Entre as Folhas do Carvalho

2 Nada Fica para Sempre


Sunny, então, sem dizer nada, segue à frente e sai de casa. Aphelio o segue, vendo suas costas, mas logo acelera o passo e se junta ao seu lado. Eles andavam em silêncio, um ao lado do outro, até que Aphelio repara nas casas da vizinhança que antes, tão vivas e movimentadas, exalavam cheiros e recebiam seus exóticos moradores — agora vazias, escuras, e a única luz que as iluminava era a dos candelabros da calçada, que nas janelas se refletiam, espelhando os dois que andavam. E quando Aphelio viu a cena de sua túnica amarela sendo refletida ao lado do colete azul de seu novo amigo, percebeu que era a primeira vez que andar ao lado de alguém não lhe causava calafrios, que o silêncio não lhe fazia suar as mãos, que o caminho não lhe parecia labiríntico. E esse silêncio se quebrou com um aviso de Sunny, que disse:

— Aphelio, talvez seja desconfortável, mas eles são amáveis... de vez em quando — brincou.

Aphelio olhou as mesmas pedras brancas que construíram seu caminho até aquele momento e as viu brilhar sob a luz da lua, e seu coração estava... tranquilo.

Eles continuaram quietos. Andaram trezentos metros e lá estava uma escada feita de pedras que já sofriam com o poder da erosão e o crescimento de pequenos musgos que, naquela iluminada noite, brilhavam em um verde vagalume. A escada subia direto a um grande monte que, ao alto, deixava perceber uma iluminação alaranjada, diferente da luz da lua. Aphelio pensou por um momento que aquilo ainda era suspeito. Reviu sua chegada à vila — fora alimentado e bem vestido, levado a um monte que emitia luzes quentes como as de uma fogueira. Então botou a mão no peito e, mais uma vez, sentiu o tecido de sua túnica. Com os olhos fechados, deu o primeiro passo ao degrau da escada. Recusou-se a olhar para o lado onde estava Sunny e, degrau após degrau, subiu, segurando o corrimão de pedras ásperas e quebradiças.

Ao chegar ao alto, o reflexo de seus olhos mostrava apenas o laranja e o vermelho, e essas cores emanavam de suas pupilas como faróis em uma floresta. Então suas sobrancelhas, arqueadas como uma lua minguante, se relaxaram. Sunny lhe deu um empurrão e disse a todos aqueles Dwestins que estavam de costas:

— Antes de começarem, digo: esse foi o culpado pelo meu atraso. Apresento-lhes Aphelio, dos Homens do Sul. Tirem suas satisfações.

Aphelio, que estava deslumbrado com as luzes e barracas em cores quentes, só conseguiu ouvir a última frase de Sunny antes de ser engolido como uma isca em um anzol. Viu-se cercado por dezenas de Dwestins, mas nenhum era Sunny, que ao fundo se esgueirou para sair do foco. Aphelio até tentou segui-lo, mas as perguntas vinham como feitiços em uma guerra rúnica.

— Como é no sul? — O que vê aí de cima, gigante da floresta?

Ele respondeu:

— Sou um hom...

E foi cortado pela próxima:

— Por que o atraso?

E novamente, antes de poder responder, foi interrompido:

— Tome, prove esse queijo. Aposto que não comeu igual.

E lhe foi entregue um pedaço de queijo, logo em seguida uma taça de vinho e uma caneca de cerveja. Sua túnica estava sendo puxada por crianças e as perguntas não cessaram, até que Sunny, que estava tomando sua cerveja tranquilo, sentado em uma barraca afastada, gritou:

— A lua está a quatro dedos do centro do céu!

E como um comando mágico, as pessoas agradeceram e, uma a uma, apertaram a mão de Aphelio, dispersaram-se e se reuniram em pequenos grupos familiares — menos um jovem adulto Dwestin que passou correndo por Aphelio, segurando dois copos com um líquido âmbar, licor de maçã. O jovem, na pressa, não viu a barra da túnica de Aphelio e tropeçou nela, derrubando o líquido no chão, onde Aphelio viu seu reflexo. O jovem pediu perdão de forma muito educada e seguiu para sua família, mas Aphelio ficou paralisado, olhando a pequena poça do líquido ser absorvida pela terra.

Sunny, que viu o estado de Aphelio, chegou perto e lhe deu dois tapas nas costas, mas dessa vez não surtiu efeito. Ficou assustado e se dirigiu à frente de Aphelio, que estava de cabeça baixa, segurou-o pelos braços e o sacudiu. Só então Aphelio olhou em seu rosto, mas com olhos sem vida — já não se via em suas pupilas o brilho das luzes e das barracas; eram como olhos de botão. Sunny ficou confuso e irritado e, empurrando Aphelio contra sua vontade, sentou-o na grama, na beira do monte que tinha vista para uma planície gramada com grandes pedregulhos. Voltou os olhos para o céu — faltavam dois dedos para a lua chegar ao centro — e então, sentado ao lado de Aphelio, disse:

— A partir do momento em que entraste em minha casa, soube, em teus olhos, que não tinhas maldade em teu peito, Aphelio. Só dor. Então conta-me, e depois dessa noite perceberás que a dor também passa.

Aphelio, com os olhos marejados, começou:

— Quando vi a cor do licor derramado em poça, não vi meu reflexo nela, mas o de minha falecida mãe.

E Sunny, quieto, o escutava.

