Entre a Véspera e a Virada
14 EPÍLOGO: O SOM DO PAPEL
Janeiro de 2027, um ano depois
Era começo da noite em Baltimore, Jubileu e Brendan, agora namorados (depois de muito brigar com Charlie e implicar com o pequeno Oliver nos passeios em grupo, ele finalmente se declarou), passeavam de mãos dadas pelas ruas gélidas da tarde quando, ao passar por um Coffee Book, um livro em especial, de uma nova autora japonesa, chamou sua atenção. Brendan não era muito de ler romances, mas até ele sentiu uma ponta de curiosidade, incentivando Jub a levá-lo.
— Você vai ler comigo? — Ela o entregou o exemplar e ele se encaminhou ao caixa para pagar.
— E eu tenho escolha? — Ele fingiu, ela emburrou e ele sorriu, exibindo as covinhas salientes. — Vou ler sim. Por alguma razão, parece que esse livro fala sobre a gente.
Os olhos de Jubileu brilharam.
— Eu tive a mesma sensação quando toquei nele!
Brendan teve um pensamento rápido, não aguentou e riu.
— Andamos muito com a Charlie, estamos até tendo as mesmas paranoias!
Jubileu deu um tapa leve em seu peito, repreendendo com o olhar, mas suas feições cederam ao riso também. Brendan esticou a mão para ela, que entrelaçou os dedos aos dele imediatamente.
Brendan tinha o típico jeito mau-humorado e sarcástico, mas Jubileu mentiria se dissesse que ele não a deixava muito feliz. Sorrir com ele era muito fácil, estar com ele era gostoso e leve. Bendito seja o dia que o elevador parou com eles dentro, porque agora ela não precisava mais direcionar olhares furtivos para ele, pois estavam juntos.
— Vamos comprar um lanche e começar esse livro.
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Em Seul, sob o sol gostoso de fim de tarde, sentada sobre a grama verdinha às margens do rio Han, Jihyun sentia a brisa soprar seus cabelos e uma sensação de paz a acometia a cada suspiro satisfeito que saia de seus lábios. Havia uma cesta com as sobras do piquenique que tinha feito com o homem que, com muita paciência, sabedoria, tours furtivos, e principalmente oração, mostrou-a um outro lado da vida — ele ganhou sua confiança, consequentemente seu coração.
Bohyun, deitado com a cabeça em seu colo, recebia um carinho preguiçoso nos cabelos, ele também não poderia estar mais em paz com tudo o que Deus o havia prometido. Ele finalmente podia dormir tranquilo e cuidar melhor de sua mãe, porque investiu suas economias num pequeno restaurante prestes a fechar e, para a glória de Deus, agora estava abrindo mais três. Bohyun se tornou dono de uma franquia que cresceria cada dia mais.
Ele pegou a mão livre de Jihyun e beijou com carinho justamente onde a aliança de noivado repousava; se casariam em dois meses — com direito a lua de mel no Japão, mas essa parte era uma surpresa para ela. Ele era o seu Boaz, e ela havia se tornado uma Rute, porque passou a crer também.
Estavam em bonança, mas sabiam que as tempestades iriam chegar em algum momento. Todavia, estavam prontos para enfrentar o que fosse juntos, porque um cordão de três dobras é mais resistente que o de duas.
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A livraria Kotoba estava diferente naquela noite. O cheiro habitual de café e papel velho fora levemente mascarado pelo perfume de lírios brancos e pelo aroma de suco barato servido em copos de papel. Havia uma fila que serpenteava entre as estantes de poesia e se perdia perto da seção de música.
Minami estava sentada atrás de uma pequena mesa de carvalho, com a coluna tão ereta que chegava a doer. Ela usava o casaco vermelho — o original, aquele que ficou jogado no chão do apartamento um ano atrás. À sua frente, uma pilha de livros com capas foscas exibia o título em letras prateadas:
Ōmisoka to Toshikoshi no Aida ni: Yuki no Shūhasū
(Entre a Véspera e a Virada:A Frequência da Neve).
大晦日と年越しの間に: 雪の周波数
Sua mão direita latejava. Ela já havia assinado mais de cinquenta exemplares, mas cada vez que abria a primeira página e via seu nome Hamabe Minami impresso abaixo do título, sentia um pequeno choque elétrico na ponta dos dedos.
— Para quem eu dedico este? — ela perguntou, sem levantar os olhos, focada em manter a caligrafia legível.
— Para alguém que ainda não aprendeu a não comer salgadinhos de procedência duvidosa — respondeu uma voz grave, vinda logo à frente.
