Entre Sombras e Segredos
40 📖Capítulo 38: Espelho Partido do Tempo
A travessia não foi um trajeto, mas uma ruptura. Elyria não caminhou pelo espaço; ela rasgou o tecido da realidade com a precisão de uma lâmina fria. Onde ela emergiu, o ar fedia a ozônio, magia queimada e morte recente.
O cenário era desolador. Ali Estava o corpo de Aurélia. Não a Aurélia que ela viera salvar, mas uma versão que já havia perdido tudo. Os olhos da descendente estavam fixos no nada, congelados em um último momento de terror e desespero puro.
Elyria pairou sobre ela, uma figura de ébano e violeta em meio ao caos cinzento. Ver aquela carcaça era como olhar para um fragmento distorcido de sua própria essência vinda do Refúgio Celestial.
Sua missão ali era um saque sagrado. Estendendo a mão sobre o peito frio da falecida, Elyria começou a puxar. Filamentos de luz prateada e fragmentos de sombra avermelhada serpentearam para fora do corpo de Aurélia, moldando-se na palma da Guardiã.
Eram memórias de dor, lições de batalhas perdidas e o poder latente daquela linhagem de lobo que morrerá com ela. Quando a última centelha foi colhida, o tempo e o espaço curvaram-se novamente e Elyria desapareceu.
No limiar das dimensões, Elyria reapareceu diante da Aurélia deste tempo. A loba estava pálida, sentindo o chamado do sangue ancestral vibrar em agonia.
— Aurélia — a voz de Elyria ressoou como o trovão.
— O que você está prestes a receber é o fardo de uma vida inteira de sofrimento comprimida em segundos. Sua mente pode se quebrar. Você está pronta para carregar o peso de quem você foi em outra vida?
Aurélia cambaleou, mas firmou os pés. Ela levou a mão ao ventre, protegendo o futuro.
Seus olhos brilhavam com uma determinação que transcendia sua espécie.
— Se este é o único jeito de salvar meu filho e garantir que o amanhã exista... eu vou aguentar. Eu sou do seu sangue, não sou? Então eu aguentarei.
Elyria avançou e colocou as mãos em ambos os lados da cabeça de Aurélia. O toque foi como o gelo do vazio.
No Palácio Élfico, a noite foi estraçalhada pelo primeiro grito. Não era um grito humano, nem puramente animal; era o uivo de uma alma sendo rasgada e costurada novamente.
Leonardo acordou num solavanco, o coração martelando. O quarto estava em chamas prateadas e negras. O corpo de Aurélia, deitada na cama, não queimava, mas a atmosfera ao redor dela distorcia.
Seus olhos estavam abertos, mas a esclera e a íris haviam desaparecido, substituídas por abismos de escuridão total que pulsavam com a herança do Refúgio Celestial.
— Aurélia! — Leonardo gritou, tentando se aproximar.
— Não! — Ayla o segurou com uma força surpreendente.
— Se você tocá-la agora, a pressão dimensional vai destruir sua mente, Leonardo!
As portas do quarto se abriram.
O Rei, a Rainha e o Príncipe entraram, paralisados pelo horror da cena. Em pé ao lado da cama, observando tudo, estava a figura de cabelos pretos e olhos violeta com fragmentos avermelhados.
Grimshadow segurava as mãos de Leonardo, mantendo-o ancorado enquanto a energia de Aurélia ameaçava implodir o quarto.
A Rainha dos Elfos, ao reconhecer a entidade, não hesitou. Ela se ajoelhou, sendo seguida imediatamente por todos os presentes em um gesto de respeito absoluto à Guardiã do Sepulcro.
Grimshadow olhou para Ayla.
— O vínculo está completo.
Ayla, com a voz embargada, virou-se para a realeza élfica
para explicar o inexplicável:
— O que vocês veem é uma transferência dimensional. Em outra linha do tempo, Aurélia não existiria mais. A pedido meu, Elyria atravessou o espaço e tempo para salvá-la de um destino de cinzas.
Ela olhou para o corpo de Aurélia, que agora arfava enquanto o fogo negro se dissipava.
— É como um espelho que se reflete, mas que foi partido pelo tempo e pelo espaço. Estamos juntando os cacos para que ela se torne a única defesa capaz de mudar o futuro.
Ela não é apenas uma loba; ela é o eco do Refúgio Celestial voltando para casa.
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