Entre a cruz e a espada
3 Novos Planos
Notas iniciais
O Mercedes prata parou em frente ao prédio imponente e moderno, todo espelhado, bem no centro da cidade. Ali, ficava o escritório de advocacia Rouva’s Assurrences Law. A porta do carro abriu dando passagem ao dono do local, Aioros, O moreno tinha uma expressão muito séria, carregava uma pasta num dos braços e uma bengala n0 outro que por vezes o auxiliava.
– Bom dia, Senhor Rouvas... Está bem adiantado hoje!
Aioros olhou para o porteiro e respondeu com um meio sorriso. – Bom dia, Bian. O dia h0je está um pouco mais tenso, estava revendo os autos e percebi uma coisa que não sei como não percebi, agora vou ver com a polícia. Por isso vim mais cedo, mas no fim estou bem, ao menos a chuva parou. – Falou divertido, o que fez o outro assentir. – Tenha um bom dia! – Ditou educadamente antes de entrar no prédio, mas em seu caminho até sua sala saudava todos e respondia quando lhe perguntavam algo.
Chegou ao andar onde ficava sua sala e viu o secretário, mas este mostrava-se serio. Aproximou-se dele, que estava distraído, e falou calmo. – Bom dia, Shura! – Sorriu quando este pulou da cadeira, não tinha percebido o chefe chegar. O olhou com certa raiva, mas nada exagerado. – Desculpe... Não tive a intensão de lhe assustar! Mas... Estava muito distraído, isso nunca foi muito comum em você! Pode... Pode me explicar o que está acontecendo?
Shura abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada além de uma saudação. – Bom dia, senhor Rouvas... Eu estou bem, obrigado... Só estava distraído mesmo, procurando uma informação que o senhor tinha me solicitado. Eu já lhe passo as informações que deseja. – Ditou um tanto sem jeito, mas mostrava-se reservado. O moreno era bem calado, explodia fácil, mas era muito educado e bastante discreto.
O moreno ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Foi até a porta de sua sala, a abriu e antes de entrar, porém, virou-se para o secretário. – Ache Milo! Ligue para ele e diga que preciso falar com ele, é urgente. Ah... E quero falar com Griffon quando ele chegar... Diga que venha à minha sala! – Ditou seco, não gostava do advogado. Ele era sempre muito cheio de si, era um excelente advogado, no entanto desconfiava que ele era corrupto. Se deixava levar por quantias altas. Precisava descobrir isso também, mas acreditava não estar longe de saber.
No lado fora Shura suspirou. Revirou os olhos e pegou o telefone, ia deixar um recado para Minos ir falar com o chefe, depois ligaria para Milo. Tornou a olhar para a tela do computador e suspirou, ainda teria que ligar para o detetive, tinha encontrado um, mas algo estava lhe incomodando. Distraiu-se um pouco e quando ouviu a voz da secretária de Griffon, ele saiu de seus devaneios. Avisou sobre Aioros querer falar com Minos assim que ele chegasse, desligando em seguida.
Olhou novamente o computador e anotou um número num pedaço de papel. Pegou o celular e ligou primeiro para Milo. Ao ouvir a voz do loiro, o secretário então falou calmo:
– Como vai, Milo? Estou ligando para lhe dizer que o senhor Rouvas deseja lhe ver, ele disse que é urgente, e pediu que viesse até o escritório.
Milo ouviu e estranhou aquilo, se bem que ao mesmo tempo seria bom, assim já esclareceria as decisões que havia tomado. – Claro! Mas eu não estou na cidade, precisei resolver umas coisas e logo voltarei, então irei direto ao escritório. Obrigado, Shura!
O moreno agradeceu e despediu-se, desligando. Olhou para o pedaço de papel e respirou fundo. Discou o número, mas não percebeu seu próprio telefone tocar. Estava mesmo distraído. Logo ouviu uma voz e fechou os olhos, deixando um sorriso nascer em seus lábios.
