Entre a Véspera e a Virada
9 SABOR DUVIDOSO E OUTROS MEDOS
— Então — disse Kento, o som de uma embalagem plástica sendo estraçalhada ecoando na linha. — O plano mestre para o Ano Novo é escrever o "Grande Romance Japonês"? Aquele que vai desbancar o Murakami* e fazer as pessoas pararem de ler no metrô só para suspirar?
Minami revirou os olhos, embora soubesse que ele não podia ver. A intimidade da última meia hora tinha lhe dado licença para ser menos polida.
— Não começa. E pare de fazer barulho de... o que é isso? Parece que você está amassando um esquilo.
— É um pacote de salgadinho — corrigiu ele, mastigando com uma crocância que reverberou no ouvido de Minami como um terremoto nível 4. — Sabor "Edição Limitada de Ano Novo".
— E qual é o sabor? — Minami perguntou, receosa.
— Mochi com Wasabi e... acho que maionese? — Kento fez uma pausa dramática, seguida de um som de engasgo contido. — Meu Deus. Isso é uma ofensa à culinária e à moralidade humana. Tem gosto de arrependimento.
Minami soltou uma risada que escapou pelo nariz, um som nada elegante.
— Bem feito. Quem manda comprar comida de konbini depois da meia-noite? É a hora da xepa gastronômica. Mas voltando ao meu livro... não, não quero escrever algo pretensioso.
— Ah, não? — Ele parecia genuinamente interessado, apesar de continuar mastigando o "sabor arrependimento".
— Não. Eu só queria escrever algo que pagasse meu aluguel — confessou ela. — Sabe qual é o meu maior medo para este ano? Não é a solidão, nem a crise climática. É virar aquelas tias que corrigem a gramática dos sobrinhos no cartão de aniversário e acham que isso é o auge da carreira literária.
— "Querido sobrinho, faltou uma crase no seu 'eu te amo'" — imitou Kento, fazendo uma voz fina e irritante. — É, é um destino cruel.
— E você, Sr. Engenheiro de Som? Qual o grande plano? Ganhar um Grammy? Mixar o próximo hit de J-Pop que vai tocar em todas as lojas de departamento até a gente querer arrancar as orelhas?
— Credo, bata na madeira. — Ouviu-se um som seco: toc-toc. Ele bateu na cabine do telefone, mesmo não sendo supersticioso. — Meu sonho é muito mais humilde. Eu quero, finalmente, gravar o som perfeito de um gato espirrando.
Minami piscou.
— Oi?
— Você não tem noção, Minami. É o Santo Graal da sonoplastia. É um som agudo, fofo e explosivo ao mesmo tempo. Já tentei gravar o gato da minha vizinha, o Sr. Whiskers, mas ele só me olha com desprezo e sai andando. Minha meta profissional para este ano é conseguir esse áudio e usá-lo em um filme de terror, na cena mais tensa, só para ver se alguém percebe.
Minami gargalhou. Dessa vez, foi uma risada alta, contagiante, que a fez jogar a cabeça para trás no tapete da sala.
— Você é ridículo.
— Sou visionário. As pessoas confundem — retrucou ele, divertido. — Mas falando sério... meu medo real? Tenho medo de ficar surdo. Ou pior: tenho medo de ter que trabalhar em escritório. Sabe aqueles lugares com carpete cinza que suga sua força, luz branca que te deixa pálido e onde o som mais emocionante do dia é a impressora emperrando? Eu prefiro limpar o chão dessa loja de conveniência pelo resto da vida a ter que usar terno e crachá.
— Escritórios são cemitérios de sonhos com ar-condicionado — concordou Minami. — Eu trabalhei um mês em um arquivo morto. O silêncio lá não era paz, era opressivo. Era o som de papéis envelhecendo.
— Uau. "O som de papéis envelhecendo". — Kento assobiou. — Viu? A escritora apareceu. Anota essa.
— Não tenho caneta aqui. E se eu sair do kotatsu agora, vou congelar e morrer antes de anotar a frase.
— Certo, certo. Eu memorizo para você. "Papéis envelhecendo". Arquivado na pasta mental.
Houve um momento de pausa confortável, preenchido apenas pelo zumbido da linha.
— Minami? — chamou Kento.
— Hum?
— Você percebeu que, se houvesse um apocalipse zumbi agora, nós seríamos os únicos sobreviventes inúteis?
— Como assim?
— Pense bem. Celulares sem sinal. Internet fora. Estamos nos comunicando por uma tecnologia que parou de ser relevante quando o Tamagotchi ainda era febre. Se os zumbis atacarem, ninguém vai nos avisar. Vamos achar que é só mais gente bêbada na rua gritando "Feliz Ano Novo".
— Eu tenho uma arma — disse Minami, confiante.
— Ah, é? O quê? A tigela de soba fria? Vai jogar a "peruca molhada" na cara deles?
— Ei! Respeite meu soba — ela riu muito. — Tenho uma enciclopédia de Literatura Clássica Japonesa. Capa dura. Volume único. Deve pesar uns quatro quilos. Se eu acertar a cabeça de um zumbi com o Conto de Genji, ele cai. E você? O que tem aí? Salgadinho de wasabi?
— Tenho o telefone — disse ele. — Esse bocal é de plástico duro dos anos 80. É indestrutível. Posso usá-lo como um mangual medieval. E tenho café quente em lata. Posso queimar a língua do zumbi. Zumbis sentem dor na língua?
— Acho que a gente morreria nos primeiros cinco minutos, Kento.
— Com certeza. Mas seriam cinco minutos com uma trilha sonora impecável, porque eu narraria tudo.
Eles riram juntos novamente. A tensão da solidão havia se dissipado, substituída por aquela camaradagem boba que só surge às 2 da manhã, quando o cérebro já está cansado demais para manter filtros sociais.
— Sabe de uma coisa? — disse Minami, brincando com a franja. — Eu estava morrendo de medo desse ano. Achei que ia ser só mais um ciclo de aulas, revisões chatas e rejeições de editoras. Mas... começar o ano discutindo táticas de defesa contra zumbis com um estranho que come salgadinho ruim me parece um bom presságio.
— É o melhor presságio possível — concordou Kento. — Significa que o ano não vai ser chato. Pode ser desastroso, pode ser caótico, mas chato não vai ser.
— Kento?
— Sim?
— Por favor, não coma mais desse salgadinho. O barulho está me dando agonia. Parece que você está mastigando isopor.
— Tudo bem, tudo bem. Vou trocar por um chocolate. — Barulho de papel. — Ah, não...
— O que foi?
— Só tem chocolate sabor "Chá Verde com Flor de Cerejeira e Sal Marinho". Por que o Japão faz isso com a gente, Minami? Por que a gente não pode ter um chocolate sabor chocolate?
— É o castigo por estarmos acordados a essa hora. Aceite seu destino.
— Aceitando... — Ele mordeu e mastigou, logo depois fez um som insatisfeito. — É, tem gosto de sabonete. Quer um pedaço virtual?
— Passo. Vou ficar com meu macarrão frio. Pelo menos ele não tem gosto de banho.
Kento deu risada do outro lado.
— Nossa, Minami, você é cruel.
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