Entre Sonhos e Bloqueios

4 MEME nosso de cada dia


Notas iniciais
AEW!!! o7 Começando as notas avisando que vou responder os comentários, então não se preocupem! É que desenhar e escrever ao mesmo tempo tomam um tempo do caramba e não estou acostumada com isso... OTL Tenham paciência com esta dona lerda que vos fala! :3 Capítulo mais uma vez betado pela Sequestradora da Yoru que só vai liberar o 5 mediante pagamento com brioco... Alguém se candidata pra ficar no meu lugar??? Dx Se me lembro bem escrevi este capítulo escutando Def Leppard - Cry. Amo esta musica... :* Boa sorte com o cap e boa leitura. ^^ Só lembrando para não ler esta coisa ingerindo líquidos, oks! :)

Ah, mas eu já estava ficando maluco por não conseguir escrever o que precisava escrever. Havia conseguido sair do nada, no entanto ainda era um longo caminho a percorrer para terminar o capítulo novo.

No anterior o mocinho levou um tiro na perna após confrontar-se com um dos comparsas do cientista maluco, que, num rompante de fúria, matou seu companheiro de crimes por ter atirado no seu “brinquedinho”, como ele se referia ao agente por vários momentos. Mas, agora, aproveitando-se do desfalecimento do inimigo por causa do ferimento, levou-o, e escondido de todos, para o seu laboratório secreto para a remoção da bala, além de tratar o machucado. Ainda, algemou-o a uma barra de metal em uma sala, onde havia somente um colchão, travesseiro e cobertores para que dormisse.

Quanto o agente acordou, percebeu que não havia janelas, apenas um sistema de ventilação que deixava o local arejado, dando a impressão de estar num local subterrâneo. Quando estava prestes de soltar-se das algemas a porta se abriu e pode vislumbrar a figura do cientista carregando uma bandeja metálica cirúrgica com uma seringa, gazes, faixas e material de limpeza, provavelmente para o seu ferimento.

Eles se encararam intensamente, o agente tentou disfarçar o seu medo, mas, o leve tremor de suas mãos o denunciava, fazendo o sorriso do cientista se alargar ainda mais naquele rosto bonito e intrigante. Ele não tinha a menor ideia do que o outro poderia fazer consigo. Pensou que talvez morrer seria ainda menos aterrorizante do que permanecer sozinho em um local fechado a mercê daquele lunático imprevisível. E quando este mesmo lunático avança em sua direção, eu resolvo ter outro bloqueio sem saber direito o que fazer com estes dois.

Passava das 22 horas e eu estava nessa desde as duas. No meu estado normal, quero dizer, de quando iniciei esta história, não sei se na euforia do novo, mas as palavras fluíam como as águas das cataratas do Niágara em temporada de chuva. Agora elas apenas gotejam como uma torneirinha quebrada de pia de banheiro de boteco na beira da estrada. E isso quando tinha água.

Queria muito voltar para a outra história, mas não podia. E isso estava me deixando extremamente frustrado.

Quando uma ideia me veio a mente. Por que não ligar para o Camus? Afinal de contas, se ele me ligava pra cobrar os capítulos, e com certeza o número dele devia estar na memória do meu celular.

Ou talvez fosse melhor mandar uma mensagem pelo Facebook por estar tarde?

Pois é. Eu o adicionei, apesar de que eu deveria ter feito isso antes de mandar solicitação. Mas, só levou alguns uns dias para ele aceitar, não que ele tenha se comunicado comigo logo de cara, deve ter adicionado por ter reconhecido meu nome. Só sei que pela foto de perfil é que não foi, pois seria impossível associar aquela imagem limpa e sorridente ao lixo que ele encontrou quando apareceu aqui.

Olhei para o celular, ele me encarou de volta. Encarei o relógio na parede e ele me dizia claramente que não era hora de incomodar alguém. O ruivo poderia estar dormindo, ele parecia ser muito certinho para ficar acordado até àquela hora. Deveria ser o tipo que levantava bem cedo, preparava o café, levava o fedelho dele pra escola.

Se bem que ele é divorciado, talvez o garoto nem morasse com ele.

O Ruivo também podia estar com alguém. Era sexta à noite.

Eu mesmo deveria estar com alguém...

— Ahhh, eu poderia realmente estar comendo alguém agora mesmo! – deixo escapar o pensamento num tom alto, e desanimado pouso a cabeça na mesa começando a me sentir insatisfeito com aquela vida.