Minami parou a caneta no ar. O sorriso que surgiu em seu rosto foi automático, um reflexo condicionado que nenhuma etiqueta de lançamento poderia conter. Ela levantou o olhar e encontrou Kento. Ele não estava na fila, é claro; ele estivera ali o tempo todo, mas agora se aproximou para a "formalidade". Ele usava um suéter escuro e carregava um par de fones de ouvido profissionais pendurados no pescoço.
— Sinto muito, senhor — ela brincou, retomando o movimento da caneta. — Eu não assino livros para pessoas com gostos culinários tão deploráveis.
Kento inclinou-se sobre a mesa, apoiando os braços na madeira. Ao lado dele, havia um pequeno totem com um QR Code que ele mesmo ajudou a instalar. Quem escaneasse o código podia ouvir uma "paisagem sonora" exclusiva enquanto lia o livro: o som do vento em Setagaya, o tilintar das moedas num telefone público e, no final de tudo, o som quase imperceptível de um gato espirrando.
— Os leitores estão adorando o áudio — sussurrou ele, os olhos brilhando. — Ouvi uma menina dizer que chorou na parte do "pinguim" porque o som do telefone caindo parecia "o fim do mundo".
— E foi — Minami murmurou, entregando o livro assinado para a próxima pessoa na fila, mas mantendo o contato visual com Kento por um segundo a mais. — Foi o som do meu mundo quebrando.
O evento seguiu por mais uma hora. Minami ouviu histórias de estranhos que também tiveram linhas cruzadas, de pessoas que se sentiam sozinhas na multidão de Tóquio e de jovens escritores que queriam saber como ela transformara um erro técnico em poesia.
Quando a última pessoa saiu e as luzes da livraria foram parcialmente apagadas, restando apenas o brilho âmbar das lâmpadas de leitura, o silêncio finalmente se instalou. Mas não era um silêncio vazio. Era o silêncio de uma obra concluída.
Kento aproximou-se dela com duas latas de café. Ele as entregou com um sorriso torto. — Estão quentes. Eu verifiquei antes de comprar.
Minami segurou a lata, sentindo o calor penetrar em suas mãos cansadas. — Lembra quando a gente achava que nunca ia saber o rosto um do outro?
— Eu lembro de ter medo de você ser uma inteligência artificial muito avançada — Kento riu, sentando-se no mureto da janela ao lado dela. — Ou uma assombração de Kyoto.
— E eu tinha medo de você ser um cara de quarenta anos que odiava música. — Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Sabe, Kento... às vezes eu ainda olho para o telefone fixo lá em casa e espero ouvir aquele chiado. Só para ter certeza de que tudo isso não foi um sonho causado pela falta de sono daquela virada.
Kento deixou a lata de lado e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto. O casaco vermelho dela roçou no moletom dele, um som suave de tecido contra tecido que ele provavelmente adoraria gravar.
— O chiado era só o rádio — ele disse, suavemente. — O que importa agora é a música.
Ele tirou os fones do pescoço e colocou um dos lados no ouvido de Minami, mantendo o outro para si. Ele apertou o play em um pequeno gravador de bolso.
Não era música comercial. Era o som da livraria vazia, captado minutos antes: o barulho da caneta dela no papel, o riso dela ao falar com um fã, e o som da chuva que começava a bater no vidro lá fora. No meio de tudo, ele havia mixado a voz dela, daquela primeira noite: "Meu nome é Minami".
Minami fechou os olhos, sentindo as lágrimas de gratidão arderem. Ela não era mais apenas uma revisora de textos escondida sob um kotatsu. Ela era a mulher que encontrou sua voz e o homem que soube ouvi-la.
Lá fora, a noite de Tóquio continuava seu ritmo frenético, bilhões de conexões digitais cruzando o ar a cada segundo. Mas ali, entre prateleiras de livros e cafés quentes, duas frequências haviam se encontrado permanentemente. E, pela primeira vez na vida, Minami não precisava revisar nenhuma palavra. A história estava perfeita exatamente como estava escrita.
— Vamos para casa? — Kento perguntou, guardando o gravador.
— Vamos — ela respondeu, fechando o seu próprio exemplar do livro. — Tenho uma ideia para um novo capítulo. Mas esse a gente vai ter que escrever sem telefone.
Eles saíram da livraria de mãos dadas, atravessando a garoa fina de Tóquio. No bolso de Minami, o celular estava no modo silencioso. Ela não precisava mais de sinais distantes. A conexão mais importante da sua vida estava bem ali, caminhando ao seu lado, ao alcance de um toque.
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