Notas iniciais
Olá pessoas, aqui estou com o segundo capitulo. Espero que tenham gostado! Mesmo com tão pouco reviews, estou adorando escrevê-la. Boa leitura!

Um relâmpago cortou o céu clareando a pista a sua frente onde era possível avistar o portão do sítio. Ele sorriu. Agora faltava pouco, logo estaria entrando e descansaria, a tensão de dirigir na chuva o tinha deixado cansado.

Quando chegou ao portão, parou, saiu do carro e empurrou a chancela. Escorou com algo e depois seguiu de volta para o carro, entrou, colocou o carro para dentro e depois repetiu tudo, parando o veiculo, saindo dele, mas desta vez para fechar o portão. Seguiu novamente para ele e dirigiu até a casa.

Mu estava na sala vendo um noticiário, embora estivesse ruim o sinal da tv por conta dos ventos fortes, quando ouviu o barulho do carro, levantou sorrindo, devia ser Aioria, ele tinha dito que iria e cumprira sua palavra. Ele sempre ficava ali um pouco, eles conversavam e comia algo, mas dessa vez pediria que ele fosse direto para o chalé onde estava acostumado a ficar. O diretor tinha deixado comida e coisas para que o médico se servisse lá mesmo. Foi para a varanda vendo o médico entrar na varanda.

– Aioria! Está ensopado, — Ditou sorrindo — Obrigado por ter vindo! Mas quero lhe pedir que vá diretamente ao chalé em que sempre fica, essa chuva está forte, tome um banho e troque de roupa, amanhã conversamos melhor, ah... A propósito... O nosso irmão partiu e agora quem está no lugar dele é um amigo, mas um monge, então... Ele é novo, tenha cuidado de não acordá-lo. Até amanhã!

Aioria o olhou e assentiu, mas fez uma carinha de choro. Ele era muito moleque e carinhoso.

– Entendo... Por que não me ligou Mu? – Falou, mesmo sabendo que não poderia estar presente ai enterro, ou coisa assim. Suspirou — Ah... Tudo bem... Então amanhã conversamos! Boa noite meu amigo! – Se despediu de Mu que retribuiu, e seguiu para o chalé. Entrou calmamente, procurando não fazer barulho.

Quando chegou a porta do chalé, Aioria viu tudo escuro então abriu a porta devagar usando sua chave, ia entrar, mas lembrou de que ia molhar tudo, mas como não viu ninguém, despiu-se entrando em seguida. Andou na ponta dos pés para não acordar o novo monge, entrou no quarto e pegou logo uma toalha e foi para o banheiro.

Ali, o jovem médico entrou no box, abrindo o registro deixando a água cair sobre seu corpo muito bem trabalhado, ele fazia exercício físico, e treinava box, não para competir, mas para manter a forma. Seus braços eram fortes, mas nada exagerado, seu peitoral era um tanto musculoso, mas sem exagero, seu abdômen era invejavelmente perfeito. A barriga sequinha, a bundinha arrebitada e as penas de atleta.

Era um verdadeiro Deus grego, no rosto tinha traços próprios, mas lembrava de muito o pai quando mais jovem, seus fios eram mais claros um pouco, mas seus olhos verdes eram exatamente iguais.

A água escorria por seu corpo, molhando aquele monumento perfeito, Aioria estava bem distraído, não estava mais se importando com a chuva, pelo contrário, agora que estava ali se sentia seguro, e nem se lembrou de ligar para o pai. Cantava algo animado e dançava sorrindo de si mesmo. A água estava quente e o fazia relaxar, seus músculos retesados pelo estresse da profissão e do dia de trabalho, agora relaxavam, fazendo o rapaz sentir-se mais leve.

Após o banho, Aioria pegou a toalha e se enxugou, mas não se vestiu, apenas enrolou-se na mesma indo para a cozinha, queria tomar um café sentado naquela paz e ler o livro que deixará ali, justamente para poder fazer aquilo. Pegou a cafeteira para passar o café quando a luz apagou, ele abriu a boca para reclamar, mas lembrou-se do monge e tapou a boca com a mão, tinha deixado o celular no quarto por isso não tinha como clarear ali. Saiu andando devagar, tateando, inevitavelmente bateu em alguns móveis, mas nada exagerado. Chegou a seu quarto e entrou indo pegar o celular.