As vezes estar sozinho era um saco, mas, detestava a folga, a invasão de privacidade, as cobranças, a obrigação de dar satisfações, os desentendimentos por falta de diálogo, logo relacionamentos estavam fora de cogitação, apesar de ter possíveis candidatos interessantes e interessados.

Gosto de ser livre... Mas, pensando bem, também gosto de conversas maliciosas ao pé do ouvido, abraços apertados, beijos demorados, sexo quente. Talvez estivesse, sei lá, na hora de adotar um gato. Não que eu fosse ter relações sexuais com o bichano!

Não poderia estar pensando naquilo agora. Precisava trabalhar, oras!

Levanto a cabeça mirando o laptop a minha frente. Resolvo fechar o Word e abrir o Facebook. Minha caixa de mensagens estava lotada de pessoas que mal conhecia me chamando para uma noitada, coisa que vinha recusando frequentemente, mas, que naquele momento poderia até valer a pena, dado o grau de insatisfação que me encontrava e pensando ser uma boa descontar tudo numa transa revigorante.

Eis que, no meio de todas aquelas mensagens, um nome em especial me chamou a atenção.

Camus Beaufort.

Ele havia mandado uma mensagem justo na semana em que estava ignorando-as. E melhor ainda, encontrava-se online naquele exato momento. Ou pelo menos era o que a barra lateral do chat mostrava.

Nem pensei duas vezes, cliquei na mensagem e esta dizia:

Camus Beaufort: Olá, senhor Vlachos. Perdoe a demora em aceitar sua solicitação. Não havia o reconhecido até prestar atenção no sobrenome. Aproveito a oportunidade para agradecer a atenção com os últimos capítulos de seu conto mandando-os com dias de adiantamento. Muito obrigado pela consideração. Até.”

Bem... não era exatamente o que gostaria de ler considerando o fato do prazo estourar daqui a menos de 24 horas... E agora?!

E eu estava certo ao achar que ele não havia me reconhecido. Estava bem produzido naquela minha selfie. Será que ele me achou bonito? Todos costumam dizer que sou muito gato, não é só a minha mãe não. Mas, o que adianta ele me achar bonito se ele não for no mínimo bi? A verdade é que eu adoraria dar uns pegas nesse aí... Até resisto caras bonitos numa boa, mas aquele ruivo era um escândalo político mundial onde a Rainha da Inglaterra possivelmente estaria de affair com o Ditador Kim Jong-un.

Melhor eu parar logo de dar mole e responder essa mensagem antes que ele fique offline. Mas o que digo?

“Olá, senhor Beaufort.” Comecei a digitar na caixinha de mensagens. “Primeiro de tudo, não me chame de senhor Vlachos. Faz parecer que eu tenho uns 80 anos. Rsrs. Apenas Milo está perfeito. E não precisa agradecer. Na verdade essa é a minha obrigação. Desculpe por lhe dar dores de cabeça com meus atrasos.”

Pensei mais um pouco. Não sabia ao certo se deveria dizer que estava mais uma vez bloqueado e pedir um prazo maior... Afinal ele me ligaria no dia seguinte para cobrar de qualquer forma e, por mais que estivesse afim de ouvir aquela voz deliciosa acariciando meus tímpanos, resolvi que era melhor falar a verdade de uma vez e receber a bronca pelo próprio chat.

“Infelizmente estou passando por mais um bloqueio básico. Rs...” Eu tinha aquela mania de colocar risos em tudo na internet. “Sei que não é caso pra rir, mas, acredite, estou rindo de nervoso. Ainda falta bastante pra terminar o capítulo. Estou tentando há horas, mas não sai.
Será que poderia pegar mais um dia de prazo?”

Relutei em enviar por alguns instantes. Contudo resolvi ligar o “foda-se” novamente e dei enter. Lá se foi o texto, agora não teria mais volta. Sentia-me preparado para tudo.

MENOS para o que se seguiu...

Uma imagem retornou...

E não uma imagem qualquer. Aquilo na imagem era uma... Drag Queen? Uma Drag com cílios postiços enormes, de maquiagem exagerada e uma peruca bufante castanho médio em frente a algumas luzes coloridas, fazendo cara de enfado e com a legenda: “REALLY?”

Verifiquei mais uma vez se havia mandado a mensagem para a pessoa certa e, sim, a caixa de mensagens dizia que era de Camus Beaufort. Ele... ele estava... Mal concluí o pensamento e outra mensagem apareceu. Mais um daqueles memes. Só que desta vez reconheci a celebridade na imagem. Era do RuPaul e atrás um cartaz escrito “Drama”.

