Entre Ternos e Glitter
1 O começo do caos
Toda vez que Tanya — vulgo, minha ex-esposa — tinha algum "imprevisto" de última hora, eu ficava tão irritado que passava uns bons vinte minutos repensando como havíamos conseguido ficar casados por oito anos. Pra falar a verdade quando estavamos no mesmo ambinete chegava a ser absurdo para as outras pessoas que algum dia nos fomos um casal!
As nossas diferenças eram inegáveis. Tanya sempre gostou de festas, de barulho, de dormir tarde, e nunca conseguiu ter uma rotina equilibrada. A energia dela pra caos competia facilemnte com a de minha irmã Alice que sempre foi um ser com bateria inesgotavél. Não era à toa ambas trabalhavam como fotógrafas e amavas cobrir eventos noturnos e desfiles de moda.
A verdade é que ela não era uma má esposa. Muito pelo contrário. Nós tínhamos um ótimo relacionamento, que evoluiu de "amigos coloridos" na faculdade para pais de primeira viagem pouco depois de nos formarmos. Acredito que o nosso amor incondicional pela nossa filha, Lily, ajudou muito a manter as coisas funcionando por tanto tempo.
Eu, por outro lado, sou o extremo oposto. Sou um homem que tem horários cronometrados até para escovar os dentes. Graças a Deus, Lily herdou algumas das minhas manias de organização. Infelizmente, ela não herdou o meu gosto pelo silêncio.
E é exatamente por isso que eu estou aqui agora.
Tirei um pouco de glitter da minha camiseta preta e olhei para o meu relógio de pulso pela décima vez nos últimos cinco minutos. Eu estava espremido em uma fila quilométrica que dava voltas no quarteirão do estádio, cercado por um mar de adolescentes e purpurina, prestes a entrar no show de uma diva.
Exatamente. Uma D-I-V-A. Pelo menos era assim que minha filha de doze anos e a melhor amiga dela, Jéssica, a descreviam a cada respiração.
— Pai, você vai ver! Ela é linda e tão poderosa! — Lily exclamou, pulando na ponta dos pés, com o rosto pintado de glitter rosa e segurando um bastão de luz neon que ameaçava cegar qualquer um num raio de dois metros. — O show vai ser incrível!
Jéssica, ao lado dela, concordou freneticamente, abraçando uma mochila coberta de lantejoulas.
— É a Midnight Neon Tour do pop, Sr. Cullen! A Isabella Swan não apenas canta, ela entrega um espetáculo! O senhor vai amar!
Eu forcei o meu melhor sorriso de pai compreensivo, ignorando o fato de que a sola do meu sapato italiano de couro já estava grudando no asfalto sujo de refrigerante.
— Tenho certeza de que será uma experiência inesquecível, meninas — respondi, tentando manter o tom neutro.
Inesquecível, sem dúvida. O tipo de experiência que exigiria terapia e, muito provavelmente, uma consulta com um otorrinolaringologista na manhã seguinte. Levei a mão discretamente ao bolso da calça de alfaiataria, apenas para checar se o par de protetores auriculares de silicone ainda estava lá. Era o meu único escudo contra o apocalipse sonoro que me aguardava.
Os portões finalmente começaram a abrir, e um grito coletivo e agudo cortou o ar, fazendo meus ouvidos zumbirem antes mesmo de entrarmos.
Suspirei, segurando firme as alças das duas bolsinhas transversais que Lily e Jéssica haviam me obrigado a carregar para "terem os braços livres para dançar". Se os meus sócios do escritório de advocacia me vissem agora, minha reputação de "Homem de Gelo" de Seattle estaria arruinada para sempre.
Mas quando Lily olhou para trás, abrindo um sorriso gigante e radiante para mim no meio da multidão, eu soube que enfrentaria qualquer diva pop do planeta por ela.
— Vamos lá — murmurei para mim mesmo, marchando em direção aos portões. — Quanto tempo isso pode durar? Duas, três horas? Eu sobrevivo. Se eu dissesse que estava preparado para o que aconteceu quando as luzes do estádio se apagaram, estaria mentindo sob juramento.
