Entre a cruz e a espada
5 Verdades
Notas iniciais
Apesar de grande, o ar no local parecia sufocante, não era fácil dizer aquelas coisas, tinha guardado-as por tanto tempo. Mas estava ali com o advogado dizendo o que queria.
– Shijima... Creio que não tenho uma saída... Por muito tempo guardo isso comigo, mas agora é hora de colocar pra fora, é hora de parar de sofrer, eu tentei, você viu... Comecei a sair com outras pessoas, eu até namorei... Mas nada... Nada me fez esquecer aquele beijo tão simples, mas tão cheio de um sentimento que eu só tinha conhecido uma vez.
O médico levantou, parecia incomodado com o que o outro falava. – Pois é... E esse sentimento morreu?! E se ele aparecesse? O homem que despertou esse sentimento... O que faria?! Tem ideia do que está falando?! Aioria é seu filho, é um rapaz jovem, ele vai encontrar uma saída. Um outro... Amor.
Aioros sentiu o peito apertar, doía tanto lembrar que ele o abandonara quando mais precisou. O moreno virou e segurou os ombros do outro. Seus rostos estavam perto e ele falou agitado, nervoso... O que deixava claro ao doutor o quanto aquele assunto mexia com os sentimentos do moreno.
– Se ele aparecesse?! Shijma, olha pra mim... Eu amei um homem e no momento que mais precisei ele sumiu... Ele simplesmente sumiu. Me abandonou... Sozinho, se não fosse meu pai... Não sei... Eu podia ter morrido e sabe quantas vezes ele se importou?! Nenhuma! E não me venha com isso de “Aioria pode ter outro amor” Que porra Shijma, não vê?! Esses anos todos e ele não tem ninguém! Chega! Sei que pode parecer nojento, antiético... Uma loucura, não importa... Já vivo fora dos padrões, sou gay... Gosto de homens... E isso já me faz diferente ao menos para muitos inclusive para o meu pai.
– Calma Aioros... Você não pode ficar assim... E eu sei disso... E não julguei por esse lado... Mas por que realmente me preocupo com vocês. Tudo bem... Se está certo do que quer... Vá em frente... Só... Tenha cuidado, pode magoar a pessoa errada...
O médico falou sério, mas gentil. Conhecia Aioros há tempo, e sabia bem que aquele amor não estava morto, só esperava que Aioria não pagasse pela ação impensada do pai. – Sente-se Aioros... Precisa tomar um chá, algo que te ajude. Não quero que faça esforço.
Quando o médico acabou de falar, ouviram batidas na porta. Aioros respirou fundo e respondeu. – Pode entrar! – Ordenou vendo a porta abrir e seu mordomo entrar.
O homem o olhou, e com calma falou sério:
– Senhor... Há um policial na sala e deseja lhe falar, ele disse que é importante... É sobre um cliente seu. Devo pedir que volte outra hora?!
O advogado não entendeu, isso era novo para si, mas como era um policial ele iria sim ver o que era. – Não... Diga que já estou indo.
O mordomo assentiu e saiu dali, deixando o advogado e seu médico a sós.
– Fique aqui... Eu vou ver o que é e volto. Você almoça comigo e não quero desculpa... Ainda não terminamos a nossa conversa. – Aioros ditou antes de sair. Passou na cozinha e avisou que Sijima almoçaria ali. Estava com sua bengala, ele andou mancando se apoiando na mesma, entrou na sala e olhou para o homem a sua frente.
– Bom dia Senhor... Sou Aioros Rouvas... O senhor é?! – Se apresentou vendo o outro se levantar. Ele era um homem bonito, um ruivo serio com uma expressão dura.
– Sou Camus Cassel, sou investigador... E conheci Milo Bartinik... Ele é seu cliente não?! Preciso falar com o senhor... É importante.
Explicou e sentou-se novamente quando Aioros o mostrou o sofá, o moreno não sabia onde ele queria chegar, mas queria ouvi-lo. Por isso mesmo não o interrompeu.
O ruivo então retomou a palavra. – Deve estar achando estranho minha visita, mas é que meu sobrinho, estava no carro que bateu com o veículo do senhor Bartinik. Eu movi uma investigação, pedi... Mas ontem, ele foi ver o Isaak, e acabamos por saber que na verdade ele não tem culpa, mandei retirar a queixa, mas ele se nega... Disse que não quer mais problemas e que não se incomoda de pagar com serviços comunitários e arcar com os gastos quanto a saúde Isaak, meu sobrinho.
Aioros estava abobado com aquilo. O que Milo tinha ido fazer? Ele era mesmo um cabeça dura. – Senhor Cassel, eu entendi... Mas se era para retirar a queixa, deveria procurar seu advogado para ele entrar com a peti... – Parou de falar quando o ruivo negou, então voltou a prestar atenção ao que o investigador tinha a dizer.
– Não entendeu... Seu cliente não quer isso... Mas o que me trouxe aqui... Foi uma informação que meu sobrinho me passou, de acordo com ele, seu cliente estava no lado do passageiro, o que explicaria os ferimentos que ele teve, porém... Pense comigo... Se seu cliente não estava ao volante... Quem estava?! Não temos registros de alguém ter entrado no hospital machucado, claro que não seria o caso de morrer, mas... Estaria bem machucado. Eu tendo a pensar que... Seu cliente pode estar correndo riscos... Fui ver alguns documentos, e quando li os relatórios... Vi que os peritos afirmas que o senhor Bartinik estava dormindo há pelo menos meia hora, ou seja... Ele não podia estar dirigindo... Algo não está certo aqui! E eu queria saber se o senhor não teria qualquer informação para me passar... Eu me propus a investigar, quer ele queira, quer não.
Aioros levou a mão a boca, as coisas eram exatamente o que ele imaginava. As informações eram claras e Milo estava sendo julgado por algo que não fez. Precisava fazer algo. Levantou e andou um pouco, mesmo com a perna doendo.