– Bom dia! Por favor, gostaria de marcar uma hora com o senhor Bernigni, sou secretário do senhor Aioros Rouvas, advogado do Rouva’s Assurrences Law. Ele poderia vir até aqui falar com ele?! Qual horário ele tem disponível? Posso mandar um carro busca-lo, ou pagar os custos do deslocamento dele até aqui.
O moreno falou educado. Embora apreensivo. Esperava a resposta do seu ouvinte.
– Shura?! É você?!
A pergunta o deixou sem jeito, e ainda mais apreensivo, não achava que ele o reconheceria. Mas não mentiria, afinal, ele logo saberia.
– Sim... Sou sim, como vai Afrodite?! Há quanto tempo...
Afrodite Skarsgard sorriu, ele era sueco. Trabalhava como secretário do detetive Matteu Bernigni, um italiano abusado e mal humorado, mas que era o melhor no que fazia. Afrodite era loiro, os olhos azuis profundos, seu corpo esguio e com curvas lhe conferia um ar elegante e sensual, dono de uma beleza incomum, um tanto andrógena, o que por vezes o levava a ser confundido com uma mulher. Mas isso não o incomodava, não mais, hoje na verdade era seu charme, às vezes podia fazer conta disso, para ajudar seu “chefe” a descobrir algumas coisas.
– Ah, você lembra da minha voz! Faz mesmo tempo, como está?! É bom ouvir você de novo, podíamos sair, conversar um pouco, encurtar um pouco do tempo que não nos vemos! O que acha?! – O sueco tinha alegria na voz, e parecia realmente feliz em falar com o moreno.
Shura engoliu seco, mas respirou fundo antes de falar. – Claro... Mas... Eu vou ver, Dite, sou um homem comprometido... Então as coisas não são tão simples assim. Mas eu preciso saber sobre a reunião com meu chefe! — O moreno tentou ser o mais profissional possível, não queria “confundir” as coisas.
Afrodite estranhou aquele jeito tão inseguro dele. – Comprometido, é?! OU seria preso?! Por que não pode sair para falar nem mesmo com os velhos amigos? Olha... Você mudou muito, para quem gostava de liberdade, e tinha o espírito “livre”, você mudou mesmo! – A voz do sueco denotava decepção, e certa tristeza. – Mas sobre seu chefe, vou marcar um horário e retorno para confirmar. Tenha um bom dia! – Ditou desligando e sentando na cadeira.
O loiro não entendia aquilo, Shura sempre fora uma boa pessoa, divertido, embora discreto, e sério às vezes mal humorado, mas era perfeito a seu ver. E agora parecia apenas uma sombra, com medo de algo ou alguém. Suspirou procurando a agenda do escritório, veria um horário, confirmaria com Bernigni e ligaria para o escritório para ver a disponibilidade.
–oooOoo-
Após aquela ligação, Shura não conseguiu se concentrar, falar com Afrodite o fez lembrar-se de momentos e sonhos que já não tinha ou vivia. Mas ele tentou concentrar-se no trabalho, precisava, um erro e poderia causar muitos problemas. Já passava das onze da manhã quando um loiro de porte elegante e olhar frio e cruel se aproximou de sua mesa.
– Então seu chefe quer falar comigo é?! O que ele quer?!
A frase em tom sarcástico veio de Minos D’Griffon, o homem era advogado daquele escritório desde a época que o pai de Aioros era o presidente. Mas desde que o mais jovem assumiu, ele não gostou, batia de frente, e como era um grande amigo do senhor Rouvas, ele lhe era “fiel”. Tudo que saísse do esperado, ele passava para o mais velho. Além disso, implicava com Aioros e não gostava de sua “gestão”.
Shura o olhou sério, mas respondeu. – Ele apenas disse que deseja falar com o senhor, o motivo terá de discutir com ele!
