Às três e quarenta da manhã, o chão da sala de Minami já não era mais apenas frio; era uma agressão física às suas vértebras.

Ela tinha desistido da dignidade do kotatsu há uma hora. Agora, estava deitada de barriga para cima no tapete felpudo, as pernas apoiadas na parede num ângulo de noventa graus, o sangue descendo dos pés para a cabeça numa tentativa desesperada de não deixar o cérebro desligar. O telefone, aquele tijolo de plástico bege, estava equilibrado precariamente em seu esterno, subindo e descendo a cada respiração.

A orelha esquerda ardia. Estava vermelha, quente e pulsando, moldada pelo formato do auscultador.

— ...e aí ele me disse que "a melancolia é um recurso estético preguiçoso". Você acredita nisso? — A voz de Minami saiu abafada. — O Professor Kenshi. O homem usa gravata borboleta amarela numa terça-feira chuvosa e vem me falar sobre preguiça estética.

Do outro lado, Kento bocejou. Um som longo, descarado e barulhento que fez o diafragma do telefone estalar.

— Talvez ele só esteja com inveja — disse Kento, com a voz pastosa de quem está lutando contra o sono pesado da madrugada. — Mas, sério, Minami, minha perna esquerda morreu. Acho que não a sinto desde as duas da manhã. Se eu tentar levantar agora, vou cair de cara na estante de revistas de fofoca. Seria uma morte humilhante. "Estudante encontrado soterrado por manchetes sobre divórcios de celebridades".

Minami riu, um som seco e cansado.

— A minha circulação também já era. Estou fazendo aquela posição de ioga de quem desistiu da vida. — Ela moveu os pés. — Sabe o que é pior? A fome voltou. O soba virou uma pasta cinza, então agora estou cogitando lamber o pote de açúcar.

— Não faça isso. O pico de glicose vai te manter acordada até o dia 4 de janeiro. — Kento fez uma pausa. — Sabe, é engraçado. A gente está aqui falando sobre pernas dormentes e professores de gravata borboleta, mas eu nem sei de onde você está falando.

— Como assim? — Minami franziu a testa, olhando para o teto manchado de umidade. — Eu liguei para Kyoto. Para a casa dos meus pais. Imaginei que a linha tivesse cruzado lá na central de Kansai. Você não está em Kyoto?

Houve um silêncio confuso do outro lado.

— Kyoto? Não. Minami, eu estou em Tóquio.

Minami desencostou as pernas da parede e sentou-se de súbito. O sangue desceu rápido demais, deixando-a tonta.

— Tóquio?

— Sim. Setagaya. Como disse antes, estou fazendo extra num konbini perto da... esquece, a neve está tão alta que me impede de ver qualquer ponto de referência no momento.

— Espera. Eu estou em Setagaya! — O coração de Minami deu um salto estranho.

— O quê?

— Eu moro em Setagaya. Perto do parque. — Ela se levantou, caminhando até a janela com o telefone pressionado com força contra o rosto, como se isso pudesse diminuir a distância física. — Eu achei que você fosse uma falha interurbana! Achei que estivesse a quinhentos quilômetros daqui!

— E eu achei que você fosse de algum lugar distante, já que estava tentando ligar para a mãe no "interior". — A voz de Kento ganhou uma energia nova, a sonolência evaporando instantaneamente. — Minami, a gente não está falando através do país. Estamos falando através do bairro.

Aquela informação mudava tudo. Enquanto ele era uma voz sem corpo em Kyoto, Kento era uma fantasia segura. Um confidente anônimo que desapareceria com o nascer do sol. Mas saber que ele estava ali, na mesma cidade, debaixo da mesma nevasca, respirando o mesmo ar gelado de Setagaya tornava tudo perigosamente real.

— Qual konbini? — perguntou ela, a urgência tomando conta da voz. — Setagaya é enorme, Kento. Tem centenas de lojas.

— É uma... espera, deixa eu olhar o nome na nota fiscal, o letreiro lá fora está coberto de neve. — Ouviu-se o barulho dele tateando os bolsos, o farfalhar de papel térmico. — É um Lawson. Aquele que fica perto de um posto de gasolina desativado. Tem um... tem uma estátua estranha de um pinguim na frente do posto.

Minami arregalou os olhos.

— O pinguim com o chapéu quebrado?

— Isso! O chapéu está pela metade!

— Eu sei onde é! — Ela quase gritou. — Kento, isso é a uns vinte e cinco minutos a pé daqui! Eu passo por esse pinguim todo dia indo para a faculdade.

