Aphelio, então, com a vista embaçada, acorda e raciocina:

"Um teto? De onde é esse teto?"

Limpa os olhos com as costas da mão, vira o olhar e pensa:

"Cama? Cama de quem? Minha? Que cama desconfortável... Mas eu... não tenho cama. Não estou em casa."

Levanta-se em desespero, sem lembrar da noite anterior, e, sentado no que parecia sua cama, percebe que era, na verdade, a mesa de uma barraca da festa. Ao seu lado, pessoas desconhecidas e desacordadas, copos vazios e manchas de vinho por toda parte. Sentado em cima da mesa, ao lado de um dwestin que dormia confortavelmente e roncava, esgueirou-se em meio aos tantos outros que ali dormiam tranquilos.

Quando pisa no chão, flashes de memórias da noite anterior o assombram. O embrulho em seu estômago, combinado com a dor de cabeça e a vergonha dos atos de que, em parte, se lembrava, faz com que ele se escore em um pilar de sustentação da barraca. Com a mão sobre o rosto, pensa consigo:

"Isso nunca mais. Isso não."

Então, quando tira a mão dos olhos, ainda com a cabeça baixa, vê os pés de uma pessoa. Sobe o olhar e vê fumaça. Um frio na espinha o toma, e a pessoa diz, segurando a risada:

— Ó mago do sul, conhecedor de magias arcanas e selos místicos, carregas dezenas de livros, mas cedeste à queda por vinho de mel.

Após a fala, Sunny gargalha com alegria.

Aphelio, enjoado, com a mão sobre a boca, retruca:

— Era um inimigo... formidável.

Sunny então o chama:

— Venha, Aphelio. É hora do café.

Aphelio pergunta:

— E eles? E todos eles?

Sunny responde:

— Eles acordarão... Em seu tempo, acordarão.

Sunny então, com o cachimbo na boca, segue para casa, e Aphelio o acompanha. Durante a caminhada, ele vê um cenário de guerra: amigos, irmãos e parentes levando seus entes apoiados nos ombros, como se um dragão tivesse atacado o vilarejo. Aphelio sorri da cena cômica e caminha com certa dificuldade até a casa de Sunny.

Aphelio vê a janela aberta e fumaça saindo dela. Então, sem reação, puxa o colete de Sunny e aponta. Sunny diz:

— Espere mais alguns metros.

Aphelio então segue acompanhando-o, e aquela fumaça, quase como se tivesse vontade própria, invade seu olfato. Ele vira o rosto e encara Sunny com surpresa e empolgação, e Sunny, sorrindo, diz:

— Café do vale, torrado na hora.

Eles entram. Dessa vez, Sunny oferece a Aphelio um banco sem braços, para evitar acidentes. Aphelio senta-se, e Sunny, que moía o café recém-torrado, o encara do canto da mesa com certa seriedade. Primeiro o olha fixamente nos olhos; depois, sobe o olhar, e Aphelio rapidamente tira seu chapéu de mago e o coloca apoiado sobre uma escrivaninha ao lado.

Aphelio, até então sentado com as mãos sobre as coxas, ouve Sunny falar enquanto o barulho do moedor abafava sua voz:

— Vá em frente. À direita fica a despensa. Pegue queijo e algumas frutas.

Aphelio se levanta e anda até o corredor, com quartos à direita e à esquerda e, ao final, uma brusca curva para a direita. Curioso, espia os quartos, que estavam com as portas parcialmente abertas. Olha primeiro o da esquerda: parecia um quarto de acúmulos, com móveis, roupas e objetos raramente usados, cobertos por muita poeira.

Olha então, pela fresta, o quarto da direita e, de relance, percebe a diferença. O quarto estava organizado, decorado, limpo e encerado como uma peça de prata. De canto de olho, viu o retrato de uma pessoa em cima de uma estante de pinho, rodeado por flores e objetos que não sabia descrever.

