Entre a Véspera e a Virada
3 A VELA E OLIVER
A vela já estava no meio, derramando cera num círculo torto no chão metálico do elevador. Ela parecia menor, mais frágil, mas resistindo. E talvez fosse só uma vela, mas ali dentro, onde o ar parecia pesado e o tempo não andava, aquela luz fazia diferença.
O relógio marcava 10:49 PM.
O barulho da festa no 25º andar agora parecia um eco distante de uma vida que eles tinham deixado para trás, ainda que involuntariamente.
Jubileu sentia o forro do vestido grudando na pele, mas não era só o calor. Era algo dentro dela se mexendo, se abrindo, como se aquele elevador fosse menos um caixote de ferro e mais um confessionário. Um útero emocional. Um casulo. Um lugar onde a verdade não precisava ser generosa pra ser dita.
Charlie respirava fundo, olhos fechados, parecia estar conversando com o universo por um Bluetooth invisível.
Oliver brincava com a própria sombra no chão, moldando animais estranhos com as mãos.
Brendan estava sentado, de joelhos dobrados, cabeça encostada na parede, expressão cansada demais para continuar sarcástico.
Por alguns minutos, ninguém falou nada.
E foi justamente essa ausência de som que fez aparecer o tipo de barulho que mais amedronta adultos: o barulho das coisas que se tenta não pensar quando a vida está ocupada demais.
Jubileu olhou para as unhas, encarou a porta fechada do elevador e quebrou o silêncio, baixinho:
— Eu nunca imaginei que passaria a Véspera de Ano Novo assim.
Brendan levantou os olhos, mas não fez piada. Isso, por si só, já era estranho.
— Nem eu — ele confessou.
Charlie abriu um sorriso gentil.
— Talvez seja exatamente por isso que estamos aqui.
Brendan suspirou.
— Não começa, Charlie.
— Não tô começando nada — ela respondeu, suave. — Só é estranho, né? A gente passa o ano inteiro correndo, se prometendo coisas, fugindo de outras… e no fim das contas, fica preso num elevador com desconhecidos. E descobre coisas que nunca descobriria se estivesse lá em cima com música alta e luz piscando.
Oliver se aproximou da vela, cochichando com ela como se estivesse viva.
Jubileu olhou para ele.
— O que você tá fazendo, Oliver?
— Perguntando pra vela se ela tem medo de acabar — havia uma expressão muito séria em seu rostinho infantil.
Jubileu sorriu, mas algo puxou um fio delicado dentro dela, semelhante a quem acorda um sentimento esquecido.
Brendan apoiou a cabeça nos braços, a voz saiu abafada.
— E o que a vela te disse?
— Nada ainda — Oliver fez um biquinho adorável. — Acho que ela é tímida.
Charlie inclinou a cabeça.
— Talvez seja porque ela não tem medo. Ela só cumpre o que nasceu pra fazer.
Brendan exalou um som entre um riso e um suspiro.
— Porque até a vela tem chama emocional superior à minha.
Mas havia algo diferente no tom dele, uma suavidade que não estava ali antes. Jubileu o observou. Algo dentro de Brendan parecia cansado de esconder que doía.
— Você tá quieto — ela comentou.
Ele levantou a cabeça, abriu um olho, depois o outro.
— Porque se eu abrir a boca demais eu falo besteira — ele piscou lentamente, olhando-a — E porque, sei lá. — Ele fez um gesto vago. — A gente tá preso aqui faz horas. Tá calor. Tô suando. E… — ele hesitou — acho que tô pensando demais, sabe?
— Pensando no quê? — Oliver perguntou, sincero.
Brendan encarou a criança como se considerasse responder ou não, e algo naquele olhar pequeno, curioso e completamente atento o desarmou.
— Pensando que eu passei o ano inteiro fugindo — ele começou, devagar. — De gente. De trabalho. De mim mesmo. Eu fiquei inventando desculpas pra não aparecer nos lugares, e recentemente na academia. Voltei tarde do trabalho várias vezes pra não ter que conversar com ninguém. Ficava dizendo que era “cansaço”, mas… acho que só tava com medo mesmo.
Jubileu sentiu o estômago apertar não por dó, mas por identificação.
Brendan continuou:
— Eu fico falando que não gosto de gente, mas na real… — ele desviou o olhar, engolindo a saliva um tanto escassa juntando a sensação de entregar um segredo a contragosto — Acho que eu só não sei mais como lidar com as pessoas. E quando não se sabe, é mais fácil fingir que não se quer.
Jubileu respirou fundo, sentindo o próprio peito apertar.
Charlie abriu um sorriso pequeno, empático.
