Entre a honra, o desejo e a traição - Os Vanne Ros
12 Capítulo 12: O Último Penhor da Honra
Três anos de exílio e sombras.
Julian Vane não era mais o homem que usava ternos de corte italiano e vigiava portas de carvalho. O tempo no submundo da Europa Oriental o transformara em algo mais magro, mais duro e infinitamente mais perigoso. Ele havia se tornado um "limpador" de segredos, movendo-se entre as máfias russa e albanesa, acumulando favores e informações com um único objetivo: voltar para buscar o que era seu.
Ele não entrou na mansão Rossi como um invasor comum. Ele entrou como um fantasma que conhecia cada falha na segurança que ele mesmo ajudara a projetar décadas atrás.
O Acerto de Contas
Marco Rossi estava servindo-se de uma dose de grapa quando a temperatura da sala pareceu cair. Ele não precisou se virar para saber quem estava ali. O cheiro de tabaco barato e chuva era estranhamente familiar.
— Você demorou, Julian — disse Marco, sua voz envelhecida pelo peso de um império que parecia cada vez mais vazio.
— Eu estava ocupado garantindo que, quando eu voltasse, você não tivesse outra escolha a não ser me ouvir — Julian saiu das sombras, a luz da luminária revelando a nova cicatriz que partia sua sobrancelha esquerda.
Marco finalmente se virou, sacando uma pistola curta da cintura, apontando-a para o peito de Julian.
— Você traiu meu sangue. Engravidou minha filha e destruiu a honra desta casa. Por que eu te daria um segundo de vida?
— Porque a honra que você tanto defende foi construída sobre um cadáver que eu carreguei por você, Marco — Julian deu um passo à frente, ignorando a arma. Ele jogou um envelope pardo sobre a mesa. — Ali estão as provas. Seus conselheiros, os homens que jantam na sua mesa, estão lavando dinheiro para o cartel rival. Eles planejam o seu fim para o próximo mês.
Marco hesitou, o cano da arma tremendo levemente.
— Por que me dar isso agora?
— Porque eu não quero seu império, Marco. Eu nunca quis. Eu quero a Isadora. E quero o meu filho. — Julian deu mais um passo, encostando o peito no cano da pistola. — Eu sei sobre o Leo. Sei que ele faz aniversário em agosto. Sei que ele tem o meu olhar. Mate-me agora e você perde o controle sobre os conselheiros, perde sua fortuna e, eventualmente, perderá a Isadora, porque ela nunca vai te perdoar. Ou... deixe-nos ir.
Marco olhou nos olhos de Julian e, pela primeira vez em três anos, viu a verdade nua. O ódio começou a ser substituído por uma compreensão dolorosa.
— Você fez tudo isso... por eles?
— Eu passei três anos matando monstros para que o meu filho não tivesse que crescer em um mundo onde eles dominam o avô dele.
O Portão de Vidro
Uma hora depois, sob as ordens diretas de um Marco Rossi visivelmente abalado, o carro vindo da Suíça cruzou os portões da mansão na Sicília.
Isadora desceu do banco de trás. Ela estava mais pálida, com uma elegância triste, mas quando seus olhos encontraram a figura de Julian parado na varanda, sua alma pareceu retornar ao corpo. Ela não correu; suas pernas falharam por um segundo.
— Julian? — o nome saiu como um sopro quebrado.
Do carro, um garotinho de cabelos escuros e bochechas rosadas saiu logo atrás dela, segurando um pequeno urso de pelúcia. Ele olhou para o homem estranho com curiosidade, sem o medo que as outras crianças demonstravam diante de Julian.
Julian desceu os degraus lentamente. Ele caiu de joelhos no cascalho, não por fraqueza, mas para ficar à altura do menino.
— Ele é... — Julian não conseguiu terminar a frase. A garganta apertou de uma forma que nenhuma tortura jamais conseguira fazer.
— O nome dele é Leo — Isadora disse, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Julian. O toque dela queimou através do casaco dele, uma conexão elétrica que três anos de distância não conseguiram apagar. — Leo, este é o homem das histórias. O homem que a mamãe disse que voltaria para nos levar para ver o mar.
O pequeno Leo deu um passo à frente e tocou a cicatriz no rosto de Julian com os dedos pequenos e quentes.
— Você é o capitão? — o menino perguntou, lembrando-se das metáforas que Isadora usava para explicar a ausência do pai.
Julian fechou os olhos, uma única lágrima escapando e sumindo na barba por fazer.
— Sou, pequeno. Eu sou o seu capitão. E o navio já vai partir.
O Adeus ao Patriarca
Julian levantou-se com Leo nos braços, sentindo o peso sagrado daquela criança. Ele olhou para cima, para a varanda, onde Marco Rossi observava tudo. O patriarca parecia pequeno, emoldurado pela grandiosidade da mansão que ele sacrificara tanto para manter.
Marco acenou com a cabeça — um gesto imperceptível de rendição e um adeus definitivo. Ele havia perdido a filha, mas ganhara a chance de que o neto vivesse uma vida que ele e Julian nunca puderam ter: uma vida fora das sombras.
Julian colocou Leo no carro e segurou o rosto de Isadora com as duas mãos.
— Eu nunca mais vou deixar vocês — ele prometeu, a voz rouca e carregada de uma determinação inquebrável.
— Eu sei — ela respondeu, puxando-o para um beijo que selava o fim da guerra. Não havia mais raiva, nem jogos de poder. Havia apenas a paz de quem finalmente encontrou o caminho de casa.
O carro partiu, deixando a poeira da Sicília para trás. Enquanto o sol se punha sobre o Mediterrâneo, Julian Vane olhou pelo retrovisor e viu a mansão diminuir até sumir. Pela primeira vez em sua vida, ele não estava vigiando o passado, mas dirigindo em direção ao futuro.
FIM
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