Paralisei chocado demais para continuar sequer respirando. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Aquele homem estoico com pinta de realeza estava realmente caçoando da minha pessoa, da minha triste situação? E com memes ainda por cima?

Ah, mas isso não ia ficar assim! Se era uma guerra de memes que ele queria ter comigo, ele iria ter!

Abri uma das minhas milhares de pastas de imagens e achei a que me veio a cabeça para aquela palhaçada. Uma imagem de desenhos animados, mais precisamente do Homem-Aranha sentado num sofá olhando pra câmera com os dizeres: “E a bunda? Quer dar não?” e enviei. Com sorte ele entenderia a minha indireta. Qual não foi a minha surpresa ao ver a foto do grumpy cat dizendo “NO” em letras garrafais?!

Na boa, havia algo de muito errado naquela história toda e eu podia sentir. Meu sexto sentido estava gritando para que eu parasse de disputar uma guerra memeal com o revisor da Sanctuary. Aquilo não poderia acabar bem, mas, depois que eu começava ninguém me segurava e o outro também não ficava para trás.

De repente, o fluxo de imagens parou e fiquei novamente no vácuo imaginando o que teria acontecido, pois aquele Camus Beaufort surtado era uma imagem deveras perturbadora para mim, apesar de eu estar adorando aquela brincadeira.

Minutos depois meu celular tocou. Estava contrariado de sair da frente do laptop esperando uma nova mensagem do ruivo que talvez tivesse ido ao banheiro, aproveitei aquela pausa para atender a ligação. Passava das onze horas, quem poderia ser numa hora dessas? Talvez o Aiolia? Marin? Poderia ser ela pra perguntar sobre o capítulo.

Ao verificar no visor do aparelho, constatei que se tratava de um número sem nome e completamente desconhecido.

– Alô? – Atendi ainda divertido com o que estava acontecendo nas mensagens.

– Senhor Vlachos? Desculpe pelo que aconteceu agora a pouco naquelas mensagens do Facebook. – Aquela voz... Era o ruivo e ele parecia um tanto... nervoso? E sem dar pausa para que eu respondesse, simplesmente me solta a bomba da vez: – Deixei o laptop aberto na minha conta e meu filho se aproveitando disso começou a lhe enviar aquelas imagens de conteúdo vergonhoso.

Pelos Deuses, alguém para o mundo que eu vou cair.

– Tivemos uma discussão mais cedo, mas eu não imaginava que ele tentaria se vingar dessa forma. – Ele continuou mesmo eu estando desprovido de respostas. – Não sabe como estou envergonhado de tê-lo envolvido nisso.

– ‘takeopariu... – sussurrei sem perceber. Na hora, tudo o que me vinha à mente eram as imagens que mandei pro inbox dele. Porque o filho dele, com quatorze anos, enviar aquelas imagens para as pessoas em forma de brincadeira era uma coisa. Agora, eu, do alto dos meus 32 anos, e para uma pessoa que parecia ser tão séria quanto Camus...?!

Eu queria me enterrar vivo naquele momento. Se ele já não tinha uma ideia muito boa a meu respeito, que diabos ele pensaria de agora em diante? Com certeza estava se desculpando pelas atitudes do filho, mas, não ignoraria o fato de eu ter mandado coisas tão idiotas quanto. E algumas piores, pois até aquele minuto não sabia estar falando com um menor de idade, então mandei imagens com dizeres bem insinuantes. Se não fosse a política de uso do Facebook com certeza já teria tacado vários memes pornôs na primeira rodada.

Estava tão mergulhado em meus pensamentos excruciantes que não reparei o silêncio do outro lado da linha. Sei que ele continuou a falar por algum tempo se desculpando, mas, não lembro de nada, simplesmente não prestei a mínima atenção. Estava mortificado, catatônico. Meu cérebro havia dado tela azul e reiniciado. E só depois que fiz logon no planeta terra é que minha resposta veio.

– Eu... eu... – Diabos! Anda logo, fala alguma coisa! Qualquer coisa seu infeliz! – Eu peço... desculpas... – Limpei a garganta brevemente, pois não estava reconhecendo minha voz de tão fraca que ela saia pelo embaraço. – Não fazia ideia de que falava com seu filho... Achei que...

– Que eu respondia com imagens, pois a conta é a minha?! – Ele completou a frase por mim. – Tudo bem, não se preocupe tanto. Foi apenas um mal entendido... Mas acredite, eu não mandaria coisas do tipo para um colega de trabalho.

