Em um canto jamais visto pelos que falam, vivia, em sua cabana de madeira de carvalho ligeiramente encerada, um ser de baixa estatura, cabelos castanhos e roupa simples de camponês, com furos em todas as partes. Seu nome era Sunny Goldort Pravilá. Sunny era de uma raça pacata de seres ligados intensamente à natureza, ao campo, à tranquilidade e, principalmente, ao lugar onde vivem.

Esse local continuaria tranquilo por muito mais tempo, até que um jovem mago chamado Aphelio, vagando pelos bosques mais longínquos em busca de grimórios com magias e ingredientes para poções, acidentalmente cruzou a montanha do Vale Tricking, lugar onde, há muito, fora colocada uma barreira pelo último ser a conhecer o local.

Ao identificar o véu da barreira e, com os olhos parcialmente fechados, deu seu primeiro passo adentro daquele estranho e iluminado véu, que tinha uma aparência singular, comparável a metal líquido ou à superfície de um lago sem tremulações.

Aphelio, assustado, olhou para um lado, observou a paisagem desconfiado, olhou para o outro para conferir seus flancos. Vieram-lhe à cabeça as possibilidades do que aquilo poderia ser, mas nada do que pensou chegou perto de um resultado concreto.

Sentiu um incômodo — algo gelatinoso em seus sapatos. Com um olhar assustado, já pensando no pior, voltou os olhos para o chão e viu uma mancha vermelha. Imediatamente teve um ataque de pânico, olhou para baixo de seus pés e chegou à conclusão mais óbvia possível: havia pisado em uma fada da floresta e agora estava condenado a passar a eternidade vagando entre folhas e galhos como um espectro de mágoa e arrependimento — um cardmant.

Mas, para a sorte de Aphelio, havia mais alguém por perto, e esse alguém disse:

— Pela fumaça de cachimbo, você destruiu meus tomates! O que eu vou fazer agora? Ia colhê-los para o jantar!

Aphelio soltou um grande suspiro aliviado, mas, ao se virar, viu uma pequena criatura de um metro e cinco de altura ao seu lado, e imediatamente o pânico voltou ao seu coração. Pensou: não tem barba, não é um anão; não é verde, não é um goblin; não tem orelhas pontudas, não é uma fada. O que é esse ser?

O ser, logo e alegremente, se apresentou:

— Bem, na vila é falta de educação não se desculpar depois de um acidente, mas também é não se apresentar. Meu nome é Sunny Goldort Pravilá. Qual o seu, gigante da floresta?

Aphelio, que, depois da apresentação calorosa de Sunny, ficou um tanto mais calmo, conseguiu prestar atenção em suas sensações. Sentiu o cheiro fresco e levemente frutado dos tomates em que havia pisado, desfocou sua visão de Sunny e tentou olhar através dele, reparando na paisagem da vila, com seus diversos e pequenos montes verdes onde os cidadãos faziam suas casas, com as mais diferentes arquiteturas. Sentiu a grama entre seus dedos no chão e a brisa com os odores mais suculentos vindo das pequenas casas. Ele respondeu, ainda desconfiado, com a voz trêmula e envergonhada:

— Desculpe pelos... tomates. Desculpe. Meu nome é Aphelio. Não sou um gigante da floresta, sou da raça dos Homens do Sul.

Sunny retrucou com curiosidade:

— Não tens nome de família, Aphelio dos Homens do Sul?

— Não o tenho. Desculpe. Minha família morreu antes que eu o soubesse.

— Tudo bem, o erro foi meu por perguntar sobre algo sensível.

Sunny se agachou, olhou o estado do ser ali caído no chão e disse:

— Estás sujo de terra e tomates. Deves estar com fome também, pois já é hora do almoço. Vem comer em minha casa como meu convidado e te limpar, se quiseres, é claro.

Aphelio estava com muita fome e queria muito comer, já que não comia desde o meio-dia anterior, mas, sem dinheiro para retribuir, desviou o olhar para o outro lado e falou baixo, quase ao ponto de não se ouvir:

— Devo recusar, senhor Pravilá...

— O que disse?

— Devo recusar, senhor Pravilá — repetiu —, pois não tenho como pagar por nada, nem pelo banho nem pelo almoço. Mas garanto que vou compensar pelo incidente com seus tomates.