– O senhor tem noção do que está dizendo?! Meu cliente pode estar sendo alvo de um assassino... Olhe investigador, espero que esteja errado... Mas se estiver certo... Precisamos agir rápido, quem fez isso não está satisfeito... E se souber que seu sobrinho lembra de algo, ele também correrá riscos.
A sala ampla da casa de Aioros era bem confortável, as paredes enormes de vidro temperado, um sofá em ”L” com uma mesinha de centro de vidro deixava o ambiente saudável. Um espelho grande acima de um criado mudo, todo trabalhado. Os moveis ali eram de madeira, rústicos, bem à moda antiga que contrastavam com a modernidade de alguns objetos.
O moreno estava bem preocupado, e por isso mesmo não conseguia se manter quieto. Ele parou olhando para Camus voltando a falar. – Ah... Senhor Camus... Me diga uma coisa... O que eu posso fazer?! Como... Quer dizer, porque exatamente veio me procurar?
Camus continuava sério, sua expressão parecia inabalável, nada do que o advogado considerou, deixou de ser pensado pelo investigador. Mas este não estava disposto a se desesperar.
– Senhor Rouvas... Eu vim aqui alerta-lo e pedir sua ajuda... Gostaria que me passasse qualquer informação que possa me ajudar a perceber alguma falha, algo que possa me fazer desvendar esse mistério.
Como investigador Camus estava intrigado, havia detalhes que não estavam claros, e ele pretendia esclarecer cada ponto. Levantou estendendo a mão ao moreno. – Espero poder contar com o senhor... Preciso ir agora, tenho um compromisso... Pode ficar com esses papéis, são cópias, leia com calma e perceba que o que eu digo tem fundamento. Passar bem senhor Rouvas... – Ditou por último ainda com a mão estendida.
Aioros não tinha outra escolha, apertou a mão do ruivo e com a mão livre pegou a pasta com os papeis. – Farei o que for preciso... Conte comigo! – Não sabia o que fazer, mas queria proteger Milo, o fato era que estava apreensivo, afinal, por que Minos escondeu aquilo, por que ele não considerou importante?! E por que ele tratou o caso com desdém?! Algo lhe dizia que não ia gostar de saber. Acompanhou o ruivo até a porta, suspirando quando ele saiu.
Voltaria para o quarto, não fosse o telefone tocar, e seu mordomo informar que era seu pai. Foi atender no escritório, não gostava de ser atrapalhado quando falava com o pai.
–oooOooo-
No quarto, Shijima esperava pelo moreno, olhava a janela de vidro vendo o jardim lá fora. Pensava nas palavras de Aioros e então lembrou-se de quando se conheceram. Lembrava-se bem que todos os médicos haviam dito que ele não voltaria a andar. Mas ele não, Shijma era jovem, tinha se formado a pouco tempo, e tinha uma visão diferente dos demais, e foi sua insistência que levou o moreno a andar novamente, mesmo mancando as vezes. E isso os tornou grandes amigos.
Tinha acompanhado a vida dele, sua recuperação, seu casamento, sua perda... Inclusive era padrinho de Aioria. Mas o que dizer da decisão do amigo, não podia julgá-lo... Não devia julgá-lo. Era tudo muito complicado, a dor que ele carregava... Mas uma coisa o incomodava, percebia bem que os sentimentos do moreno pelo ex-namorado não haviam morrido... Como seria se ele voltasse, claro que era uma possibilidade muito remota, mas... Ainda era uma possibilidade.
Mas quem era esse rapaz? Quem havia sido esse jovem que mexera tanto com seu amigo? De onde ele era?! E que fazia agora?! Não sabia se ele o tinha abandonado, Aioros passou muito tempo sendo sedado por conta da dor, e se esse jovem tivesse ido lá?! Pelo que lembrava, o pai dele não permitia que ele recebesse quase nenhuma visita... Será que ele tinha ciência disso?!
Não sabia, porém, lembrou-se de algo... Um rapaz, um jovem... Ele foi visitar Aioros na época, fora escondido e pedira que ninguém soubesse, se disse amigo do acidentado. Mas era muito parecido com ele.
– Não... Será? Nunca mais vi aquele jovem depois disso... Como era mesmo o nome?! Eu lembro... Não era comum... Por Buhda... Como é mesmo o nome dele?! Era... Com “K”. Droga... preciso lembrar, aqueles olhos nunca me saíram da cabeça mesmo. Vou me lembrar, eu tinha isso anotado... Vou procurar.
O médico falava consigo mesmo, e estranhava a demora de Aioros. Resolveu ir ver o que se passava, afinal, seu paciente não estava bem. Mas não o viu na sala e foi informado que estava ao telefone no escritório. O doutor já esperava que o humor do amigo piorasse, assim como sua saúde, era incrível como o pai dele conseguia fazê-lo piorar.
Sentou-se no sofá esperando pelo moreno. Esperava poder ajudar, a tarde prometia ser longa. Mas estaria ao lado dele sempre, eram amigos e seriam para sempre.
–oooOooo-
Após sair da casa de Aioros, Camus seguiu para a casa da ex-mulher, queria falar com o filho, a conversa que tinha que ter com ele, já tinha passado da hora, e só agora percebia o quanto ele estava rebelde. Ele tinha quase matado seu primo, além claro, de estar cada vez mais respondão, rude... E distante, por mais que tentasse se aproximar, ele estava sempre se afastando.
Isso era culpa de Natassia, só podia ser... Ela nunca estava satisfeita com nada, nunca aceitou a separação, mesmo fazendo anos, e sempre tentava colocar o menino contra o pai. Inventava coisas que nunca haviam acontecido, quantas vezes teve trabalho para provar a Hyoga que as coisas não eram como ele pensava.
Mas agora as coisas pareciam ter fugido ao seu controle. O rapaz crescera, e se tornara difícil, tinha um gênio forte, um temperamento fechado. Não que fosse diferente de si próprio, mas desde que começara a namorar aquele homem... O tal Ikki as coisas pareciam ter desandado. Ele se achava o adulto, desrespeitava tudo e todos. Não podia continuar assim, Hyoga tinha tudo e não valorizava nada.