No outro quarto, Shaka estava meditando, quando ouviu o barulho da porta, num primeiro momento se inquietou, mas depois lembrou de que Mu lhe avisara sobre o médico que dividiria o chalé consigo. Suspirou, esperava que no mínimo ele fosse silencioso, meditar com barulho não era fácil, e isso deixava o loiro irritado. Tornou a fechar os olhos, mas quando a luz apagou totalmente, ele levantou, devia ser algum curto causado pela chuva. Levantou e foi procurar uma vela, já estava acostumada a pouca luz, no convento não ficavam acordados até tarde.

O loiro abriu a porta e quando saiu do quarto, o que viu fez seu coração disparar, e ele quase gritar. Deu dois passos para trás e só parou por que sentiu à parede o deixando sem ter para onde ir. Ele estava assustado.

Aioria tinha saído do quarto, ainda de toalha, apenas com o celular aceso iluminando seu rosto. Ao ver o monge e perceber que o assustara tentou falar, mas acabou rindo.

– Calma... Olha, não precisa se assustar, me desculpe, é que faltou luz e eu fui buscar algo para clarear.

Ao ouvir a voz dele, o loiro sentiu um frio no estômago. Claro que tinha se assustado, mas isso por que a pessoa ali lhe lembrou de alguém. O monge o olhou novamente, mas agora de cenho franzido falou serio e firme.

– Desculpe... Eu achei que podia ser um ladrão... Alguém que tivesse se aproveitado do escuro para praticar algum malefício. Deve ser o médico, me chamo Shaka, e o senhor?!

Quando o outro lhe falou num tom mais formal e frio, Aioria assumiu certa postura, embora olhando nos olhos dele, lhe ocorrera que não lembrava-se de ter visto olhos mais lindos e mais azuis que aqueles. Perdera-se olhando para o monge, ele parecia uma pintura, tinha um rosto fino, e ao mesmo tempo forte, os fios loiros cumpridos lhe conferiam um ar “divino”.

– Desculpe, não tive essa intenção, me chamo Aioria, e sou médico sim. Então... É um prazer senhor Shaka, bem... Vou procurar uma vela, quer vir comigo?!

Shaka o olhou e só então percebeu que ele estava enrolado numa toalha, negou com a cabeça. E sentiu o rosto corar. Agradeceu por estar escuro e ele não perceber. – Não obrigado! Melhor vestir-se já que tem um mínimo que seja de luz! Eu vou voltar para o quarto e se achar algo, me traga uma vela. Boa noite... Aioria!

O loiro ditou num tom frio e entrou no quarto, Aioria estava surpreso, ele era bem mandão, totalmente diferente do monge anterior. Mas era mais jovem e bonito, não, bonito não, lindo. Aioria acabou por rir e foi atrás de uma vela, só depois colocaria uma roupa.

De volta a segurança de seu quarto, Shaka encostou-se na porta respirando fundo, tentando organizar suas ideias, e o que sentia. Estava sem chão. – Não pode ser... Não pode ser... Ele é muito parecido, muito! Ah meu amor, por um momento achei que tivesse voltado, que tivesse me vindo me ver... Ou me levar! Faz tanto tempo, eu pensei tantas vezes que você ia aparecer, ia me procurar... Mas nada... Nada!

O loiro ditava ao vento de uma forma dolorida, não havia lágrimas, considerava que já havia chorado tudo que tinha para chorar, e agora havia se tornado seco, vazio. Ele se desencostou da porta e tateou até a cama, mas logo um relâmpago cortou o céu e clareou o quarto, fazendo o monge olhar para a janela e suspirar. Nada mais ditou, nem mesmo pensou, fechou os olhos e ficou ali quieto, ouvindo sua respiração e a chuva, concentrando-se em outras coisas que não fossem aqueles pensamentos dolorosos, aquilo com certeza era uma peça que o destino estava lhe pregando, mas não cairia, não mesmo.