Podia sentir a reprovação em seu tom de voz, principalmente quando ele frisou a parte de “coisas do tipo”. Olha, sinceramente, pouquíssimas vezes na minha vida fiquei sem saber o que dizer, e, naquele momento, era uma delas para aumentar a coleção. Que baita fora, hein, senhor Milo? Parabéns!

— Você... disse estar bloqueado novamente, certo? — ele mudou de assunto, no entanto ainda mantendo o tom sério.

— Ah, é... Isso mesmo. — voltei a falar, ainda mais constrangido com a situação.

— Pretende continuar escrevendo por hoje? — perguntou e mais uma vez percebi que seu tom estava calmo como no dia em que nos encontramos pela primeira vez.

— Claro! Não vou parar enquanto não terminar este capítulo. — respondi imediatamente receando parecer um fraco que desistia a qualquer instante, mas a verdade é que estava de saco cheio, frustrado pela bola fora da vez e querendo enfiar a cara numa série qualquer da Netflix pra esquecer.

O outro pareceu ponderar por um tempo em silêncio e assim que pareceu tomar uma decisão continuou.

— Você tem Skype? — algo me dizia que não poderia fugir daquela vez.

— Ah... claro. Tenho sim.

— Seria mais cômodo conversar pelo Skype enquanto leio seus textos. — a explicação veio rápida seguida das suas instruções. — Mande o e-mail que usa na sua conta para minha caixa de mensagens do Facebook e me dê alguns minutos para logar.

Cara, eu sei que não deveria estar pensando besteiras, mas, a imagem do ruivo fazendo um strip-tease na frente da câmera do computador invadiu minha mente pervertida de tal forma que não pude deixar de salivar ao dizer que iria ficar esperando. E ele não demorou muito, só que, para minha infelicidade, era apenas uma chamada de voz comum sem vídeo. Eu queria poder vê-lo. Saber o tipo de roupas que usava para ficar em casa, se ele prendia os cabelos para não atrapalhar seus afazeres, ou se continuava tão lindo como eu tinha certeza que era. Que balde de água fria despejado sobre a minha pobre cabeça oca.

— Pode mandar os arquivos agora. — disse e escutei um barulho ao fundo. Som de teclas sendo pressionadas. Ele parecia estar escrevendo enquanto falava comigo.

— Está ocupado com mais alguma coisa? — a curiosidade, como sempre, tomando o meu melhor.

— Resolvendo alguns assuntos pessoais, nada de mais.

Pelo jeito ele não queria se aprofundar no assunto. E como para bom entendedor meia palavra basta, decidi não forçar a barra para não me mostrar muito invasivo. Mas, bem que eu adoraria saber.

Mesmo porque ele podia estar muito bem trocando mensagens com alguma amante, e, convenhamos, com aquele porte altivo e refinado ele poderia de tudo, menos estar sozinho. Isso pra mim seria inconcebível... Ainda, que, preferiria mil vezes estar enganado.

Droga... Acho que começava a ficar um tanto obcecado por esse cara. E isso não era nada bom. Na verdade, era péssimo. Porque se pensar nele várias vezes por dia, ter sonhos molhados, começar um romance onde os personagens eram inspirados em nós dois e ter curiosidade em saber se ele estaria pegando alguém não forem indícios de obsessão, não sei mais o que esta palavra significa.

Não estou acostumado a estar deste lado da moeda. Geralmente são os outros que ficam no meu pé esperando por migalhas da minha atenção ao ponto de já ter conseguido alguns stalkers na vida. E agora me pegava fuçando em seu perfil do Facebook procurando por fotos onde uma certa cabeleira ruiva estaria estampada. Mas, fora o seu avatar, uma foto meia boca que não fazia jus a sua verdadeira aparência, existiam pouquíssimas.

A maioria das quais estavam na timeline de amigos ou parentes. Totalmente ao contrário de mim que era um pouco narcisista, pois o que mais havia na minha conta eram selfies. Principalmente aquelas ridículas depois dos treinos de musculação com alguma frase besta de efeito. Sentia-me até meio bobo por ele ser aquela beldade toda e nem se preocupar de exibir-se onde quer que fosse e tivesse a chance. E sabe, não acho que estaria sendo exagerado ao dizer que queria ter um pôster dele com resolução altíssima na parede no meu quarto. Eu poderia ficar horas admirando aquele rosto, isto estava começando a me assustar, afinal eu mal conhecia o cara.

Se bem que pra sentir atração sexual, no meu caso, conhecer era o de menos. Bastava a aparência do ser me agradar. E a dele não só agradava como estava me deixando frustrado sem saber se dava em cima de uma vez ou ficava na minha.

