Entre Sonhos e Bloqueios
2 Desbloqueando... ou não.
Notas iniciais

Espera um pouco... Eu ouvi errado ou o cara que acabou de chegar, de nome Camus Beaufort, que se diz do departamento de revisão da Sanctuary, disse com todas as letras que eu sou o pior profissional que ele já viu na vida?
— Hã...? — Eu estava confuso... Mal o cara havia se apresentado e já me saía com uma daquelas? Mas a confusão durou pouco, pois logo em seguida foi a minha vez de fechar a cara e retrucar. – Escuta aqui! Quem você pensa que é pra...
— Sou a pessoa que tem de lidar com seus atrasos repetitivos e se virar para revisar suas histórias na hora que lhe dá na telha de entregá-las, como se eu não tivesse mais nada para fazer da vida além de esperar unicamente pelos seus textos. – ele continuou sem nem esperar que eu terminasse a minha frase, me fazendo fechar a boca no mesmo instante, ato que foi seguido por um silêncio desconfortável demais à minha pessoa.
Pois ele estava puto... E com razão.
Eu já sabia que alguém deveria se estrepar todas as vezes que eu demorava pra entregar alguma coisa, mas nunca imaginei ter a pessoa que passava aqueles apertos na minha frente, me chamando à responsabilidade daquela forma. Especialmente por achar que aquela pessoa morava do outro lado do mundo. E também... se o Aiolia nunca me deu um esporro naquele sentido, achei que estaria tudo bem...
— O pior é que eu não precisava ter vindo aqui se o senhor, pelo menos, deixasse o celular ligado. – Ele baixou o tom de voz, contudo ainda continuava ameaçador. Acho que ele provavelmente tiraria o meu couro se pudesse.
— Ah... – Havia me lembrado. Eu já ouvi aquela voz antes. Na verdade eu sempre ouvia quando atrasava muito os capítulos. Só não esperava que a figura por trás do som fosse tão... tão... – Ele descarregou... – Concluí voltando a atenção para o assunto da ligação.
Ele apenas arqueou as sobrancelhas de forma exasperada para logo em seguida se acalmar, ficando impassível, e suspirou antes de começar.
— Ao menos o próximo capítulo está pronto? – ele perguntou e eu engoli em seco na mesma hora.
— Bom... sobre o capítulo... – Eu poderia ter inventado uma desculpa qualquer como sempre, mas de alguma forma a presença daquele homem era mais intimidadora do que quando ouvia aquela voz pelo celular. – Eu estou meio bloqueado... no momento.
E mais silêncio, como se meu visitante estivesse digerindo a informação nem um pouco agradável de seu ponto de vista. Posso dizer que do meu também. Ninguém merece estes bloqueios.
Ele olhou para o lado quebrando o contato visual pela primeira vez, como se estivesse avaliando a situação, para logo em seguida suspirar fechando os olhos. De certa forma, agora ele parecia calmo, no entanto aquela linguagem corporal me dizia muito bem o quanto ele pensava pouco sobre mim. O que estava me deixando muito envergonhado... Só que quando ele abriu as pálpebras mais uma vez, e eu me vi mirado por aquelas íris avermelhadas, não esperava que ele fosse dizer algo agradável, mas...
— OK... Não é a primeira vez que lido com um escritor bloqueado... — falou com um certo ar pesaroso. Eu estava começando a me sentir um grande fardo na vida daquele homem que acabara de conhecer pessoalmente. — Deixe-me ver o que escreveu até agora. Quem sabe não posso ajudá-lo.
Continuei parado, olhando para ele como se não tivesse entendido bulhufas do que estava falando.
— E então? — insistiu.
— Ah, claro... — respondi finalmente saindo do transe em que me encontrava. Não sei bem dizer, mas havia algo de hipnótico naqueles olhos amendoados, que me fazia viajar na maionese enquanto olhava fundo neles. Talvez por ser uma cor extremamente exótica para íris humanas. — Entre, por favor!