Aioria achou a vela e a acendeu, foi até o quarto de Shaka e bateu levemente na porta. – Senhor Shaka... A vela, eu trouxe, posso entrar para deixá-la ai dentro? – Pediu com calma e educação, mas diante do silêncio do outro preferiu não entrar, ele deveria ter dormido. Afastou-se e voltou a cozinha para preparar seu café e comer algo. Não poderia ler, mas ao menos relaxaria, só o fato de estar ali o fazia bem. Seu telefone tocou e arregalou os olhos, deu-se conta que tinha esquecido se de ligar para o pai.

– Oi... Ah... Desculpa pai, Eu sei, esqueci de ligar... Mas foi por que tomei um banho de chuva, e acabei me ocupando em tomar um banho e me trocar para não adoecer, precisava vesti algo para me esquentar. – Explicou, mesmo que de todo não fosse verdade, ainda estava sem roupas. – Como está? Jantou direito? Estou com saudade pai, fico preocupado sabia?!

Aioros ainda não tinha dito nada, ia ralhar com ele, brigar pelo esquecimento, mas ouvir aquelas coisas o deixava feliz. Suspirou e só então respondeu o filho. – Estou bem meu filho, com um pouco de dor, mas nada demais. E você chegou mesmo bem? Não se machucou? Aioria, não minta para mim!

O rapaz sorriu divertido com as perguntas dele. – Pai! Não sou mais um menino sabia? Não sou! Só você não percebe... Trata-me como se eu fosse um garotinho! – O jovem médico ditou mostrando-se frustrado, magoado até.

O que não passou despercebido pelo mais velho, sentiu o coração apertar pelos sentimentos escondidos nas palavras do filho. – Do que está falando Aioria? Me preocupar com você agora é lhe tratar como criança? Que tolice é essa que está dizendo? Me fale filho!

– Nada... Não é nada, nunca vai ser! Eu preciso ir, vou dormir, estou cansado, nos falamos depois! – O mais novo falou e desligou sem dar tempo do outro responder, fechou os olhos apertodos respirando fundo levantando em seguida indo para seu quarto, ainda estava escuro, mas agora levava a vela consigo. Entrou no quarto, foi ao guarda-roupa e pegou uma camisa, mas não a vestiu, abraçou e cheirou fechando os olhos, indo deitar-se assim, abraçado a peça de roupa.

– Você nunca vai me ver... Nunca! – Lágrimas desceram por aquele rosto, mas o cansaço o fez dormir.

–oooOooo-

Aioros não entendeu o filho, uma hora parecia magoado, mas depois pareceu irritado, tinha feito algo?

Não sabia mais o que fazer, já há um tempo que notara a ausência dele, parecia não querer mais estar perto de si, e quando estava, parecia perdido e sem jeito. Precisava ter uma conversa com ele, e o faria, mas não agora, depois... No momento estava ocupado demais com trabalho, e com algo que tomava seus pensamentos, a busca por explicações, coisas que ficaram escuras em seu passado, e agora sentia a necessidade de entender, de esclarecer determinados fatos.

O advogado estava envolvido em seus pensamentos, fazia certo esforço para lembrar-se dos acontecimentos passados, de tentar entender. Mas não conseguia ter muito sucesso. Riu ao lembrar a forma como se conheceram, a expressão abusada do outro quando ele “sem querer” acertou uma flecha na árvore pouco acima de sua cabeça no pátio da escola. Levou a mão ao rosto ao lembrar-se do toque leve das mãos dele. Daquele jeito serio e ao mesmo tempo encantador, meio divino que só ele tinha.

Sentia alegria com suas lembranças, o moreno estava em seu quarto já, e preferiu deitar-se. Ainda ouvia a chuva lá fora e isso o fez adormecer. Precisava levantar cedo. Ainda choveria durante toda a noite, mas fosse o que fosse, aquela chuva apenas trouxera um novo tempo, ou ao menos um novo projeto para Aioros Rouvas, algo que provavelmente não desistiria até realiza-lo.