Minos não gostou do jeito do secretário e o olhou com desprezo. Inclinou-se e falou quando seu rosto estava próximo do de Shura. – Sabe... Eu poderia quebrar essa sua soberba e te ensinar a me obedecer... Aposto que ia adorar! – Lambeu os lábios e piscou para o moreno com um sorriso desdenhoso e malvado.
O secretário abriu a boca para responder, mas o outro ergueu um dedo e balançou a cabeça negativamente. Se afastou, sorriu para o moreno e, mesmo sem permissão, entrou na sala de Aioros. Este último estava sentado olhando as janelas de vidro a suas costas. – Queria me ver?! A que devo a honra de você ter solicitado minha presença?! Eu tenho trabalho a fazer sabia?! Espero que não seja mais algum probleminha bobo que poderia se resolver facilmente!
Aioros saiu de seus devaneios quando ouviu a voz do mais velho. Virou-se calmamente e o olhava com firmeza. Não era homem de se intimidar facilmente. – Bom dia, Minos. Mandei chama-lo para lhe fazer uma pergunta! É você quem me dirá se é fácil ou não resolver.
O mais velho ergueu uma sobrancelha e esperou que ele perguntasse o que queria. Aioros abriu a pasta com os autos do processo de Milo. Folheou e então abriu em uma página e a mostrou ao loiro que leu o que estava escrito. Ele sabia do que se tratava, mas se fez de desentendido. Olhou para o moreno como quem não via problema nenhum.
Aioros respirou fundo e então perguntou: — Me diga: como um advogado tão experiente como o senhor, foi capaz de deixar passar essa informação que acabei de lhe mostrar?! Tem ideia de quão grave isso é? E do quanto isso pode pesar a favor de seu cliente?! – Os olhos do moreno faiscavam, mas o loiro permanecia tranquilo.
Minos estralou os dedos e sorriu de canto. – Não seja tolo, isso aí nem mesmo tem muito fundamento, com certeza o perito se equivocou! Não tem essa possibilidade, Aioros! Entenda, o loiro errou, o máximo que podemos fazer é conseguir uma pena mais leve, e isso já seria uma vitória, e das grandes! Era só isso? Então está respondida sua pergunta! Com licença, tenho mais o que fazer! – Ditou se dirigindo a porta.
Aioros, porém, não estava nem um pouco satisfeito com aquilo. Voltou a falar e dessa vez com clara irritação. – Então você me diz que o perito se equivocou, mas me diga... Como explica o fato dos ferimentos do rapaz não condizerem com a intensidade do acidente? Sorte?! Ora, Minos, não me venha com essa! Estou assumindo o caso, a partir de agora quem vai representar Milo Bartinik, serei eu!
Minos o olhou irado, não gostava de ser “passado” para trás. E muito menos por um moleque que achava que sabia demais. Mesmo porque aquele caso era especial. O loiro se aproximou do moreno e ditou frio. – Não vai assumir nada, o caso é meu e eu afirmo que a informação que consta ali foi um equivoco, não vem ao caso, e não mudará em nada a situação do senhor Bartinik.
– Isso é que vamos ver! Está dito, Minos, esse caso agora é meu! Fui claro?! – Ditou num tom que era quase inquestionável. O loiro não gostou nada daquilo, não era bom. Seus olhos azuis mostravam ódio, mas ao mesmo tempo uma frieza que deixava Aioros estressado.
O homem sorriu, mas não de bom grado, precisava fazer algo e logo. – Como quiser... Doutor! – Ditou sarcástico e saiu dali, estava tão enfurecido que ao passar pela mesa de Shura derrubou tudo no chão. Não disse nada, e seguiu seu caminho, entrando no elevador. Dentro da caixa metálica, o loiro deixava sair sua ira, chutou e gritou irado. Precisava se acalmar ou acabaria colocando tudo a perder.
