Entre Sombras e Segredos
25 📖 Capítulo 23 - Em Direção ao Refúgio
O salão ainda guardava o silêncio da revelação anterior. As velas, consumidas pela metade, lançavam sombras vacilantes sobre as paredes de pedra. Leonardo permanecia imóvel, o coração batendo rápido demais para que pudesse disfarçar.
Aurélia, inquieta, não suportava o peso do silêncio.
— Então... é isso mesmo? Ele vai sozinho? — sua voz saiu trêmula, os olhos dourados fixos no guardião, como se buscasse uma brecha, uma permissão oculta.
O guardião a observou com calma, mas não respondeu de imediato. Voltou-se para Leonardo, medindo cada expressão dele.
— O caminho já começou a chamá-lo. A Árvore-Mãe não erra.
O príncipe bufou, recostando-se na cadeira com impaciência.
— Isso tudo soa como um teatro... Um garoto comum ser escolhido acima de todos? — estreitou os olhos para Leonardo, o tom ácido escondendo o desconforto. — O que ele tem que nós não temos?
Leonardo baixou os olhos, incomodado.
— Eu também queria saber — murmurou, sentindo a pergunta martelar dentro dele.
A rainha ergueu a mão com serenidade, interrompendo a tensão.
— Às vezes, os dons se escondem até mesmo do próprio portador. Questionar é natural… mas duvidar pode ser perigoso.
Aurélia não conseguiu conter-se e se levantou abruptamente, batendo as mãos na mesa.
— Perigoso é deixá-lo ir sozinho! — exclamou, o rosto ardendo de preocupação. — Ele não está preparado, ninguém estaria!
Leonardo a olhou, surpreso com a intensidade. Um calor estranho percorreu-lhe o peito ao ver o medo estampado no rosto dela.
— Aurélia... — murmurou, com um meio sorriso cansado. — Você sempre fala como se fosse mais teimosa que eu.
Ela suspirou, mordendo os lábios para segurar as palavras que gostaria de gritar.
O guardião enfim ergueu-se, a capa arrastando-se pelo chão como um manto de sombras.
— O tempo não espera. Quando a Árvore chama, o escolhido deve responder. — Ele fitou Leonardo com gravidade. — A despedida deve ser agora.
Leonardo sentiu o estômago revirar.
— Agora...? — perguntou, quase sem voz. — Sem chance de... me preparar?
— Sua preparação foi cada cicatriz, cada perda, cada medo que carregou até aqui — disse o guardião, firme. — O Refúgio não se abre para planos, mas para corações dispostos.
Aurélia aproximou-se, segurando as mãos dele com força.
— Então é isso... você vai. — Engoliu em seco, tentando disfarçar as lágrimas. — Mas prometa que vai voltar.
Leonardo respirou fundo, sentindo a mão dela tremer na sua.
— Eu prometo. — Sua voz soou mais firme do que esperava. — Ainda tenho muito a entender... e não posso fazer isso sem você.
Ela desviou o olhar, incapaz de falar. Ele, num impulso silencioso, inclinou-se para beijar sua testa. Um gesto simples, mas carregado de promessa e afeto, suficiente para selar aquela despedida.
Aurélia fechou os olhos, respirando fundo, como se quisesse gravar aquele momento em sua memória.
— Volta pra mim... — murmurou quase inaudível.
O príncipe desviou o olhar, apertando os punhos em silêncio. Não ousou mais zombar; havia algo no ar que tornava a escolha de Leonardo incontestável.
A rainha levantou-se e pousou a mão sobre o ombro dele.
— Não tema. A Árvore-Mãe não escolhe ao acaso.
No instante seguinte, uma brisa percorreu o salão, apagando metade das velas. As sombras dançaram pelas paredes, e um som suave, como folhas farfalhando, ecoou no ar. Leonardo ergueu os olhos, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Aurélia deu um passo atrás, os lábios entreabertos em espanto.
— Está acontecendo...
No centro do salão, raízes brotaram do chão de pedra, elevando-se em curvas vivas. De delas surgiu uma figura luminosa. A Árvore-Mãe se revelava, não mais apenas uma presença sussurrante, mas em sua forma verdadeira: uma mulher de traços etéreos, o corpo entrelaçado por ramos e folhas cintilantes, o olhar profundo como a noite e a aurora reunidas.
Todos se curvaram instintivamente, exceto Leonardo, que permaneceu atônito.
A voz da Árvore-Mãe ecoou como vento entre galhos:
— Filho da terra, portador do peso e da esperança... chegou o momento de provar teu valor.
Leonardo sentiu as pernas fraquejarem.
— Eu... eu não sei se consigo.
Ela se inclinou, tocando-lhe o peito com a ponta de um ramo que parecia feito de luz.
— A dúvida é a semente da força. O Refúgio te aguarda, mas antes de cruzar seus portões, deverás passar pelas raízes do julgamento.
O guardião deu um passo à frente, inclinando a cabeça.
— Eu o guiarei até lá, como é meu dever.
Leonardo olhou uma última vez para Aurélia. Ela, em lágrimas, sussurrou apenas:
— Volta pra mim...
As palavras ficaram suspensas no ar. Leonardo desejou respondê-las, mas as raízes já se erguiam ao redor dele e do guardião, envolvendo-os numa espiral de luz e sombra.
O salão desapareceu em um piscar de olhos. O último som que Leonardo ouviu foi o farfalhar da Árvore-Mãe, suave e implacável, carregando-o para o lugar onde teria de provar que era digno.
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