–oooOooo-

O dia amanheceu frio, mas sem chuva. Estava até agradável, mas não para o loiro que desde cedo estava acordado, seus fios cacheados estavam assanhados, seus olhos azuis tão lindos mostravam-se sem vida e as olheiras eram bem profundas até. Ele olhava o teto deitado no sofá quando ouviu a campainha, mas ficou quieto, preferia ficar só, mas a insistência da mesma o tirou de sua “quietude”. Levantou, indo até a porta atende-la. Ao abri-la, revirou os olhos e tentou fechar a porta, mas o outro a segurou não o permitindo fechar.

– O que faz aqui? Para que veio aqui Kanon?! Eu não já disse que entre nós não existe mais nada?! Não estou te entendendo!

Kanon Mercouri era um homem bonito, loiro, olhos azuis, rosto másculo e corpo de deus grego. Era um homem de personalidade forte, não permitia que os outros passassem por cima de si, e só fazia aquilo que lhe fizesse realmente bem, não precisava ser algo financeiro, lucro para ele era algo das mais diversas definições e dependia do momento.

– Eu vim aqui por que cansei de saber que está trancado nesse apartamento definhando! O que deu em você?! Sempre foi tão forte, sempre lutou por tudo, e agora vai simplesmente abrir mão de sua vida?! Não foi sua culpa, prove isso aos outros e acima de tudo a si próprio. Vá ver o menino, fale com ele, fale com o responsável, conte os fatos, não pode levar a culpa de algo que não fez, você pode ser preso!

Milo o olhou de cara feia, não sentia forças para nada.

– Isso é ridículo Kanon, de onde tirou que os responsáveis pelo menino irão me ouvir?! Sempre serei o culpado, não entende? As coisas aconteceram muito rápido, eu nem tenho nada a perder... Mas ele... Ele está prestes a perder a habilidade andar! Como acha que estou?! Foi minha culpa sim, se eu não tivesse... Se eu não tivesse atravessado aquele sinal, isso não teria acontecido! Agora sai da minha casa! Eu quero ficar só, posso?!

Os olhos de Kanon faiscaram, ele não tinha medo de enfrentar Milo, e muito menos de força-lo a algo.

– Ah é?! É o que vamos ver! – Ditou sorrindo segurando a mão de Milo, o puxando até o banheiro, entrou com ele quase o jogando no box, se molhou, mas o fez tomar um banho, secar-se e colocar uma roupa.

Milo irritado partiu pra cima de Kanon que sendo mais alto o segurou e sorriu divertido. – Não vou deixá-lo se acabar por algo que podemos resolver! Vamos! – Ditou o levando consigo para fora do apartamento. Desceram de elevador, já que o jovem de cabelos cacheados morava no último andar.

Ao chegar a garagem, o loiro mais velho puxou o outro para fora da caixa metálica e seguiram para seu carro, entraram no Camaro vermelho e branco do mais de Kanon e assim que ele deu partida e saiu dali, Milo que estava de braços cruzados perguntou irritado.

– Onde pensa que vai me levar Kanon? Eu não quero ir a lugar algum, só quero paz! Que droga! Que merda! Que porra é essa que eu nem posso cuidar de mim sozinho?! Não tenho direito de ser eu mesmo não?! Huh? – Quanto mais falava mais exaltado ficava.

Kanon por sua vez parecia não levar em consideração nada que ele falasse. Ligou o som e sorrindo ditou calmo.

– Vamos ver o garoto, eu quero que o veja, quero que saiba que as coisas nem sempre são o que parecem! E não vou deixar que se entregue, não mesmo, não disse que vamos voltar, nós não somos mais namorados, mas somos amigos, e eu não vou permitir que se mate devagar.

Ele ditou enquanto dirigia, o que fez Milo ter uma atitude infantil, o rapaz cruzou os braços e bufou como um adolescente emburrado. Dirigiu com certa pressa, mas ao mesmo tempo cuidadoso, e logo saiu da via expressa pegando a estrada.

– Para onde vamos Kanon?! Isso é ridículo! Estamos pegando a estrada por quê? Pensa que por que me conhece pode fazer o que quer? Eu tenho vontade própria.

O outro sorriu e explicou. — O rapaz está em um centro de recuperação, ou algo assim, e nós vamos lá, e vamos agora! E nem diga nada, demorou um pouco, mas eu consegui descobrir isso. Precisamos falar com ele, e entender Milo, está muito sem noção pra mim, e pra justiça!

