Entre Sonhos e Bloqueios
5 Caindo Pelas tabelas
Notas iniciais

A noite chegava sorrateira naquele dia deprimente. Estava indignado o dia inteiro por ter cometido a gafe de ter mandado todos os capítulos da minha nova e secreta história para o revisor, o qual era a grande inspiração para um dos personagens. Descrevi muito bem este personagem. Bem até demais. O mesmo corte de cabelo, a mesma estatura, tipo físico, ar estoicamente sério, nariz afilado e reto, boca rosada de lábios levemente cheios... e os olhos? DEUSES! Só os olhos avermelhados já eram capazes de entregar tudo!
Eu queria sumir da face da terra.
E era exatamente isso o que eu iria fazer.
Após ler a mensagem do Camus, verificar o arquivo comprimido e quase ter um acidente vascular cerebral de desespero, peguei o carro e fui dirigir um pouco pra esfriar a cabeça. Mas, New York, New York de Sinatra não era exatamente a melhor opção para um passeio a quatro rodas nos últimos anos, pois suas ruas permaneciam sempre lotadas, salvo os dias de nevasca que sofríamos nos invernos que eram o inferno. Apesar do transito, lembrei-me de fazer compras, precisava de mantimentos e o material de limpeza e higiene estava perto do fim.
Mas, nem a chateação destes afazerem conseguiam desvirar meu estômago que contraía de nervoso todas as vezes que lembrava do ato patético do dia anterior. Foi então que passei pelas enormes máquinas de refrigeração, peguei uma pilha de potinhos de sorvete Häagen-Dazs e logo em seguida me dirigi a outra pegando três engradados contendo seis garrafas cada de cervejas Heineken.
Eu ia me embebedar, ganhar uns quilos e pro raio que o parta com o mundo.
Mal havia passado das sete horas da noite e eu já estava me sentindo bem altinho. Tipo nas nuvens mesmo e ria. Ria muito do ocorrido. Não sabia o que estava acontecendo direito, mas, todas as vezes que lembrava da conversa que tive com Camus, do meu desespero gemendo no Skype, do maldito arquivo, e das minhas “retardices” mentais no geral, era atacado daquela vontade louca de gargalhar insanamente. E era isso mesmo o que fazia.
Sentado no chão com as costas escoradas no sofá, seis garrafas de cerveja vazias de um lado, outras cheias na caixa de gelo do outro, e com a sétima aberta na mão ria de mim mesmo a ponto de derramar o liquido gelado na minha calça. Estava pouco me lixando pra tudo isso. Passei a tarde toda tomando sorvete e assistindo Supernatural. Ah, aqueles Winchesters... Como eu queria pegar os dois!
Minha racionalidade estava em porcentagens baixíssimas, fazendo-me ficar completamente relaxado e de bem com a vida. Tranquilo feito um grilo, pacato feito um gato. Os movimentos alterados e os sentidos entorpecidos, mas, reconheci o refrão de “We Are The Champions” do Queen tocando longe na minha mente e desatei a cantar junto bem alto e percebendo que minha fala ainda se mantinha normal. Talvez apenas meu sotaque possuísse uma leve agravação. Nunca consegui perder ele de todo, e bêbado ficava ainda mais forte.
Num segundo de sobriedade atinei para o fato de que aquela música era o toque do meu celular, sobretudo porque ela nunca começaria pelo refrão. Bom, coisa obvia, mas, vamos lá. Coloquei um dos braços no sofá para me apoiar, pois na outra mão eu segurava uma garrafa cheia, fiz força tentando levantar 84 quilos de corpo somados a muito sorvete e sei lá quantos litros de álcool. Fiz um bom trabalho em conseguir sentar no móvel, apesar de ter derrubado várias garrafas vazias no processo.
Sabia que o aparelho estava perto, no entanto identificar ONDE exatamente era a tarefa difícil. Segui o som e pude ver uma luzinha piscando levemente encoberta por uma almofada no mesmo sofá.
— Então é aí que você se escondeu, menino malvado! – tomei o celular em minha mão livre e balancei de leve com um sorriso trocista nos lábios como quem diz: Você não me engana.
Sem mais nem menos parou de berrar e se mexer, comecei a imaginar se por acaso não havia matado o coitado do coração... Mas, espera um pouco... Do que é que estou falando? Celulares não são seres humanos, apesar de que as vezes acho que são até mais inteligentes e... O quê?
Calma... Deixa eu tentar colocar o cérebro no lugar.
