Entre Sombras e Segredos
39 📖Capítulo 37: O Uivo da Constelação
A penumbra do quarto era suave, embalada pela respiração ritmada de Leonardo ao seu lado. O calor do beijo que haviam compartilhado ainda parecia vibrar em sua pele, um rastro de vida em meio à incerteza. No entanto, assim que os olhos de Aurélia se fecharam, o conforto do lençol dissolveu-se em um frio cortante e metálico.
Ela não estava mais na cama. Suas botas batiam contra o solo irregular de uma terra calcinada. O ar cheirava a ozônio e cinzas. Aurélia corria, o fôlego escapando em nuvens brancas, enquanto vultos distorcidos — os perseguidores de Kael — cruzavam os céus como fendas na realidade.
Em seus braços, um peso pequeno e vital a obrigava a manter o equilíbrio. Ela baixou o olhar por um breve segundo e sentiu o coração falhar. O bebê, envolto em farrapos de seda, tinha cabelos curiosos, divididos perfeitamente entre o prateado lunar e o preto abissal. Quando a criança abriu os olhos, o vermelho intenso e profundo de Leonardo brilhou neles, observando o caos com uma calma sobrenatural.
— Preciso garantir que você se lembre — sussurrou ela, a voz embargada.
Aurélia sentiu sua própria força vital pulsar para fora, uma luz âmbar que fluiu de seus dedos para a testa do recém-nascido. Ela estava tecendo memórias, selando a verdade de sua linhagem e o destino de seu pai no âmago daquela criança, para que o tempo não pudesse apagá-los.
— Eu protegerei o jovem mestre até que o mestre possa retornar, milady.
A voz sombria veio de seu lado. Grimshadow emergiu das cinzas, sua presença uma âncora de escuridão absoluta em meio ao massacre. O pacto estava selado no sangue e na sombra.
Subitamente, o tempo parou. Os perseguidores congelaram no ar e as cinzas suspensas tornaram-se cristais de luz. O cenário de guerra começou a desbotar, dando lugar a uma vastidão branca e infinita: o Refúgio Celestial.
Diante de Aurélia, surgiu uma figura cuja beleza era tão vasta que chegava a ser dolorosa de contemplar. Elyria, a Entidade Primordial, observava a cena com olhos que continham o nascimento e a morte de galáxias. Aurélia sentiu o peso da maldição em seu próprio sangue reconhecer sua origem.
— O nome dele é Lucian — disse Elyria, sua voz ecoando não nos ouvidos, mas na alma de Aurélia. — Nesta linha do tempo imunda, o destino foi cruel. Muitas coisas ruíram para que este momento chegasse, e no fim, você e Leonardo geraram esta criança que, inevitavelmente, cairia nas mãos de Kael. Nada nesta realidade poderia proteger você ou o menino.
Aurélia tentou falar, mas a presença da Entidade era esmagadora.
— Saiba que não estou aqui por capricho — continuou Elyria, aproximando-se. — Foi a pedido de Ayla que entrei em seu subconsciente. Ela intercedeu para que você visse o que o futuro reserva se as peças continuarem a cair desta forma.
A Entidade estendeu a mão, tocando levemente o rosto de Aurélia, e a visão do bebê Lucian brilhou intensamente antes de começar a desaparecer como fumaça.
— Diga-me, pequena herdeira do meu fardo... você deseja um final feliz para você e para o seu filho?
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