Ele entrou sem dizer mais nenhuma palavra e o levei até a sala, onde meu laptop repousava no sofá com o descanso de tela alternando entre algumas imagens de uma das minhas pastas... E diabos! Tinha que ser justo uma pasta de animes? Com certeza se fosse uma de imagens pornográficas eu não ficaria tão constrangido.
Enquanto ele congelou no meio do recinto, eu corri até o computador e mexi no mouse para que a tela normal voltasse e, adivinhem..., eu não havia finalizado o programa com a série que estava assistindo. Meu sangue gelou no mesmo instante. Agora sim ele sabia que, na verdade, eu estava procrastinando. Não que não estivesse realmente bloqueado, mas nem tentando mais eu estava.
— Então... Você também assiste essas coisas... — ele disse com ar de quem não se importava em ter pego alguém no pulo do gato.
— O quê? Você também assiste animes? — retruquei arqueando uma sobrancelha.
— Não, mas meu filho assiste bastante.
Juro que não sei de onde tirei que uma pessoa com toda aquela pose poderia sequer assistir um por cento das coisas que eu via, mas em vez de me constranger por tal cogitação, eu me vi perguntando boquiaberto.
— Filho?!!
— Sim. — ele respondeu com simplicidade. — Ele assiste desde pequeno... Fez quatorze esse ano.
Pisquei várias vezes, atordoado. Afinal de contas, quantos anos aquele ser bonitinho e gostosinho tinha? Nem em um milhão de anos aquele cara parecia ser mais velho do que eu. E olha que eu também não aparentava ter a minha idade real quando estava sem a barba.
— Um filho de quatorze anos? Puxa... Qual a sua idade? — no final, minha curiosidade venceu, enquanto pegava o laptop e fazia sinal para que ele me acompanhasse até a mesa da sala e se sentasse.
— Trinta e cinco. — respondeu enquanto se sentava e esperava que eu achasse os arquivos nos quais ele daria uma olhada.
— Teve um filho relativamente jovem para os dias de hoje... — continuei já me sentindo um pouco mais a vontade. O problema era que quando isso acontecia minha curiosidade ficava ainda mais atiçada. — Então... É casado, certo?
O ruivo fez uma expressão intrigada a meu ver, e demorou um pouco para responder.
— Divorciado...
— Hm... — fiquei pensativo. Apesar de no fundo ter ficado mais animado pelo homem deslumbrante a minha frente ser divorciado, também havia um certo pesar na minha mente. Com certeza esse cara era hétero e, sendo assim, não era para o meu bico.
Que pecado.
Finalmente consegui achar meus arquivos e virei o laptop de frente para o ruivo, que prontamente o pegou e começou a ler. Enquanto ele fazia sua leitura, não pude deixar de divagar sobre o quão hétero meu acompanhante poderia ser.
Por quê? Porque eu escrevo romances homoafetivos, oras. Se era realmente esse pedaço de mal caminho que fazia a revisão nos meus textos, com certeza ele também lia as partes mais "calientes" das histórias. Sou bastante descritivo no que meus personagens estão fazendo na hora do sexo. Não tem como alguém ler e continuar se portando normalmente no decorrer das cenas...
Hmmmm... Pensando nisso... Será que ele ficava vermelho enquanto saboreava o texto? Aquela pele branquinha deveria ficar extremamente sexy vermelha de vergonha. Ou melhor ainda. Vermelha de tesão. Será que ele também ficava de pau duro enquanto visualizava a transa em meio as minhas palavras? Será que o suor brotava na sua pele a medida que o teor ficava mais intenso e ele acabava por se tocar com aquilo tudo? Como seria o som dos seus gemidos enquanto ele gozava, se imaginando no lugar de um dos personagens?
"Milo... PARA!" — recriminei-me mentalmente.
Para porque pra coisa ficar feia nas suas calças não custaria nada. Você está praticamente há duas semanas sem dar umazinha sequer. Ficar excitado na frente de um cara que nunca te viu seria a coroação de uma má impressão, o que já pode estar marcada na sua ficha com o senhor Beaufort.
