Entre Ternos e Glitter

2 Por trás dos bastidores



*Inspira. Respira. Inspira. Respira.*

Bella repetia esse mantra silenciosamente, os olhos fixos no próprio reflexo no enorme espelho iluminado do seu camarim privado. O zumbido da arena lotada vibrava através das paredes, um lembrete constante do monstro que a aguardava lá fora.

Aos trinta e um anos de idade, ela estava longe de ser uma estreante ingênua. A ansiedade pré-show, no entanto, ainda fazia seu estômago revirar. Fazia quase tres anos que ela vivia naquela rotina insana de turnês mundiais e performances arrebatadoras, mas, no fundo, a mulher sentada naquela cadeira de veludo ainda era a mesma garota tímida que havia se formado com honras em Literatura Inglesa.

Às vezes, Bella piscava e se perguntava como sua vida tinha dado uma guinada tão absurda.

Até hoje, ela não entendia como e por que, entre dezenas de bares em Seattle, aquele empresário tubarão da indústria musical tinha entrado justo naquele. Ela estava apenas curtindo um *happy hour* — e talvez cantando num karaokê regado a margaritas — com os colegas da editora onde trabalhava. Na época, por mais que amasse a dinâmica dos livros e sonhasse em publicar seu próprio romance, ela sentia que talvez fosse se encontrar de verdade nas salas de aula, como professora.

Ledo engano. Depois daquela noite, Aro Volturi simplesmente não a deixou mais em paz. Ele viu nela algo que nem a própria Bella sabia que existia.

A ascensão foi bizarra e meteórica. Logo depois de muita insistência, ela gravou sua primeira música. O *timing* foi assustadoramente perfeito: a faixa viralizou no TikTok da noite para o dia, e então... a pandemia parou o mundo. Bella foi poupada do terror inicial de ter que enfrentar multidões ao vivo logo de cara. Enquanto o mundo estava trancado em casa, ela ficou famosa através das telas. Aro investiu milhões nela; antes mesmo de pisar em seu primeiro palco oficial, ela já tinha milhões de seguidores no Instagram, recordes de ouvintes no Spotify e um exército de fãs adolescentes devotos.

Mas para lidar com aquela adoração maciça quando o mundo finalmente reabriu, a tímida Isabella Swan precisou criar uma armadura. Uma *persona*.

E assim nasceu a Estrela.

A mulher no espelho à sua frente usava lentes de contato azuis sobre os olhos naturalmente castanhos, uma peruca loira impecável e volumosa, saltos agulha e uma quantidade de glitter que a faria brilhar até no escuro. Era uma máscara perfeita, desenhada para proteger a garota introvertida que existia por baixo.

Fora dos palcos, Bella era o extremo oposto. Seu Instagram era a prova irrefutável disso: em meio a centenas de fotos superproduzidas de shows e campanhas publicitárias, dava para contar nos dedos de uma mão as publicações que mostravam a verdadeira Bella, de cara limpa e óculos de grau, lendo no sofá.

Ela não tinha polêmicas. Era blindada. Nesses anos todos de fama estratosférica, a mídia só conseguiu confirmar dois envolvimentos românticos passageiros: um com um fotógrafo australiano e outro com um piloto de Fórmula 1. Ambos terminaram de forma amigável, sem escândalos, esmagados pelo peso da agenda implacável dela.

Bella tinha uma carreira consolidada e uma conta bancária com dígitos que ela nem conseguia processar, mas a solidão... essa aumentava todos os dias, ecoando pelos corredores dos hotéis cinco estrelas.

Ela soltou um suspiro pesado, lembrando-se de uma entrevista recente que havia dado para uma revista famosa. A jornalista, em um momento de descontração, perguntou sobre seus maiores arrependimentos. Bella, baixando a guarda por uma fração de segundo, admitiu que sempre quis ter sido mãe antes dos trinta.

A entrevistadora deu uma risada alta e soltou a frase que agora assombrava a mente de Bella durante as madrugadas:

*"Bom, querida, com essa vida louca, meu conselho é: agarre o primeiro homem decente e responsável que aparecer na sua frente e não solte mais!"*

Bella deu uma risadinha anasalada no camarim vazio, balançando a cabeça. Onde ela iria encontrar um "homem decente e responsável" no meio daquele circo de neon, groupies e lantejoulas?

