Entre a Véspera e a Virada
11 O MURO BRANCO
A euforia é uma droga perigosa, especialmente quando misturada com a privação de sono.
Às dez da manhã, Minami já tinha experimentado cinco roupas diferentes. O apartamento era uma zona de guerra têxtil: blusas de lã jogadas sobre o sofá, cachecóis pendurados nas cadeiras e meias ímpares espalhadas pelo chão.
Ela parou em frente ao espelho do corredor. Casaco vermelho. O mesmo vermelho vivo que dissera a ele. Por baixo, três camadas de roupa térmica, porque ela podia estar apaixonada (ou algo próximo disso), mas não estava disposta a morrer de hipotermia.
— Kento. — Ela testou o nome em voz alta, olhando para o próprio reflexo. — Kento... sem sobrenome.
Ela bateu a palma da mão na testa com força.
— Burra! Burra, burra, burra! — resmungou, andando em círculos pela sala. — Quatro horas de conversa. Falamos sobre zumbis, sobre a acústica de salas vazias, sobre o gosto de salgadinho de wasabi... e eu não perguntei o sobrenome dele! Nem o número do celular!
Era o tipo de erro amador que ela criticaria impiedosamente se encontrasse num manuscrito de um calouro de literatura. "Furo de roteiro", ela escreveria na margem com caneta vermelha. Mas a vida real não tinha margens para anotações, e agora ela estava presa num enredo escrito por um autor sádico.
Ela olhou para o relógio. 10h45. Faltava pouco mais de uma hora para o meio-dia. O plano era sair às 11h20, enfrentar a neve por vinte e cinco minutos e chegar ao "Pinguim de Chapéu Quebrado" com antecedência.
Minami foi até a varanda para checar o tempo. Ao afastar a cortina, o coração dela, que batia num ritmo ansioso, parou abruptamente.
O mundo tinha desaparecido.
Às quatro da manhã, a neve era um cenário romântico. Agora, era um monstro. Não se via o prédio da frente. Não se via a lavanderia com o letreiro rosa. Não se via nem a grade da própria varanda. Havia apenas uma parede sólida, branca e turbulenta de vento e gelo fustigando o vidro.
— Não... — sussurrou ela.
Nesse exato momento, o som que todo japonês aprende a temer começou a ecoar. Não vinha do telefone, nem da TV. Vinha da rua, dos alto-falantes de emergência do bairro, distorcidos pelo vendaval.
— “Atenção, moradores de Setagaya. Alerta de nevasca severa. A visibilidade é zero. O transporte público está suspenso. Pedimos encarecidamente que não deixem suas casas. Repito: risco de vida. Não saiam.”
A voz metálica do bombeiro locutor ecoou como uma sentença de prisão.
Minami correu para a televisão e a ligou. Todos os canais mostravam a mesma coisa: mapas do Japão cobertos por manchas brancas e roxas, repórteres encapotados segurando microfones que pareciam picolés de vento. "A nevasca do século", dizia o texto na tela. "Tóquio paralisada."
Ela olhou para o casaco vermelho. Olhou para as botas impermeáveis que tinha deixado na porta.
— São só vinte e cinco minutos — ela disse para a sala vazia. — Eu posso ir me segurando nas paredes.
Ela calçou as botas. Enrolou o cachecol até cobrir o nariz. Abriu a porta do apartamento. O corredor do prédio era aberto para a rua. No instante em que ela girou a maçaneta, o vento empurrou a porta de metal contra o corpo dela com a força de um lutador de sumô. Neve entrou voando no genkan, gelada e cortante como vidro moído.
Minami deu um passo para fora e quase foi derrubada. O frio não era apenas temperatura; era dor. Seus olhos lacrimejaram e congelaram instantaneamente. Ela não conseguia ver um palmo à frente do nariz.
Ela recuou, empurrando a porta com o ombro até conseguir fechá-la com um estrondo. Encostou as costas no metal gelado, a respiração saindo em nuvens brancas, o coração martelando contra as costelas.
Era impossível.
— Ele não vai — pensou ela, tirando o cachecol, sentindo o rosto arder. — Ele não é louco. Ele sabe que é impossível. O konbini deve ter fechado as portas e mandado todo mundo ficar lá dentro.
Ela voltou para a sala, derrotada, e deixou-se cair no sofá, ainda de casaco e botas. O relógio marcou 11h55.
Cinco minutos para o meio-dia.
Minami imaginou o pinguim de cimento. Sozinho, coberto até o pescoço de neve, o chapéu quebrado escondido sob um monte branco. Será que Kento estava lá? Será que ele era mais teimoso (ou mais estúpido) que ela e tinha enfrentado a tempestade? A imagem dele esperando no frio, segurando dois cafés que congelariam em segundos, fez o estômago dela revirar.
Ela olhou para o telefone fixo. Aquele aparelho maldito e bege. Se ela tirasse do gancho agora... se discasse para casa... será que o universo teria piedade?