— Sempre tem problemas quando estes dois personagens estão juntos? – a voz repentina fez com que desse um pulinho de surpresa na cadeira. A viajem mental foi tão intensa que nem reparei quando o som das teclas cessaram. E como ele já havia acabado de ler? Fiquei fora do ar por tanto tempo assim?

— Mais ou menos... – achei minha resposta muito vaga aproveitei para explicar melhor: – Na verdade, no inicio do conto não havia toda essa dificuldade. Eram muitas ideias e possibilidades que foram afunilando a medida que me decidia pelos acontecimentos. Mas, até aí tudo bem. É o processo normal. – dei uma pausa e suspirei, nem assim ele retomou a conversa, apenas esperando por mais detalhes. Talvez fosse a hora de contar sobre algo que realmente me incomodava – Acontece que esta história tem muitos hits no Sanctuary. Muito mais do que qualquer outra que produzi, e por causa disso o Aiolia e os outros organizadores do site me pressionaram para esticar o máximo que eu conseguisse para manter esta popularidade e a fonte está secando, por assim dizer...

Ouvi então um ruído baixo onde ele parecia ter resmungado algo num idioma que não pude entender direito. Pela primeira vez me dei conta de que ele tinha um certo sotaque. Algo longe, mas que fazia sua voz soar ainda mais sexy que qualquer outra.

Ok, hora de nos situarmos. Sou grego, mudei-me para Nova York ainda jovem e conheci Aiolia, também grego, numa época em que estava perdido no colégio por ser estrangeiro. Ele me apresentou várias outras pessoas de outros países, e meu grupo de amigos de repente parecia uma Torre de Babel. Havia italianos, suecos, brasileiros, espanhóis, chineses e tantas outras nacionalidades diferentes que não pude deixar de ficar boquiaberto.

O mundo inteiro parecia se concentrar naquela cidade que não dormia nunca. Por isso escrevo e falo em inglês com quase todos os meus amigos e colegas de trabalho. Com Camus não poderia ser diferente e exatamente por este motivo, o de conviver com vários sotaques distintos, além do meu próprio, nem parei para reparar no daquele ruivo. Algo no meu intimo me dizia que era francês.

Parando para pensar melhor, não é à toa que fiquei tão vidrado naqueles lábios avermelhados de aspecto aveludado e macio. Ele parecia fazer um leve biquinho numa palavrinha aqui e outra ali. Mas, por não ser algo muito carregado era provável que morasse nos Estados Unidos há muitos anos. Talvez até mais do que eu.

— Também pudera a fonte estar secando. – retomou a palavra após alguns momentos de ponderação. – São mais de trinta capítulos, um por semana, mais de sete meses de postagens e ainda assim estão forçando-o a enrolar e enrolar... – ouço um suspiro cansado do outro lado acompanhado de mais batidas rápidas de teclas ao longe. – Por acaso já era para esta história ter um final? – Perguntou sem nem parar de digitar. Pelo jeito ele conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo.

— Era pra ter acabado sim... – foi a minha vez de suspirar com toda a falta de paciência que aquela situação estava me causando. – Já são mais de trezentas mil palavras. Sinceramente não entendo como os leitores não estão de saco cheio. Eu já estou... Quero escrever outras coisas, tenho muitas outras ideias...

— Pensou em reclamar com o Aiolia? – Ah, eu não acredito que ele estava perguntando aquilo pra um escorpiano como eu.

— Quebrei o pau com ele algumas vezes. Simplesmente o cabeça dura não me escuta e de alguma forma consegue me convencer a continua! – Essa era a minha vez de ficar exasperado.

— Conheço bem o Aiolia... Ele convence qualquer um pelo cansaço. Não é a toa que está noivo da minha prima... – Ouvi um estalo de língua impaciente de sua parte logo após dizer algo que me chamou bastante a atenção.

— O quê? Prima? – perguntei aturdido depois de alguns segundos tentando digerir a informação. – Marin, a noiva de Aiolia, é sua prima?

— Sim. – Ele respondeu não parecendo se importar com minha surpresa.

— Marin é minha agente. – retruquei tentando fazê-lo entender aquela ironia do destino.

— Eu sei. – rebateu parecendo ainda bastante desinteressado. – A propósito, foi ela quem me deu seu endereço e pediu para que eu fosse pessoalmente dizer o que achava na sua cara... Estava cansada das minhas reclamações com relação a seus atrasos.

