​Seis semanas depois...

​O inverno na Suíça era silencioso e impiedoso. Isadora observava a neve cair pelas janelas da clínica de elite onde seu pai a internara sob o pretexto de "descanso e estudos". Na verdade, era uma gaiola de ouro, vigiada 24 horas por dia por homens que respondiam apenas a Marco Rossi.

​Ela estava mais magra, e a luz nos seus olhos parecia ter se apagado desde o dia em que vira Julian ser jogado na lama. Mas, naquela manhã, tudo mudou.

​Isadora olhou para o pequeno bastão de plástico sobre a pia de mármore do banheiro. Dois traços vermelhos. Fortes. Inquestionáveis.

​O pânico inicial foi substituído por uma calma gélida. Ela não estava apenas carregando um segredo; ela estava carregando o herdeiro de Julian Vane. O sangue do homem que seu pai jurou matar agora corria dentro dela.

​Ela pegou o telefone via satélite, o único meio de comunicação permitido, e discou o número que sabia de cor.

​A Ligação

​Na Sicília, Marco Rossi atendeu no segundo toque.

— Isadora? Aconteceu alguma coisa? Você finalmente decidiu me perdoar?

​— O perdão está longe de nós dois, pai — a voz dela estava firme, desprovida de qualquer emoção. — Eu liguei porque você precisa saber de uma coisa. Você achou que tinha limpado a sua casa quando expulsou o Julian.

​Marco ficou em silêncio do outro lado da linha. O nome de Julian ainda era um gatilho para a sua fúria.

— Não mencione esse nome, Isadora. Ele está morto para nós.

​— Ele pode estar morto para você, mas ele continua vivo em mim — ela disse, e o silêncio de Marco tornou-se pesado, sufocante. — Eu estou grávida, pai.

​Ouviu-se o som de algo quebrando do outro lado da linha. Marco provavelmente tinha derrubado seu copo de cristal.

— Você está mentindo... — ele sussurrou, a voz trêmula de ódio e choque. — Me diz que isso é uma brincadeira de mau gosto para me punir.

​— Eu nunca falei tão sério. Eu carrego o filho do Julian. O neto do homem que você chama de irmão e que agora você quer caçar como um animal.

​— Eu vou acabar com isso — Marco rugiu, a voz voltando com uma violência assustadora. — Você vai fazer o que for preciso. Eu não vou permitir que esse... esse bastardo de um traidor nasça! Vou mandar meus médicos para aí amanhã!

​— Se você tocar em mim, ou nesse bebê, eu juro que me mato antes de você chegar ao aeroporto — Isadora rebateu, as lágrimas finalmente escorrendo, mas sua voz não vacilou. — E você sabe que eu tenho o sangue dos Rossi. Eu não estou blefando.

​Houve um longo silêncio. Marco estava respirando com dificuldade, o som de um homem cujo império estava desmoronando por dentro.

​— Você acabou de declarar guerra contra o seu próprio pai, Isadora — Marco disse, com uma frieza que prometia destruição.

​— A guerra começou no momento em que você o expulsou, pai. Eu só estou garantindo que o lado dele tenha um sobrevivente.

​Isadora desligou o telefone. Ela encostou a mão no ventre ainda plano e olhou para as montanhas geladas. Ela sabia que Marco viria atrás dela. Mas ela também sabia que, em algum lugar do mundo, Julian Vane sentiria o chamado desse sangue.

​O jogo de xadrez não tinha acabado. Ele tinha apenas começado um novo tabuleiro, onde o rei estava exilado, a rainha estava presa, mas um novo peão acabara de surgir para mudar o destino de todos.