Enquanto dirigia, Camus pensava nessas coisas, sentia-se um tanto culpado, devia ter assumido a educação de Hyoga, ter tomado ele da mãe. Não o fez por achar que seria bom para o menino ter a presença dela, sempre lhe deu tudo, com certa medida, mas Natássia não, abria a mão totalmente. Suspirou quando parou no sinal, bem em frente à loja que pertencia a seu “genro” e não gostou do que viu, o moreno estava saindo no meio da manhã, todo bagunçado, uma cara de poucos amigos.
– Irresponsável. – Xingou, mas voltou a si quando ouviu a busina do outro carro, que o alertava que o sinal abrira. Deu partida no carro indo encontrar o filho.
–oooOooo-
O moreno estava parado em frente a seu carro, sua cabeça estava latejando. Tinha brigado com Hyoga, o loiro tinha agido de forma incoerente, infantil. E agora quando achava que teria o dia tranquilo, uma entrega de produtos não saiu correta, ele precisava resolver isso, mas não conseguia achar o fornecedor, isso o deixou estressado, ainda mais impaciente.
Suspirou encostando na porta do veículo quando seu telefone tocou. Bufou chutando a lataria do carro, não precisava olhar para saber que era seu pai e não estava com mínima vontade de atender. Já era a décima vez pelo menos que ele ligava, e o moreno não tinha atendido, sabia que provavelmente queria brigar consigo pela noite passada fora de casa. Ikki não conseguia entender por que ele não o aceitava, era por isso mesmo que estava disposto a sair de casa.
Pegou o aparelho do bolso e respirou fundo antes de aceitar a ligação insistente. – Alô...
Fora tudo que o moreno conseguira dizer, por que do outro lado da linha Aiacos gritava a plenos pulmões, fazendo com que o moreno afastasse o aparelho do ouvido para não ouvir os gritos.
– O que anda fazendo?! Quem pensa que é Ikki?! Acha que por que tem sua própria empresa é o dono da razão?! Nem escolhas sabe fazer, saindo com aquele moleque idiota! Escuta aqui Ikki, eu estou muito decepcionado com você, muito mesmo! Por que não atendeu o telefone?! Ainda estava com ele?! Hunf... Eu vou te dizer uma coisa, eu esperei tudo de você, menos que esquecesse a passagem de faixa do seu irmão. Ele chorou muito... Por mim você não volta pra casa... Não precisa... Quando sua família não tem mais valor... Não precisa voltar...
O mais velho ditava irritado, seu coração estava acabado. Nunca pensou que o filho esqueceria sua responsabilidade com a família. Não era o fato de gostar de homens, claro que aquilo foi complicado de entender, mas era o fato dele namorar um menino mimado, e que só o causava problemas.
– Seu irmão foi internado Ikki... Parece que os remédios não... Não fizeram o efeito esperado e ele teve uma crise. Ele não está acordado agora... Eu ligo para lhe dar qualquer notícia... Vá dar atenção ao seu namoradinho!
O mais velho desligou. Ele estava muito perturbado do lado de fora da enfermaria onde o pequeno Shun estava sendo medicado. O menino era o xodó da família, mas ele tinha um problema sério de insuficiência renal. Ele precisava de transplante, mas ainda não tinha sido comtemplado com um rim. Estava na fila, mas estava piorando.
Naquele dia mesmo tinha tido uma crise, e o médico cogitava fazer outros tratamentos. Aiacos estava arrasado, mas não era o único. Depois da notícia, Ikki tinha ficado sem ação, deixou o celular escorregar por suas mãos e as lágrimas molharem seu rosto, chutou várias vezes a porta do carro.
– Por que?! Por que?! Shun... Me perdoa irmãozinho!
Ditou ao vento, e foi invadido por um misto de sentimentos. Raiva, medo, frustração. Entrou no carro e decidiu ir ver o irmão, estava péssimo, mas queria saber como ele estava e o pai quisesse ou não, iria ficar com o pequeno, Não podia ter esquecido, tudo para Shun era uma conquista, era muito importante. Não era justo. Deu partida no veículo e saiu do estacionamento da sua loja.
Não era mal motorista, mas estava perturbado. Passou o sinal vermelho e seguiu pista a fora. Mas não prestava atenção em nada. Queria chegar o mais rápido possível, e foi ai que tudo aconteceu, um carro vinha no cruzamento, e o moreno não parou, achou que dava para passar, grande erro. Bateu na traseira do automóvel e perdeu o controle batendo no poste.
O moreno teve a testa cortada, e ficou atordoado. Não se moveu ainda para sair do carro. Levou a mão a testa e encostou a cabeça no volante, o que estava fazendo?! Podia ter morrido... Mas talvez fosse bom... Pensou consigo, quando ouviu uma batida no vidro, um policial batia para ver se Ikki respondia, o rapaz o olhou e levantou a mão num pedido mudo de espera.
O policial tornou a bater e o moreno estressado abriu a porta e saiu do carro, só então viu o o estrago e levou a mão a cabeça, ainda mais quando viu em que carro havia batido, uma Mercedes?! Levou a mão a cabeça e começou a rir sem noção, sentou-se no chão tendo a cabeça encostada nos joelhos.
A voz grossa soou quando alguém se aproximou. – O que porra passou pela sua cabeça?! Queria morrer moleque?! Tá se achando o super homem?!
Ikki revirou os olhos e falou sem levantar o olhar. – Não estou achando nada... Tá?! Me dá seu número, e eu vou pagar o conserto.
– Tá achando que é só isso?! Pagar o conserto?! Cara são por causa de pessoas como você, que tem gente morrendo no transito todo dia! Quer saber? Vou caçar essa sua licença, vai ficar sem dirigir! Vai andar a pé, de ônibus, ou já que pelo visto pode pagar, de taxi.