— E você mais do que depressa não perdeu a oportunidade. – soltei sem nem pensar direito.

— Não pensei em aparecer no seu apartamento dando lição de moral de imediato... – Ele pausou um pouco e parecia ter bebido alguma coisa nesse meio tempo pelo som do liquido e o tilintar de gelo contra o possível vidro de um copo. – Acontece que o celular de ALGUÉM estava descarregado e eu precisava urgentemente revisar o texto dessa pessoa em questão.

Ai que soco no meu estômago mental. Era impressão minha ou ele parecia estar ficando nervoso de novo? Não que ele não tivesse razão de me dar uma dura daquelas, mas, nós nem nos conhecíamos direito e já vinha com todo aquele sarcasmo pra cima de mim? E quando me preparei pra deixar bem claro que “comigo não violão” ele retomou a palavra logo em seguida.

— Ah, desculpe-me... – Ok, agora não estava entendendo mais nada. – Estou nervoso, meu filho me tira do sério às vezes.

Fui completamente desarmado pelo seu pedido de desculpas. Agora que reparava mais na sua voz levemente enrouquecida, ele parecia bastante cansado. É, pelo jeito, ter um filho adolescente não era tarefa para qualquer um. Nessas horas eu ajoelhava no altar e agradecia aos céus por ser gay, pois se eu gostasse de mulher teria engravidado uma três na minha juventude inconsequente.

— Ok, está tudo bem. – Aceitei as desculpas e antes que ele pudesse mudar de assunto, mais uma vez minha curiosidade atacava disparada. – Então... seu filho mora com você?

— Resolveu morar nos últimos tempos... – Disse me deixando ainda mais intrigado.

— ... Ele não morava então? – Pressionei. Ah, foda-se minha invasão, queria saber mais sobre ele. – Aconteceu alguma coisa?

Houve-se um pouco de silêncio. Acho que decidia se realmente falava ou não. Ele me parecia mesmo o tipo de pessoa reservada que faria o máximo possível para que soubessem menos ainda sobre sua vida pessoal. Era também o que me parecia pelo seu perfil na rede social.

— Ele apenas não se dá muito bem com o padrasto, porque morre de ciúmes da mãe. – retorquiu depois de algum tempo e voltou a me deixar no vácuo.

Não me dei por vencido, afinal aquela era uma ótima oportunidade para descobrir o que eu tanto queria saber.

— Então... sua ex-esposa atualmente é casada... – precisava urgentemente comprar mais óleo de peroba para dar conta de toda aquela cara-de-pau que eu tinha. – E você? Seguiu em frente? Está com alguém também?

Adoraria receber uma resposta negativa, contudo nem uma positiva veio. Silêncio foi tudo o que obtive com a minha ousadia. Devia ter sido algo tão sem cabimento que até o barulho das teclas parou e nenhum som de movimento conseguia captar por mais que apurasse os ouvidos. E aquilo estava começando a me deixar nervoso, afinal de contas, o que foi que eu fiz? Espantei o cara com todo o meu descaramento, foi isso o que fiz!

Eu tinha de dizer alguma coisa. Sei lá, pedir desculpas, mudar de assunto, ajudá-lo a sair pela tangente, qualquer coisa, mas o problema é que eu ainda queria muito saber. Porém, para o meu completo desgosto tudo o que ouvi foi o barulho discreto do cara limpando a garganta pouco antes de mudar o foco da conversa.

— Mandei uma mensagem para o Aiolia me ligar assim que puder. – desconversou. – Apresentarei a ele todos os contras de se manter uma história sendo esticada para fins lucrativos e o possível estresse que a mesma pode causar a seus autores. Farei um tratamento de choque com ele e com certeza vai deixá-lo livre para terminar o romance do jeito que bem entender.

Nossa... como se não bastasse eu ser um intrometido do caramba, o ruivo ainda ia tentar resolver o meu problema. Olha até que ponto eu desci nessa minha vida?

— Enquanto isso, vamos dar atenção ao que está acontecendo no capítulo agora. – E lá voltamos nós para a relação estritamente profissional, e eu aqui, só na vontade de ter uma sexual com ele. – O cientista está abaixado na frente do agente. Este está sentado no colchão esperando para ver que atitude o outro vai tomar contra si. Está apreensivo e temeroso por sua integridade física, afinal, se a memória não me falha, o doutor tinha fama de fazer seus experimentos absurdos com pessoas desaparecidas...

— Ah, mas isso é um boato no universo da trama. – Tive a necessidade de explicar. Meu personagem era louco, mas nem tanto. – Se bem que, como já vi no fandom, quase todos acham que essa informação é verdadeira.

