Brendan bebeu o último gole de água que havia em sua garrafa. Charlie compartilhou o chá de camomila que tinha na bolsa com Oliver e Jubileu. A vela já tinha queimado uns bons dois centímetros, o que significava duas coisas:

Um: Charlie estava mais encantada.

Dois: Brendan estava calculando mentalmente quantos anos de terapia iria precisar depois daquela noite.

O elevador continuava parado, firme, decidido, teimoso, como se tivesse feito um voto pessoal de que ninguém ali ia brindar o Ano Novo até resolver seus traumas internos, pois já tinha feito demais por eles naquele ano.

Oliver, sentado no chão, batucava no metal, tal qual estivesse treinando para ser baterista

— Você pode parar? — pediu Brendan. — Por favor. Eu imploro! Eu faço qualquer coisa!

— Qualquer coisa? — o garoto abriu um sorriso demoníaco.

— Calma — Brendan levantou as mãos. — Quase qualquer coisa.

Jubileu riu baixo, encostada na parede. A luz quente da vela deixava o rosto dela com um ar de calma que ninguém mais naquela caixa metálica parecia possuir.

— Deixa ele — ela disse, cutucando Brendan. — Ele tá só passando o tempo.

— Existem jeitos menos… intensos — Brendan acentuou. — Pular corda, talvez. Ou meditar. Ou dormir.

— Você quer que eu durma de novo? — Oliver olhou pra ele, indignadíssimo.

— Sim — Brendan respondeu simples.

— Eu não sou galinha, Brendan!

— É o que você pensa…

Charlie suspirou profundamente, no tom exato de uma pessoa que mora numa comunidade de retiro espiritual em Bali.

— Estamos todos inquietos porque estamos lutando contra o que o universo está oferecendo.

— Eu tô lutando contra o calor — Brendan reclamou, se abanando. — E contra você acender uma segunda vela. Aliás, por que você trouxe duas velas pra uma festa?

— Sempre levo uma vela reserva — ela respondeu com total seriedade.

— Claro — Brendan murmurou. — Porque nunca se sabe quando o mundo vai precisar de mais incêndio.

Oliver levantou a mão como se estivesse na escola.

— Se eu fizer uma pergunta difícil, vocês respondem?

— Depende, garoto — Brendan se juntou a eles, sentando no chão. — É sobre matemática? Porque aí já complica.

— Não — disse Oliver. — É sobre a vida.

— Ah, pior — Brendan se mexeu. — Vai, manda.

O menino olhou para os três, com aquele ar sincero que só crianças atentadas têm quando vão estragar a paz mental de adultos.

— Vocês têm medo do quê?

Jubileu respirou fundo.

Charlie abriu um leve sorriso.

Brendan ficou muito imóvel, parecia ter sido atingido por um tranquilizante.

— Eu tenho medo de aspirador de pó — Oliver começou, orgulhoso.

— Isso não é medo da vida — implicou Brendan.

— Claro que é! — o menino rebateu. — Ele faz barulho e suga tudo. Se eu vacilar, ele suga minha alma!

— Então o seu medo é minha sogra — O rapaz murmurou.

— Você tem sogra? — Jubileu o encarou, surpresa.

— Não — Brendan respondeu com o cenho franzido. — Mas se tivesse, tenho certeza que seria igual a um aspirador de pó, no mínimo em espírito.

Charlie colocou a vela no chão e se ajeitou melhor.

— Eu tenho medo de não ouvir Deus quando Ele fala — disse ela, colocando a mão no coração.

Brendan quase tossiu rindo.

— Desculpa — disse ele — mas se Deus estiver falando, Ele precisa de microfone? Porque se for assim, eu também tenho medo de perder esse aviso.

— O problema é que você não escuta nada além da própria irritação — ela disse, com doçura venenosa.

— Você está sempre ouvindo mensagens subliminares do universo, eu não confio em você como critério — Ele rebateu, fazendo cara de desconfiado.

Oliver olhou para Jubileu.