Aquilo foi a gota d’água, Ikki levantou e só então viu quem lhe falava, o homem estava bravo, e tinha uma cara de durão. Os fios loiros eram cumpridos, e seus orbes azuis era bem intensos. O moreno ficou até sem fala, ao menos por segundos. Mas logo voltou a si, diante das palavras do outro e respondeu impaciente.
– Escuta aqui, quem pensa que é?! Eu já disse que pago o conserto da porra do seu carro, o que mais você quer?! Quer me foder?! Então me foda... Já to fodido mesmo!
Falou voltando a sentar, tentava ficar firme, sua cabeça estava a mil, seu coração doía, sentia-se um tanto culpado. Pensava no que fazer, iria ao hospital, nem que fosse a pé, mas então ouviu o outro falar novamente. – Quem eu sou?! Ah não se preocupe, vai saber em breve! Acredite! Você ainda não está fodido! Mas vai ficar...
O guarda se meteu na discussão. – Vamos ter calma, moço sua carteira, vou multá-lo e o senhor por enquanto não vai dirigir, ingeriu algo alcoólico?
Ikki sentiu o sangue ferver e levantou. – Quer saber?! Quer mesmo saber?! Não, eu não bebi nada! Que me levar para fazer exame?! Pode multar esse cassete, pode tirar a porra da carteira, como o loiro ali falou, posso andar de ônibus ou pegar um taxi, alias... é isso mesmo que vou fazer agora... Não to com cabeça para ouvir xingamentos! Sabe por que seu policial?! Eu tenho um irmão de sete anos que está no hospital internado com um problema renal... Ele só tem sete anos porra, sete! Por que não comigo?! Não... A vida muito justa escolheu ele para machucar, então o caralho do carro pode se explodir, eu não ligo!
O moreno ditava enquanto as lágrimas desciam por seu rosto. Ele abriu a porta do veículo e pegou a carteira, pegou o documento do Carro e jugou em cima do guarda de transito. – Tá ai... Pode ficar! – Ditou e saiu andando pela rua, a testa sangrando e tentando enxugar as lágrimas com as costas das mãos.
Parou e se encostou num poste, respirando fundo e tentando organizar as ideias, quando sentiu uma mão em seu ombro, virou-se para dizer algo ao guarda, mas deparou-se com o loiro que o olhava sério. – Onde ele está internado?! Posso lhe dar um carona...
Ikki não acreditou naquilo. – Você me xinga e agora quer me dar carona?! Obrigado... Eu prefiro ir a pé... E não interessa onde ele está...
Falou malcriado e puxou o ombro voltando a andar, tropeçou algumas vezes nos próprios passos, estava zonzo ainda da batida e acabou voltando a sentar-se na caçada.
O Mercedes parou a sua frente e o loiro insistiu. – Ei cara... Esse corte tá feio... Vamos, eu te levo no hospital, você não vai querer que seu irmão te veja assim, se ele não está bem... Não vai melhorar muito.
Ikki suspirou, o outro tinha razão, não precisava daquele cara, mas queria chegar ao hospital. – Tudo bem... Mas eu pago pela carona. – Falou abusado e levantou devagar, entrando no carro do loiro. – Meu irmão está no hospital infantil... A propósito... Me chamo Ikki... Ikki Amamyia... – Se apresentou enxugando o sangue com a manga da camisa.
– Kanon Mercouri... Então... Seu irmão está no hospital infantil?! Não é tão longe daqui... Mas... O que ele tem?! – Perguntou tentando ser amigável, tinha percebido no moreno verdadeira perturbação. Ele era lindo, estava um lixo, era verdade, mas tinha belos olhos azuis. E aquele jeito abusado deixou o loiro um tanto atraído.
Seguiram pela avenida e logo chegaram, mas a viagem seguiu em silêncio, Ikki não respondeu à pergunta do outro, estava com o olhar distante, e todo tempo mexia nos cabelos, ou nas mãos demonstrando seu nervosismo. Ao chegar ao local o moreno respirou fundo, abaixou a cabeça e depois abriu a porta. – Obrigado... É... – Abriu a carteira e deu a ele seu cartão. – Pode me ligar... Eu vou pagar pelo conserto.
Kanon assentiu e o viu seguir para dentro do hospital, conhecia pessoas ali, saiu do carro pouco depois, e acabou vendo onde o moreno foi. O seguia de longe e então viu quando ele foi por um corredor mais afastado. Perguntou que área era aquela a uma enfermeira e foi informado que era a área da urgência.
O promotor não resistiu, e continuou seguindo o moreno, e chegou a tempo de ver ele falar com outro homem, um mais velho, mas muito bonito. – Mas o que deu em você?! O que aconteceu Ikki?!
– Bati com o carro!
Kanon ouviu a conversa, mas não esperava pelo que viu. O mais velho deu um tapa no rosto do rapaz. Ikki se afastou e abaixou a cabeça. – Saia daqui Ikki, saia! O Shun doente e você age com irresponsabilidade?! Além disso, eu disse que não viesse, não quero que o veja... Não merece isso! Ele chorou a noite quase toda! Saia da minha frente!
O moreno estava arrasado, tentou argumentar. Estava arrasado pelo irmão. – Deixe-me vê-lo pai... Por favor, ele está desacordado ainda? Eu sempre estou presente, eu errei... Eu sei... Mas foi um dia, uma única vez! Por favor... Não haja com se eu sempre o machucasse, eu luto por ele tanto quanto o senhor!
Aiacos virou as costas e antes de sair falou rude. – Seja breve! Vou comprar uma água, não quero vê-lo aqui quando voltar. – Ditou, dando passou longos pelo corredor se afastando do filho que respirou fundo. Podia não parecer, mas ver o filho machucado fez seu coração doer.
Ikki virou-se e então viu o loiro, franziu o cenho e entrou no quarto. Viu Shun ali, entubado, não conseguiu conter as lágrimas. – Me perdoa irmãozinho, eu não vou esquecer de novo, nunca mais... Mas melhora Shun... Melhora!