Arrastou-se até a cozinha. Tirou o fone. Tuuuuuuuuu. Sinal de linha perfeito. Limpo. Sem chiado. Sem magia.
Ela discou o número da casa dos pais, só por via das dúvidas.
— Alô? — A voz da mãe, clara e nítida. Minami desligou sem dizer nada.
— Droga! — Ela bateu a mão na mesa. — Por que o sistema telefônico tem que funcionar direito logo hoje? Eu quero a falha de novo!
O meio-dia chegou. O relógio digital do micro-ondas piscou 12:00. Lá fora, o vento uivava, zombando dela.
Minami tirou o casaco vermelho e o jogou no chão. Sentia-se ridícula. Uma heroína de comédia romântica que foi barrada pela meteorologia. Ela tinha se apaixonado por uma voz, marcado um encontro cego e levado um bolo da Mãe Natureza.
E agora? Ela sabia que ele se chamava Kento. Sabia que ele estudava Música e Engenharia de Som. Sabia que ele "trabalhava" num Lawson perto de um posto com um pinguim. Mas não sabia o sobrenome. Não sabia a universidade. E em Tóquio devia haver milhares de Kentos.
Ela foi até a janela, limpando o vidro embaçado com a manga da blusa térmica.
— Kento — sussurrou ela para a parede branca de neve lá fora. — Você também está xingando o tempo agora? Ou está rindo, dizendo que isso é um sinal de que deveríamos ter ficado falando de zumbis? — Ela pegou o resto da garrafa de suco que tinha aberto na véspera e encheu uma caneca de café. — Feliz Ano Novo, Minami — brindou ela para o pinguim invisível lá fora. — Bem-vinda à realidade.
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(O lado de Kento)
Para um engenheiro de som, o silêncio nunca é apenas a ausência de barulho. É um vácuo técnico e preciso. No momento em que a linha limpou, o mundo de Kento se transformou em um "mudo" digital que doía nos tímpanos.
— Minami? — ele chamou, a voz ecoando contra o vidro frio da cabine do telefone. — Ei, Minami?
Nada.
O ruído reconfortante da respiração dela, o leve chiado que ele já tinha aprendido a ignorar, tudo fora substituído por aquele tom de linha perfeito e estéril. Kento bateu no gancho do telefone público, as moedas de 100 ienes tilintando dentro da máquina como se rissem da cara dele.
Ele sentiu um soco de adrenalina no estômago. Ele não tinha o número dela. Ele nem sabia se o telefone dela era o que estava cruzado ou se era o dele. Ele era um especialista em áudio que acabou de perder a única frequência que importava.
— Droga! — ele rosnou, saindo da loja de conveniência.
A neve o atingiu como um tapa. Ele estava apenas de moletom, a jaqueta militar tinha ficado pendurada no balcão do estoque. Ele tentou voltar para o telefone, mas o funcionário do turno da noite que estava “junto” com ele o olhou com desconfiança. Kento tentou ligar para o próprio celular de um amigo, rezando para que a linha cruzasse de novo. Tentou ligar para a pizzaria. Tentou ligar para qualquer lugar.
A rede estava impecável. O erro foi corrigido.
As horas da manhã foram um pesadelo branco. Kento não dormiu em seu horário de descanso. Ele ficou sentado no banco de plástico da loja, olhando para a parede de neve lá fora. Quando o alerta de emergência soou nos alto-falantes da rua, ele sentiu um desespero real. "Ela vai tentar ir", ele pensou. "Ela parece ser teimosa o suficiente para enfrentar isso."
Às onze da manhã, ele ignorou as ordens do funcionário de que ninguém deveria sair.
— Se eu não for agora, eu vou perder a única coisa real que aconteceu na minha vida em anos — ele falou, enquanto vestia a jaqueta verde.
A caminhada de 20 minutos levou quase uma hora. O vento era um uivo constante que tentava empurrá-lo de volta. Quando finalmente chegou ao pinguim, o gelo já estava cobrindo a estátua. Ele esperou. Esperou até que seus dedos ficassem roxos e ele perdesse a sensibilidade no nariz.
— Ela não vem. Graças a Deus, ela não é tão louca quanto eu — murmurou sorrindo, tremendo violentamente.
Ele puxou do bolso uma folha que arrancou do seu caderno de partituras. A mão mal obedecia, a caligrafia saindo como se fosse de uma criança. Ele escreveu um bilhete, comprou dois cafés (que esfriaram em três minutos) e os escondeu atrás do pinguim numa sacola plástica, usando uma pedra para que o vendaval não levasse sua única esperança embora.
Enquanto se afastava, ele viu um homem idoso, embrulhado em mil casacos, observando-o de longe. O homem parecia interessado na pedra que Kento usou.
— Ei! — Kento gritou, a voz sendo engolida pelo vento. — Não mexe aí! É para uma pessoa!
O velho deu de ombros e seguiu caminho. Kento voltou para o trabalho com o coração na mão, pediu para dobrar o turno extra naquele konbini com a alma em frangalhos, rezando para que ela encontrasse aquele papel molhado.
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