Entre dias Sombrios

1 Antes da próxima parada


Notas iniciais
Olááá, caro leitor!! Sejam muito bem-vindos a este pequeno universo nascido dos devaneios mais malucos da minha cabeça. Antes de tudo, quero agradecer por darem uma chance a esta história e por me permitirem compartilhar um pouco do que tenho a dizer. Espero que vocês aproveitem a leitura tanto quanto eu aproveitei cada momento escrevendo.

Um solavanco um pouco mais brusco do veículo que trafegava pela rodovia despertou-me sobressaltada. Ao olhar ao redor, demorei alguns instantes para me acostumar à claridade, aos sons e aos cheiros que entravam pela fresta da janela do Ford Corcel.


Ao meu lado, Ino Yamanaka, minha amiga de infância, conduzia o veículo e parecia não ter percebido a inquietação que eu sentia. Pelo contrário, dirigia enquanto cantarolava uma canção antiga, como se não vivêssemos em um mundo assolado por catástrofes.


— Onde estamos? — perguntei, incapaz de me localizar pela vegetação de carvalhos e bordos que margeava a rodovia.


— Bom dia, dorminhoca! — disse Ino. — Estamos quase chegando à divisa de Ohio.


Mesmo em meio ao caos, o bom humor dela trazia um pouco de paz e tranquilidade aos dias conturbados que vivíamos.


Uma placa gasta e quase apagada, à margem da Via 4 que havíamos decidido seguir, confirmou que havíamos chegado à cidade de Springfield.


— Quanto tempo eu dormi? Você deveria ter me acordado para trocarmos os turnos, porquinha — enfatizei, para que ela entendesse que estávamos juntas naquela jornada.


— Relaxa, testuda. A noite foi tranquila; não havia motivo para nós duas ficarmos em alerta. Quando nos instalarmos em alguma casa segura, eu descanso enquanto você vigia. — Ela concluiu a frase com uma piscadela.


Concordei, para que a discussão não se prolongasse. À luz do dia, a entrada da cidade revelava com mais clareza a destruição que nos assolara meses antes.


Ainda me lembro, como se fosse ontem, de quando surgiram os primeiros casos no hospital de Maryland, onde eu fazia residência em neurologia. Inicialmente, a doença parecia um estudo de caso isolado. Achávamos que seria apenas um pequeno surto, que controlaríamos sem muita dificuldade.


Mas não foi o que aconteceu.


A cena dos mortos voltando à vida, tomados por uma fome insaciável de carne humana, ainda invadia meus pesadelos no meio da noite.


Ainda não havíamos descoberto a origem do vírus que levava os humanos a regredir ao estado mais primitivo da existência. E, dessa forma, a humanidade desmoronou. Os que não eram infectados lutavam para sobreviver da melhor maneira possível: alguns mantinham a esperança de dias melhores; outros apenas esperavam o momento em que se juntariam àqueles que não tinham mais volta.


Ino e eu fazíamos parte do primeiro grupo. Assim que percebemos que não havia mais volta, reunimos o que julgávamos necessário, à época, e nos lançamos às estradas, deixando para trás a vida e as pessoas da cidade onde nascemos e crescemos.


Voltei à realidade quando senti que o veículo parava de se mover. Ino havia estacionado em frente a uma casa modesta, mas afastada do centro da cidade. O jardim diante da construção de dois andares, que um dia devia ter sido florido e colorido, encontrava-se tomado por galhos secos e retorcidos. A cerca ao redor da casa parecia frágil, mas ainda daria para o gasto.


O plano era estabelecer uma base temporária enquanto recuperávamos recursos, como alimento e combustível, e, depois, continuar o trajeto até Idaho, de onde seguiríamos para o norte do Canadá. A última transmissão que tínhamos recebido, no início da semana, anunciava que os militares estavam convocando médicos para realizar estudos sobre o vírus. Em troca da colaboração, ofereciam abrigo, recursos e segurança em um centro de refugiados. Para nós, aquela proposta representava a possibilidade de encontrar uma cura e voltar a viver em paz.


Saímos do veículo e avaliamos os arredores da casa. Cada uma levava uma arma para se proteger; no meu caso, eu segurava meu companheiro de longa data: o taco de beisebol. Agradeci aos meus pais por terem me colocado para praticar o esporte em Maryland quando eu era pequena, embora jamais imaginasse que o usaria para esse fim.