Sunny, assustado, arregalou os olhos por um instante, pois nunca tinha visto alguém com um senso de dívida e restituição tão fortes e nunca ouvira ninguém de sua vila recusar um presente quando estava precisando, seja ele alimento, roupas ou simples serviços. Ele inspirou longa e lentamente e expirou da mesma forma. Pôs a mão no bolso de sua calça azul-marinho, pegou seu cachimbo de pinheiro claro, comprido e levemente curvado, bateu as cinzas no dedo esquerdo, examinou o jovem ali caído no chão e o reabasteceu com as folhas de fumo que guardava no bolsinho de sua camisa. Pegou seu fósforo, voltou os olhos para ele mais uma vez, suspirou e acendeu, com calma, o seu instrumento de tranquilidade. Logo em seguida, deu duas cachimbadas de sabor adocicado. A fumaça que saía de sua boca o deixou envolto em uma névoa na qual seu rosto quase desapareceu; na terceira cachimbada, fez um círculo com a fumaça, de forma tão perfeita que parecia um costume corriqueiro. Estendeu a mão, deu um sorriso com o cachimbo ainda na boca e deu dois tapinhas no ombro de Aphelio, ainda sentado no chão, e disse:

— Não te preocupes, Aphelio do Sul. És meu convidado. Come, bebe e te limpa à vontade; não pagarás. Os Pravilá têm orgulho de sua culinária e hospitalidade. Levanta-te e vem. Como eu disse, és meu convidado.

Aphelio se levantou devagar, deu leves tapas em sua túnica de mago barata para lhe tirar a poeira e, com passos melindrosos, seguiu o pequeno Sunny, pisando em pedras brancas calçadas que formavam um caminho da pequena colina até as portas das diversas casas. Eles, caminhando, despertaram alguns olhares curiosos de jovens Dwestins que brincavam na terra do jardim de suas casas. Aphelio se sentiu acuado, pois os olhares eram imprevisíveis — alguns com medo, outros simplesmente curiosos —, mas nenhum corajoso o suficiente para perguntar, ao menos nenhuma das crianças, já que o velho Muk, que cuidava de suas hortênsias na frente de sua pequena cabana, não hesitou em olhar fixamente para Aphelio e perguntar o que um gigante da floresta fazia por ali.

Mas Sunny mal deixou o velho terminar sua frase e, com calma, mas escondendo a empolgação, respondeu a Muk:

— Não é um gigante, velho fofoqueiro, é um homem do sul.

E Muk prontamente respondeu:

— Velho? Eu não sou velho, sou sábio, Pravilá! Aqui, homem do sul, plante estas em seu jardim.

E assim estendeu sua mão com duas mudas de hortênsias, entregando-as a Aphelio, que agradeceu com a cabeça e um sorriso envergonhado e continuou a descer, pisando ora em pedras, ora nas brechas preenchidas de grama, mas agora sentindo, a cada passo, a cada vento e a cada respiração, o perfume do lindo e amistoso presente que recebera.

Ao chegar a uma pequena cabana marrom, Aphelio analisou o lugar. Reparou na horta bem cuidada de hortaliças e folhas para salada, na grama felpuda e aparada na medida certa — ele quis tocar, mas se conteve. Observou a porta de madeira de ébano com um brasão entalhado, diferente dos brasões das famílias reais da cidade, que usavam animais ameaçadores, como ursos e leões; o entalhe na porta era de uma simpática e geométrica tartaruga. As grandes e redondas janelas de vidro translúcidas lhe deram um pequeno vislumbre do interior da sala, com uma estante de livros encapados com couro tingido, retratos antigos de possíveis parentes e antepassados e alguns quadros coloridos e bonitos.

Ao chegar à porta, Sunny a abriu e disse, com convicção e alegria, estendendo a mão para dentro de sua morada:

— Entre, meu convidado. Bem-vindo à minha humilde morada. Sinta-se à vontade.

Aphelio baixou a cabeça em sinal de respeito, mas não a ergueu para conseguir entrar na casa sem batê-la. Sunny apontou para uma poltrona ao lado da janela, à direita de Aphelio — uma poltrona de couro esmaecido, mas com uma aparência fofa, quase como uma nuvem nimbus, com gomos acolchoados. Apesar de esmaecida pelo tempo e pelo uso, ainda era extremamente bonita e elegante.

Aphelio sentou-se quieto e, por um momento, respirou, sentiu o cheiro calmante do chá, um pouco de poeira, e observou os retratos na pequena estante com livros ao lado — livros com títulos engraçados, a maioria contos para crianças. Ele deu uma risada, que escondeu com a mão, e virou o olhar para ver se Sunny havia percebido. Ele estava fazendo o chá e cantarolando; não havia percebido, para a alegria de Aphelio.

Ele continuou: olhou as pequenas plantas da janela ao lado, olhou para a lareira ainda com cinzas da noite passada, ao lado da estante, mas algo chamou sua atenção: um caderno de anotações em cima da lareira.