— Confesso que também achava... – Parecia bastante pensativo. Falava como se estivesse maquinando algo.

— Desculpe o spoiler.

Era impressão minha ou acabava de ouvir uma pequena risada do outro lado? Não podia ser... Eu não acredito que ele riu da minha piadinha completamente infame. E que som delicioso foi esse, pelos Deuses? Soava meio rouco e um tanto grave, com um toque de compostura e acanhamento. Um sopro melódico, aveludado, quente. De alguma forma fiquei todo arrepiado só com aquilo. Alguém me segure para não agarrá-lo virtualmente, pois esse ruivo atingiu um dos meus maiores pontos fracos: risadas gostosas e charmosas. Mas, como diabos a ex aceitou um divórcio e se casou com outro? A mulher deveria ser louca, só pode. Se esse homem fosse meu o colocaria trancado no sótão e a chave não sairia do meu pescoço. E, ai de quem tentasse tocar nela.

— Muito bem, o que você tem em mente desta vez para essa cena? – Ele perguntou voltando ao aspecto sério de antes.

Uma pena. Queria ouvir mais daquela risada sensual, mas, estava na hora de voltar ao trabalho e era quase meia-noite. Logo-logo ele iria me dispensar para voltar a seus afazeres ou dormir. Hmmm... como será que ele dormia? Pijamas? Só de cueca?... pelado?

Não, Milo! Para com isso. Foco! FOCO, desgraça!!

— Olha, sinceramente... – resolvo abrir o verbo com relação àquele impasse de meses a fio: – a meu ver já está passando da hora desses dois se pegarem de jeito, sabe? Rolar sexo, deixar toda essa tensão extravasar de uma vez. – Bom, não via por que me conter ao falar. Afinal ele sabia muito bem que é um romance policial erótico.

— Se o que está lhe impedindo é a opinião do Aiolia, pode ter certeza que amanhã ele vai me ouvir. – ele replicou não parecendo se incomodar com o teor da conversa. – Faça com que eles tenham um momento para liberar pelo menos um pouco dessa tensão.

— Se você diz que o Aiolia vai te ouvir... – Suspirei, sentindo-me de certa forma aliviado. Com isto poderia colocar os dois para terem um pouco mais de ação, que não fosse aquele eterno jogo de gato e rato. – Mas é tanta coisa que passa pela minha cabeça nessas horas... A iniciativa, claro, tem que ser do cientista, mas, ele faria tanta coisa que, nossa, escolher apenas uma fica difícil. – comecei a divagar em voz alta, tentando me colocar no lugar do personagem, eram tantas as possibilidades. – O Cientista pode bem aproveitar o estado de alarme em que o agente se encontra, afinal de contas ele não era o tipo idiota que bancava o valentão para se estrepar com suas atitudes, e usar daquele momento de paralisia para se forçar em cima dele. Ele percebe o quanto é desejado pelo agente, sabe que ele quer tanto quanto ele, só não admite.

E assim abri o word novamente ao mesmo tempo em que delirava em voz alta, sem me dar conta que tinha alguém me ouvindo. Era aquele momento em que entrava em sintonia completa com a trama, deixava-me levar pelo cientista maluco que havia dentro de mim.

Aquele que era mais um de meus alter egos. Uma personagem onde conseguia dar vazão àquele espirito aventureiro insano que carregava no meu intimo. Que estremecia de prazer sempre que descobria algo novo em relação à mente humana, suas manias, seus desejos, especialmente, os mais obscuros. Sabia dos podres de tudo e todos, e usava de seus conhecimentos, ideias, perversões para saciar o animal psicopata que se fazia presente no seu âmago.

Não demorou muito e eu já havia desfiado toda a cena onde o cientista sondava, tocava, provava do agente, mesmo este tentando resistir, mas, se rendendo ao desejo reprimido e saboreando de um sexo oral tórrido e totalmente entregue, gozando abundantemente estimulado pelos lábios do doutor que também se derramava e convulsionava vitima da masturbação ardente a qual se presenteava.

Ao terminar de escrever podia sentir a minha testa toda suada, o coração acelerado. Meu lábio inferior doía de leve por possivelmente tê-lo mordido inúmeras vezes e, para finalizar o estado em que me encontrava, minhas calças estavam me incomodando, e MUITO diga-se de passagem.