Duas batidas na porta a trouxeram de volta à realidade. Era Angela, sua assistente pessoal, porto seguro e melhor amiga, com a inseparável prancheta colada ao peito e o rádio comunicador na cintura.

— Cinco minutos para entrar, Bella. A arena está lotada e gritando o seu nome. Pronta?

Bella fechou os olhos. *Inspira. Respira.* Quando os abriu novamente, os olhos azuis falsos brilhavam com uma determinação feroz. A garota da editora recuou para as sombras. A Diva assumiu o controle.

— Nasci pronta, Ang. Vamos quebrar tudo... quer dizer eu não nasci, mas finjo bem.

Angela deu uma gargalhada enorme enquanto Bella tomava o último folego.

....

O palco era o seu reino, mas também era uma fornalha.

Assim que Bella pisou na estrutura principal e os fogos de artifício estouraram sincronizados com a batida do baixo, a garota tímida da editora desapareceu por completo. A Diva assumiu. Por uma hora e meia, ela foi um furacão inesgotável de energia. Ela dominou a Midnight Neon Tour com coreografias complexas, trocas de figurino em trinta segundos e notas altas que faziam as mais de cinquenta mil pessoas no estádio entrarem em delírio.


Ela suava sob a peruca loira e pesada, e as lentes azuis já começavam a incomodar, mas o sorriso em seu rosto era profissional, treinado e brilhante.


Foi então que o ritmo do show mudou. As luzes estroboscópicas e os lasers de neon se apagaram, dando lugar a uma iluminação suave em tons de azul profundo e dourado. Era a hora do set acústico. O momento em que ela podia, finalmente, respirar.


Bella caminhou sozinha pela passarela estendida, segurando seu violão acústico favorito. O público entendeu a deixa, e o mar de gritos se transformou em um silêncio reverente e ansioso. Ela se sentou no banco alto, posicionou o microfone no pedestal e começou a dedilhar os primeiros acordes da sua balada mais famosa, a única música do álbum que ela havia escrito inteiramente sozinha, no tapete de sua sala, muito antes da fama.

A voz dela preencheu o estádio. Limpa, melancólica e real.

Ela estava no meio do refrão, com os olhos fechados, sentindo a música, quando a física resolveu brincar com ela.


Estalo!


O som agudo de aço arrebentando ecoou pelo microfone. A corda Sol do violão havia estourado, chicoteando contra a madeira do instrumento.


Bella não parou de cantar. A regra número um do palco era nunca quebrar a magia. Ela abriu os olhos, deu uma risada leve e charmosa pelo microfone, arrancando um suspiro apaixonado da multidão, e se levantou. Sem perder o compasso ou a afinação, ela caminhou com passos firmes até a borda lateral do palco, na área mais escura, onde sua equipe técnica já estava a postos com o violão reserva.

Ela se abaixou ligeiramente perto da grade da Área VIP para que o roadie pudesse tirar a correia do violão quebrado do seu pescoço. Enquanto esperava, seus olhos varreram a primeira fileira do público por puro reflexo.

Ela esperava ver o de sempre: adolescentes chorando, cartazes de neon piscando, rostos cobertos de glitter e celulares apontados para o seu rosto.

Em vez disso, a visão dela travou.

No meio de um mar caótico de lantejoulas cor-de-rosa e fãs histéricas, havia um homem. E ele era... impossível de ignorar. Não porque estava gritando ou pulando, mas exatamente pelo oposto. Ele parecia uma estátua de mármore esculpida para o silêncio, jogada no meio do apocalipse pop.

Ele era alto, com ombros largos marcados por uma camiseta preta básica de algodão que parecia absurdamente cara. O cabelo acobreado estava perfeitamente alinhado, contrastando com a expressão de quem estava analisando uma cláusula contratual complexa, e não assistindo a um show. Mas o detalhe que quase fez Bella esquecer a letra da música foi o que ele segurava: aquele homem com cara de CEO implacável estava com duas bolsinhas transversais infantis, entupidas de glitter, penduradas passivamente em seus ombros.

Era uma visão tão contraditória, tão absurdamente engraçada e, ao mesmo tempo, tão intensamente masculina, que Bella perdeu o fôlego.

Os olhos dele — de um verde incrivelmente profundo e analítico — encontraram os dela.