Ao chegar em sua sala, o advogado pegou seu telefone e fez uma ligação. – Precisamos nos ver! Não... Não. Agora não! Mais tarde... Isso mesmo... No lugar de sempre. No mesmo horário também. – Desligou em seguida sem qualquer palavra cordial ou despedidas. Sentou-se e ficou ali pensando no que fazer. Logo um brilho surgiu em seus olhos e um meio sorriso adornou seus lábios. Encostou-se na cadeira, erguendo os braços, levando as mãos para trás da cabeça, a escorando nelas. Parecia bem mais aliviado agora.
–oooOooo-
Alheio a essas discussões a seu respeito, Milo encontrava-se sentado em um banco,embaixo de uma árvore com Kanon sentado a seu lado. O loiro estava distraído, olhava o horizonte sem nada dizer. Seus pensamentos estavam em tudo aquilo, inconscientemente ele tentava lembrar do dia do acidente, mas não tinha muita clareza. Como podia não lembrar?! Isso o incomodava.
Kanon o olhando, percebia como o loiro mais novo estava distante, carinhosamente pegou uma mecha do cabelo cacheado do outro, que insistia em cobrir um pouco o seu rosto e a colocou atrás da orelha. O que tirou Milo de sua distração o fazendo olhar para o mais velho.
– Você é lindo demais! Não entendo o que nos separou, Milo... – O promotor sorriu sensual e tocou o lábio do outro. – Não sente o mesmo?! Eu ainda sinto sua falta, dos seus carinhos e do jeito como acorda... – Ditou o olhando nos olhos, os dois azuis pareciam mergulhar um no outro, mas Milo desviou o olhar rapidamente, sentia o coração acelerado.
Respondeu devagar:
– Olha Kanon... Você sabe que a gente tentou muito, mas... Não dá... Eu não sei bem o que houve, mas acho que a falta de tempo, e o fato de sermos muito... Muito... – As palavras lhe faltavam, e isso o deixava perturbado. – Não sei bem o que dizer, mas sabe bem que sempre fomos muito independentes, quantas vezes eu queria estar com você e tudo que queria era sexo, assim como algumas vezes reclamou que queria calma, e eu queria festa, saia te deixando trabalhando para me “divertir”. Não sei... Não acho que somos o melhor um para o outro, não estou dizendo que não gosto de você, que não foi bom tudo que tivemos, mas... Acabou, Kan... Tenta entender!
O loirinho tentava se fazer entender, sem ser rude, ou mesmo magoá-lo. Embora nem sempre fosse a mais paciente das pessoas.
Kanon suspirou, mas não se deu por vencido, desde o momento que vira Milo olhar diferente para o ruivo, tio do menino, algo dentro de si havia disparado, um gatilho que lhe mostrava que estava prestes a perder a chance de reatar o relacionamento com m rapaz. Por isso, estava agora tentando conversar melhor com ele. – Sei... Mas então... Que tal sair comigo? Um jantar?! Olha, como amigo! Você tá precisando sair um pouco de casa! Vamos lá... Eu não mordo... A não ser queira, claro! – Falou divertido e um tanto sensual.
Milo arregalou os olhos, franzindo o cenho em seguida, levantou do banco afastando-se de Kanon. Ergueu um dedo para reclamar de alguma coisa, mas não o fez. Apenas respondeu o convite do loiro mais velho. – Como amigos! – Depois de responder saiu andando na frente, não dando tempo ao outro de dizer nada. O Advogado sorriu de gostoso embaixo da arvore ainda, seguindo um pouco depois atrás do ex. Estava satisfeito, o primeiro passo já tinha dado.
Os dois voltaram a falar com Isaac e só depois seguiram de volta para a cidade, passava da hora do almoço, e eles tinham sido convidados a almoçar ali, mas não quiseram, comeram apenas umas frutas e depois se foram. Milo estava mais tranquilo, mas um tanto pensativo. Olhava a janela e de certa forma as coisas lhe parecia diferente. O loiro era mais jovem, era pediatra, trabalhava no mesmo hospital de Aioria, sempre foi muito moleque, mas tinha sido promovido a chefe de sua área. Ele era muito profissional, dedicado e competente.