Entramos pela porta dos fundos, cada uma de costas para a outra. Depois de invadir várias casas, descobrimos que esse método era o mais eficaz para nossa sobrevivência. Vasculhamos todo o andar inferior: sala, cozinha, lavanderia e lavabo. Para nossa felicidade, não havia sinais nem dos mortos nem dos vivos.


O andar superior tinha quatro portas, duas de cada lado do corredor estreito, todas fechadas. Ino se colocou atrás da primeira, com o facão em punho. Bati na porta com toda a força que tinha, de modo a atrair a atenção de qualquer ser que pudesse estar atrás dela. Para nossa surpresa, o som de um gemido não veio de trás das portas, mas de um alçapão de acesso ao sótão, localizado no fim do corredor onde nos encontrávamos.


— E agora, Saky? — perguntou Ino, andando de um lado para o outro, enquanto minha mente trabalhava para encontrar a maneira mais prática de nos livrarmos do problema.


Para nossa sorte, a alça do trinco, do tipo ferrolho, que mantinha a portinhola fechada, ficava voltada para nós e não parecia estar em boas condições.


— Certo, vamos amarrar a linha de pesca à alça da fechadura e puxá-la para abri-la a uma distância segura. Quando o bastardo cair lá de cima, avançaremos e acabaremos com ele. — Em teoria, o plano era bom e não possuía tantas falhas.


Ino me fitava como se eu tivesse dito a maior burrada do universo.


— O quê? É melhor do que dormirmos com essa coisa aí ou termos de começar tudo de novo em outra casa. — Minha constatação pareceu convencê-la, já que ela se virou e foi em direção à porta.



Pouco tempo depois, estávamos preparadas, com o fio bem preso à argola e prontas para o que viria.


— No três.


— Um… dois… três…


Puxei a corda com força. O trinco se abriu, e a porta veio abaixo rapidamente. O som, antes abafado, tornou-se mais nítido e mais próximo. Num piscar de olhos, o errante se arremessou para fora do alçapão. No instante em que atingiu o chão de forma desengonçada, Ino e eu avançamos, sem lhe dar chance de reagir. Juntas, atingimos a fera e separamos sua cabeça do restante do corpo.


Ao fim da manhã, já havíamos limpado a bagunça e arrastado os restos do errante para os fundos da residência.


Com a casa livre de ameaças, começamos a procurar suprimentos. Na cozinha, encontramos alimentos enlatados que poderiam ser consumidos; nos quartos, roupas novas e quentes, já que a temperatura tendia a cair à medida que avançávamos para o norte; e, nos banheiros, kits de primeiros socorros.


Juntamos tudo e nos sentamos em um dos quartos do segundo andar, com as latas de comida já abertas. Comíamos em silêncio.


— Acha que chegaremos ao centro? — questionou Ino. — E, se chegarmos, será que seremos aceitas?


As dúvidas eram assustadoras.


— Não sei, porquinha. Vamos lutar um dia de cada vez. E, se tudo der certo, venceremos mais esta batalha. O importante é continuarmos juntas — garanti, enquanto segurava a mão dela.



««««««««««- ☆ -»»»»»»»»»»



Do outro lado do continente, o capitão do Exército, Sasuke Uchiha, aguardava o início da reunião que poderia mudar o rumo da Missão Akatsuki.


O general Yahiko já se encontrava sentado na ponta da mesa, com o mapa de controle à sua frente. Ao redor dele, os demais oficiais aguardavam em silêncio.


Sua assistente, Konan, entrou pela porta principal carregando uma pasta com as atualizações que seriam discutidas naquele momento.


Ao recebê-la, Yahiko chamou a atenção de todos.


— Acredito que todos já estejam presentes. A notícia não é boa, rapazes. Encontramos um grupo de cientistas próximo a Washington, com pesquisas avançadas, e, infelizmente, eles não trabalhavam para nós.


Ninguém se atreveu a interrompê-lo.


— Eles parecem estar próximos de descobrir a origem do vírus e podem ter informações sobre os primeiros experimentos. Não podemos permitir que a verdade se espalhe. Se a população remanescente souber que o Exército foi responsável pelo início do surto, perderemos a autoridade que ainda nos resta.