— Entendo... — sua voz máscula e sensual fez com que eu voltasse para o mundo real mais uma vez. — Eles sofrem um acidente no meio da perseguição, em uma estrada deserta, e o Agente leva o Cientista ferido para o galpão abandonado, tratando de seu ferimento na cabeça... — ele pausa analisando os fatos.
— Sim, e está escurecendo. — Completei com o que ainda não havia no texto. — O agente quer ligar para os companheiros, mas seu celular havia sumido no meio do acidente. Ou melhor, ele achou que havia perdido, mas está escondido nas calças do cientista, que só está esperando um momento de distração para pedir pela ajuda de seus comparsas. Ele consegue ligar quando o outro, achando-o completamente nocauteado, vai ao local do acidente procurar. Só que eu não quero deixar isso evidente... Eu quero que ele mostre o celular ao agente para debochar dele assim que o helicóptero o pegar com uma escada de cordas. Daquelas típicas que se vê nos filmes do James Bond. Ele joga o celular no agente quando o helicóptero já está relativamente alto enquanto sua gargalhada ecoa no ar... — o ruivo estava prestando bastante atenção e não dizia uma só palavra esperando que eu terminasse minha narrativa. Assim que foi o meu momento de pausa ele interveio.
— E no que exatamente você está com dificuldades?
— Bem... — voltei meio incerto de como explicaria meu problema. — Acontece que tem que rolar uma certa tensão entre eles... Entende o que eu digo? — e sem querer, acabei piscando para ele de uma forma sensual, que provavelmente parecia cômica devido ao fato de eu não estar nada apresentável.
— Tensão sexual, entendo. — ele voltou os olhos para o laptop, parecendo ignorar completamente a minha falta de charme atual. — Mas o Dr. Maluco, em questão, finge estar desacordado. Onde, diabos, ele está escondendo este celular? Por acaso o agente não o revistou para saber se ele não tinha um?
— Meu agente não iria revistar a cueca dele, né?... — e com um sorrisinho maroto continuei olhando-o divertido. — Por mais que eu esteja tentado a colocá-los se apalpando em certos lugares de uma vez por todas...
— Mas tem de enrolar por enquanto, para que a tensão dos leitores fique cada vez maior... — ele seguiu meu raciocínio.
— A tensão que rola entre eles, por enquanto, é por parte do agente, que está entretido em analisar a beleza do cientista. Ele se sente tentado a tocá-lo, mas se contém o tempo todo. No entanto, essa é a parte fácil de se escrever... — falo pensativo e me perguntando o porquê de não ter digitado aquela parte de uma vez. – O problema é que não sei como vou fazer para o cientista fugir...
Foi então que o rosto alvo pareceu se iluminar por alguns instantes e o ruivo me olhou como se dissesse Eureca!
— Por que você não aproveita que seus leitores estão loucos por uma interação mais próxima entre os dois e faz com que o agente quase beije o cientista, enquanto pensa que o outro está desacordado? — Ele deve ter percebido o tamanho da interrogação na minha cara, afinal de contas, na minha cabeça, se eu fizesse isso Aiolia me matava. Então começou a explicar. — Tente trocar a parte na qual o agente vai procurar um celular por ele tentando beijar o cientista e este percebendo a proximidade consegue tirar-lhe a arma e coloca-a em seu peito dizendo para se afastar.
— Oh! — eu exclamei de imediato. — Assim o agente é rendido e, ficando sob a mira do outro, o observa usar o celular pra chamar ajuda. — empolguei-me com aquelas ideias de uma maneira que há muito não empolgava. — De quebra eles podem acabar conversando enquanto esperam e podem trocar farpas a vontade! Ruivo, você é um gênio! — Eu digo vibrando de animação. — Já faz um tempo que procuro a oportunidade certa para que eles conversem sobre o que é certo e errado! Jogar para o público a noção distorcida de moral de ambos.
