Entre a Véspera e a Virada
13 A RESSONÂNCIA
A transição da neve para a chuva em Tóquio foi como trocar um drama épico por um filme de baixo orçamento e deprimente. O branco imaculado deu lugar a uma lama pastosa, e o céu, antes silencioso, agora despejava uma água gélida e persistente que parecia atravessar até o couro das botas.
Minami estava ensopada. O guarda-chuva transparente que ela comprou no caminho tinha virado do avesso com uma lufada de vento e agora era apenas um esqueleto inútil de plástico na lixeira da esquina.
Era por volta das 18h40. Ela estava a caminho do pinguim, mas a chuva se transformou em um dilúvio bíblico. Seus óculos de descanso estavam embaçados, o cabelo grudava no pescoço e a esperança de parecer minimamente apresentável para o "encontro da vida dela" tinha escorrido pelo bueiro.
— Que se dane — sibilou ela, avistando o letreiro acolhedor de uma livraria-café chamada Kotoba.
Ela entrou, sendo recebida pelo cheiro reconfortante de papel velho, café torrado e chá de gengibre com mel. O lugar estava quase vazio devido ao tempo. Minami tirou o sobretudo bege — agora pesando uns três quilos por causa da água — e caminhou até o fundo, onde ficavam as poltronas de couro desgastadas.
Havia apenas uma pessoa naquela seção. Um rapaz sentado de costas para ela, usando um moletom cinza largo, com fones de ouvido grandes pendurados no pescoço. Ele estava debruçado sobre uma mesa de madeira escura mexendo no notebook, parecendo focado em editar alguma coisa, também havia uma mochila aos seus pés, seus coturnos sujos de lama. A luz de um abajur próximo recortava sua silhueta, mas Minami não lhe deu importância. Para ela, ele era apenas parte da mobília silenciosa daquela tarde cinzenta.
Ela desabou na poltrona logo atrás dele, a uma distância curta, mas sem vê-lo de frente. Ela fechou os olhos. A imagem do pinguim de pedra, sozinho na chuva, queimava atrás de suas pálpebras. Enterrou o rosto nas mãos, sentindo a umidade das palmas.
— Inacreditável, eu pareço um bicho molhado — ela sussurrou, a voz saindo em um fio quebrado, logo mudando para um tom baixo e ríspido de quem está prestes a ter um colapso nervoso. — Primeiro uma nevasca histórica. Agora uma monção. O universo realmente não quer que eu conheça esse cara. Ele deve ser um psicopata. É a única explicação. Eu sou uma idiota!
O rapaz à frente dela não se mexeu, mas as mãos dele, que digitavam precisas algo no teclado, pararam por um segundo.
— Ele nem deve existir — continuou Minami, aumentando um pouco o tom, ignorando a presença dele, a frustração ganhando peso. — "Vamos nos encontrar no pinguim". Que tipo de pessoa marca encontro em uma estátua de posto de gasolina? Eu deveria estar em casa, revisando uma tese sobre gramática arcaica e comendo comida que não tem gosto de "arrependimento".
Desta vez, o rapaz inclinou a cabeça levemente para o lado. Ele não se virou, mas retirou os fones do pescoço e os colocou sobre a mesa.
— E o bilhete... "Kento, o do salgadinho". Que tipo de nome de guerra é esse? E se ele for um esquisito que mora num porão? — Minami soltou um longo suspiro. — E se a voz dele for a única coisa boa e, de perto, ele tiver bafo de café de lata e olhos de peixe morto? Eu vou chegar lá, o pinguim vai estar boiando na enchente e eu vou pegar uma pneumonia só por causa de uma conexão de telefone que nem deveria ter existido.
O rapaz soltou um som. Não foi uma fala. Foi um riso soprado, curto, exatamente na mesma frequência acústica que Minami tinha ouvido durante quatro horas através de um fio de cobre.
Ela parou de respirar. O som não veio de um telefone. Não veio de um alto-falante. Ele veio do ar, ricocheteou nas estantes de livros e atingiu seu peito como uma descarga elétrica. Era aquela frequência. Ela conhecia a vibração de cada nota daquela risada.
Minami congelou. O medo de que, se abrisse os olhos, o som desaparecesse, era paralisante. O ar parou nos seus pulmões. O rapaz girou a cadeira devagar. O som da madeira rangendo pareceu durar uma eternidade.
Quando ela finalmente baixou as mãos, Kento estava ali. Ele não tinha olhos de peixe morto, tinha olhos escuros e cansados, com olheiras de quem também não dormia há dias, um cabelo bonito na altura dos ombros — uma pintinha adorável e despercebida na maçã direita do rosto —, um sorriso de canto que era metade timidez e metade vitória e uma expressão de quem também estava prestes a desmoronar de alívio.
Ele era exatamente como a voz dele sugeria: alguém que parecia estar sempre ouvindo algo que ninguém mais percebia.