Ah, é... demorei a atender. Deve ter caído na caixa postal. Acontece. A pessoa deve ter desistido e eu não me encontrava em muitas condições de ligar de volta. Se tentasse poderia apagar minha agenda por engano, então era melhor deixar pra lá.
Voltei pra minha cerveja tentando imaginar quem seria. Minha sobriedade voltava aos poucos enquanto me concentrava, o que era relativamente bom.
E foi quando o telefone tocou mais uma vez, por estar logo ali do lado atendi bem animado: — Yellow! – ok, além de idiota, me fazendo cair na risada logo em seguida. Eu ainda estava um tanto bêbado.
— ... Senhor Vlachos? – indagou a voz do outro lado depois de alguns segundos de hesitação.
Ao reconhecer aquela voz grossa, que só poderia pertencer a um certo ruivo, o sangue deixou todo o meu rosto e eu deveria agora parecer um fantasma de tão branco. A bendita sobriedade finalmente me atingia feito um raio fazendo com que parasse de rir no mesmo instante e apertasse os olhos tentando mantê-la firme.
Só podia ser brincadeira... Será que o destino não entendia que eu estava cansado de suas ironias? Isso lá era hora de fazer com que o Camus me ligasse? Eu não estava apenas alto naquele momento, eu estava bêbado! Vida, por amor a tudo que é mais sagrado, me dá um desconto!!!
E ao mesmo tempo em que gritava mentalmente, não percebi que deixara o outro no completo mistério do que realmente estava acontecendo com o meu silêncio. Minha cabeça só parou de massacrar a consciência quando o ruivo se fez ouvir novamente.
— O senhor está aí? – ele parecia preocupado – Está tudo bem?
— Ah, sim... tudo bem! – mas é claro que não estava. – E o senhor? Como tem passado?
— Bem... eu... estou bem também... – respondeu ainda meio incerto. Pelo tom da sua voz eu percebia perfeitamente o quanto ele achava tudo aquilo muito esquisito.
— Ótimo. E como está seu filho? – solto para depois me perguntar que raio de diálogo era aquele? Eu não estava falando com meu mais novo amigo de infância.
— Bem também... – demorou um pouco mais para responder dessa vez e permaneceu mudo logo em seguida.
— Er... desculpe o jeito escandaloso de antes. – resolvi tentar arrumar o que já sabia não ter mais conserto. – Achei que fosse outra pessoa...
— Se estiver esperando ligação de outra pessoa posso ligar outra hora e...
— Não! Não estou esperando ninguém! – Fui tão rápido no gatilho que tenho a certeza de que o havia espantado. Não sei o que deu em mim. De repente não queria que ele desligasse. Gostava muito de escutar aquela voz mesmo que esta não estivesse falando putarias no meu ouvido. – Não estou esperando ligações de mais ninguém... Não desliga, por favor...
Acho que soei um tanto manhoso para minha infelicidade e vergonha. Afinal estava naquele estado entre o sóbrio de súbito e o lentamente mergulhado na ebriedade. Uma hora tenso e noutra relaxado, só os Deuses agora sabiam as besteiras que poderia vir a falar.
— O senhor... er... sei que não é de minha conta, mas... – ele relutava até que resolveu falar. – o senhor está embriagado?
Droga... ele percebeu. Bom, o que dizer? A verdade?
Sim, a verdade.
— Só um pouquinho. – Era verdade, que se dane. – Bebi, mas estou sóbrio... ou talvez, no máximo, alegrinho.
— Com certeza alegrinho. – havia uma nota de desaprovação naquela afirmativa, contudo ela não me fazia sentir de todo ruim. – Mas, se você diz que não está bêbado, talvez possamos conversar.
— Sou todo ouvidos. – E mais uma vez meu timbre era manhoso. E lá estava eu relaxando todo esparramado no sofá. O álcool subia e descia no sangue fazendo um calorzinho gostoso principiar nas minhas entranhas, eu estava começando a gostar demais daquela voz. Mais do que deveria.
— Muito bem... – ele disse lentamente parecendo meio desconfiado. Ah, mas, não desconfia de mim não, ruivo... Eu realmente sou todo ouvidos pra você. E se quiser não apenas ouvidos, mas braços, pernas, abdômen sarado, cabelos compridos, um considerável e abastado... – é sobre aquele novo romance que me entregou ontem à noite.
— ...
Fui acertado com violência pela sobriedade outra vez e agora tudo o que eu queria era jogar o celular longe e pular pela janela. Por que não deixei que ele desligasse achando que havia outra pessoa querendo falar comigo? Por que, meu Deus? POR QUÊ?!!