Abaixou a cabeça chorando, quando sentiu mãos segurarem em seus braços. Não precisou olhar para saber quem era. – O que faz aqui?! Veio ver se era verdade?! Está satisfeito?! – perguntou entre dentes.
Kanon apertou um pouco o braço dele. – Não... Só percebi que não estava bem... Venha, ele vai melhorar, e acho que vai ficar preocupado de te ver assim... Vamos, você precisa se recompor... E seu pai vai esfriar a cabeça... então você volta, e conversa melhor com ele. Vamos...
A forma educada, e gentil do loiro fez o moreno segui-lo. Mas Ikki só saiu do quarto depois de beijar a testa do pequeno e sussurrar um “eu volto”. Uma vez fora do quarto, o promotor pegou o celular e fez uma ligação, falou com algo e depois puxou o moreno pelos corredores do hospital.
Entrou em uma enfermaria, e um loiro de fios cacheados estava ali. – Então... O que houve mesmo?! – Milo perguntou vendo o estado do moreno. Mas o fez sentar e logo foi limpando o ferimento, fazendo o curativo.
– Nossos carros se chocaram... Mas ele se machucou mais. Eu estou bem! Foi só um machucado no braço, e um pequeno torcicolo. Mas nada que um relaxante muscular receitado por você não ajude. – O loiro falava calmo, enquanto esperava. Via o moreno em silêncio, um tanto incomodado, mas era o certo.
Quando tudo acabou, o promotor agradeceu, ele e Ikki saíram hospital. O moreno virou-se para o loiro e estendeu a mão. – Tem meu cartão, ligue para me dizer sobre o orçamento do carro... E obrigado! Mas eu me viro daqui...
Kanon sorriu de canto. – Calma... Ikki, vamos almoçar... Você deve estar exausto eu sei, mas... Eu conheço um restaurante legal, e posso te deixar num ponto melhor pra você... Eu estava indo almoçar com um cliente, tinha uma reserva... E eu não queria perder... Podia ao menos tomar um suco... Que tal?!
Ikki abriu a boca para negar, mas pensou que não era má ideia, sair um pouco. Desde que conhecera Hyoga não tinha mais amigos, vivia praticamente para o loiro. Abaixou a cabeça um pouco pensando. – Mas eu pago... Não preciso de favores.
Argumentou um tanto mal humorado e saiu dali com o outro para o restaurante. Logo uma conversa começou e os dois pareciam compartilhar de opiniões muito parecidas. Pediram algo para beber e pareciam não ter pressa.
–oooOooo-
Milo estava sentado em seu consultório, levou a mão ao pescoço e fazia movimentos com a cabeça, inclinava a mesma da cabeça da direita para a esquerda e vice-versa. Numa tentativa de relaxar a musculatura do pescoço. Estava cansado e um tanto tenso.
Seu consultório era simples e bonito. Tudo branco, com champanhe. Uma mesa que ele usava para atender, ficava bem ao centro da sala. No canto direito havia uma maca. Do outro lado, alguns brinquedos e até um esqueleto. No cantinho esquerdo uma pia para que Milo lavasse suas mãos, um balde de lixo prateado e uma mesinha com uma impressora. Em sua mesa que era de vidro, um computador e alguns papéis.
O loiro se espreguiçou um pouco quando ouviu batidas na porta. Se ajeitou na cadeira antes de responder. – Pode entrar! – Autorizou vendo a porta abrir e uma bela mulher de fios escuros e compridos entrar. – Pandora... Oi...
Milo falou calmo, e com certo carinho. Os dois eram colegas de profissão. Mas se conheciam há muito tempo, desde que Milo estudava o ensino regular. Os dois estudaram juntos por anos. A mulher era muito bonita e elegante. Tinha um ar superior, mas era sempre gentil com todos.
Pandora sorriu diante das palavras de Milo e falou calmamente. – Não vai almoçar?! Passou da sua hora sabia?! Assim acaba adoecendo... – falou com certa preocupação.
Milo abriu a boca e olhou o relógio. – Nossa... Nem me dei conta da hora, é... E falando agora estou com o estômago roncando. – Sorriu divertido. – Nossa preciso comer algo, e descansar, volto a dois dias e já estou exausto. Você, já almoçou?! – Perguntou juntando os papéis em sua mesa e os colocando numa pasta. Levantando-se em seguida.
– Não... Quer dizer... Esperei para não ir só, mas como sabe... Ele só vive ocupado... Bom, quer ir comigo?! Conheço um bom restaurante... E parece que nossos assistentes também não comeram ainda. Podíamos ir os quatro, o que acha?! — perguntou sorrindo vendo o loiro concordar.
Milo levantou e os dois saíram da sala, chamando os dois assistentes. Orfeu um jovem que fazia música, mas trabalhava como assistente de Milo. Era loiro, tinha os olhos azuis, e um jeito angelical. Tinha muito respeito pelo médico, ele sempre era muito gentil e procurava o ensinar e ajudar quando o mais jovem precisava.
Já Shiva era assistente de Pandora, do mesmo jeito que Milo, a doutora mostrava-se bastante gentil. Tinha muita paciência e muito carinho pelo rapaz. Ela mesma tinha conseguido aquele trabalho para ele, pois era filho de uma amiga sua. Shiva era moreno, tinha os olhos escuros, mas uma personalidade tranquila. E isso era uma preciosidade, ainda mais por que ele trabalhava com pessoas, e nem sempre essas pessoas estavam de bom humor.
Os rapazes junto com os médicos chegaram ao restaurante. Entraram sorrindo, conversando sobre alguns estresses de pacientes. Os olhos de Milo avistaram Kanon levantando-se da mesa, e não estava só, o moreno continuava perto dele, sentiu certo ciúmes já que o loiro tinha o chamado para conversarem e já estava colado no rapaz que acabara de conhecer?! O conhecia bem, sabia quando ele estava interessado em algo, o promotor não era de “babar” ninguém.
Sentou-se tentando não ser percebido pelo outro, e não foi. Kanon estava distraído ouvindo algo que Ikki lhe falava. Os dois saíram do restaurante rindo, alheios aos olhos que os observavam.