Desde o momento que viu Isaac, o loiro sentia uma necessidade de fazer ainda melhor o seu trabalho, queria ajudar o rapaz, saber que podia fazer algo o deixava menos perturbado e mais voltado a uma espécie de reorganização de si mesmo, de seus planos, agora percebia que dava mais valor a coisas que a pessoas, a momentos... E agora questionava sua vida, suas atitudes, talvez tudo aquilo que tivesse acontecido, fosse apenas para lhe mostrar que chegava a hora de mudar. Sorriu de canto com seus pensamentos e encostando-se melhor na cadeira, acabou dormindo.
Kanon sorriu de canto, Milo devia estar mesmo cansado, nunca o tinha visto tão deprimido, esperava que agora ele pudesse melhorar. Bem, no que dependesse de si, ele ficaria bem, muito bem. Chegaram A cidade, já passava das três da tarde, o promotor deixou o médico em casa, este por sua vez subiu até seu apartamento, tomou um banho e tornou a sair. Queriam falar com ele do escritório de Aioros, precisava ir lá.
–oooOooo-
O telefone tocou e a voz de Shura se fez ouvir na sala, avisando da chegada de Milo e solicitava a permissão para o loiro entrar, o que logo recebeu. Aioros estava terminando de redigir um documento quando a porta abriu e o loiro entrou por ela. O rapaz tinha uma expressão confusa, mas parecia mais leve que quando o vira há alguns dias.
– Boa tarde, Milo, como vai!? Sente-se, precisamos conversar...
O moreno tinha um tom estritamente profissional, mas era bem diferente de Minos que sempre parecia impaciente e cruel. O rapaz sentou-se olhando para o moreno e este sentou-se em seguida. – Aioros... Foi bom ter mandado me chamar, eu quero mesmo falar com vocês! Eu quero fazer um acordo com a família da vitima, eu o vi... E eu vou arcar com o tratamento dele, independente de qualquer coisa, e em relação ao resto acho que posso fazer um serviço comunitário qualquer, sei que podem conseguir isso.
Aioros o olhou sem acreditar. – Milo... Eu entendo que queira ajudar, é médico, pediatra ainda, o rapaz é jovem. Mas não se deixe levar assim, não pode! Estive olhando seu processo e percebi que existem alguns fatos complicados. – Ele ditou dando uma pausa quando conseguiu a atenção do mais jovem. Via o olhar apreensivo do seu cliente. – Milo, nos laudos dos peritos, está claro que o acidente foi grave. De acordo com esses documentos, você estava desacordado há mais tempo que o normal, e que os ferimentos não eram de quem estava no lado do motorista...
Milo o olhou um tanto confuso, mas ao mesmo tempo impaciente. – Aioros, eu não quero levar isso adiante, o que está querendo dizer? Que alguém quer me matar? Ah, por favor, preste atenção, por que uma pessoa perderia tempo comigo? Eu sou apenas mais alguém... Você e Kanon estão trabalhando demais, tudo para vocês agora é uma trama? Estou me sentindo num filme! Essas coisas não existem.
Aioros levantou indignado. Olhava para o loiro e não entendia como ele podia pensar que todo mundo era bom. – Milo, não seja tolo, eu estou falando com base em documentos lógicos, incontundiveis. Milo, você não pensa?! Se havia alguém no carro, onde essa pessoa está?! Como ela saiu do carro? E onde se medicou?! Alguém estava lá e por qual motivo precisava te deixar inconsciente?! Sim, por que o laudo médico diz que você estava desacordado há pelos menos uma hora antes do acidente. Então, Milo, como dirigiu? Seu carro tem piloto automático?! Seu advogado deveria ter falado isso com você!