Ele tentou se levantar com calma para vê-lo, mas sua consciência o torturava; sabia que não devia e que aquilo, na cidade, o jogaria atrás das grades. Sua ansiedade e curiosidade eram tão grandes que, com os dedos e as unhas, apertou com força o braço da poltrona. Olhou então para o lado esquerdo, em direção à cozinha: Sunny, entretido em preparar o chá, pegando e conferindo algumas frutas e cantarolando um cântico de taverna. Então disse a si mesmo que aquele era o momento, o momento em que sua curiosidade de mago tinha que ser saciada.

Levantou-se depressa, mas com cuidado, agarrou o caderno e, quando tentou ficar ereto, percebeu que a poltrona, feita por um Dwestin, era feita para um Dwestin e que ela ficara presa entre suas pernas. Já com o caderno na mão, olhou para o lado, e lá estava seu pequeno e hospitaleiro anfitrião, segurando uma bandeja de prata com bule, xícaras, frutas vermelhas e um pequeno vaso para as mudas de hortênsias, olhando-o com uma expressão de estranheza, quase como se tivesse visto alguém nu.

Numa tentativa desesperada de explicar a situação, Aphelio disse, com um sorriso de meia-lua sem graça:

— Muito confortável a poltrona... feita na medida certa.

Sunny colocou a bandeja em uma pequena mesa de centro, a trinta centímetros de Aphelio. Sem esboçar reação, deu três passos para trás e começou a rir, tentando se conter, mas a situação, para ele, foi tão hilária que começou a gargalhar, a ponto de ter de limpar constantemente o rosto, pois lacrimejou. Depois disso, respirou fundo para recuperar as forças e disse:

— Se minhas anotações lhe interessam tanto, fico, primeiramente, lisonjeado. Pode lê-las o quanto quiser; são só descrições sobre os ventos, folhas e pensamentos que ecoam desde meus primeiros antecessores. Em poucas palavras, ladainhas sem contexto, mas com coração.

Aphelio, ouvindo aquilo, respondeu com um solene "obrigado", voltou à posição em que estava, sentado na poltrona, e folheou o caderno. Sunny serviu-lhe chá e perguntou quantos cubos de açúcar ele queria.

Ele respondeu:

— Três, por favor.

Sunny pegou a poltrona em que estava sentado e a arrastou para perto de Aphelio; então, começou a descrever o momento daquelas anotações, ilustrações, poemas e seus significados.

Aphelio estava deslumbrado com tantas histórias e tantas descrições para coisas cotidianas. Pensou consigo: por que nunca reparei em como o ar que respiro refresca meus pulmões, que o chá que tomo me esquenta num dia frio, que o fogo da lareira me ilumina numa noite escura?

Após esse pequeno devaneio, Sunny olhou para a janela e ficou em silêncio por alguns segundos. Aphelio reparou e perguntou o que havia acontecido, mas Sunny não respondeu. Então Aphelio seguiu seu olhar e se deparou com o horizonte, e lá estava o astro-rei, com seu brilho e imponência, reclinando-se entre as colinas e deixando a todos que olhavam um rastro de luz alaranjada, confortável e fugaz. E, quando o sol se escondeu em meio à paisagem, Sunny falou:

— Está na hora.

— Na hora de quê? — retrucou Aphelio.

E Sunny, sem explicar, disse:

— Limpa-te. Vou arranjar algo para usares no lugar dessa capa. O banheiro é a primeira porta à esquerda no corredor. Adianta-te, que eles não gostam de atrasos.

Sunny empurrou Aphelio até o banheiro, apressando-o a se limpar, e, enquanto ele tomava seu banho, foi à vizinha com um pedaço de seda da melhor qualidade que tinha em sua casa — um pano de seda deixado como roupa de cama por sua mãe. Bateu à porta da vizinha, dona Cherry, que ouviu o pedido mais surpreendente e desafiador de sua vida como costureira:

— Dona Cherry, preciso de sua ajuda. Preciso que transforme esse pano de seda em uma túnica para um amigo, e preciso que seja a tempo de... você sabe o quê. Não se preocupe com o tamanho, ele é grande.

Cherry, assustada, pensou consigo que aquela era uma tarefa difícil, revirou os olhos num ato de pequeno descontentamento e disse:

— Sunny Pravilá, vai te custar muitos daqueles tomates que tanto cuidas, saiba disso.

Sunny sorriu e entregou a peça de seda a Cherry, agradecendo, mas, antes de se virar e ir embora, ela perguntou:

— Amarelo, Pravilá? Uma cor tão impaciente. Seu amigo não é daqui.

Sunny a olhou nos olhos por alguns poucos segundos, confirmando a dúvida, mas logo se virou e voltou para casa.