Kanon era promotor, e tinha uma visão diferente de alguns fatos. Principalmente quando o assunto estava muito mal resolvido como aquele de Milo. Ele puxava conversa com o outro que vez outra respondia, o que fazia o promotor sorrir.

Duas horas depois chegaram ao local que Kanon falara, era bonito ali, até trazia paz e tranquilidade. Ao estacionarem, chamaram a atenção de algumas pessoas que estavam trabalhando ali, todos tinham afazeres. Os dois desceram do carro e seguiram para a casa grande, ali foram recebidos por um homem de estranhos cabelos lilases, um olhar gentil, uma voz calma e muito solicito.

– Bom dia cavalheiros! Me chamo Mu, em que posso lhes ser útil?!

– É um prazer, me chamo Kanon e este é Milo, nós viemos aqui procurar uma pessoa que sofreu um acidente, e nós queremos... Queremos conversar... É possível? – O loiro mais velho perguntou educado. – Ele se chama Isaac Cassel.

Mu os olhou com certa calma e paciência. – Bem, isso é algo que só ele pode decidir, esperem aqui, eu vou falar com ele e logo resolveremos isso, mas peço que respeitem caso ele não queira falar com vocês!

Os dois se olharam e assentiram. O diretor do local saiu, e logo outro carro chegou, deste saiu um ruivo que chamou a atenção de Milo, ele tinha um porte altivo e elegante, e uma expressão de poucos amigos, mostrava-se serio até demais.

O homem seguiu andando até a entrada e ao se aproximar dos dois educadamente os saudou, — Bom dia senhores, com licença! – Os dois se afastaram deixando que o ruivo entrasse. Milo seguiu cada passo do ruivo com os olhos, o que não passou despercebido por Kanon. – Hnn... Fecha a boca Milo... Ou a baba escorre! – Ditou sarcástico e divertido, o que fez o mais jovem bufar novamente, mas dessa vez ficou um tanto rubro.

Um tempo depois o diretor voltou se aproximando dos dois. – Senhores... O rapaz quer lhes falar, mas me pareceu um pouco alterado, seria possível não exagerarem?! Eu penso que ele não está em condições de ter emoções fortes. – O de cabelos lilases ditou gentil, e seus olhos cruzaram ligeiramente com os do advogado o deixando sem jeito. – Por favor, me acompanhem!

Os dois seguiram Mu entrando na casa, mas não ficaram ali, saíram por uma porta lateral que dava para um lindo jardim onde num banco de cimento, pintado de branco, encontrava-se um rapaz, um adolescente no mínimo, ele tinha os fios castanho e olhos azuis. Estava com um faixa sobre o olho, já que também o tinha machucado no acidente. Ele os olhou e suspirou virando um pouco o rosto, nesse instante o ruivo que os dois tinham visto chegar se aproximou dele, o homem os olhava serio, o que fez Milo sentir uma agonia ruim no peito.

– Bom dia Isaac, eu sou Kanon, e este é Milo, o rapaz que bateu no carro em que estava... Nós viemos aqui por que ele deseja muito falar com você! É possível?!

O rapaz ia falar quando o ruivo se pronunciou. – E o que teria a dizer? Acredito que desculpas agora não vão levar a nada, não estou dizendo com isso que não seja válido. – A cada palavra de Camus, Milo sentia-se pior. Não conseguia pensar ou dizer nada, sentia-se mal demais, mas queria ajudar, fazer algo, sentir-se útil. Mas o ruivo continuou. –Isaac é meu sobrinho e como pode ver está ai impossibilitado de andar e por pouco não perdeu a visão do olho esquerdo. Isso... – Ele ia dizer mais algumas coisas, mas foi interrompido pelo rapaz...

– Tio! Já chega! Acho que está na hora do senhor saber o que aconteceu! Esse tempo todo eu me calei, e acho que não valeu a pena. – Ditou olhando nos olhos vermelhos do ruivo, suspirou voltando sua atenção para Milo. – A culpa não é sua, senhor Milo, mas do meu primo Hyoga. O senhor estava certo, nós que ultrapassamos o senhor, eu sei... Sei que no carro o senhor estava com alguém, outra pessoa, eu pude vê-lo, o senhor estava desacordado, mas não estava ao volante. – Ditou e olhou para Camus continuando.