Ok, Milo... Para e respira... Senta, analisa e pensa, senão você vai é sentar na lisa. E apesar de gostar, não vai ser nada bom nesse sentido.
— E-então... – limpo a garganta tentando achar minhas cordas vocais. – Então, você já leu?
— Já sim. – respondeu parecendo ainda normal.
— Tudo-tudo? – não queria acreditar, perguntei mais uma vez na esperança de ser uma piada.
— Todos os arquivos.
Ai, isso não era nada bom. E pelo telefone não dava pra saber como devia ser a expressão que sustentava ao falar daquilo. Seu timbre era sempre blasé demais para dar qualquer pista que fosse. Eu não sabia se ele estava sério de raiva, vergonha, não sabia nada.
— Gostaria de saber se poderia apresentar a história para um conhecido avaliar. Ela parece bem interessante.
O quê? Como assim? Interessante? Ele estava dizendo mesmo que achava interessante? E hã? Mostrar para um conhecido avaliar?
— Ainda está aí? – Ele voltou a me chamar, e até então não havia percebido ter ficado mudo.
— ‘Tá falando sério? – indaguei ainda incrédulo.
— Estou. – Ele respondeu e sua voz parecia de certa forma um pouco animada. Mas, só uma pontada ínfima de animação sobressaia a toda aquela seriedade. – É uma história bem descrita, detalhada, sobre um assunto polêmico e os personagens são de certa forma cativantes. É um universo sério onde se desenvolve um romance perigoso, e ainda dentro das possibilidades de uma vida real.
Não levara uma dura. O que veio foi um elogio de me fazer perder o fôlego. Não estava acreditando no que estava ouvindo, e ele não parou por aí. Descreveu as partes marcantes, deu opiniões importantes e ainda se ofereceu para ajudar a fazer pesquisas sobre o mundo psiquiátrico, se assim eu quisesse. Claro que eu queria! Abraçaria qualquer oportunidade que tivesse para manter um contato maior com aquele ruivo.
— Tenho sua permissão? – Ele perguntou.
— É claro! Se você acha que vale a pena. – Difícil de acreditar, mas, acho que nada conseguiria tirar aquele meu sorriso besta do rosto. Nem mesmo se o prédio inteiro caísse sobre minha cabeça, ou se o mundo se arrasasse em um apocalipse zumbi, ou até mesmo se o Aiolia aparecesse na minha porta dizendo que estava grávido e que o filho era meu.
— A propósito, senhor Vlachos-
— Milo. – O cortei sem nem me importar se aquilo era uma baita falta de educação. E ele se refreou parecendo um tanto hesitante, eu o encorajei uma vez continuando – Fico incomodado de ser chamado de senhor. É sério demais pro meu gosto... Apenas Milo está bom. – Pude sentir que meu tom estava bem manso. Há muito tempo que não sentia minha própria voz de uma maneira tão agradável.
— A propósito... – Ele pausou.
Com certeza se decidindo se aderia ao meu pedido de um tratamento mais informal. Ah, por favor, ruivo... fala logo meu nome. Eu quero tanto ouvir ele saindo da sua boca...
— ... Milo. – ele disse lentamente depois de alguns segundos, o que me levou a morder o meu lábio inferior para não soltar um gemido bem no ouvido dele, não acreditava que estava sentindo fisgadas no meu baixo ventre somente com aquilo. Apesar de que o álcool deveria estar ajudando. – Assim que tiver mais algum capítulo pronto pode mandar para o meu e-mail se quiser.
— Claro! – E uma risadinha sensual escapou de minha garganta sem querer – Pode esperar que mando.
Ele então ditou o e-mail que usava para o trabalho e também outro de uso pessoal. Nos despedimos, mesmo eu relutando em desligar e parar de ouvi-lo, mas, parecia que ele estava ocupado. Disse algo sobre terminar uns textos e acordar cedo pra levar o filho para a casa de um amigo do outro lado da cidade.
Antes de desligar pediu, meio velado, para que eu maneirasse na bebida, pois aquilo acabaria me fazendo mal no futuro. Agradeci a preocupação e esperei com pesar o sinal da linha ser cortado.
Quando isto aconteceu, joguei a cabeça pra trás no encosto do sofá com um sorriso de orelha a orelha. Eu só poderia estar realmente muito bêbado pra ficar daquele jeito bobo e sonhador por causa de algumas palavras positivas sobre o meu romance novo. Eu não ficava assim nem quando algum crítico fodão e aclamado pela mídia me elogiava.
Ah, Deuses, por favor, não façam isso comigo. Eu não posso estar realmente de quatro por aquele ruivo...
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