–oooOooo-
O Audi preto parou no estacionamento, o motorista olhou para seu passageiro estreitando os olhos. Estava irritado, mostrava isso em seu olhar, já que sua expressão era sempre seria.
– Quantas vezes vou mandar tirar o pé do painel do meu carro?! E quantas vezes já falei para não agir como um malandro? Vamos, sente-se direito, e comporte-se como gente.
Sua voz soou fria, rude e o jovem a seu lado parecia não ter escutado nada, já que assim que ele falou o mesmo esticou-se na cadeira como quem estava dormindo. A expressão do mais jovem era exatamente igual à do mais velho. – Eu tenho que fazer tudo isso por que você acha certo?! Sabe, para seu governo não sou um boneco sem cérebro. E faço o que gosto de fazer, não o que mandam.
Respondeu frio e olhou para o outro, o encarando, o enfrentando. Soltou o cinto e abriu a porta do veículo. – E... Eu sou gente... papai... – Finalizou sua resposta saindo do carro. Bateu a porta com força, sabia o quanto o outro odiava isso. Tinha um meio sorriso nos lábios por saber que provocara o pai. Mas esse se desfez quando seus orbes azuis visualizaram seu namorado.
Ele estava saindo do restaurante com um loiro. E os dois sorriam no melhor clima de... O que seria mesmo?! Na cabeça do rapaz parecia uma paquera, e seu amado parecia bem envolvido por aquele loiro. Seu olhar se tornou mais frio, e cerrou os olhos. – Então é assim que trata seus clientes Ikki?! Pois não perde por esperar... – Falou baixo para si próprio, mas foi despertado de seus pensamentos quando ouviu a voz firme do pai.
– Vamos Hyoga! E por favor, se comporte! Quero conversar com você, sem cenas.
Hyoga viu o carro sair, mas o fato de Ikki estar dentro dele, e na companhia daquele homem o deixou irado. – Vamos Camus... E não me confunda... Quem está fazendo cena aqui... Não sou eu... investigador.
Camus odiava quando o filho o tratava como um estranho, mas preferiu controlar-se. Os dois seguiram lado a lado entrando no restaurante. Ambos tinham um jeito parecido, no andar, no porte. Só eram diferentes em idade e na cor dos fios de cabelo. Entraram e sentaram-se. Os olhos astutos do policial visualizaram alguém que não esperava ver ali. Mas gostou, por algum motivo aquele loiro lhe chamava a atenção.
Desviou o olhar procurando o garçon que logo se aproximou. Os dois comeriam a mesma coisa. Camus então começou a falar. – Hyoga... O que está havendo com você?! Me diz... Eu não consigo acreditar que as coisas que te ensinei, os valores que te passei estão perdidos... Por que?! Me diz filho... Quando você era criança eu fiz tudo para que fosse feliz. Depois que cresceu parece que procura problemas, notas baixas, chamadas a diretoria, suspensões... A única coisa da qual ainda gosta é esse Jiu-jitsu.
Hyoga apenas o olhava, seus olhos azuis tinham um brilho de um sentimento que o pai desconhecia. – Valores que me ensinou?! Fez tudo para que eu fosse feliz?! Está mesmo falhando do mesmo Hyoga?! Eu não lembro muito disso... Não espera... Lembro sim... – Falou sarcástico, deixando Camus sem ação. – Lembro de você e mamãe brigando como cão e gato, lembro dos escanda-los, das festas que tínhamos que sair, eu mal podia me divertir... E hoje me divirto muito, sabe... essas coisas me fazem bem... Me fazem sorrir, ir contra essa mentira que todos chamam de família, contra as “verdades” que disse ter me ensinado. Quer saber “pai” eu to de saco cheio disso, você e a mamãe não pensam em ninguém, além de vocês mesmos. Então não venha com essa conversa de “meu filho é um problema, já que foram os dois que me levaram a isso”.
Falou um tanto provocador, mas frio. Encostou-se nas costas da cadeira cruzando os braços. Não tinha a mínima intensão de baixar a cabeça para o mais velho. Sempre o adorou, o tinha como herói, mas ele e Natássia viviam brigando, e o ruivo quase nunca ficava em casa. Quando os dois se separaram, se estava com um ouvia algo de mal sobre o outro. Era sempre a mesma coisa, além disso, ele o tinha deixado com a mãe, quando o que o menino mais queria era ir morar com ele.
O policial ia explicar, havia tanta coisa que o filho não sabia, mas quando abriu a boca viu um homem entrar no restaurante. Percebia a expressão intensa e perturbado do recém-chegado. Usava uma calça jeans surrada, sapatos bem sujos, mas o que chamava mais a atenção era que ele vestia um casaco em pleno verão e segurava de forma desconfiada o bolso da roupa, mas Camus por seus anos de experiência percebeu que ele estava escondendo uma arma. Mas não queria chamar a atenção, ou assustar todos, embora já passasse da hora do almoço, havia muita gente ali ainda. Será que ele ia assaltar?! Mas tinha seguranças ali...
Olhou para o filho e falou firme. – Quando eu mandar vá para baixo da mesa! Entendeu?! – Viu o rapaz o olhar estranhando, ele abriu a boca para retrucar. Mas Camus não deixou. – Não me desobedeça, é para o seu bem! Quando eu mandar vá para baixo da mesa.
O ruivo observou ao redor e então percebeu ele se aproximar da mesa de Milo e um frio lhe correu a espinha. Mas teria de ir com calma, a vida das pessoas estava em risco.
O homem que Camus observava, chamava-se Julian, ele estava ali procurando por Milo Bartinik, o homem que tinha arruinado sua vida. Ele ia pagar caro pelo que tinha feito. Não sairia impune.
Julian entrou um tanto perdido no restaurante, tinha ido ao hospital para falar com ele, mas disseram que ele tinha acabado de sair. Viu o carro em que ele estava, e então o seguiu, ficou no carro tomando coragem para entrar, o momento certo. Quando visualizou a mesa de Milo respirou fundo e caminhou com passos lentos até lá.