– Foi Hyoga, ele e Ikki quiseram competir, fazer um racha, mas nenhum deles pensou que pudesse acontecer algo, nós passamos várias ruas em velocidade e logo chegamos num rua onde paramos, mas então, como Hyoga tinha perdido, ele quis fazer de novo, e por fim aconteceu, foi tudo muito rápido. Ele ainda não estava em alta velocidade, mas achou que conseguia passar pelo carro do senhor Milo que vinha um pouco mais rápido. Eu falei, e até o Ikki falou, a gente tentou parar o Oga, mas ele não quis mais ouvir. A culpa foi nossa.

Camus abriu a boca, estava sem chão, sem ação. Seu filho causara aquilo tudo e todo tempo acusava uma pessoa inocente. Que palhaçada era aquela?! Olhou para Milo, abriu a boca para dizer algo, mas este levantou a mão se aproximou um pouco mais do jovem, ficando de joelhos a sua frente.

– Não importa Isaac, eu também não estava totalmente certo, eu não sei o que me deu naquele dia, e por isso mesmo eu me sinto perdido e culpado. Obrigado, agora preciso saber quem estava dirigindo e por que eu não estava acordado. Mas mesmo assim, deixe-me ajudá-lo, sabe... Conheço alguns especialistas em olhos e também quero te ajudar no tratamento. O meu carro avançou o sinal e por isso o acidente aconteceu, quero ajudar... Posso?!

O rapaz assentiu e sorriu de canto. Lágrimas desceram, adorava Hyoga, mas ele só o desprezava e fazia loucuras, o tio culpava sempre o namorado do filho, mas na verdade, era ele que aprontava. Via a decepção nos olhos do tio, mas nada podia fazer, estava farto de sempre levar a culpa pelo primo e ele sair como santo.

Camus não soube o que dizer, mas Kanon sentia-se feliz.

– Milo, temos que lembrar o que fez naquele dia, com quem falou e saber o que tinha acontecido com você! E saber quem dirigia seu carro na hora que ultrapassou o sinal.

Nesse momento alguém se aproximou, e sorriu ao ver o loiro ali. – Mas então... O que faz aqui? Não devia estar num consultório agora doutor?! – Falou com certa diversão e se aproximou do paciente. – Oi Isaac, vamos para nossos exercícios? Eu fiz os testes... Você precisa de uma cirurgia, e nós vamos ver como fazemos para realiza-la.

Milo ouviu e ficou surpreso ao vê-lo ali. – Nossa Isaac, você está sendo tratado por um dos melhores especialista em ossos e referencia em fisioterapia. E sobre essa cirurgia Ória... Me fale dela, vou arcar com todos os custos. – O loiro estava disposto a assumir todos os gastos mesmo, mas queria mesmo era ver o menino bem.

Aioria o olhou um tanto serio. – Tem certeza disso? Olha, seria ótimo, quanto mais rápida sair a cirurgia, um tanto melhor! – Ele ditou e Milo assentiu, fazendo o médico sorri satisfeito. – Certo, depois te explico melhor... Agora preciso que nos deixem para nossos exercícios! – Pediu calmo, Milo e Kanon se despediram, enquanto que Camus o olhava serio, mas nada ditou, se afastou o deixando ali com o doutor.

O ruivo foi atrás de Milo, chamou por ele – Senhor Milo, posso lhe falar? – O viu parar e o olhar sério. — Eu entendi que quem causou o acidente não foi o senhor, mas me pareceu algo de caso pensado, e muito estranho, as investigações afirmam que não havia mais ninguém, além do senhor no carro quando a ambulância chegou. Então acho que tem mais coisa do que o senhor imagina. – Viu Milo assentir e continuou. – Sou investigador de polícia, sendo assim... Vou dar uma olhada nesse seu caso, meu sobrinho vai esclarecer isso nos tribunais, não posso admitir...