Milo sentiu certa agonia, não tinha pensado daquele jeito, mas mesmo assim preferiu não levar adiante. – Certo, eu entendi, vou ter mais cuidado com quem eu saio. Agora, por favor, faça o que disse, consiga uma acordo, ofereça o que puder, mas eu não quero mais levar o processo adiante. Ou melhor, eu não quero mais tentar provar minha inocência, só quero mesmo fazer o que tiver sido estabelecido, e ajudar o garoto! E só! Obrigado.
Aioros queria contestar, mas o cliente estava deixando claro o que queria, então não podia fazer muito. Apenas assentiu e juntou os papéis, fechando a pasta. – Como queira! – Ditou apertando a mão de Milo que saiu dali sem dizer mais nada. O moreno levou a mão ao rosto colocando-a sobre a boca, numa expressão de cansaço. Embora Milo não tivesse dado bola, tinha certeza que havia mais do que podiam ver ali. Mas ia ver como faria para descobrir.
–oooOooo-
A noite caíra um tanto quente, diferente do dia anterior que tinha esfriado, aquele dia estava um tanto quente. Passava das seis da noite e a lua estava bela no céu estrelado. Mas não dava para ver ali dentro da academia de Jiu-jitsu. Alguns jovens terminavam seu treinamento e ouviam as orientações do seu Sensei. O homem lhes falava de forma forte e rude, tinha uma expressão dura e mostrava-se um tanto irritado com algo.
– O que acham que estão fazendo?! Estamos chegando à competição mundial e vocês estão parecendo menininhas! Que palhaçada é essa?! Eu não admito perder, me ouviram?! Essa academia tem ganhando títulos há anos, e não serão um bando de maricas que irão mudar isso! Fui claro!?
Os jovens assentiram entre eles, um deles era jovem, de cabelos loiros lisos, com um corte repicado que lhe conferia um ar um tanto mauricinho. Seu corpo era atlético, e ao mesmo tempo elegante. Os olhos azuis eram profundos, mas frios. Escutava tudo e nada ditava. Porém, diferente de muitos ali ele não mostrava medo de seu sensei.
Quando o mais velho terminou de falar e os dispensou, o rapaz foi pegar suas coisas, mas quando passou pelo mestre, sentiu a mão dele o segurar pelo braço. O olhou de lado, sem virar o rosto. Tinha certo desprezo em seu olhar. – Não vou dizer novamente... Saia da vida de Ikki, ou eu mesmo acabo com você!
O jovem sorriu de canto e puxou o braço sem dar qualquer resposta a ele e se afastou, seguindo calmamente ao vestiário. Entrou ali, colocando a mochila sobre um banco que tinha entre os armários, a abriu tirando dela uma toalha e sua roupa. Tomou um banho tranquilamente e quando saiu do chuveiro, se secou , colocando a roupa, uma calça jeans azul, uma camiseta regata branca e uma jaqueta de couro preta, sentou-se para calçar o coturno quando ouviu uma voz firme e mal humorada o chamando, sorriu de canto esperando ver a pessoa.
Logo um homem de cabelos escuros, olhos azuis e um sorriso belíssimo apareceu a sua frente. – Estava brincando de se esconder? Por que não respondeu, Hyoga?! – Perguntou o olhando de um jeito irritado, mas ao mesmo tempo divertido. Diante do silêncio do outro, revirou os olhos. – Olha, estava pensando, que tal a gente jantar fora? Mas vou ter que levar o...
Ele estava falando quando parou ao ouvir o som de passos. Estes firmes e fortes. O moreno revirou os olhos e suspirou. O sensei que há pouco falara com Hyoga chegara ao banheiro. – Você não vai levar Shun a lugar algum, como pode, Ikki? Além de se envolver com um menino mimado, está voltando a ser adolescente agora?! Isso é ridículo! Eu te eduquei, você trabalha, mas ao invés de ser um homem adulto e responsável, não! Você se envolve com um moleque, sai toda noite, chega embriagado e se mete em confusões, estou cheio de livrar sua cara, cheio! Um dia ele vai te envolver em algo sério e eu não vou poder fazer nada.
