Entre Sombras e Segredos
23 📖 Capítulo 21 - Revelações à Mesa
Leonardo permanecia imóvel, encarando a rainha como se suas palavras fossem um enigma indecifrável.
— O que está acontecendo? —perguntou, a voz carregada de confusão. — Não entendo nada do que a senhora está dizendo...
A rainha o observou com calma, os olhos fixos nele como se buscassem medir sua alma.
— É natural que não entenda, Leonardo. Muitos destes segredos foram guardados por gerações.
O príncipe, inquieto, inclinou-se para a frente na cadeira.
— Segredos? Está querendo dizer que o Refúgio Celestial é real?
Antes que a rainha respondesse, a voz grave do guardião ecoou pela sala, reverberando como trovão distante:
— Real... e muito mais antigo que qualquer reino que vocês conhecem.
O rei franziu o cenho e bateu a mão na mesa, a madeira ressoando.
— Então fale, guardião. Por que se revela diante de nós apenas agora?
O silêncio que se seguiu foi pesado. O guardião ergueu o olhar, e até as velas ao redor tremeluziram diante da força de sua presença.
— Porque o tempo das sombras se aproxima. A Árvore-Mãe já sente os ventos da ruína.
Aurélia, que até então permanecera em silêncio, inclinou a cabeça, a curiosidade brilhando nos olhos dourados.
— Árvore-Mãe? O que é exatamente? Todos falam dela, mas ninguém explica...
A rainha respirou fundo, juntando as mãos sobre a mesa, a voz suave mas carregada de autoridade:
— A Árvore-Mãe é a raiz da criação. Suas ramificações sustentam o equilíbrio entre luz e trevas. Sem ela, o mundo desmorona.
Leonardo bufou, descrente, passando a mão pelo cabelo encharcado de suor.
— Uma árvore sustenta o mundo inteiro? Isso não faz sentido.
O guardião voltou-se para ele, os olhos brilhando com intensidade sobrenatural.
— Para você, jovem, pode não fazer sentido. Mas não é uma árvore comum. É o elo entre planos.
O príncipe estreitou os olhos, mordendo o lábio inferior, tentando compreender.
— E o Refúgio Celestial? Que ligação ele tem com a Árvore-Mãe?
— O Refúgio é o escudo que protege as raízes da Árvore-Mãe — respondeu a rainha, a voz firme. — Um bastião que mantém o equilíbrio.
— E por que só agora ouvimos falar disso? — o rei cruzou os braços, a expressão endurecida. — Por que tantos segredos?
— Não escondi por vontade própria — disse a rainha, desviando o olhar apenas por um instante, como se carregasse um peso invisível. — São juramentos antigos, feitos diante do próprio Refúgio. Eu carrego esse fardo porque assim me foi imposto.
— Ela fala a verdade — disse o guardião, com voz firme. — Os reis recebem poder, mas apenas alguns são dignos de saber sobre o Sepulcro e sua guardiã.
Leonardo engoliu em seco, sentindo um frio percorrer a espinha.
— Guardiã? Quem é ela?
A rainha fechou os olhos por um breve instante, como se a mera menção pesasse em sua mente.
— Isso não pode ser revelado. Ainda não.
Aurélia franziu a testa, aproximando-se ligeiramente.
— Por quê?
— Porque a identidade da guardiã é segredo sagrado — explicou o guardião, a voz baixa e grave. — Se for revelada antes do tempo, o equilíbrio se quebrará.
— Então ao menos diga: qual é o papel dela? — insistiu o príncipe, a curiosidade e a preocupação misturadas no olhar.
— A guardiã do Sepulcro mantém o elo entre a morte e a vida — disse a rainha, a voz firme, mas carregada de reverência. — Protege os portões do Refúgio Celestial para que a corrupção não consuma o mundo.
Leonardo apertou o punho, incapaz de conter a ansiedade.
— E o que isso tem a ver comigo?
— Mais do que imagina, Leonardo — disse a rainha, pousando uma mão sobre a dele, mas sem revelar demais. — Mas a resposta não virá agora.
O rei suspirou, balançando a cabeça, visivelmente irritado com as palavras enigmáticas.
— Está jogando com enigmas outra vez. Não confio em meias palavras.
— Não são meias palavras, são proteções — replicou a rainha, olhando para todos à mesa. — Alguns segredos não podem ser arrancados antes do tempo certo.
Aurélia respirou fundo, tentando manter a calma, a mão tocando discretamente o braço de Leonardo.
— Então pelo menos nos diga como lutar contra o que se aproxima.
O guardião ergueu o queixo, olhando cada um deles como se lesse suas almas.
— Primeiro, vocês devem aprender a ouvir o chamado da Árvore-Mãe. Sem compreender suas raízes, não terão forças para enfrentar o que vem.
Todos na mesa ficaram em silêncio. O peso das palavras pairava no ar, pesado, carregado de promessas e ameaças que ainda não podiam compreender. Leonardo sentiu o coração disparar, os olhos fixos no guardião, enquanto Aurélia apertava sua mão discretamente, compartilhando o mesmo misto de medo e determinação.
— E quanto à guardiã do Sepulcro? — sussurrou Leonardo, quase para si mesmo.
A rainha apenas assentiu levemente, os olhos brilhando com uma mistura de tristeza e esperança.
— Vocês terão tempo para conhecê-la... no momento certo.
O silêncio retornou à mesa, mas agora carregado de uma tensão que nenhum deles esqueceria. Cada olhar, cada respiração parecia ecoar a magnitude dos segredos recém-revelados.
Fale com o autor