– Milo?! – Chamou com uma voz firme e o médico loiro ergueu a cabeça. Julian olhou naqueles olhos gentis, pensou em desistir, mas não podia, não agora.
– Sou eu... Mas... Desculpe, não o estou reconhecendo... – O médico respondeu educado. Não sabia quem era e não percebia o perigo que passava. Olhou para o homem que nesse momento tinha uma expressão dura. Tirou do casaco um papel jogando em cima do loiro. O olhar de Milo estava confuso demais, pegou o papel e o abriu lendo. A cada palavra seus olhos se arregalavam mais e sua pele ficava pálida.
– Destruiu minha vida doutor... Destruiu a vida do meu filho... E agora, agora eu vou acabar com a sua. Acha que sabe tudo?! Esta muito confortável na sua vidinha de médico respeitado?! E isso te faz se sentir acima de todos?! Não podia conceder uma cirurgia... Uma apenas, que fosse... Não tínhamos condições... Não temos! Mas isso pra você deve ser nada... Não é mesmo?!
A voz do outro tremia, o desespero e a dor eram claras, mas Milo continuava em silêncio, parecia que o que estava no papel o assustava mais do que a ameaça que estava sendo feita a si. Mas perturbou-se quando o homem puxou a arma de dentro do casaco. Sua mão tremia, não era um homem dado aquele tipo de atitudes, mas estava inconsolável.
No restaurante, as pessoas entraram em desespero e começaram a correr. E se esconder em baixo da mesa. Aquilo deixou Julian ainda mais nervoso. Camus mandou Hyoga para baixo da mesa, mas levantou caminhando devagar entre as pilastras do restaurante até chegar perto de Milo.
– Espere... Espere... Eu não assinei isso... Eu não negaria uma cirurgia... Calma, eu não atendi esse paciente... Mas posso fazer isso! Se me der uma chance, podemos tentar ver o que posso fazer. Por favor, abaixe isso... O senhor pode machucar alguém.
Julian perdeu a paciência. – Agora quer tentar fazer algo?! É isso mesmo!? – perguntou gritando de forma perturbada, tinha desespero na sua voz, nas suas atitudes, sacudia a arma apontada para Milo. – Meu filho não pode mais andar! E o senhor vem com essa?! Não aceito falsas esperanças, sou um homem de pé no chão. Dê adeus a sua carreira, a sua vida.
Falou apontando a arma para o loiro. Milo levantou. – Se me der uma chance... Uma, quem sabe eu não possa ajudar. Eu juro que não neguei a cirurgia... Eu juro que não fui eu, há algum engano senhor. Eu estava afastado nessa data. – Milo ditou com um olhar suplicante. Parecia que tudo ia acabar ali.
Mas não ia, não com Camus Depardieu ali. O ruivo agradeceu que a mesa de Milo fosse no canto, assim foi mais fácil dele agir. Saiu de trás das pilastras, antes que Julian reagisse, colocou a arma na cabeça dele. – Não vai querer deixar seu filho órfão vai?! Por que se não soltar essa arma, eu vou atirar na sua cabeça.
O homem o olhou de lado, viu a frieza do olhar do outro e engoliu seco soltando a arma como Camus falara. Levantou as mãos que logo o ruivo guiou para trás das costas colocando as algemas. O médico estava em choque, mas quando ouviu o barulho das algemas fechando reagiu.
– Não! Não... Não o prenda... Ele precisa se acalmar... – Voltou-se para o homem que queria mata-lo, e falou firme. — Senhor, Julian não é?! – Tinha lido o nome dele no papel. — Olhe, amanhã... Amanhã... Aqui... – Procurou no bolso um cartão e entregou ao homem, me ligue, meu telefone pessoal... Ligue... E eu vou cuidar do seu filho. É uma promessa!
Camus olhou para alguns policias que agora entravam, deviam ter sido acionados por alguém do restaurante. Se identificou e pediu que levassem o homem até a casa dele. O o jovem não queria dar queixa, e ele não tinha ferido ninguém. O homem foi levado, mas Camus olhou para Milo. – E agora senhor Bartinik, acredita em mim?! Ouvi o senhor dizer que não assinou o papel... E agora?! Quero ver esse papel, posso?! Tem certeza que não assinou?!
Milo o olhou sério e entregou o papel, se negava a entender aquilo como coisa de alguém que quisesse mata-lo. – Não... Não me venha com suas invenções... Mas aqui está, e sei que não assinei, não é minha letra, e eu voltei a trabalhar ontem... Não pode ser eu. Estava afastado desde o acidente...
Explicou, o que fez Camus ter mais “certeza” ainda do que afirmava. Pegou o papel e o olhou. – Eu o procuro senhor... Posso levar?! Eu devolvo... – Falou vendo Milo assentir, agradeceu se afastando. Foi ver onde estava o filho.
Huoga estava de pé encostado a porta fumando. Esperava pelo pai. Quando este se aproximou, o olhou sério. Soltou a fumaça falando sarcártico – Ah... Que lindo... Bancando o herói... patético isso investigador.
Camus tomou o cigarro dele jogando no chão e pisando. – Vamos embora! – Ordenou e saiu dali, tendo um irritado Hyoga o seguindo.
O rapaz estava impaciente, não tirava a imagem de Ikki perto do loiro de sua cabeça. – Vou, mas me deixe em casa... Não estou a fim de trabalhar com você! – respondeu ao entrar no carro, mas não teve resposta, o ruivo apenas entrou no veículo e saiu dali.
Dentro do restaurante, Milo estava sendo cuidado pelos amigos. Pandora estava sem palavras, como aquilo poderia acontecer, quem poderia assinar por ele?! Quem faria aquilo?! Suspirou segurando a mão de Milo. – Calma... Tenho certeza que encontraremos o culpado...
Milo a olhou e assentiu. Os quatro ali não tinham mais vontade alguma de comer e acabaram voltando ao hospital.
