando alguma coisa.


Daphne suspirou, ajeitando o cachecol enquanto subia os degraus das arquibancadas com graça. – Se o senhor Potter é paranoico, não é culpa nossa. Além disso, estamos longe o suficiente para não incomodar ninguém.


Eles se acomodaram em um canto afastado, longe da confusão, mas com uma visão perfeita do campo. O som de um apito cortou o ar, e Harry Potter começou a organizar os grupos para as primeiras voltas. Anne observava tudo com atenção, mas um pensamento persistente não a deixava em paz: e se pudesse usar seu conhecimento para mudar o que estava por vir?


Depois de um tempo, tudo aconteceu exatamente como ela dissera. Gina Weasley foi um destaque absoluto, Katie Bell voltou com um desempenho sólido, e Demelza Robins, ágil e confiante, garantiu seu lugar. O drama de McLaggen e Rony Weasley foi inevitável, e Anne viu a expressão de Daphne e Theo mudando de ceticismo para surpresa à medida que suas previsões se concretizavam.


Enquanto voltavam para o castelo, o grupo caminhava lado a lado, suas vozes ecoando suavemente nos corredores quase desertos.


– Então... como você sabia de tudo aquilo? Daphne perguntou, com a voz baixa, mas carregada de curiosidade.


Theo balançou a cabeça, ainda incrédulo. – Foi impressionante, Anne. Mas não vem com essa de 'intuição feminina' agora.


Anne suspirou, enfiando as mãos nos bolsos do manto. – Eu só... sabia. É difícil explicar.


Daphne arqueou uma sobrancelha, sem esconder sua desconfiança. – Difícil? É quase impossível de acreditar. Relish, ou você é a melhor adivinha da nossa geração, ou está escondendo alguma coisa.


Anne tentou rir, mas parecia forçado. – Vocês não iam acreditar, de qualquer forma.


Theo lançou um olhar desconfiado para ela, mas decidiu não insistir. – Tudo bem, Relish. Mas se você souber quem vai ganhar a Taça das Casas este ano, eu aceito uma dica.


Anne deu um leve sorriso, mas seu coração estava pesado. Ela não podia dizer a eles que tudo aquilo era uma história que já conhecia. Que suas vidas estavam escritas em páginas que ela lera tantas vezes.


Enquanto o castelo se aproximava, Anne sabia que as perguntas de seus amigos não parariam por ali. E, talvez, ela mesma precisasse começar a procurar por respostas.



(...)



A noite estava densa, e o silêncio do castelo parecia amplificar os pensamentos que atormentavam Anne. O eco de seus passos apressados pelos corredores era abafado apenas pela respiração pesada, que não era apenas fruto da caminhada rápida, era a ansiedade. Decidida, Anne ignorou o jantar tomou rumo direto para a biblioteca, onde sabia que talvez encontrasse algumas respostas.


O saguão estava iluminado apenas pela luz trêmula das tochas, lançando sombras alongadas pelas paredes de pedra. Quando alcançou a porta pesada de madeira que guardava o coração da biblioteca, ela parou por um momento, respirando fundo. Ao empurrar a porta, o som de madeira rangendo reverberou suavemente, sendo rapidamente engolido pelo ambiente acolhedor, mas intimidador.


O aroma familiar de pergaminhos antigos e cera de vela a envolveu, trazendo um mínimo de conforto. No entanto, a figura ereta e imponente de Madame Pince logo dissipou qualquer sensação de tranquilidade. A bibliotecária estava sentada atrás de seu balcão, analisando um livro com um olhar tão severo que parecia capaz de intimidar até mesmo as palavras nas páginas.


– Senhorita Relish — disse Madame Pince, sem levantar muito a voz, mas com uma firmeza que fazia Anne se sentir como uma aluna do primeiro ano. – Espero que sua visita seja breve e silenciosa.


Anne se aproximou devagar, estendendo o bilhete que Snape havia lhe dado.


– O professor Snape autorizou meu acesso à Seção Restrita — explicou ela, tentando manter a voz calma, embora o nervosismo em sua expressão fosse evidente.


Madame Pince estreitou os olhos, segurando o bilhete como se analisasse cada letra. Após alguns segundos que pareceram uma eternidade, ela soltou um som curto de aprovação e se levantou.


– Muito bem. Mas lembre-se de que nenhum material deve ser removido, e qualquer descuido será severamente punido.


Anne apenas assentiu, seguindo a bibliotecária em direção ao local mais misterioso da biblioteca.


As prateleiras altas e próximas da Seção Restrita criavam um labirinto que parecia se estender infinitamente. O cheiro era mais forte ali, uma mistura de poeira e magia antiga. Cada livro parecia carregar uma presença própria, com capas de couro desgastadas, títulos gravados em metais preciosos, e marcas que indicavam séculos de uso e esquecimento.


Anne deixou os dedos deslizarem pelas lombadas enquanto caminhava lentamente, o som de sua respiração ecoando no espaço vazio. Procurava algo, qualquer coisa que pudesse lhe oferecer respostas sobre o que estava vivendo.


Após o que pareceu uma eternidade de busca, os olhos de Anne pararam em um volume com uma capa de couro acobreado, marcada pelo tempo. O título gravado em relevo era: "Os Caminhos Entre Mundos e a Magia dos Portais Perdidos."


O coração de Anne acelerou, e ela puxou o livro cuidadosamente, sentindo o peso do objeto em suas mãos. Sentou-se no chão, deixando que as luzes fracas das velas ao redor iluminassem as páginas amareladas.


"Para aqueles que possuem o dom raro de atravessar os véus que separam os mundos, o processo depende de três elementos principais: intenção, conexão e equilíbrio."


As palavras pareciam saltar da página. Anne pode sentir um arrepio subir pela espinha.


"É necessário visualizar o destino desejado com precisão, manter uma ligação emocional ou mágica com esse lugar, e, acima de tudo, possuir um equilíbrio interno que permita a travessia. Aqueles que falham em alinhar esses elementos correm o risco de se perder nos espaços entre os mundos."


Anne respirou fundo, a mente tomada por dúvidas.


Ela virou mais algumas páginas.


"Os relatos de viajantes entre mundos são escassos, frequentemente tratados como lendas. Entretanto, linhagens específicas possuem afinidade natural para tal magia, muitas vezes herdada. Essas linhagens, chamadas de 'exceções', são capazes de romper barreiras aparentemente intransponíveis, mas tal habilidade não vem sem um custo."


As palavras finais da página a deixaram paralisada:


"Continuar viajando entre mundos sem compreender os riscos pode resultar na fragmentação da essência mágica ou na perda completa de identidade. Em alguns casos, a pessoa pode ficar permanentemente presa em uma realidade, incapaz de retornar."


Anne sentiu a respiração acelerar. Fechou os olhos e tentou se acalmar, mas a ideia de perder sua identidade, de desaparecer sem deixar rastros, era avassaladora.


"Eu estou me perdendo?" pensou, abraçando o livro como se ele pudesse oferecer alguma segurança.


Finalmente, ela se forçou a levantar. Colocou o livro de volta em seu lugar e caminhou em direção a outra estante, desta vez buscando os volumes que prometera a Snape sobre poções curativas. Suas mãos ainda tremiam enquanto pegava os livros, o peso deles parecia insignificante comparado à sensação esmagadora que dominava sua mente.


Anne saiu da Seção Restrita com passos rápidos, a pilha de livros firmemente pressionada contra o peito. Sentia-se observada, mas ao olhar ao redor, não viu ninguém. O corredor parecia mais frio do que antes, como se o próprio castelo refletisse a turbulência de seus pensamentos