Oliver se aproximou devagarinho e colocou a mão no braço de Brendan, sem pedir permissão.
— Eu gosto de você — ele disse, afagando a pele úmida de seu braço.
Brendan arregalou os olhos, abalado pela confissão do menino.
— É sério?
— Aham. Mesmo você sendo… — Oliver procurou a palavra — azedo às vezes.
Jubileu riu, mas havia lágrimas presas no canto dos olhos.
Brendan engoliu em seco, ele não esperava ouvir isso.
— Valeu, campeão.
Charlie olhou para a vela, a chama parecia contar algo que só ela entendia.
— Eu também tenho medo — disse ela, de repente.
Ninguém esperava isso.
Ela sempre parecia firme e sossegada demais, iluminada demais, equilibrada demais.
— Medo de quê? — perguntou Jubileu, cuidadosa.
Charlie respirou fundo, mexendo no colar de miçangas de florzinhas roxas.
— De não ser suficiente — disse ela, baixinho. — De tentar ajudar as pessoas e… falhar. De ser só uma mulher tentando parecer sábia porque tem medo de que, se não for útil, não seja amada.
O elevador ficou silencioso. Muito silencioso.
Até Brendan, que ela esperou mentalmente que fizesse alguma piada ou comentário sarcástico, ficou quieto.
Oliver, com a sabedoria de quem ainda não aprendeu a ter vergonha do amor, abraçou Charlie com carinho. Simples assim, sem cerimônia, sem dramatização.
Charlie sorriu entre lágrimas, apertando-o no abraço e agradecendo por ele ser um menino tão lindo e bonzinho e que seus pais deviam ser muito orgulhosos em ter um garotinho como ele.
Jubileu sentiu algo quente escorrendo pela bochecha e percebeu ser lágrimas discretas, não de tristeza, de reconhecimento.
Brendan olhou para ela.
— Ei… — chamou, baixando a voz. — Você está chorando?
— Não — ela negou, enxugando o rosto. — É o calor.
— Claro que é — ele murmurou, mas o olhar dele era gentil.
Jubileu respirou fundo, sorriu para ele e se endireitou melhor.
— A verdade é que… — ela iniciou — eu também tenho medo. — Riu, nervosa, unindo as sobrancelhas numa expressão triste. — Medo de passar a vida inteira tentando ser forte pra todo mundo e, no fim, não ter ninguém sendo forte por mim.
Brendan a encarou com um tipo de atenção que ele nunca oferecia a ninguém, completamente devoto a ela.
— Você não precisa ser forte agora — ele disse, a expressão compreensiva em seu rosto.
Foi simples e verdadeiro, foi tão sensível que fez algo dentro dela ceder.
E aí aconteceu uma coisa delicada: a chama da vela tremulou mais forte, como se aprovasse aquela confissão.
O elevador fez um ruído leve.
E Jubileu percebeu algo engraçado: às vezes, tudo o que alguém precisava pra começar a se curar era ficar preso com três desconhecidos, no calor, com cansaço, com fome, sede, com uma vela acesa e com a impossibilidade absoluta de fugir.
A voz do interfone voltou.
— E aí, pessoal? Ainda vivos? Brincadeirinha. Estamos pertinho de conseguir. Só mais alguns minutos. Aguentem firme!
Brendan fechou os olhos novamente e sorriu, cansado, mas genuíno.
— Agora que a gente tá finalmente falando a verdade, o elevador quer soltar a gente.
Oliver segurou a vela nas mãos pequenas.
— Posso fazer uma pergunta?
— Sempre — disse Charlie.
— Vocês acham que quando a gente sair daqui vai ser tudo igual de antes?
Jubileu respondeu antes de pensar:
— Não.
Ela olhou para os outros três e viu ali não mais estranhos, mas pessoas que estranhamente acabaram de se tornar uma parte significativa dela.
— Tem coisa que não volta a ser como era — ela disse, com a voz que tremia só um pouco. — Porque agora a gente sabe. — Ela engoliu. — Sabe que não tá sozinho neste mundo, mesmo quando parece.
Charlie sorriu com os olhos brilhando.
Brendan assentiu devagar, ele não admitiria em voz alta, mas sentia.
Oliver “abraçou” a vela como se fosse um pequeno sol particular.
E, por alguns segundos, antes das portas serem abertas, antes da vida lá fora voltar a engolir tudo, antes da contagem regressiva e do barulho e da multidão, eles ficaram ali.
Quatro almas. Uma chama. Um silêncio cheio de tudo, e o tipo de momento que muda um ano inteiro antes mesmo que o ano comece.
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