Hyoga pegou suas coisas e olhou para Ikki com uma expressão séria, saiu do banheiro passando pelo mais velho. O jovem parecia não ligar para nada que diziam. Quando o loiro saiu, Ikki suspirou. – Já chega, pai! Eu já tô cheio de suas reclamações, eu vou dar um jeito nisso! Vou pegar minhas coisas e sair de casa! Acho que já sou adulto suiciente para isso. – O moreno ditou e saiu dali atrás do loiro.
“Sair de casa”, essas palavras fizeram o mais velho estreitar os olhos. Não era de ficar discutindo, não foi atrás do filho, mas sua ira em relação a Hyoga aumentou. Ele saiu dali batendo a porta do vestiário, pegou suas coisas e saiu dali. Saiu da academia e entrou em seu carro, foi para casa. Precisava se acalmar.
–oooOooo-
– Hyoga! Espera! – O moreno chamava indo atrás do loiro. – Escuta! Diminui a velocidade, droga! Olha, hoje eu fui ver aquele apartamento, olha... Eu vou alugar! Vou ter meu lugar e a gente vai poder ficar junto como quiser. – Para... Me ouve! – O mais velho pedia insistente. Estava no carro com o loiro, do lado do passageiro, e o rapaz dirigia muito rápido.
Ikki Amamyia Garuda era filho de Aiacos Garuda e tinha um irmão mais novo, chamado Shun, ambos filhos de uma japonesa. Que infelizmente havia morrido há poucos anos de uma doença nos rins. Ele usava apenas o sobrenome da mãe, já que o do pai estava ligado à sua profissão, ele era treinador de jiu-jitsu, conhecido, e com isso, preferia usar o nome da mãe, assim construiria sua própria imagem profissional. Ele tinha aberto sua própria empresa de material esportivo que estava indo muito bem.
O loiro ainda estava em silêncio, e passou veloz num sinal. Sorriu quando o outro empalideceu e acabou parando o carro depois. – O que foi, Ikki? Com medo?! Eu só estava querendo um pouco de diversão! Seu pai é muito chato! Mas já que disse que vai alugar o apartamento... Bem, eu fico mais calmo! Eu quero muito ter um lugar pra gente se ver, se curtir. – Ditou firme, tirando o cinto de segurança e ficando no colo do namorado, enfiou a mão pelos fios escuros do moreno e o beijou com vontade.
Como os vidros eram escuros, ninguém os viu realmente, e teve sorte de não ter blitz ali. Mordeu o lábio do outro o vendo sangrar. – Isso foi por ter demorado a alugar o apê! Agora vamos, quero sair hoje! Dormir com você! Quero comemorar! – falou abusado e deu partida no carro, não era sorridente, mas era mandão, possessivo e mimado. Voltou a aumentar a velocidade do carro e passou a toda velocidade em frente a um supermercado, e por pouco não bateu em um táxi que estava saindo do estacionamento do local.
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Longe dali, no centro de recuperação, o táxi amarelo acaba de estacionar. De dentro dele, Aldebaran saiu e olhou para Mu, que estava o esperando na varanda. Levantou da cadeira e foi ao encontro do moreno. O gigante estava abrindo a mala do carro para pegar algo ali. O lilás sorriu ao chegar perto dele.
– Oi, Deba... Conseguiu comprar as coisas que pedi? – Mu perguntou calmo e o outro o olhou.
– Sim, comprei tudo. – Ditou pegando as sacolas para levar pra dentro. Mas então ao virar-se, o lilás percebeu um machucado na testa. Tocou levemente e estreitou os olhos.
– O que aconteceu?!
O taxista sorriu — Não foi nada... Só... Um louco que passou correndo e acabei tendo que parar bruscamente, e me machuquei, mas não foi nada demais. – Explicou calmo e foi levando as sacolas para dentro. Levou até a cozinha, ali estava Shaka e Aioria, os dois estavam ajudando o diretor a fazer o café quando o gigante entrou.