–oooOooo-
A noite caiu, eram quase seis da noite e Aioria estava chegando em casa. Estacionou o carro e entrou com a mala. Foi recebido pelo mordomo. – Boa noite senhor... Ou quase isso... Como está?! Deixe que cuido dessa mala. Parece tenso...
Aioria sorriu antes de o deixar pegar a mala. – Estou mesmo cansado... E tenso, mas é esse transito... Meu pai?! Onde ele está?!
O mordomo ficou mais sério e então explicou. – Deitado, creio que dormindo. O Senhor Shijima estava aqui hoje, seu pai não está tão bem, anda mancando mais... Hoje então parecia com dor...
Aioria suspirou passando as mãos pelos fios loiros. – Entendo... Ah... Rugonis... Por favor, poderia me levar um chá?! Eu vou tomar banho... Se eu não tiver saído do banheiro...
O outro sorriu. – Não se preocupe, coloco em cima de sua escrivaninha. Claro... Pode deixar. – Falou calmo vendo o outro se afastar e subir as escadas, trabalhava ali há um tempo, gostava de Aioria, o vira crescer, era um pouco mais velho que Aioros, mas trabalhar ali sempre foi algo que lhe fez bem.
Aioria entrou no quarto despindo-se, foi deixando a roupa espalhada por onde passava. Entrou no banheiro quase em seguida, indo diretamente para o chueiro, quente de preferência. Ligou a torneira sentindo a água cair sobre si, o mordomo não tinha visto nada errado, pelo contrário, o médico estava tenso, tinha chagado ali decidido a ter uma conversa com o pai e tinha ciência que isso não seria visto por ele com bons olhos, mas não suportava mais ter aquilo apenas para si.
Na cozinha, o mordomo tinha feito o chá, e ia levar a bandeja para o rapaz quando deparou-se com Aioros. O advogado o olhou calmo, mas inquisidor. – É para o senhor Aioria, ele pediu...
O moreno sorriu e pegou a bandeja. – Eu mesmo levo... Obrigado Rugonis... Me faça um favor... Não nos interrompa, mão importa quem ligue, diga que retornamos mais tarde. – ordenou saindo dali, e seguindo para o quarto do filho. Precisava falar com ele. Entrou no recinto vendo a bagunça e balançou a cabeça negativamente. – Bagunceiro... Não muda.
Colocou a bandeja na cama e foi pegar as roupas do chão. Colocou-as em cima da cadeira. E voltou a sentar na cama, quando ouviu o barulho da porta do box. O filho devia estar saindo do banho. Levantou e seus olhos viram o corpo do mais novo. Aioria estava nu, e tinha a toalha nos cabelos o enxugando. A pele morena, pela qual ainda escorria água, os músculos muito bem definidos tanto nas pernas quanto nos braços. O falo que mesmo adormecido era bem interessante, ou deveria dizer bem dotado.
Abaixou um pouco o rosto prendendo o riso, mas levantou a cabeça quando ouviu a voz do filho. E ele mostrou-se surpreso com aquela invasão. – pai!? Mas o que faz... Onde está o Rugonis?! – Perguntou sem jeito, mas não se cobriu, parecia que não era algo que o perturbava.
Aioros desviou o olhar para os verdes do filho e sorriu. – Eu mesmo trouxe seu chá... Não gostou de me ver?! – perguntou se aproximando do mais novo. – Não foi me ver hoje quando chegou... Não costuma agir assim... – o viou abri a boca para falar, mas o interrompeu. – Deixe-me continuar... Precisamos conversar... tenho algo sério para falar com você.
O mais novo sentiu um peso no estômago. E deu-se conta que estava nu, levou as mãos para frente do membro. – Também quero falar com o senhor, mas não pode ser...
– Não... Não pode... O que tenho para dizer, quero dizer agora. – Aioros falou dando um passo a frente.
Aioria sentiu o rosto queimar. – Então eu tenho que falar primeiro...
Começou a falar, mas Aioros se aproximou mais e segurou seu rosto entre as mãos. Não disse nada, mas a proximidade de seus rostos fazia com que Aioria sentisse a respiração do outro se chocar com a sua, não estava entendendo nada. E sua mente parou quando sentiu os lábios do mais velho encostar nos seus. Arregalou os olhos sem entender e abriu a boca dando involuntariamente passagem a língua do outro.
Estava sendo beijado por ele, por seu pai?! O que fazer?! Como reagir?! Não estava entendendo nada, mas já que estava na chuva ia se molhar. Então sentiu a mão do outro entre seus fios curtos segurando sua nuca, e então como estalo correspondeu ao beijo, a perna do mais velho ficou entre as suas massageando seu falo, que logo mostrou-se vivo, já que ainda estava nu. Não sabia onde aquilo o levaria, mas por agora não queria pensar.
Aioros guiava o beijo, sentia a língua morna do filho, e aquilo fez seu corpo reagir. Era melhor do que podia supor, e sensação de “errado” não veio, pelo contrário, sentia mais vontade dele, de que aquele beijo não acabasse, de ter aquele corpo em seus braços.
Não sabia o que seria quando o beijo acabasse e as palavras tivessem de ser ditas. Mas o empurrou fazendo-o deitar na cama. Ficando sobre ele. Mesmo dentro da calça seu falo reagiu e ambos estremeceram quando se tocaram, mesmo com o tecido atrapalhando.
O que seria desses dois?! Só o destino diria... Mas no momento ambos estavam se entregando aos desejos que sentiam. Nenhum queria pensar... Aquele não era momento para isso. Mas logo se enfrentariam com palavras... embora a cada instante elas parecessem quase desnecessárias. A aceitação parecia algo simples, mas havia mais ali do que o momento, muitas coisas que ainda estavam escondidas em seus corações.
Seria Aioria tudo que Aioros precisava para esquecer o passado?! Seria o pai capaz de afastar Aioria do novo sentimento que descobriu por um certo loiro?! Descobririam isso... Em muito pouco tempo.
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