Entre a Véspera e a Virada
12 O PINGUIM ERRADO
Três dias haviam se passado, e a neve, que antes era um manto branco, melancólico e absoluto, transformou-se naquela lama cinzenta e ingrata que as cidades grandes produzem. Tóquio estava despertando do seu coma de gelo com um mau humor visível: o som das máquinas escavadoras, o barulho do tráfego voltando a rugir pelas ruas e o cheiro de asfalto molhado.
Para Minami, porém, o mundo ainda estava em suspenso. Ela passou as últimas 72 horas em um estado de vigília obsessiva, revisando cada segundo daquela ligação em sua mente, como se pudesse extrair um sobrenome ou um endereço de um suspiro ou de uma risada de Kento.
— "Kento, música, engenharia de som, Lawson, pinguim" — ela recitava como um mantra enquanto amarrava as botas.
Dessa vez, ela não usou o casaco vermelho. Sentia que, se o usasse e ele não estivesse lá, a cor seria um lembrete berrante do seu fracasso. Optou por um sobretudo marrom, discreto. Enfiou as mãos nos bolsos e saiu.
A caminhada até o posto de gasolina desativado levou quarenta minutos, pois ela ainda precisava desviar das montanhas de gelo acumuladas nas calçadas. Quando finalmente avistou o pinguim, sentiu um aperto tão forte no peito que precisou parar por um instante.
Lá estava ele. A estátua de concreto era menor do que ela imaginara, com o chapéu de coco partido ao meio, parecendo um aristocrata que tinha sobrevivido a uma guerra. Não havia ninguém ao redor. Apenas o pinguim, coberto por uma fina camada de fuligem cinza.
— Você viu ele? — ela sussurrou para a estátua, sentindo-se a pessoa mais patética de Setagaya.
Ela esperou. Cinco minutos. Dez. O sol de inverno estava pálido, sem calor. Cada rapaz que passava pela rua com uma jaqueta escura fazia seu coração dar um solavanco, mas nenhum deles tinha o andar que ela imaginava para Kento. Nenhum deles parava. Nenhum deles procurava por um casaco vermelho.
— O Lawson — disse ela para si mesma, endireitando a postura. — Ele trabalha no Lawson.
Havia um Lawson a duzentos metros dali. Ela entrou na loja, e o sino da porta tocou com um plim alegre que contrastava com sua ansiedade. O interior da loja cheirava a oden e a produtos de limpeza.
Ela caminhou pelos corredores fingindo procurar algo, mas seus olhos escaneavam cada funcionário. Havia uma moça no caixa e um senhor repondo as prateleiras de bebidas. Nada de rapazes com cara de estudantes de música.
Ela se aproximou do caixa com um onigiri de atum por puro nervosismo e uma latinha de chá preto com limão.
— Com licença — exprimiu ela, a voz saindo mais trêmula do que pretendia. — Eu estou procurando por um funcionário que trabalha aqui no turno da noite... o nome dele é Kento.
A moça do caixa, que parecia estar operando com 10% de bateria social, piscou devagar.
— Kento? Aqui não tem nenhum Kento.
Minami sentiu o chão balançar levemente.
— Tem certeza? Ele disse que era no turno da noite. Estudante universitário, alto, talvez... — Ela parou. Ela não sabia a altura dele. — Ele trabalha com áudio.
— Moça, o turno da noite aqui é feito pelo Sato-san e pelo Tanaka-kun. E o Tanaka-kun está de férias há dois dias — a funcionária respondeu, bipando o onigiri com uma eficiência robótica. — Talvez seja no Lawson da rua de trás? Ou no da estação? Tem quatro nessa área. Também tivemos funcionários extras de outras redes que cobriram turnos, mas não me recordo do nome de nenhum deles.
Minami pagou, pegou o recibo e saiu para o frio, sentindo o leve calor do chá morno em sua palma através da lata.
— Quatro — murmurou ela. — Ótimo.