Cherry, imediatamente depois de fechar a porta, correu para seu ateliê de costura, fez medidas prévias, separou alfinetes e tesouras e foi para sua velha máquina de costura. Lá estava ela em seu habitat natural. Num gesto de quebra de tensão e relaxamento, estalou os dedos e pôs a máquina a funcionar.

Em sua cabeça passavam designs e modelos para a túnica, mas o tempo corria contra ela. Cherry pensou em um modelo que combinasse com a personalidade do modelo em sua imaginação — algo elegante, ágil, que demonstrasse presença, mas que não o destacasse demais. E os pedaços foram se juntando em sua cabeça e, ao mesmo tempo, em sua máquina, como mágica. As imagens que lhe vinham naquele momento eram uma lista de designs em sequência: gola em V, dois botões em bronze escuro, capuz acolchoado, divisão na perna para movimentação livre, mangas médias que parariam no antebraço com abotoaduras.

Quando sua consciência havia retornado do devaneio, lá estava a túnica. E como se estivessem conectados naquele momento, Cherry, que se dirigia à porta prestes a pegar na maçaneta para ir entregar a túnica a Sunny, ouviu batidas rápidas e ansiosas em sua porta e uma voz dizendo num tom desesperado:

— Cherry!! Diga que está pronta! Knock knock — Cherry!!

Cherry abriu rapidamente, interrompendo a terceira onda de batidas de Sunny, entregou a túnica envolta em um papel de cor parda e disse:

— Pegue, Pravilá, e pare com o alarde. Achou que não conseguiria algo simples assim a tempo? Me poupe. Vá, seu amigo já deve sair do banho.

Sunny pegou a túnica e, sem transmitir voz, mexeu seus lábios de forma em que se podia ler claramente a palavra obrigado se formando. Cherry fechou a porta e sentou no chão. Suspirou aliviada e pensou que aquele havia sido o trabalho mais difícil que já fizera. Pensou que podia ter mudado algumas escolhas, mas sacudiu a cabeça em movimento de negação e disse a si mesma que havia feito o melhor que podia.

Sunny correu até sua casa, entrou e deixou a porta aberta, e empurrou por debaixo da porta do banheiro o pacote. Mas Aphelio, que já estava secando seus cabelos negros que batiam no ombro, viu a movimentação pelas sombras do contrapiso encerado e logo em seguida o pacote sendo empurrado, com um pequeno bilhete escrito de forma direta — apenas vista. Ele terminou de se enxugar, enrolou a toalha em sua cintura e, com um olhar desentendido, pegou o pacote e o abriu. Foi cuidadoso com a embalagem e o cordão feito de fibras que o enrolava: desamarrou e separou cada coisa lado a lado na pia do banheiro — o cordão, a embalagem, que dobrou em seguida, e a túnica, que, com os olhos vidrados e refletindo a cor da mesma, pegou de maneira delicada, sentiu o tecido em sua mão e, mesmo sem acreditar e quase entrando em parafuso, vestiu. Conferiu cada detalhe, abotoou um botão do colarinho, ajeitou o capuz, fechou as abotoaduras, e logo após tirou e embalou a túnica novamente como havia chegado.

Sentou-se na privada, com as mãos no rosto e seus cabelos parcialmente tampando seus olhos, e chorou. Chorou baixo, deu descarga três vezes para disfarçar os soluços que estava tendo, pois pensou consigo que não lhe era permitido ter aquela peça, que não lhe era permitido ter aquela hospitalidade — a água em que tomou banho, o chá e as frutas que o alimentaram, tudo isso não lhe pertencia, não lhe cabia, não lhe fazia sentido.

Mas Sunny, que estava em frente à porta esperando e, num instinto quase sobrenatural, sentiu que algo estava errado, disse em tom rispido e autoritário:

— Eu disse vista-se, Aphelio. És meu convidado, portanto deves e irás onde eu te pedir. Paga-me o que me deves com a tua presença, e que essa não se atrase.

Aphelio, quando limpou as lágrimas, entre o fechar de suas pálpebras e o pedido autoritário de seu anfitrião, já estava vestido e abrindo a porta sem questionar e sem pensar. Saiu então, junto dele o vapor que o envolvia como uma estrela entre nuvens, com o cabelo ainda úmido e bagunçado, de cabeça baixa, segurando a manga direita de sua nova túnica com a mão esquerda, e disse:

— Obrigado, Sunny.

E com uma expressão nova em seu rosto, que Sunny até aquele momento nunca tinha visto, estendeu a mão para um aperto. Nesse segundo, Sunny entendeu qual era aquela expressão — era confiança. Sunny lhe concedeu o aperto de mão e, pela primeira vez, os olhos de Aphelio não tremiam ao olhar os de Sunny.