Quando os telões explodiram em cores e o nome da turnê — Midnight Neon Tour — brilhou em letras garrafais, o som que ecoou do público foi ensurdecedor. Meus protetores auriculares de silicone nunca foram tão úteis.
E então, Isabella Swan surgiu no palco.
Eu esperava uma artista fabricada, confesso. Mas o que vi foi um furacão elegante. O show era um caos perfeitamente coreografado. Ela cantava, dançava com uma precisão assustadora, corria de uma ponta a outra do palco com saltos absurdos e comandava um exército de dançarinos. Era pop, era frenético, mas havia uma elegância inegável na forma como ela dominava aquele espaço. Ela não era apenas um produto; ela era a dona do próprio espetáculo. Chegava ser intimidadora a forma como ela dominava o palco com aquele cabelo louro e glitter pra todo lado. Era tanto brilho que até nos meus cilios tinha um pouco.
Lily e Jéssica gritavam cada letra plenos pulmões, pulando abraçadas. Eu me limitei a cruzar os braços sobre o peito, segurando as bolsinhas transversais infantis nos ombros, e observar.
Após cerca de uma hora e meia de pura explosão sensorial, as luzes baixaram. Os telões assumiram tons de azul escuro e dourado. As batidas eletrônicas deram lugar a um ambiente quase intimista, considerando que estávamos em um estádio lotado.
Isabella apareceu caminhando pela passarela principal, sozinha. Ela usava um vestido esvoaçante e carregava um violão acústico. Sentou-se em um banco alto, a poucos metros da nossa área VIP, e começou a dedilhar acordes lentos.
A multidão silenciou, hipnotizada. Eu tive que admitir, a contragosto: a voz dela era impressionante. Limpa, afinada e carregada de uma emoção real. Pela primeira vez na noite, eu me vi prestando atenção na música, e não apenas calculando quanto tempo faltava para irmos embora.
Ela estava no meio do refrão da balada mais famosa de seu repertório quando um estalo alto e seco cortou o som do violão no microfone.
Ploing!
Uma das cordas de aço havia arrebentado.
Isabella parou de tocar imediatamente, mas não parou de cantar. Como uma profissional, ela deu uma risada leve e charmosa no microfone, fazendo o público rir com ela. Sem perder o compasso da música, ela se levantou do banco e caminhou em direção à beirada do palco, bem no canto onde a equipe técnica estava posicionada... exatamente na nossa frente.
Um dos roadies correu agachado pelas sombras para entregar um violão substituto. Isabella se abaixou levemente na borda do palco para fazer a troca, a menos de cinco metros de onde eu estava encostado na grade com as meninas.
Enquanto o técnico ajustava a correia do novo violão no ombro dela, Isabella passou os olhos casualmente pela primeira fileira da Área VIP.
Foi apenas um segundo. Uma fração de tempo microscópica.
Mas os olhos dela, pesadamente maquiados e brilhantes pela adrenalina do show, pararam nas meninas e consequentemente em mim. Ali estava ela, a maior diva pop do momento, encarando um advogado de trinta e poucos anos, vestindo uma camiseta preta básica, com uma expressão séria e duas bolsas cobertas de glitter penduradas nos ombros.
A respiração dela pareceu falhar por um milésimo de segundo, e eu jurei ter visto os lábios dela se curvarem em um sorriso contido, quase curioso, antes de piscar e desviar o olhar, voltando correndo para o centro do palco como se nada tivesse acontecido.
O coração no meu peito deu um salto irregular e completamente ilógico, olhos dela era azuis, mas por um segundo eu pensei em como eles seriam se fossem de outra cor.
O show tinha acabado de terminar e as luzes da casa se acenderam, revelando o mar de confetes no chão. Edward passava a mão pelo cabelo, tentando organizar a saída.
— Tudo bem, meninas, fiquem juntas. Lily, segura a mão da Jess. Vamos esperar a multidão diminuir um pouco antes de ir para o carro — ele instruiu, a voz firme de quem está acostumado a dar ordens em tribunais, mas com um tom suave de pai.