No mesmo instante tomei-lhe o laptop e desatei a escrever em uma velocidade que, sinceramente, até eu mesmo estava assustado. O ruivo apenas observava, não pensando em interromper, enquanto meus dedos trabalhavam freneticamente.
Duas horas e meia mais tarde, finalmente o capítulo estava pronto. O revisor da Sanctuary poderia ter ido embora nesse meio tempo, mas preferiu ficar, aceitando apenas um café forte. Vez ou outra parecia receber e mandar mensagens no celular, o que me fez me questionar se talvez alguma mulher o estivesse chamando para sair. Decididamente, seria um completo pecado se esse homem fosse completamente hétero.
— Pronto... — disse me espreguiçando por ter ficado muito tempo na mesma posição. — Acabei de dar os últimos toques.
— Deixe-me ver. — ele pediu e eu quase disse que mostraria qualquer coisa que ele quisesse. Contudo me segurei e virei o laptop mais uma vez em sua direção.
Ele ficou lendo por um bom tempo. Mais do que o necessário, provavelmente aproveitando para revisar. Eu, claro, aproveitei para me perder naquele rosto pálido de traços suaves e ao mesmo tempo másculo, que se apresentava enquanto se concentrava para não deixar que nenhum errinho passasse despercebido. E aqueles olhos de pôr do sol... AH, PELOS DEUSES!!! Estou ficando brega com a idade por acaso?! Tive vontade de me enfiar num buraco com aquele pensamento. Tanto que até bufei contendo o riso.
O ruivo percebeu, mas pelo jeito preferiu ignorar. Acho que ele não era o tipo curioso ou que tinha alguma veia cômica em seu interior.
— Hm! Está muito bom. — ele aprovou. — E revisado. Pronto para ser postado.
— Agora é só esperar pelo horário certo de amanhã... — recostei-me na cadeira completamente satisfeito. – Nossa, nem acredito que consegui a tempo.
E mais uma vez, pela sei lá qual, caímos no silêncio no qual apenas nos observávamos mutuamente... Adoraria saber o que se passava por aquela cabeça ruiva naquele exato momento, mas tenho certeza de que tomaria um soco no meio das fuças se ele sequer imaginasse o que se passava na minha mente com relação a sua pessoa.
— Bom... Então é isso. — falou enquanto se levantava preparando-se para ir embora.
— Ainda é cedo... — Droga! Que diabos eu estava fazendo? — Vamos pedir alguma coisa pra comer. Tenho umas cervejas na geladeira...
— Não, obrigado. — retrucou de imediato. Mas também o que é que eu queria? Que a pessoa a quem ficava empatando a vida no trabalho fosse permanecer de bom grado e socializar com o irresponsável do descabelado aqui? — Meu filho está sozinho em casa...
— Ah... Bem... — fiquei mais sem jeito do que antes. — Desculpe por ter lhe feito se dar ao trabalho de vir até aqui pra me colocar no eixo...
O ruivo apenas acenou positivamente com a cabeça, aceitando minhas desculpas, e assim que me levantei rumamos para a porta, onde nos despedimos com um aperto de mãos... E onde também ganhei um minissermão sobre como minha falta de consideração afetou seu trabalho nesses últimos tempos. Tanto que acabei prometendo que aquela seria a última vez que ele precisaria sair do conforto de sua casa por minha causa. Concordei que realmente precisava tomar jeito. Pude perceber, também, que ele não se segurava quando o assunto era reclamar para colocar tudo em pratos limpos.
Assim que ele foi embora, decidi que iria tentar adiantar os capítulos da história, para não causar tantos problemas. Afinal de contas, eu não queria ganhar mais broncas e se ele tivesse que voltar a aparecer, que fosse pra tomar uma cerveja e conversar... E, talvez, quem sabe uns amassos... Se bem que esta última parte duvido muito que aconteça.
Tudo ia bem nas semanas que se seguiram... Minha história estava indo de vento em popa e eu escrevia como nunca.... Até que... Mais um bloqueio apareceu para me atormentar...
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