Parou de falar quando o loiro colocou a mão no ombro dele. – Não! Acho que já chega disso, vou fazer algum trabalho alternativo e arcar com os custos em relação ao rapaz... Não vamos levar isso adiante. Agora... Se eu fosse o senhor, conversaria com seu filho, desculpe... Mas ele podia ter matado o sobrinho. – O loiro ditou e o ruivo franziu o cenho. – Bem, eu vou ficar aqui um pouco, conhecer o lugar, de repente posso ajudar em algo. – Ditou e foi para perto de Kanon, os dois foram andando e olhando o local.

Enquanto Milo e Kanon passeavam conhecendo o centro, Aioria estava fazendo exercícios na perna de Isaac. Olhava para o rapaz que estava em silêncio.

– Parece triste... Aconteceu algo que te deixou mal? Olha, vai fazer seu tratamento, vai poder voltar a andar. Não fica triste... – O médico dizia calmo e carinhoso. Quando sentiu o perfume envolvente de sândalo, era um cheiro que o fazia não pensar muito. Olhou rapidamente para o lado e viu Shaka se aproximar.

O monge olhou o rapaz e sentou-se próximo a ele. – Como vai? Sou o novo monge aqui, me chamo Shaka, como se chama? – Perguntou com suavidade, o que deixou o menino mais calmo, ele o olhou e sorriu de canto. Seus olhos estavam marejados, passavam certa tristeza.

– Me chamo Isaac, seja bem-vindo senhor Shaka. E obrigado por sua gentileza. Eu estou aqui fazendo a fisioterapia, sofri um acidente, mas não pude ficar no hospital, meu pai não tem condições de manter isso, então vim para cá, indicado por ele! – Ditou apontando Aioria. – Mas estou bem, meu tio quis arcar com os custos, mão eu não quis e não quero mais... Minha vida toda foi assim, meu tio sempre nos ajudou com muito carinho, mas meu primo sempre fez questão de se mostrar melhor, eu cansei... Só quero agora um pouco de paz. – Não havia ódio em suas palavras, tristeza, decepção talvez, mas não raiva ou sentimentos de vingança.

Shaka sorriu minimamente para o jovem e assentiu. – Chega um momento em que precisamos mesmo lutar por nós, sozinhos, crescer com isso... Bem, então Isaac, onde está seu pai? E gosta daqui? Logo estará bom não? – A pergunta veio com um misto de preocupação, mas foi Aioria que respondeu.

– Sim, ele vai... No entanto, vamos ter que passar por uma cirurgia, mas dará tudo certo! – A firmeza, a alegria e o sorriso de Aioria contagiavam o menor que sorriu divertido, feliz. O médico estava mais para uma criança grande, era brincalhão, amigo, divertidíssimo, animado. Mas tinha seus momentos de seriedade e tristezas.

O monge levantou, olhou para Isaac, ditando em seguida:

– Bem Isaac, termine seu tratamento... Eu volto depois! Estou apenas conhecendo o local e as pessoas que vivem aqui. É um prazer e espero poder ajudar, pode mandar chamar por mim se quiser conversar. – Saiu sem dizer nada a Aioria, o ignorou quase completamente. Uma vez longe do médico, Shaka olhou para o céu e suspirou. Continuou seu caminho indo ver outras pessoas. Assim ao menos não pensava besteiras. Mas algumas perguntas ocupavam seus pensamentos. – Como Aioria podia parecer tanto com ele? Seriam parentes? Talvez irmãos... Precisava ficar longe, não queria conversa, se aquele louco soubesse de sua existência traria a tona coisas ruins, isso se não quisesse vingança.

Tais pensamentos fizeram Shaka se arrepiar e ao mesmo tempo travar, seu coração disparou, mas ele respirou fundo tentando acalmar-se. Tudo haveria de ter solução, isso era passado, estava se preocupando a toa. Tudo aquilo não passava de coincidência, logo se habituaria a vê-lo e falar com ele sem que ficasse tão perturbado. Ao menos era isso que ele esperava, era nisso que acreditava. Mas seria mesmo isso aconteceria?! Quem poderia dizer... Apenas esperar, o tempo falaria por si.