Aioria percebeu o machucado. – Ei, o que aconteceu Deba?!
O médico era gentil e preocupava-se com o bem estar de todos que chegavam ali, Aldebaran era um grande amigo, muito solicito e agradável. O fez sentar e pegou um pano, molhou e limpou o pequeno corte. Mu os olhava, e sentou perto de Shaka.
Quando Aioria terminou, o taxista disse que ia embora, mas o lilás levantou e segurou sua mão. – Não, hoje não vai mais! Vai ficar, jantar conosco e dormir por aqui! E não quero ouvir um não! — O fez sentar, Aldebaran mostrou-se sem jeito, o que fez Aioria sorrir gostoso.
Não demorou a jantarem, depois de comer ficaram conversando algo a respeito do tempo que se mostrava louco com aquelas mudanças. As horas se passaram, e como já era tarde, Shaka levantou-se, para ele o dia tinha sido cansativo, tudo era novo ali, principalmente a rotina. – Boa noite, senhores... Eu estou exausto, preciso descansar! Até amanhã!
Mu foi o primeiro a se despedir, depois Aldebaran. Aioria, por sua vez, levantou e se despediu dos dois, ele e Shaka dividiam o mesmo chalé, e ele iria com o monge, também estava cansado. Ao saírem dali, o médico olhou para o monge. – Então, Shaka... Não sente calor com essa roupa?! Talvez uma camisa minha possa lhe servir, o que acha? Vamos, somos homens, não há o que esconder, não é mesmo?! – Falou sorrindo, com um ar jovem, mas ao mesmo tempo sensual.
O loiro o olhou sério. – Não, obrigado! Minhas roupas não são quentes! – Ele era de poucas palavras, não queria se envolver, nem mesmo numa amizade com o médico. Ao chegar ao chalé, os dois entraram, Aioria foi diretamente tomar banho e trocar de roupas, ia fazer um café e ler um pouco. Quando saiu doquarto, viu que Shaka tinha ficado na sala, olhou para si próprio e sorriu, trajava apenas um short azul curto que, além de deixar suas pernas de fora, marcava bem o volume que tinha entre as pernas. Seguiu para a cozinha, fez o café e quando voltou sentou no sofá em frente ao loiro. – Então, Shaka... Por que monge?! Sempre quis isso para você?
O loiro ergueu o rosto e quase engasgou ao ver como Aioria estava. Sentiu o coração disparar e levantou. Não ia responder nada a ele, não queria conversa, mas quando estava se virando para sair, ouviu a pergunta do médico que o deixou irritado e ao mesmo tempo perturbado.
– O que foi?! Eu sinceramente não te entendo, a gente tenta ser gentil e você se retira na maior falta de educação, o que foi?! Até parece que não pode me ver! Por que eu te perturbo tanto?! Ou será que gosta do que vê?
A pergunta veio cheia de curiosidade e um tanto de cinismo e até desejo. Ele estava sério e olhava para o loiro. Tinha um meio sorriso, acabara de perceber que mexia de alguma forma com o monge e aquilo lhe fez rir.
Shaka virou-se para ele e seus olhos se encontraram, ambos estavam perdidos no olhar um do outro. As palavras não fluíam, mas a atmosfera ali era tensa e ao mesmo tempo envolvente. O monge sentia o coração disparado, em apenas dois dias aquele jovem foi capaz de mexer com sua tranquilidade e ainda que inconscientemente trazer de volta lembranças que o loiro fazia questão de esquecer.
As coisas não ficavam mais fáceis para Shaka, ele sentia que a cada instante perdia o controle que passou anos para construir. Mas acima de tudo, o que mais lhe incomodava era não saber como agir diante do jovem médico. Aquela noite, talvez, fosse mais longa do que esperava.
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