— E você, Jubileu?

— Eu? — ela franziu o cenho.

— Aham. Você parece… — ele procurou a palavra com a língua pra fora — parece alguém que tem medo de coisas importantes.

Jubileu riu com aquele riso sem graça que tenta parecer despreocupado.

— Eu tenho medo de… — Ela hesitou.

As chamas da vela dançaram. Brendan ficou em silêncio, atento ao que ela tinha a dizer.

— …ter uma vida que não significa nada — ela expôs, finalmente. — Só isso.

O elevador ficou silencioso por três batidas de coração.

Aí Brendan, mais uma vez, estragou tudo:

— Parabéns — ele bateu palmas. — Agora todo mundo está deprimido. Até a vela ficou triste, olha o jeito que ela tremeu.

Charlie balançou a cabeça.

— Você é impossível, Brendan.

— Obrigado.

— Não era elogio.

— Nunca é — ele negou.

Charlie uniu as sobrancelhas pela resposta dele; Oliver se aproximou da vela, quase colando o nariz nela.

— Como vocês sabem que ela ficou triste?

— Porque ela soube da minha vida — Brendan declarou.

Jubileu soltou outra risada, aquela risada de canto, curta, que escapava quando ela estava tentando não chamar atenção, mas Brendan percebeu. E percebeu que gostava daquele som. No entanto, antes que pudesse arrumar problemas com isso, o elevador fez um TUM aterrorizante e forte o suficiente para todos perderem meio ano de vida.

— O que foi isso?! — Jubileu segurou a parede e apertou o braço Brendan.

— O universo espirrando — Ele brincou. — Saúde pra ele.

O painel piscou. Uma luz verde acendeu por dois segundos. E apagou de novo.

Oliver ajoelhou-se no chão, dramaticíssimo.

— Adeus, mundo! Fui uma criança boa! Talvez um pouco bagunceira! Mas boa! Meu cachorro vai sentir saudade de mim!

— Por acaso você tem cachorro? — Brendan arqueou uma sobrancelha.

— Não, mas ainda assim, algum cachorro com quem brinquei na rua vai sentir saudade!

Charlie colocou a mão no coração.

— Isso é só mais um sinal.

— De quê? — Brendan perguntou.

— De que precisamos nos conectar.

— Eu não vim aqui fazer amizade, Charlie — ele explicou, exausto. — Eu vim porque tinha comida grátis lá em cima.

— Você veio porque precisava estar aqui.

— Eu precisava estar em qualquer lugar que não fosse esse elevador.

— Não, Brendan — ela sorriu, como quem vê além. — Você tem medo de ficar preso.

— Claro que eu tenho medo de ficar preso! Eu estou preso!

— Não é desse jeito.

— Ah pronto, agora vêm análise psicológica.

Jubileu levantou a mão.

— Gente…

Ninguém ouviu.

Brendan e Charlie começaram a discutir num ritmo tão rápido que parecia briga de hienas em slow motion.

— Você vive fugindo da própria vulnerabilidade.

— Eu vivo fugindo de conversa fiada.

— Você se fecha pra não sentir.

— Eu me fecho porque vocês acendem velas dentro de um elevador!

— Você teme se conectar com as pessoas.

— Eu temo morrer queimado aqui dentro!

Jubileu tentou intervir de novo.

— Ô gente…

Nada. Ela fechou os olhos e gritou a plenos pulmões:

— EI!

Os dois pararam imediatamente.

Oliver arregalou os olhos, impressionado com o poder da voz dela.

Jubileu cruzou os braços, se recompondo.

— Se vocês dois forem brigar, escolham um canto. Só não briguem em cima da minha cabeça.

— Desculpa, Jub — Charlie murmurou, envergonhada.

— Desculpa — Brendan murmurou quase inaudível.

— Não ouvi, Brendan. — Jubileu tentou soar irritada com ele.

— Desculpa — ele repetiu, como quem está confessando um crime.

Oliver levantou o dedo indicador.