Então escuta, ao longe, a voz de Sunny:

— Conseguiu pegar tudo?

Aphelio aperta o passo e vai até a despensa. Lá, seu enjoo foi instantaneamente curado.

Havia três estantes, cada uma destinada a um tipo de alimento. Na do meio, as mais variadas rodas de queijo, de diferentes cores e tempos de cura. Na da esquerda, frutas da estação: uvas roxas do tamanho de globos oculares, morangos tão vermelhos quanto o magma do vulcão Kraktkã e maçãs que reluziam à luz da janela. Na da direita, diversos tipos de defumados, com cheiros complexos e encorpados.

Ele escolheu então um cacho de uvas, um pedaço de pernil defumado e uma pequena roda de queijo curado. Voltou à mesa com os braços carregados.

Sunny já fervia o café, enquanto Aphelio organizava a mesa, dispondo os alimentos.

Sunny então pede ajuda a Aphelio:

— Termine de ferver. Tenho que desligar o forno, senão vai queimar.

Aphelio, sem entender, foi e assim fez. Terminou de ferver o café, enquanto Sunny abria a porta do forno, que o envolvia em vapor. De lá retirou uma travessa com um pão recém-feito, dourado e de textura crocante como as moedas de ouro que via nos abastados da cidade.

Colocou o pão sobre a mesa, partiu-o em pedaços, pegou o bule de café e duas xícaras de cerâmica, com símbolos pintados e uma mensagem próxima à asa:

"Que a boa companhia, o bom café e a boa comida nunca lhes faltem."

Assim, Aphelio sentou-se, serviu-se de algumas uvas, um pedaço de pão e um pouco de defumado. Sunny fez o mesmo, apreciando o gosto e a textura daquela comida e, acima de tudo, da companhia.

Após o término do quieto e saboroso café da manhã, Sunny se levanta da mesa e se dirige à poltrona na sala. Aphelio, ainda sentado, vê a situação e pergunta, ainda terminando o sanduíche que fez:

— O que vai fazer agora? Ler?

E entre uma mordida e outra, mais perguntas:

— Ou cuidar da horta?

Sunny retruca:

— Não é hora de colher, não tenho a ânsia de ler. Vou sentar-me e me entregar a minha imaginação e ócio, vou ver o dia passar, mago.

Aphelio então engole o último pedaço de sua refeição e se senta na mesma poltrona que no dia anterior o constrangera. Acomoda-se, inclina-se para a esquerda, logo após para a direita, olha para os livros na estante, vira o olhar — e Sunny está fazendo o que dizia, de janela aberta, fumando cachimbo e olhando o vento levar as folhas das árvores em uma viagem pelo ar.

Aphelio então vira sua poltrona para o mesmo lado e por alguns segundos tenta observar a paisagem, mas não vê nada além das cores azul, verde e marrom das cercas, do céu e das árvores. Então observa Sunny novamente com um olhar ansioso e se levanta. Sunny não profere voz nem o acompanha com o olhar, que está fixo na paisagem.

Aphelio então vê de mais perto os retratos de parentes, folheia os livros mas só as primeiras páginas, volta à cozinha, come um pedaço de queijo e não consegue conter seus pés ansiosos. Sunny, percebendo que Aphelio estava transbordando entusiasmo, sem falar uma palavra levanta-se, vai até Aphelio, que está voltando da cozinha, e estende a mão como quem quer cumprimentar. Aphelio faz o mesmo, e Sunny o agarra e o tira de sua casa arrastado, entra e fecha a porta, e pela janela diz:

— Aphelio, amigo, não perturbe a paz de quem a adquiriu. Procure a sua, e volte quando a encontrar — certamente entre os arbustos e bosques da vila a achará.

O mago, então, sem entender, o olha e volta para sua poltrona confortável, reacende o seu cachimbo e, então, profere, em tom agressivo, com os olhos cerrados, as seguintes palavras arcanas:

— Abacc nocht, díbirgim assa tech mé!

