Entre Sombras e Segredos
24 📖 capítulo 22 - o chamado da árvore-mãe
O salão permanecia mergulhado em silêncio, apenas o crepitar das velas quebrava a atmosfera densa. Leonardo mantinha os olhos fixos no guardião, sentindo o peso de cada palavra, mas também algo mais sutil: um respeito diferente, quase reverente, que fazia seu coração disparar.
— Então... vocês querem que eu simplesmente acredite que existe um Refúgio que protege a Árvore-Mãe? — murmurou Leonardo, cruzando os braços, o olhar sério, mas a voz traindo a tensão que sentia.
Aurélia inclinou-se para frente, os olhos dourados brilhando com impaciência.
— Leonardo, precisamos entender. Não é hora de duvidar. — Sua mão pousou levemente sobre a dele, e ele percebeu o calor do gesto.
O guardião fixou os olhos em Leonardo com intensidade, como se avaliasse cada pensamento dele.
— Compreender vai além de acreditar, Leonardo. Cada passo em falso pode custar mais do que suas vidas.
Leonardo franziu o cenho, surpreso com a atenção diferenciada.
— Por que você me trata assim? — perguntou baixinho, quase para si mesmo. — Não sou príncipe, nem alguém de importância aparente...
O guardião permaneceu imóvel, os olhos brilhando levemente, como se a resposta pudesse ser perigosa se dita.
— A importância de alguém não se mede pelo título, mas pelo que carrega em seu interior — respondeu, de forma grave e enigmática.
O príncipe, sentado à mesa, tamborilava os dedos com impaciência.
— Compreender como? Onde exatamente fica esse tal Refúgio? — Sua voz misturava curiosidade e um leve toque de desconfiança.
— Não é um lugar comum — explicou o guardião, desviando o olhar brevemente para o príncipe antes de retornar a Leonardo. — O Refúgio está enraizado na essência da natureza. Seus portões não se abrem para qualquer um; é preciso que o coração e a mente estejam alinhados ao chamado da Árvore-Mãe.
Leonardo franziu ainda mais o cenho, tentando decifrar o olhar do guardião.
— Chamado da Árvore-Mãe? Então... a própria natureza escolhe quem pode entrar?
— Exatamente — disse a rainha, a voz firme, mas carregada de serenidade. — O Refúgio se camufla entre árvores e sombras, protegido de olhos curiosos e intenções impuras. Não é apenas um local físico, mas um elo vivo entre planos.
Aurélia respirou fundo, cerrando os punhos levemente.
— Então podemos ir agora? — perguntou, ansiosa, como se já sentisse o peso da missão pulsando em suas veias.
O guardião balançou a cabeça, firme.
— Não. Quem se aproxima sem preparo se perde para sempre entre as raízes e os ventos da Árvore-Mãe. E mais importante: apenas Leonardo será capaz de atravessar o Refúgio. — Sua voz ressoou com firmeza, como se cada palavra fosse lei.
Leonardo apoiou as mãos na mesa, inclinado para frente, a expressão determinada.
— Apenas eu? — murmurou, surpresa e um misto de responsabilidade pesando sobre seus ombros. — Por quê?
O guardião não desviou o olhar.
— Por enquanto, o Refúgio só responderá a você. Sua ligação com ele é única, e qualquer interferência de outros colocaria tudo em risco.
Aurélia apertou a mão dele, os olhos dourados cheios de preocupação.
— Então eu não posso ir com você... — disse, a voz baixa, quase um sussurro.
— Não — disse o guardião, firme, mas sem crueldade. — Você ficará aqui. Observar, aprender, compreender. O Refúgio não permite presença dupla.
Leonardo respirou fundo, sentindo a pressão da responsabilidade e a estranha sensação de ser considerado especial pelo guardião.
— Então é isso... — murmurou, a voz carregada de determinação. — Primeiro preciso aprender a ouvir. Sentir o Refúgio, antes de tentar ir até ele.
O príncipe franziu o cenho, absorvendo as palavras com misto de desconfiança e respeito. A rainha tocou o braço de Leonardo, encorajando-o discretamente, sem dizer nada.
Aurélia deu um passo à frente, a expressão de quem queria avançar imediatamente.
— Mas... ele vai sozinho? — perguntou, o tom traindo preocupação e ansiedade.
— Sim — respondeu o guardião, a voz baixa e grave. — Somente Leonardo atravessará o Refúgio. Cada caminho, cada sombra, cada sopro de vento responderá apenas a ele.
O silêncio tomou o salão, pesado, mas agora carregado de propósito. Leonardo sentiu a pressão da responsabilidade, enquanto Aurélia apertava sua mão discretamente, compartilhando o mesmo misto de medo e determinação.
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