Lily estava rouca, com o rosto manchado de rímel e purpurina, mas sorrindo de orelha a orelha.
— Pai! Foi o melhor dia da minha vida! Você viu quando ela olhou pra cá?!
Edward riu, balançando a cabeça.
— Vi sim, querida. Ela canta muito bem, tenho que admitir.
Antes que ele pudesse guiá-las para a saída, uma mulher com um crachá "ALL ACCESS" e um rádio comunicador surgiu na frente deles, bloqueando a passagem educadamente. Era Angela.
— Com licença? — Angela sorriu, profissional, mas simpática. — Vocês são o grupo da cadeira C-12?
O instinto de advogado de Edward ativou imediatamente. Ele deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre a mulher e as meninas. A postura dele mudou de "pai relaxado" para "protetor alerta".
— Sim. Algum problema? Estamos saindo agora.
Angela riu levemente, erguendo as mãos em sinal de paz.
— Nenhum problema! Pelo contrário. Eu sou Angela, assistente pessoal da Isabella.
Os olhos das duas meninas se arregalaram tanto que pareciam que iam saltar do rosto.
— A Bella viu a energia de vocês durante o show. Ela adorou. E ela mandou perguntar se vocês gostariam de ir ao backstage dar um "oi".
Houve um segundo de silêncio absoluto. Então, o caos.
— O QUÊ?! — Lily gritou, agarrando o braço do pai com força. — MENTIRA! É MENTIRA!
— É sério? — a amiga, Jess, estava hiperventilando. — A gente vai conhecer a Bella?!
Edward franziu a testa, processando a informação. Parecia bom demais para ser verdade.
— Espera. Isso é algum tipo de pacote VIP que eu vou ter que pagar na saída? Porque eu não comprei o...
— Totalmente cortesia, senhor.
Angela garantiu rápido, achando graça da desconfiança dele.
— A Bella faz isso às vezes com fãs que se destacam. Sem custo nenhum. Só fotos, autógrafos e um abraço.
As meninas começaram a pular, gritando incoerentemente. Edward olhou para a filha, vendo a alegria pura no rosto dela. Ele suspirou, derrotado.
— Tudo bem. Podem ir. Eu espero aqui na saída do setor ou no carro...
— Ah, na verdade...
Angela interrompeu, e essa era a parte crítica. Ela olhou para Edward com um sorriso de desculpas ensaiado.
— Protocolo de segurança da turnê. Menores de idade não podem entrar na área dos camarins sem um responsável legal. Se elas forem, o senhor tem que ir junto. Sem exceções.
Edward travou.
— Eu? Ir ao camarim de uma estrela pop?
— Regras da casa.
Angela disse com a maior naturalidade do mundo.
— Se o senhor não for, infelizmente elas não podem entrar.
Lily virou-se para o pai, os olhos cheios de lágrimas de desespero e esperança. Ela juntou as mãos em prece.
— Pai... PAI! Por favor! É a Isabella Swan! É a minha ídola! Você não pode fazer isso comigo, por favor, pai! Eu arrumo meu quarto por um ano! Eu lavo a louça pra sempre! Por favor, vem com a gente! Não me faz perder isso!
As amigas também olharam para ele com caras de cachorrinho abandonado. Edward olhou para o crachá de Angela, depois para o rosto suplicante da filha. Ele sabia que estava encurralado. Ele jamais negaria isso a ela.
Ele passou a mão no rosto, soltando um suspiro longo.— Ok. Tudo bem. Nós vamos.
Lily soltou um grito agudo e abraçou o pai pela cintura, quase o derrubando.
— EU TE AMO! VOCÊ É O MELHOR PAI DO MUNDO!
Edward sorriu, meio sem graça, e olhou para Angela.
— Guie o caminho, então.
Angela sorriu vitoriosa e apertou o botão do rádio.
— Câmbio. Estou levando o pacote completo. Repito, pacote completo a caminho.
Edward ergueu uma sobrancelha. "Pacote completo?" Mas antes que ele pudesse perguntar, Angela já estava abrindo a barreira de segurança para eles passarem.
Continua...
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