E, se virando, resmunga:

— Ro-smúainius ba mó do béus agat oldás Fomóir, abacc nocht.

Sunny, nesse momento, escuta as palavras. Não as entende, mas o tom já lhe dizia tudo. Ele, sem falar nada, traga seu cachimbo e, olhando para Aphelio em seu jardim, sopra a densa fumaça em sua direção e volta ao seu estado de tranquilidade.

Aphelio, então, com passos pesados sobre o chão, vai até o portão da casa de Sunny e olha para trás com olhos cortantes uma última vez antes de sair. Ele pensa consigo:

— Ele se acha sábio porque fuma aquele cachimbo e fala em prosa.

Ao mesmo tempo, caminhando, imita os gestos de Sunny ao fumar em tom de deboche e assusta algumas crianças que passavam por ele. Ele segue andando. Os pensamentos vão diminuindo de tamanho.

— Bom, ele sabe ser gentil quando quer.

Mais uns passos.

— Deve ter acordado em um dia ruim.

E, logo após, pensou:

— Devo tê-lo irritado. Tomara que não esteja bravo quando eu voltar.

Ele, antes andando em uma trilha retilínea em frente às casas, agora olha para o lado e vê um caminho não pavimentado, com a imagem de uma clareira em que se dava para ver o sol refletido de onde estava. Ele, então, dobra à esquerda no caminho e segue adentro do bosque até a clareira, afastando os galhos e folhas de seu rosto. A descida é íngreme; seus sapatos quase deslizam na terra úmida perto da clareira, mas não cai.

Ele chega e senta em uma pedra em frente à clareira, que refletia as folhas, o sol e a atmosfera verde. Vê os lampejos da água correndo, das pedras submersas e, logo, já não pensava em mais nada. Ao olhar seu reflexo, ficou temeroso, mas, dessa vez, o que viu foi seu rosto sombreado pelo chapéu pontudo que tinha. Suas feições se relaxaram. Ele, então, inspirou, e o ar tinha cheiro de terra molhada e de vida.

Consigo levava uma caderneta em que anotava as descobertas, dissecando-as em palavras e catalogando-as.

Ele, dessa vez, pegou o lápis que guardava entre as páginas e não escreveu uma só palavra. Observou o musgo que crescia em volta da pedra em que estava em cima e, com leves rabiscos, o desenhou. A cada linha na caderneta, o sol se alaranjava mais. O tempo passava e, página após página, desenhou e apagou quase uma dezena de vezes a mesma pedra e o mesmo musgo, até que já estava tão escuro que não conseguia ver a ponta de seu lápis. e agora a clareira nao refletia mais a luz do sol mas sim do luar

Aphelio, então, sai de seu transe e vê luzes laranjas se movendo com rapidez entre as folhas das árvores e gritos longínquos. Ele segue pela mesma trilha por onde entrou, e os gritos começam a fazer sentido.

— Mago do Sul! Onde estás, Mago do Sul!

E outros:

— Aphelio! Aphelio do Sul, onde estás?

Então uma voz lhe parecia conhecida, e ela dizia desesperadamente:

— Aphelio, onde estás?! Ouve-me, amigo!

Aphelio, então, sobe a trilha rapidamente, pois a voz que ouvira era de Sunny. Escorrega no caminho e fere levemente o joelho, mas a adrenalina e a preocupação abafaram sua dor.

Ele chega à estrada e encontra dezenas de dwestins com lamparinas. Não entende a situação e logo corre atrás de Sunny, que estava de costas, andando para o lado oposto. Coloca a mão em seus ombros e pergunta desesperadamente:

— O que foi? Você está bem? O que aconteceu enquanto eu estava fora? Estás ferido? E a vila? Foi atacada?

Sunny se vira e, sem falar nada, lhe dá um abraço longo e, em seguida, uma bronca:

— Nunca mais faça isto. Pedi-lhe para encontrar a paz, não para ir embora. Não quero que vá... não assim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.