— Lembrei-me da dor da fome, dos homens de chapéu pontudo dando um líquido da mesma cor para minha mãe ingerir na cidade, em troca de cinco moedas de bronze — o suficiente para comprar um pouco de leite e um pedaço de pão. Lembro-me de comer com tanta vontade o pão que me engasguei, e lembro-me do sabor do leite e da dor em meu estômago indo embora. Mas não me lembro de minha mãe compartilhar desta refeição. No entanto, ela estava sorrindo. Depois disso, lembro-me de adormecer em suas magras pernas e, ao acordar, chamar seu nome. Mas ela não respondeu. Nunca mais respondeu.

Sunny desviou o olhar para o chão, com um aperto no coração. Aphelio, com a voz fraca, continuou:

— Depois disso, lembro-me de meus joelhos serem tão proeminentes quanto as montanhas que via ao horizonte. E logo após, a mão do Tuck estendida a mim.

E então uma lágrima escorreu de seu rosto. Logo após, as famílias ali reunidas comentaram que havia chegado a hora — a lua estava no centro do céu. Sua luz foi então iluminando cada uma das rochas na planície e, quando todas estavam iluminadas, algo aconteceu. Aphelio arregalou os olhos e Sunny disse:

— Nada fica para sempre. Nem a dor.

E as pedras começaram a se mover em direção ao norte. Aquelas pedras, aquelas simples pedras, eram tartarugas Rock'in Moon. E com essa imagem, Aphelio limpou as lágrimas e sorriu perante a vista.

Sunny presenciou aquela noite o primeiro sorriso sem culpa de Aphelio, e para contemplar o espetáculo que o mundo lhes presenteava, sacou de seu bolso seu longo e curvo cachimbo, bateu as cinzas e acendeu. A fumaça de odor baunilhado chegou ao olfato do mago ao seu lado, que olhou para Sunny com curiosidade, e Sunny já tinha percebido sua intenção, então logo disse:

— Devagar, mago do sul, o sabor é doce e contemplativo, mas não se perca na fumaça.

E ao esticar a mão, prestes a entregar o objeto a Aphelio, recuou-a num instante e complementou:

— Não babe no meu cachimbo se não quiser ver o mais bravo destas colinas em ação.

Aphelio deu de ombros com sorriso em tom de deboche, e Sunny persistiu:

— Ouviu?

— Certo, certo, bravo guerreiro, não jogarei água em sua chaminé.

E assim pegou o cachimbo e puxou. Sentiu o gosto de baunilha no fundo de sua língua e o leve doce do fumo, o calor da fumaça seca em sua garganta, e a mesma turvando sua visão. Mas em segundos o tempo se dilatou: as tartarugas em sua visão, brilhando sobre a lua e vagando pelas planícies, se mostravam como estrelas cadentes; ouvia o tremor de suas grandes e pesadas patas no chão, sentia os pequenos fragmentos de terra se mexendo entre seus dedos apoiados na grama, e os passos das pequenas formigas em seu braço em busca de migalhas de queijo. Mas esse instante logo passou, e Sunny então lhe questionou, em tom de desdém, com um sorriso egóico:

— Conheces magia capaz disso, mago do sul?

Aphelio não respondeu, só riu, e voltou a observar as últimas tartarugas já entrando na penumbra entre algumas montanhas, os casais, famílias e amigos já se levantando. Sunny então puxou a túnica de Aphelio, e ele o seguiu, e voltaram ao centro do festival, onde uma mesa de trinta metros de madeira de cerejeira, em tom avermelhado com veias magenta, fora colocada, com dois bancos únicos, cada um também de trinta metros. Em cima da mesa havia rodas de queijo, frutas das mais variadas, jarros de vinho e cerveja, cortes de diversas qualidades de carnes, defumados, sopas, e então, em uma espécie de altar feito de madeira com formato de pirâmide, havia quatro barris de vinte litros, sobre os quais Aphelio indagou a Sunny o que seriam.

Mas ele nem teve tempo de responder, já que uma conhecida de Sunny, já com passos tropeçantes, o interrompeu com a voz em tom embriagado:

— Pedes-me para fazer a túnica para o mago, dizes-me que és seu amigo, e não lhe explicas nada. Pravila, você me deixa com rugas.

Disse a mulher, balançando um copo já meio vazio de cerveja. E Sunny, expressando calma com as mãos e olhando para a mulher, disse:

— Calma, calma, por favor, vai me denegrir na frente de meu novo amigo, Cherry.

E então, num ato formal, apontando a mão aberta:

— Aphelio, esta é Cherry, quem fez sua túnica para a festa. Como pode ver, ela é educada e nunca inconveniente.

Cherry então, sem nem olhar para Sunny, lhe entregou seu copo e fixou o olhar no jovem mago. Rodeou-o como um predador a uma presa, puxou, esticou e mediu com a mão sua túnica, e disse:

— Hum, não ficou ruim, mas achei que fosse mais alto.

Tirou então de seu cabelo armado e volumoso um pequeno bloco de notas e um lápis da orelha e, sem nem olhar nos olhos do mago à sua frente, passou alguns segundos anotando. Voltou-lhe o olhar e assim falou:

— Passe no meu ateliê depois de amanhã, vou ajustar sua barra. Não és tão alto, mas és mais bonito do que pensava, mago.

E assim seguiu rumo à mesa, mas antes de chegar encarou Aphelio e disse:

— Vinho de mel, o melhor que se pode produzir.

Aphelio dirigiu seu olhar à pirâmide e pensou que a noite ia ser longa.