— Eu posso contar uma história?

— Pode — Jubileu assentiu.

— Pode não — negou Brendan.

— Ignora ele — Jubileu sorriu.

O garoto respirou fundo, preparou-se como um poeta prestes a recitar Shakespeare.

— Era uma vez um homem que tinha medo de muitas coisas, mas o maior medo dele era ficar sozinho, porque ele achava que ninguém ia gostar dele se mostrasse quem ele realmente era. Mas daí, um dia, ele ficou preso num lugar e tinha uma vela e também tinha pessoas e essas pessoas descobriram que ele era legal mesmo sendo todo… — Oliver fez um gesto circular com a mão, tentando achar a palavra. — Espinhoso.

Brendan piscou lentamente.

— A história é sobre mim? — ele perguntou meio atônito.

— Óbvio — Oliver gesticulou. — Todo mundo aqui percebeu.

— Eu não percebi — retrucou.

— Porque você é adulto — respondeu Oliver de um jeito óbvio. — Adultos são lentos.

Jubileu explodiu em risadas, olhando para o rosto meio pálido do rapaz. Charlie riu junto. O elevador, por um instante, pareceu um lugar menos apertado.

Oliver deu de ombros e continuou sua história.

— E no final, esse cara descobriu que ninguém queria fugir dele, e sim ajudar ele. Porque às vezes as pessoas só precisam de um pouquinho de gentileza para não virar pedra.

Brendan se sentiu um pouco desconcertado, aquela informação era emocional demais para ser administrada dentro de quatro paredes metálicas e sem ventilação.

— Tá — ele disse finalmente. — A história é boa.

Oliver abriu um sorriso triunfante e genuíno.

— Viu? Sabia que ia gostar.

— Eu não disse que gostei. Eu disse que é boa.

— Mesma coisa.

— Não é.

— É sim.

— Não é.

— É sim.

— Eu desisto.

— Ganhei! — Oliver vibrou.

Charlie olhou para todos com aquele olhar de quem enxerga destino em qualquer movimento.

— Sabe, essa história dele… foi um sinal.

— Charlie — Brendan massageou a testa — se você disser “universo” mais uma vez, eu arranco essa vela da sua mão.

— Então é melhor não dizer — ela sorriu, provocando.

A tensão se derreteu. A luz da vela tremulou, criando sombras amareladas. O calor era desconfortável, mas havia algo ali que aquecia mais do que irritava.

Jubileu, encostada no canto, observava os três:

Brendan, irritado mas rindo. Ela percebeu que estava o olhando demais, afinal, ele era um homem muito bonito, apesar do mau-humor crônico.

Oliver era um ótimo garotinho e um exímio contador de histórias improváveis.

Charlie, com seu jeito sereno e plácido, abraçando o caos instaurado como se fosse um amigo íntimo.

Uma onda suave, de alguma coisa que ela não conseguiu intitular, percorreu o peito dela e era uma sensação muito boa.

“Talvez eu nunca mais conheça pessoas como essas de novo depois de hoje.” ela pensou por um instante.

Então, de repente, a campainha do elevador tocou.

Uma voz se fez ouvir, a mesma voz irritante de mais cedo, no interfone.

— Boas Notícias, pessoal! Estamos conseguindo acesso pelo piso mecânico. Deve demorar mais um pouco, mas estamos chegando.

Brendan colocou as mãos no rosto.

— “Mais um pouco”. A frase mais mentirosa da língua americana.

Oliver pulou.

— Eles tão vindo!

— “Em espírito”, talvez — murmurou Brendan.

Jubileu inspirou fundo e voltou a se sentar no chão.

— Pelo visto vai ser uma longa noite, acho.

— Com vocês? — disse Brendan. — Com certeza.

Mas, pela primeira vez desde que o elevador parou, ele disse isso sorrindo.

E, sem que ninguém percebesse exatamente quando começou, algo pequeno e bonito se instalou entre eles; quase imperceptível, tímido e escondido.

Mas estava ali e crescendo.