O silêncio que se instalou na sala foi pesado.


— Não conseguimos muitas informações sobre a organização, pois eles já estavam cientes da nossa chegada. Estamos investigando como essa informação saiu de nossos centros de transmissão sem nossa permissão. Não gosto dessa situação, pessoal, mas transmitam a mensagem: qualquer traidor terá de pagar por suas ações.


A pausa foi suficiente para que todos entendessem que o traidor entre nós não sairia dali com vida, caso o descobrissem. Todos se entreolharam com desconfiança.


— Diante da situação, reuni-me com o conselho e decidimos iniciar a fase dois da missão com antecedência. O comunicado sobre o centro no Canadá já foi transmitido. Médicos e cientistas serão atraídos pela promessa de abrigo, recursos e equipamentos para suas pesquisas. Quando chegarem, nós decidiremos quem será útil aos nossos estudos e quem representa uma ameaça. Enquanto aguardamos, cada um de vocês deve continuar procurando e eliminando toda e qualquer organização que não esteja alinhada conosco. Conto com vocês, rapazes, para alcançarmos o sucesso da missão. Estão dispensados.


Levantei-me, pronto para deixar a sala, quando ouvi um chamado do outro lado.


— Sasuke, uma palavrinha, por favor. — Yahiko não costumava convocar reuniões particulares, e isso fez meu alarme de perigo soar.


— Sim, general!


Esperei até que a sala esvaziasse.


— Você, como nenhum outro aqui dentro, sabe que não posso compartilhar com todos as informações que me chegam. Ainda mais com um traidor não identificado à solta em nosso meio.


Concordei com seu raciocínio, querendo saber até onde ele chegaria.


— Com você é diferente, meu pupilo. Sabe que minha consideração por você é maior do que a que tenho pelos outros. Conheço seu histórico e sua família. Por sinal, Fugaku se sentiria muito orgulhoso do homem que você se tornou — disse, pousando a mão em meu ombro.


Acenei, concordando por fora, mas mal sabia ele que o reconhecimento por parte de meu pai já deixara de ser algo com que eu me preocupasse, ainda mais depois do que acontecera com meu irmão.


— Vamos logo aos fatos. Mesmo não pegando os cientistas de surpresa, conseguimos resgatar poucos pertences em meio aos escombros e às chamas. — Ele colocou um caderno chamuscado sobre a mesa. — Este caderno pertencia a Mebuki Haruno, antiga pesquisadora do governo e doutora em neurociência. Achávamos que ela e sua família estavam mortas, mas, pelo jeito, conseguiram escapar de nossos radares.


Meu olhar se deteve no caderno.


— Continuamos sem conseguir rastreá-los, porém identificamos algo muito mais interessante nessas anotações. — Yahiko abriu o caderno em uma página marcada. — Mebuki e o marido abandonaram o governo depois de descobrirem demais sobre os experimentos. Agora, trabalham na cura por conta própria.


A página continha dados, anotações apressadas e uma fotografia presa ao canto superior.


— De acordo com as observações de Mebuki, a filha deles apresenta uma reação imunológica diferente à do restante da população. Ela pode ser a chave para estabilizar uma possível cura. Ainda não sabemos se isso se deve aos genes da família ou a algo que ocorreu antes de seu nascimento, mas precisamos dela viva.


Um nome estava escrito ao lado da fotografia.


Sakura Haruno.


— Preciso que você a encontre e a traga para mim com vida. Se os registros de Mebuki estiverem corretos, poderemos estudá-la. Se não estiverem, Sakura servirá para atrair os Haruno e obrigá-los a trabalhar para nós.


A ordem ficou suspensa no ar por alguns segundos.


— Você é o único em quem confio para essa missão secundária — continuou Yahiko. — E, se for bem-sucedido, talvez eu possa conseguir algo que você deseja há anos: informações sobre Itachi.


Meu corpo enrijeceu.


Fugaku havia entregado meu irmão ao governo quando eu ainda era jovem. Desde então, ninguém me dizia se Itachi estava vivo, morto ou preso em algum lugar que eu jamais poderia alcançar. Yahiko conhecia aquela ferida melhor do que qualquer um.


— Encontre Sakura Haruno e traga-a para mim — ordenou, com um sorriso frio. — Então poderemos resolver o seu problema de forma mais rápida.