Por um milésimo de segundo, a barulheira do estádio sumiu. A barreira entre o palco e a plateia desapareceu. Bella não era mais a estrela loira de olhos azuis; sentiu-se como se ele estivesse enxergando a garota de óculos de grau que lia romances no sofá. Havia algo de seguro, sólido e perigosamente atraente na forma como ele a sustentava no olhar, sem um pingo de adoração cega, apenas uma curiosidade aguda.

A voz da jornalista ecoou na mente dela sem permissão: "Agarre o primeiro homem decente e responsável que aparecer..."

— Prontinho, Bella! — o técnico gritou, colocando o violão novo nela.

O feitiço quebrou. Bella piscou, sentindo o rosto esquentar debaixo da maquiagem pesada. Ela curvou os lábios em um sorriso contido, quase tímido — um sorriso genuíno que não fazia parte da coreografia —, desviou o olhar do homem de preto e correu de volta para o centro do palco.

Ela girou, jogando o cabelo e caminhando de volta para a banda principal, mas sua mente estava tão focada naquele cara que pela primeira ela esqueceu a letra da música.

......

O barulho da multidão ainda vibrava nas paredes do camarim quando Bella entrou, ofegante, com a equipe já pronta para ajudar na troca de roupa ou entregar água. Mas ela ignorou a toalha que ofereceram e foi direto até Angela, que estava com um tablet na mão checando a agenda.

— Ang... — Bella chamou, a voz um pouco falha, mas não pelo cansaço do show. Ela parecia nervosa, mordendo o lábio inferior, um tique que ela só tinha quando estava ansiosa em entrevistas.

— O que foi? Algum problema com o som? — Angela perguntou, preocupada, já pronta para brigar com a equipe técnica.

— Não, o som estava ótimo. É outra coisa. — Bella olhou para os lados para garantir que ninguém mais estava ouvindo e baixou o tom de voz, o rosto levemente corado. — Tem um grupo de meninas... adolescentes. Setor Premium, fila C, cadeiras 12 a 15, mais ou menos. Elas estavam gritando muito, super fãs.

Angela ergueu uma sobrancelha, confusa.

— Certo. Você quer mandar autógrafos? Palhetas?

— Não. Eu quero que você traga elas aqui. Agora. Antes que eles vão embora.

Bella falou rápido, atropelando as palavras.

— Inventa alguma coisa. Fala que é uma promoção relâmpago, "Fãs da Noite", qualquer coisa que pareça oficial. Diz que eu quero tirar fotos com elas.


— Ok... — Angela anotou mentalmente, mas conhecia Bella há anos. Tinha algo a mais ali. Bella nunca pedia para trazer estranhos para o santuário do camarim sem uma triagem enorme antes. — Só as meninas?

Bella desviou o olhar, fingindo arrumar uma mecha solta do cabelo, as bochechas queimando ainda mais.

— Elas estão com um acompanhante. Um homem. Alto, cabelo meio bagunçado, camiseta preta básica, jeans... Ele não parece um pai normal, ele estava... só assistindo. Talvez seja um irmão... ele parece ser jovem.

Angela parou de digitar no tablet e olhou fixamente para a amiga. O queixo dela caiu levemente.

— Espera. Você quer que eu traga as meninas porque quer conhecer o pai?

— Fala que é regra da segurança! — Bella retrucou defensiva, mas sem conseguir encarar Angela. — Menores de idade não podem entrar no backstage desacompanhadas. É protocolo, Angela! Ele tem que vir junto. Se ele não vier, não adianta trazer as meninas.

Angela soltou uma risada incrédula, os olhos arregalados. Em anos de turnê, Bella nunca, jamais, tinha pedido para trazer um homem aleatório da plateia para o camarim. Ela fugia de flertes.

— Meu Deus, Bella. Quem é esse cara? Ele deve ser um deus grego pra você estar me pedindo isso.

— Só... vai logo, por favor? Antes que ele suma na multidão.

Bella pediu, com aquele olhar de "pidona" que ela fazia e que ninguém conseguia negar.

- E pelo amor Deus confirma que ele é maior de idade.

Angela balançou a cabeça, rindo enquanto pegava o rádio comunicador e saía do camarim.

— Pode deixar. Vou capturar o seu príncipe encantado novinho e as meninas. "Protocolo de segurança", entendi.

Continua...