Ela foi ao segundo. Depois ao terceiro. No terceiro, um rapaz chamado Kento realmente trabalhava lá, mas quando Minami o viu de longe, percebeu que ele tinha pelo menos uns quarenta anos de idade e uma expressão de quem odiava música, som e, possivelmente, a humanidade. Não era ele.
A frustração começou a se transformar em uma raiva ácida. Raiva da neve, raiva do sistema telefônico japonês e, principalmente, raiva de si mesma. Como ela pôde ser tão literária e tão pouco prática? "Vamos nos encontrar no pinguim", ela disse. Que ideia de iniciante! Por que não disse "Meu número é tal"?
Às três da tarde, ela estava de volta ao pinguim de chapéu quebrado. Estava exausta. Seus pés doíam e sua esperança estava se desintegrando como a neve na calçada.
— Ele não veio — pensou ela, sentando-se no mureto baixo ao lado da estátua. — Ou ele veio e eu não estava aqui. Ou ele deu o nome errado. Ou ele nem existe e eu tive um surto psicótico por causa da solidão do Ano Novo.
Ela pegou o celular do bolso. O sinal estava cheio. O mundo digital estava de volta, implacável. Ela abriu o Instagram e digitou “Kento Setagaya”. Apareceram dois mil resultados. Digitou “Kento Música”. Mil e quinhentos. “Kento Lawson” nenhum resultado.
Ela olhou para o pinguim.
— Sabe o que é pior? Eu nem sei se a voz dele combina com o rosto dele. E se ele for um idiota? E se ele tiver uma risada que eu odeie ao vivo?
Ela soltou uma risada amarga, que se transformou em um suspiro longo. O sol estava começando a descer, tingindo a neve suja de um laranja melancólico. Minami se levantou para ir embora, pronta para aceitar que Kento seria apenas um capítulo não escrito no seu livro de frustrações.
Foi quando ela notou algo.
Atrás da base de concreto do pinguim, protegida do vento, havia uma pequena sacola de plástico branca, presa no chão por uma pedra pesada. Dentro da sacola, havia algo escuro.
Minami se ajoelhou na lama, ignorando a sujeira no seu sobretudo marrom. Ela puxou a sacola.
Dentro, havia duas latas de café. Elas estavam geladas, é claro. E preso entre as latas, um pedaço de papel de caderno, arrancado com pressa, com a borda serrilhada.
Ela abriu o papel com os dedos trêmulos. Não havia um número de telefone. Havia algo escrito em uma caligrafia rápida, mas firme:
“Minami, Eu vim. Esperei até às duas da tarde, mas o gerente da loja me ligou dizendo que eu precisava cobrir o turno de alguém que ficou preso na neve em Chiba. Eu não podia perder o emprego, você sabe como é o 'cemitério de sonhos'. Eu não sei seu sobrenome. Não sei seu rosto. Mas sei que você gosta de escrever e odeia macarrão frio. Se você ler isso, por favor, não desista de mim. Eu vou estar aqui de novo amanhã, às sete da noite. Sem falta. Vou trazer um café que não seja uma pedra de gelo. Kento (o do salgadinho de arrependimento)."
Minami apertou o papel contra o peito. O riso que saiu dela dessa vez não foi amargo; foi uma explosão de alívio que ecoou pela rua deserta. Ele tinha vindo. Ele era real. E ele era tão desastrado quanto ela.
Mas, ao virar o papel, ela viu uma última linha escrita no verso, que fez seu sangue gelar novamente:
"P.S: Minami, tem um cara estranho me olhando enquanto eu escrevo isso. Acho que ele quer a pedra. Se você não achar este bilhete... bom, eu vou continuar vindo até você aparecer."
Minami olhou ao redor, mas a rua estava vazia. Ela guardou o bilhete no bolso mais profundo do casaco, como se fosse um tesouro nacional.
Ela tinha um encontro. Amanhã. Às sete. Mas Tóquio era uma cidade grande, e o destino parecia adorar pregar peças neles.
— Amanhã — disse ela para o pinguim, dando um tapinha no chapéu de pedra dele. — Amanhã a gente termina essa conversa.
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