— Sabe — disse Kento, e o som "ao vivo" fez os pelos dos braços de Minami se arrepiarem. Era mais profundo, mais rico, sem a estática do telefone. — Eu não moro em um porão. E meu bafo, no momento, é de chá de hortelã, o que é um upgrade em relação ao café de lata.
Minami sentiu o rosto queimar em um tom de vermelho que faria seu antigo casaco parecer pálido. Ela abriu a boca para falar, mas só conseguiu produzir um som de engasgo. Kento inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, ficando a pouco mais de um metro dela.
— E para sua informação, o pinguim não está boiando. Eu passei por lá agora pouco para deixar um novo bilhete dizendo que eu estaria aqui esperando a chuva passar. Só não esperava que você fosse entrar logo na livraria onde eu decidi me esconder.
Minami sentiu as lágrimas subirem, quentes e teimosas, nublando sua visão. Ela soltou um riso curto, um som que era metade soluço, recuperando a voz, embora ela ainda estivesse trêmula.
— Você ouviu tudo o que eu disse, não ouviu?
— Cada palavra — ele sorriu, e dessa vez o riso foi aberto. — "Psicopata", "bafo de café”. Foi uma das melhores críticas construtivas que já recebi.
— Ai, meu Deus — Minami cobriu o rosto com as mãos novamente, mas dessa vez ela estava rindo entre os dedos, as lágrimas insistindo em vir .
— Aliás… Você está atrasada — ele disse, e havia um tremor quase imperceptível em sua voz que o telefone nunca teria captado.
— Eu perdi meu guarda-chuva — ela conseguiu dizer, a voz falhando. — E meu casaco vermelho está no chão da minha sala porque eu achei que você não viria. Eu achei que... que eu tinha imaginado você.
Kento se levantou — ele era mais alto do que ela imaginara — e estendeu a mão para ela. As mãos dele eram grandes, com dedos longos de quem tocava instrumentos. — Minami. Sem sobrenome. Revisora de textos e futura escritora do "Grande Romance Japonês". Eu sou Kento Yamazaki. O cara do som de gatos espirrando.
Minami olhou para a mão dele e depois para o rosto. O pânico da expectativa desapareceu, substituído por uma sensação estranha de familiaridade, como se eles estivessem continuando uma conversa que nunca tinha sido interrompida.
Percebendo que ela ainda estava incrédula, ele se ajoelhou no tapete ao lado da poltrona dela, ficando na altura dos seus olhos. O cheiro dele não era de café de lata; era cítrico amadeirado, era de chuva, papel e algo quente, como o ar que sai de uma padaria no inverno.
— Eu não sabia seu rosto — ele sussurrou estendendo a mão, mas parando a centímetros do braço dela, esperando permissão. — Mas eu reconheceria seu jeito de falar, como se estivesse revisando o próprio destino, em qualquer lugar do mundo.
Minami inclinou o corpo para a frente, diminuindo a distância, e tocou a mão dele. Os dedos de Kento estavam quentes e envolveram os dela com uma firmeza que dizia "eu não vou deixar essa linha cair de novo".
— Meu Deus, você é real — ela balbuciou, a primeira lágrima finalmente caindo.
— Eu sou — ele sorriu, e o brilho nos olhos dele era mais quente que qualquer kotatsu. — E, só para constar, você não parece um bicho molhado. Você parece exatamente a pessoa que eu queria encontrar no final daquela nevasca.
Sem esperar mais, Minami sucumbiu à ânsia que vinha sentindo há três dias e abraçou Kento, apertando-o em seu abraço temendo que tudo aquilo fosse um sonho. Temerosa em acordar e descobrir que ainda estava na noite da virada, em seu pequeno apartamento, e tudo ter sido fruto de sua imaginação.
Mas não era, ele realmente estava ali e ela finalmente revelou que seu sobrenome era Hamabe. Após a troca de calor e saudade inconsciente, Kento se levantou estendendo a mão para ela imitá-lo.
— Que tal a gente ir comer alguma coisa que não tenha um sabor duvidoso? — ele convidou, e Minami riu, lembrando-se do salgadinho e do chocolate.
— Só se você prometer não descrever a acústica da minha mastigação — ela brincou, pegando a bolsa esquecida.
— Não prometo nada — ele piscou, pegando o notebook e a mochila. — Mas posso prometer que, dessa vez, a gente não vai depender de fios de cobre para terminar o assunto.
Enquanto eles caminhavam em direção à saída, a chuva continuava a fustigar as janelas da livraria, mas, pela primeira vez em dias, Minami não se importou com o clima. Ela tinha o resto da noite, e talvez do ano, para descobrir se a realidade era tão boa quanto a frequência daquela voz. A tempestade continuava a castigar Tóquio, mas agora o sinal estava, finalmente, completo. Não havia estática, não havia tempo limite de moedas, e não havia mais ninguém entre a escritora e o músico.
Fale com o autor