— Vinte e cinco minutos? — Ele riu, um riso de descrença e excitação. — Minami, se eu sair correndo agora e não escorregar no gelo, eu chego aí antes de o seu macarrão terminar de estragar.

— Não corre, seu idiota! Está perigoso. — Ela estava sorrindo. Um sorriso nervoso, largo, bobo. — Mas... amanhã. Quer dizer, hoje. Quando amanhecer. O metrô não vai funcionar, mas dá para ir a pé.

— A gente se encontra — disse ele, decidido. — No pinguim. Ao meio-dia? Quando o sol derreter um pouco desse caos?

— Ao meio-dia. No pinguim. — Minami sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com a temperatura do apartamento. — Como eu vou te reconhecer? Além da voz?

— Eu vou estar com uma jaqueta verde militar que é grande demais para mim. E vou estar segurando um café quente para você. E você?

— Eu... — Minami olhou para si mesma no reflexo do vidro escuro. — Eu tenho um casaco vermelho. Bem vermelho. E provavelmente vou estar com cara de quem não dormiu nada.

— Casaco vermelho. Pinguim. Meio-dia. Fechado.

— Kento, isso é loucura. A chance disso acontecer é...

Zzzzzzt.

O som na linha mudou. Não foi um corte abrupto, foi uma limpeza. A estática grossa, que tinha sido o cenário sonoro da conversa a noite toda — aquele chiado de chuva, aquela textura de "fritura" e ecos distantes — desapareceu num piscar de olhos.

Foi substituída pelo silêncio asséptico, digital e perfeito de uma linha moderna.

— Kento? — Minami chamou. A própria voz soou estranha sem o retorno do eco. Límpida demais.

— ...

Nada. Nem a respiração dele, nem o zumbido da geladeira do mercado, nem o barulho do vento que vazava pela porta da loja. Apenas o tom contínuo, monótono e implacável de linha. Tuuuu... tuuuu... tuuuu...

— Não — Minami sussurrou. — Não, não, não!

Ela bateu no gancho do telefone freneticamente. Uma, duas, três vezes. — Volta! Agora não! Volta para o cruzamento!

A linha tinha sido consertada. O sistema automático da companhia telefônica, em sua eficiência cega, detectou a falha na rede de Setagaya e a corrigiu. O "curto-circuito" mágico que uniu os dois estranhos tinha sido reparado.

Minami largou o fone no gancho e o pegou de novo em menos de um segundo. Suas mãos tremiam tanto que ela errou o primeiro número.

— Calma, Minami. Pensa.

Ela não sabia o número dele. Ele estava num telefone público. Ela não sabia o sobrenome dele. Só "Kento". Estudante de música. Mas ela tinha discado para a casa dela. O "bug" aconteceu quando ela ligou para casa.

Com o coração batendo na garganta, ela discou o número dos pais em Kyoto. A sequência familiar. 0-7-5...

Ela fechou os olhos, apertando o fone contra a orelha com tanta força que doeu. "Por favor, esteja cruzada. Por favor, cai no konbini. Por favor, atende, Kento."

Um toque. Límpido. Cristalino. Sem nenhum chiado. Dois toques.

— Atende, Kento... — ela implorou para o vazio.

Clique.

— Alô? — Uma voz feminina atendeu. Doce, sonolenta e inconfundível.

O mundo de Minami parou.

— Kento? — ela tentou, a voz falhando, numa última esperança irracional.

— Quem? — A voz do outro lado bocejou. — Minami? É você, filha? — O tom mudou de sono para preocupação materna em milissegundos. — Pelos Céus, são quase quatro da manhã! Aconteceu alguma coisa? Por que você não ligou na virada? A gente ficou esperando!

Minami escorregou pela parede até o chão, sentindo o peso do telefone dobrar sua mão. A conexão era perfeita. Ela podia ouvir até o relógio de pêndulo na sala dos pais, a quinhentos quilômetros dali. A magia técnica tinha acabado. A realidade tinha sido restaurada com sucesso.

— Mãe... — Minami disse, sentindo as lágrimas quentes de frustração se acumularem nos olhos.

— Filha, você está chorando? Está tudo bem aí em Tóquio? A neve parou?

Minami olhou para a janela. A neve continuava caindo, indiferente ao drama humano. Ela sabia que ele estava perto. Em algum lugar a vinte e cinco minutos dali, perto de um pinguim de chapéu quebrado. Mas a linha que os unia tinha sido cortada por, ironicamente, estar funcionando bem demais.

— Não, mãe... — Minami soluçou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — A neve não parou. E a linha... a linha finalmente consertou.

Infelizmente.