Um leve grunhido subiu à minha garganta quando me ajeitei na cadeira inconscientemente tentando aliviar a pressão no meu baixo-ventre e, num estalo da mente, lembrei-me de que eu não estava sozinho. Eu estava sendo ouvido. Deuses, eu estava gemendo.

Eu não sabia se falava alguma coisa, se desligava o Notebook e me enfiava embaixo da mesa, poderia me jogar pela janela do 28º andar do apartamento, pensei também em procurar no E-Bay um desconto por cianureto... ou, ainda, se abria aquela maldita calça e dava um jeito no meu desespero ali mesmo.

Terminantemente eu não consigo pensar direito com uma ereção dolorida me atormentando. Era melhor mandar o capitulo pra ele de uma vez, desligar o laptop, sem despedidas e me conformar com o fato de que agora ele deveria me considerar a pior espécie de pervertido possível.

Subitamente uma musiquinha estranha se fez presente no recinto e com certeza a vermelhidão deve ter sumido do meu rosto dando lugar à palidez de alguém que deveria ter visto um fantasma. Prestei atenção na tela e vi que era do aplicativo. Quando entendi finalmente o que aquilo era, quase caí da cadeira me esborrachando no chão.

Camus estava mandando solicitação de chamada, porque a conexão do Skype havia caído.

Fiz o possível para me recompor, respirei fundo várias vezes, aproveitei pra desabotoar a calça jeans que usava suspirando de alívio pela meia liberdade e atendi a ligação.

— Desculpe, senhor Vlachos, – o ruivo disse de imediato. – estava aqui revisando outros textos e nem me dei conta de que a ligação havia sido cortada.

Quase perdi o chão de alivio. Estava a salvo de um vexame daqueles que só se tem duas vezes a cada encarnação. Deuses, Jesus, Buda, Alah, Jimi Hendrix, MUITO OBRIGADO!

— Está tudo bem. A propósito, acabei o capítulo graças a sua ajuda. – respondi finalmente achando minha voz normal pra isso.

— Sério? – surpreendi-me com o repentino bom humor presente naquela fala. – Finalmente boas notícias.

— Só um minuto e já passo o arquivo. – disse salvando-o pela milésima vez e ainda lembrando de fazer um backup no HD externo. Zippei, como sempre faço, pois alguns programas encrencam com os formatos do word e mandei pelo próprio Skype.

Depois daquilo não demorou muito para nos despedirmos, mesmo porque não estava no meu melhor momento para manter alguma linha de raciocínio correta e decente. Fui para o banheiro, liguei o chuveiro e me aliviei ali mesmo aproveitando para tomar um banho no intuito de cair na cama e ter o sono dos justos. Fazia dias que não dormia direito preocupado com este capítulo e empolgado demais com o novo conto.

Agora estava me sentindo aliviado em todos os sentidos e com o meu bom humor lá em cima.

Quando a manhã finalmente chegou, levantei, fiz minha higiene matinal. Verifiquei que a dispensa e a geladeira não estavam nos seus melhores dias, então peguei as chaves do carro, carteira e quando fui pegar o celular notei que havia um aviso de mensagens piscando sem parar. Resolvendo por dar uma olhada antes de sair quase tive um infarto.

Era uma mensagem do Camus... E esta dizia: “Enviei o texto revisado para o seu e-mail, mas ainda não tive a oportunidade de ler todos os arquivos do seu novo conto. Assim que sobrar um tempo maior prometo examiná-los. Camus Beaufort”.

— Não pode ser... – comecei a me desesperar. Peguei então o laptop, procurei a pasta onde estava o zip que havia mandado para o Camus e senti meu estômago virar de cabeça para baixo.

Salvei o último capítulo na pasta da história nova, e em meio de toda aquela confusão, zippei a pasta inteira e mandei para a revisão!

Ele vai notar que a descrição de um dos personagens do romance bate perfeitamente com a da sua aparência. E vai perceber que É ELE!

— AH, EU QUERO ME MATAR!!!

Notas finais
Será que alguém aí sobreviveu a este novo perrengue do Milo? Oh, my.... E agora?? Como faz??? Dx Só lembrando que essa ideia dos MEMES foi totalmente culpa da Yoru! Se quiserem matar alguém já sabem... :D Pessoal, muito obrigada pelas mensagens e por acompanharem a história! Próximo Capítulo: Mais interação entre esses dois delicias e um Milo que nem sabe direito onde está. Er... vocês vão entender! :3 Estou aqui sofrendo enquanto escrevo o Cap 12... Caramba... Admiro quem escreve, pois sinceramente essa coisa não é fácil... Dx Bom é isso! Bjins e até o próximo! xD